Política e Sociedade

Carta a um demo-cristão - hoje petista - sobre um velho "aggiornamento"
Orlando Fedeli


Remexendo velhos papéis, amontoados em uma gaveta esquecida de um velho móvel, encontrei uma carta amarelecida pelo tempo. Abri-a e a reli com prazer renovado. Pois, o que eu criticava num primo demo-cristão, décadas atrás, era ainda bem atual.

Meu primo, Maximiliano Aurélio, hoje não é mais democrata-cristão. Virou petista. Mas urra se é acusado de ser comunista. Condena o stalinismo - também condenado pela mídia - mas mostra compreensão e simpatia pelo marxismo "bem compreendido". Condena o "socialismo real". Mas aprova e defende um vaporoso "socialismo ideal". Isto é, do mundo da Lua.

E continua sendo contra a pena de morte. Acusa a mídia de deformar o povo, levando a maioria a ser favorável à pena capital como reação aos altos índices de criminalidade que alcançamos.

Curiosamente, ele se afirma democrata, e garante que a democracia é o governo do povo. Jura que, no "regime de direito", deve haver liberdade de imprensa, e que o povo é soberano. Mas que, no caso da pena de morte, os deputados não devem fazer a vontade do povo, porque, aí, a mídia deformou o povo, a quem seria preciso "conscientizar"... através de uma mídia nova e bem controlada...

Contradições de um ex-demo-cristão, agora petista.

Reli a carta sorrindo, e resolvi mandá-la para o site da Associação Cultural Montfort.

Evidentemente, os nomes são fictícios. Mas qualquer semelhança com a realidade é pura verdade.

Aí vai, então, minha velha carta, para divertir nossos leitores.

***

Primo Maximiliano,

Recebi sua carta dando continuação à polêmica que tivemos sobre a pena de morte - considerada em tese - na casa da Titia Pacífica.

Sei, sei, não foi polêmica, diz você, foi diálogo.

Mas permita que eu não aceite, por bom senso e por respeito próprio, que tenha sido um diálogo. Por bom senso, porque este me diz que um diálogo em que há troca veemente de argumentos chama-se polêmica, embora isso doa a seu pacifismo e desconforte nossa querida Titia Pacífica.

Por auto-respeito, porque, diálogo, o demo-cristão e o progressista só o mantém com comunistas, anarquistas, hereges, etc. E eu não sou herege, graças a Deus, nem sou da esquerda.

Sou católico, e, por isso mesmo, não sou nem de direita, nem de esquerda, e muito menos do centro. Condeno todos os "direcionamentos" relativistas do liberalismo político. E não aceito os rótulos fabricados pelo relativismo liberal para desqualificar seus oponentes.

Estou vendo você rugir com toda a sua caridade demo-cristã:- "Você é mais do que de direita: é da extrema direita, da extremíssima direita! E fanático!"

E também nisso você, no seu extremismo classificatório, se engana. Engana-se e me calunia.

Você sabe muito bem que sempre fui inimigo do nazismo e do fascismo (que você namorou), assim como do comunismo e do socialismo (que você namora). Mas também sempre me repugnou o extremismo do centro. Esse centrismo extremado, primo Maximiliano, é ambulante, é andarilho, é nômade. Mas só em direção à esquerda...

Veja bem: a democracia-cristã está sempre indo para a esquerda, sem sair do centro.

E como pode ser isso?

Parece-lhe absurdo?

É que a esquerda, meu primo, se desloca continuamente para posições mais revolucionárias, e lá vai o demo-cristão atrás, levando o centro cada vez mais para a esquerda.

Quando a democracia-cristã começou a namorar o socialismo, eu lhe disse que, na verdade, ela queria amasiar-se com o comunismo.

Você jurava, rugindo:- "É falso! Com o comunismo, nuuuunca!". E me repetia seu rugido: "Nuuunca!". (Depois... Depois veio o Cardeal Casarolli...)

