Política e Sociedade

De Aquiles a Boy George
Orlando Fedeli


Na Antiguidade, os modelos humanos, apresentados como exemplo e regra para os outros homens, refletiam a concepção pagã e naturalista vigente naqueles tempos. Ao lado de qualidades naturais extraordinárias, eles apresentavam defeitos morais muito graves. É o que se vê na figura de Aquiles e nos heróis que serviram de ideal humano para os romanos.

Na Idade Média, os modelos sociais tinham a fé como fundamento de suas virtudes sobrenaturais. Os medievais tomaram, como paradigmas de seu comportamento, ou santos ou grandes heróis históricos. São Luis IX, rei da França, Godofredo de Bouillon, São Bernardo, São Francisco, São Gregório VII, foram alguns dos homens que brilharam no firmamento luminoso dos tempos góticos.

No século XIV iniciou-se a decadência que persiste até hoje. A perda da Fé levou os homens a forjarem modelos cada vez mais imperfeitos, tanto mais passageiros quanto mais falsos.

Assim, no ocaso da Idade Média, apareceu o cavaleiro de lenda, que lutava não por Deus, mas por sua dama. As proezas de uma espada que se movia por um amor humano, e não pela Fé, encheram as páginas das novelas cavalheirescas, mas não as páginas da História. Cessaram as Cruzadas. Não era mais o céu que os homens buscavam força para realizar proezas. O encantamento mágico substituiu o milagre, a superstição tomou o lugar. Foi o tempo de Parsifal, e não o de Simon de Montfort. O tempo do Graal, e não o da Eucaristia.

No Renascimento, a ruptura explícita com a Fé e a volta aos ideais pagãos fizeram retornar o homem ao puro naturalismo. O modelo passou a ser o gênio – como se o dever dos homens fosse ter talento, e não eles serem bons. Era preciso ter “virtù”, isto é, ser grande artista, filósofo, cientista, inventor, como Leonardo ou Leo Batista Alberti. Pouco importava que o homem de “virtù” fosse também um assassino ou um viciado.

Nos séculos seguintes, o modelo foi o cortesão nobre, fino, educado, galante, coberto de plumas e rendas, que dançava graciosamente o minueto, e que esgrimia habilmente o florete em defesa de amores adúlteros. Essas figurinhas de porcelana, delicadas e sem energia, finas e fúteis, foram esmigalhadas pela guilhotina.

Com a Revolução Francesa, entrou na História o titã egoísta, cujas figuras típicas são Napoleão, Goethe e Beethoven, logo sucedido pelo melancólico poeta romântico, sonhador, tuberculosamente tossindo, e ruminando perpetuamente um amor vaporoso, infindo e impossível. O exemplar feminino desse tipo humano era a moça-fada, feita de açúcar e mel. Delicada. Etérea. Eternamente em lágrimas, em seus delírios sentimentais.

O sonho durou