E você falava em socialismo cristão. Depois, a democracia-cristã foi-se divorciando do socialismo, por lhe parecer moderado e reformista, para correr atrás do comunismo e do guevarismo ("Hay que endurecerse, sin perder la ternura", me citou você, ainda outro dia, com seu sorriso dentudo e um olhar derretendo-se em ternura socialista...).

O mesmo fenômeno se verifica no campo eclesiástico. O que é um padre progressista moderado? É aquele que defenderá amanhã o que a extrema esquerda radical da Igreja propõe hoje. Sempre em nome do Concílio Vaticano II, é claro.

Perguntará você: "E o que faz o padre centrista ou terceira-força, enquanto isso?" Respondo: Arranja desculpas para justificar as capitulações do centro e sua omissão própria - em nome da prudência...

Assim, o progressista extremado propõe a heresia hoje, o progressista do centro a defenderá amanhã, o conservador-sem-exageros desculpa o centrista, e, depois de amanhã, todos juntos estarão praticando o que o extremista propôs a princípio. É preciso manter a unidade...

Assim marcha o trem da esquerdização na Igreja, puxado pela fumarenta e poluidora locomotiva do progressismo.

Coisa parecida ocorre na política. Porque essas coisas são ligadas, primo Maximiliano, e todo progressista em Religião é esquerdista em política, e vice-versa.

Evidentemente, isso leva à contradição, aprovando-se hoje o que se condenou ontem.

Pressuroso, você acode:- "Não, não é contradição! É 'aggiornamento', é adaptação dos princípios à nova realidade".

Positivamente, isso é estender as reformas de base à lógica e ao dicionário. Desse jeito você, que condena a pena de morte hoje, acabará por defendê-la amanhã, e, se tiver poder, a aplicará depois de amanhã.

Estou até ouvindo o seu:- "Nunca!!! (rugindo como o faria um leão ferido no ponto mais dolorido) Nuuuunca!!! Se eu tivesse poder, aboliria a pena de morte!"

Hummm...Lá tenho minhas apreensões...

Você sabe, primo, na História há paradoxos... Você quer provas atuais disso? Veja a democracia-cristã italiana: ela condenava o divórcio... antes das eleições... Quer outra prova? Hoje se sabe que não há ninguém mais belicoso do que um pacifista que, em nome "de la ternura", pode apoiar até a guerrilha e o terrorismo; assim, não fique espantado se afirmo que seu pensamento evolucionista poderá levá-lo a ser, um dia, no futuro, um feroz Maximiliano... Robespierre.

Quer mais uma prova?

Conheço o caso de um senador demo-cristão de um certo país, que, quando se ia votar a lei do divórcio, ausentou-se do Pretório... Perdão, do plenário, para ir "lavar as mãos"... e não votou. Assim, ele podia continuar a dizer que não fora nem contra, nem a favor. Podia proclamar, nas sacristias que freqüentava, que não dera seu voto a essa lei anti-cristã. E podia garantir a seus amigos socialistas que não se opusera à lei do divórcio. Que não fora contra o divórcio, pois que não votara contra. E que não aprovara o divórcio, pois não lhe dera seu voto, mas que, traiçoeiramente, conhecendo-se sua fidelidade a seus princípios, aproveitaram a hora em que fora lavar as mãos, para colocar o divórcio em votação, e aprová-lo. E outras tantas escusas esfarrapadas. Um verdadeiro monte - de ouro - de covardes desculpas esfarrapadas...

Para esta senatorial omissão pilatesca, só faltara a bacia... Quanto à covardia de Pilatos, esta estivera bem presente na vergonhosa ausência do plenário, na hora da votação...

Quer mais outra prova ainda?

Conheço alguém - que, aliás, você conhece muito, e muito bem - que, sendo deputado suplente, e declarando-se contra o aborto, na hora da votação da lei abortista deu lugar à titular do seu cargo de deputado - porque ela era abortista - para que o nefando crime tivesse um voto a mais. E o aborto foi, então, aprovado por um voto - o voto de Minerva - nesse infeliz país. Voto de Minerva, que deveria ter sido chamado, nesse caso, por seu verdadeiro nome, isto é, voto de Medusa... Contaram-me...

O tal deputado suplente também jurava ser contra o aborto. Também ele urrava: "Nuuunca"! Mas... "na hora H", cedeu o lugar para não contrariar seu partido.

"Fraquezas" de relativistas...

Afinal, num mundo em que há tantas mãos sujas, alguém - pelo menos os que prezam pela higiene - tem que lavar as mãos.

Deus julgue!

E, além disso, em você, caro primo Maximiliano, não há só contradição de pensamento, mas também de prantos: você chora só com o olho esquerdo.

Como?

Lembre-se dos crimes históricos que você cita nas horas de "zelo". Você ataca a Inquisição, as Cruzadas, a repressão ao protestantismo no reinado de Maria Tudor, que você chama de "Maria, a Sangrenta". Mas jamais critica os verdadeiros crimes, as carnificinas feitas pelos inimigos da Igreja.

Por que você nunca fala - e detesta que se fale - dos crimes da Revolução Francesa contra os católicos? Por que você não fala dos crimes e do "paredón" de Fidel Castro, você que é tão contrário à pena de morte?

No "paredón", não se fuzilou "la ternura"?

Repito: você chora só com o olho esquerdo. Seu olho direito é seco.

Ah! Se um dia você tiver poder...

Quem sabe se você for deputado - e contrário à pena de morte, quem sabe se, na hora "H", você não se ausenta da votação para a pena de morte ser aprovada? Sem seu voto!!! Mas com sua omissão...

Para os progressistas, os "excessos" (não foram crimes) da Revolução Francesa foram praticados por alguns extremistas, levados ao desespero pelos aristocratas "que exploravam cruelmente o povo". De modo que a culpa, no fundo, não foi dos revolucionários. Estes representavam a violência segunda, provocada pela violência primeira: a das instituições "desumanas e retrógradas".

Lembra-se como você falava da violência que gera violência, num círculo vicioso?

Lembra-se como, na casa da Titia Pacífica, você dizia isso, fazendo girar seus curtos bracinhos um em torno do outro, e pontificando contra a violência? Você que admite até a guerrilha, e que procura escusar até o terrorismo, dizendo que ele é causado pela violência do "pecado social", pelas "violentas estruturas pecaminosas do capitalismo"... Lembra-se?

Para você, primo Maximiliano, o verdadeiro espírito da Revolução Francesa era o dos moderados, que, certamente, eram contra a pena de morte.

Ora, depois de nossa discussão, lendo, antes de dormir, a "Histoire Parlamentaire de la Révolution Française", de Bouchez et Roux - obra que, como você sabe, traz as atas dos debates nas assembléias revolucionárias - encontrei os discursos pronunciados na Assembléia Nacional, quando discutiu-se a pena de morte. Estão lá, no volume X, páginas 66 a 70.

Sou obrigado a confessar: você tinha razão. Havia revolucionários moderados contrários à pena capital. Devo confessar mais. Fiquei impressionado com a concordância entre os argumentos que você expandiu na casa de Titia Pacífica e os que foram defendidos por um revolucionário na sessão de 30 de maio de 1791. É impressionante! Você e ele pensam do mesmo modo. Um é o eco do outro.

Lembra-se de que você definiu a pena de morte como um "assassínio jurídico"?

Compare o que você disse com esta consideração do tal revolucionário moderado:

"Quando em Atenas chegou a notícia de que cidadãos haviam sido condenados à morte na cidade de Argos, correu-se aos templos e conjuraram-se os deuses a que afastassem dos atenienses pensamentos tão cruéis e tão funestos. Eu venho rogar, não aos deuses, mas aos legisladores, que devem ser os órgãos e os intérpretes das leis eternas que a Divindade ditou aos homens, que apaguem do código dos franceses as leis de sangue que ordenam assassinatos jurídicos, e que repugnam a seus costumes e à sua nova constituição".

Que tal?

Creio que você aprova totalmente, não é?

Note que ele até parece "aggiornato", pois faz alusão a um deus vago e ecumênico, que serve a todas as seitas.

Para ser franco, o começo do discurso me soa um pouco pedante, e ponho muito em dúvida a tal corrida piedosa dos atenienses aos templos...

(Entre parênteses, e falando baixinho, repare como, de manso e de manso, o nosso tribuno promove os deputados da Assembléia revolucionária de 1791 ao nível dos deuses. Pois, se o cavalo de Calígula foi senador romano, por que um deputado jacobino não podia ser deus?)

Mas não posso negar que, no resto, o orador concorda inteiramente com você, até mesmo na tal brumosa e ecumênica divindade...

Prossigamos na citação:

"Assim, aos olhos da verdade e da justiça, essas cenas de morte que ela [a sociedade] ordena com tanto aparato, não são outra coisa senão covardes assassínios, crimes solenes cometidos não por indivíduos, mas por nações inteiras, sob formas legais. Por mais cruéis ou extravagantes que sejam essas leis, não vos espanteis: elas são a obra de alguns tiranos, são as cadeias com que eles oprimem a espécie humana, são as armas com as quais a subjugam: foram escritas com sangue. 'Não é permitido condenar à morte um cidadão romano': essa era a lei feita pelo povo. Mas Sila venceu e disse: 'Todos os que tomaram armas contra mim são dignos de morte'. Otávio e os companheiros de seus crimes confirmaram essa lei".

Ah! Se esse orador tivesse triunfado, outra teria sido a História da Revolução! Hoje você não precisaria fazer proezas para ocultar os crimes, isto é, os "excessos" dos jacobinos.

E veja como esse paladino da liberdade atacava os tiranos, parecendo até você, num daqueles seus arroubos oratórios nas festinhas de aniversário, na casa da titia:

"Sob Tibério, o fato de ter louvado Brutus foi considerado um crime digno de morte. Calígula condenou à morte os que eram tão sacrílegos que se despiam diante da imagem do Imperador. Quando a tirania inventou os crimes de lesa-majestade, que eram ou ações indiferentes ou ações heróicas, quem teria ousado pensar que essas ações mereciam pena mais suave que a morte, sem se tornar também culpado do crime de lesa-majestade?"

O autor do discurso parece-me dar aí um leve escorregão, pois que, atacando a pena de morte, fala de "ações heróicas" praticadas contra os "tiranos".

Que ações heróicas eram essas? Não seriam atentados contra os governantes? Dessa forma, hoje, o nosso tribuno defenderia o terrorismo... Você vê? Ele já está choramingando com o olho esquerdo...

"Quando o fanatismo, nascido da união monstruosa da ignorância e do despotismo, inventou, por sua vez, crimes de lesa-majestade divina; quando ele concebeu, em seu delírio, o projeto de vingar o próprio Deus, não teve que oferecer sangue também à Divindade e colocá-la ao nível dos monstros que se diziam suas imagens?"

Se você não entendeu, traduzo. O fanatismo, de que aí fala o deputado, é o Catolicismo, segundo ele, fruto "da ignorância e do despotismo", que inventou a Inquisição e a pena de morte para vingar a Deus.

Não acredito que você ou qualquer demo-cristão discorde dele na questão da Inquisição, vocês que são tão laicos e tão pouco vingativos... quando se trata de vingar a Deus.

Exatamente como um eco antecipado de sua argumentação, o eloqüente tribuno prosseguiu seu discurso, procurando demonstrar a ineficácia da pena capital na prevenção do crime:

"A pena de morte é necessária, dizem os partidários da antiga e bárbara rotina; sem ela não há freio suficientemente poderoso para o crime. Quem vos disse isso? Calculastes todos os recursos pelos quais as leis penais podem agir sobre a sensibildade humana? Ah! Antes da morte, quantas dores físicas e morais não pode o homem sofrer!

O desejo de viver cede o passo ao orgulho, a mais imperiosa de todas as paixões que dominam o coração do homem [os revolucionários são profundos conhecedores desse ponto...]. A mais terrível de todas as penas para o homem social é o opróbrio, é o esmagador testemunho da execração pública. Quando o legislador pode ferir os cidadãos em tantos lugares sensíveis e de tantas maneiras, como poderia ele considerar-se reduzido a aplicar a pena de morte? As penas não são feitas para atormentar os culpados, mas para prevenir o crime pelo temor de incorrer nelas".

E mais: "A pena de morte é necessária, dizeis. Se é assim, por que vários povos souberam abster-se dela? Por que fatalidade esses povos foram os mais sábios, os mais felizes e os mais livres? Se a pena de morte é a mais própria para prevenir os grandes crimes, é preciso que estes tenham sido mais raros entre os povos que a adotaram e a prodigalizaram. Ora, é exatamente o contrário. Vede o Japão: em nenhum lugar a pena de morte e os suplícios são aplicados tão largamente; em nenhum lugar os crimes são tão freqüentes e tão atrozes [...]. As repúblicas da Grécia, onde as pessoas eram moderadas, onde a pena de morte era ou infinitamente rara ou absolutamente desconhecida, apresentavam mais crimes e menos virtude do que os países governados por leis de sangue?"

Esse argumento também é seu!

Você o externou exatamente igual. "Igualito" - como diria o Chê - não é verdade, primo Maximiliano? Entretanto, esse deputado tão demo-cristão, tão profundo conhecedor da criminalidade no Japão do século XVIII e na Grécia antiga, desconhecia o que se passava em Paris em sua época.

Prove! Dirá você. Já vejo você me urrando: Prove! Prove!

Meu Deus, Maximiliano, sua incredulidade me obriga a citações infindáveis!

Entre 1749 e 1789, durante quarenta anos pois, em Paris, que tinha então cerca de 600 ou 700 mil habitantes, um historiador só encontrou notícia de dois homicídios. Dois. Dois apenas. Não dois mil, dois só. E em quarenta anos! Você não acredita? Esse historiador é Hugues de Montbas, que conta isso nas páginas 221 e 222 de seu livro "La Police Parisienne sous Louis XVI", editado pela Hachette em 1949. Conto o que li. Tenho o livro ainda aqui, em minha estante. Posso emprestá-lo a você. Relata reffero.

E na França do século XVIII, havia a pena de morte! Nossas metrópoles atuais vão batendo sucessivos recordes de criminalidade...

Sei, sei....

Você lá me veio com o tal "colchão social", dizendo-me que se hoje há tantos crimes é porque o povo não tem moradia, emprego, educação, transporte, etc. Como dizem todos os candidatos a cargos eletivos em seus ritornello monótonos e pouco inteligentes.

Mas os Estados Unidos têm um bem macio "colchão social" e, entretanto, a criminalidade, lá, é também muito elevada.

E como o povo não tem educação, se agora existe uma escola em cada bairro, se se empregam os mais modernos métodos freudianos de recuperação dos criminosos - há, dizem, até assistência psicológica nos presídios -, se foram abolidos os castigos corporais, se já não há mais trabalhos forçados, se foi abolida a pena de morte em quase todos os países, etc, etc?

Mas de que vale tudo isso se não há mais fé nem moral?

Um argumento muito aventado contra a pena de morte é o de que pode haver um erro no julgamento e ser executado, então, um inocente. É esse um de seus argumentos prediletos, meu guevaristicamente terno primo Maximiliano. Foi o que lembrou também o deputado que estou citando (Calma! Calma! No final eu lhe digo o nome dele). Assim falava ele, no longínquo e revolucionário ano de 1791:

"Escutai a voz da justiça e da razão, ela vos grita que os julgamentos humanos nunca são suficientemente certos para que a sociedade possa dar a morte a um homem condenado por outros homens sujeitos a erro".

Esse demo-cristão "avant la lettre", como bom discípulo de Rousseau, via na Justiça apenas um meio para recuperar os criminosos, e lembrava que a pena de morte tira do homem "a possibilidade de expiar seu crime pelo arrependimento ou por atos de virtude".

E concluía ele:

"Observou-se que nos países livres, os crimes eram mais raros, e as leis penais mais suaves. Todas as idéias se ligam entre si. Os países livres são aqueles em que os direitos do homem são respeitados, e onde, por conseqüência, as leis são justas. Por toda parte onde as leis ofendem a humanidade por um excesso de rigor, eis uma prova de que, aí, a dignidade humana não é conhecida [Viva! Aí está a marca do demo-cristianismo: a preocupação com a dignidade humana], que a do cidadão não existe: é uma prova de que o legislador não é senão um amo que manda em escravos, e que os castiga impiedosamente segundo sua fantasia. Eu concluo por que a pena de morte seja ab-rogada".

Eu creio, primo Maximiliano, que se você estivesse presente nessa tão interessante sessão parlamentar, aplaudiria, com entusiasmo, tal discurso.

Imagine: ser contra a pena de morte em nome da dignidade humana!

Mas era um precursor!

Era um precursor do demo-cristianismo!

Você me pergunta ansioso:

"Mas quem é? Quem é esse deputado?"

Você não quererá propô-lo post mortem como membro honorário da democracia-cristã?

Ele seria digno - tenho certeza de seu voto nesse sentido - de ser membro honorário da Comissão Justiça e Paz. Ou então de, pelo menos, ter seu nome inscrito em bronze dourado nas paredes da sede da Anistia Internacional.

Pois, sabe você quem é esse orador de idéias tão arejadas, tão modernas, de espírito tão parecido com o seu, e em tantos pontos, que se pode até dizer que foi realmente um precursor do espírito progressista e demo-cristão?

Lá vai o seu nome: Maximiliano Robespierre.

Sim, Robespierre era, assim como você, inimigo da pena de morte!

Ele, que foi o maior responsável pelos crimes do Terror! Ele, o homem que redigiu a Lei dos Suspeitos, que proibiu a defesa dos acusados perante o Tribunal Revolucionário, que dispensou o interrogatório prévio e o depoimento de testemunhas! O homem que fez condenar à morte por simples suspeita, e suspeita apenas de não pensar como ele! O homem que fez o Terror em 1794 discursava contra a pena de morte em 1791, com os mesmos argumentos que você usou outro dia na casa da Titia Pacífica!

"Sila venceu e disse:- 'Todos os que tomaram armas contra mim são dignos de morte'. Otávio e os companheiros de seus crimes confirmaram essa lei".

Assim falava o democrático Robespierre em 1791. Mas, três anos depois, não era preciso ter tomado as armas contra ele para subir no patíbulo da guilhotina: bastava ser suspeito de não querer adorá-lo.

"A pena de morte é um covarde assassínio jurídico".

Assim pensava o manso, o misericordioso Robespierre de 1791.

Depois... Depois, veio o Terror.

Não é esse caso um exemplo muito interessante de evolução do pensamento jurídico de uma pessoa? Essa mudança de 180 graus, em três anos, não é o que você chama de "aggiornamento", isto é, "adaptação dos princípios a uma nova realidade"?

Tal é a lógica dos revolucionários.

Você não estava lá para aplaudir entusiasticamente seu xará, mas houve quem fizesse a claque por você.

Na "História Universal", de J. B. Weiss, vol. XV, página 762, lê-se que outro deputado aplaudiu muito o discurso de Robespierre: foi Marat!

O sanguinário Marat, o louco Marat, que defenderia mais tarde a tese de que, para salvar a França, era preciso matar 260 mil pessoas, inocentes ou culpadas - pouco importava - ele também era, em 1791, contra a pena de morte!

A História tem paradoxos, Maximiliano, e a Revolução Francesa nos dá muitas lições.

Uma que eu aprendi é que se deve desconfiar dos sentimentais que só choram com o olho esquerdo.

De seu primo, para sempre, extremamente refratário e extremamente antiprogressista, mas sempre católico,

In Corde Jesu,

Orlando Fedeli

PS. Já lhe comprei uma bacia...


    Para citar este texto:
"Carta a um demo-cristão - hoje petista - sobre um velho "aggiornamento""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/cartaaumdemo/
Online, 26/04/2017 às 18:31:45h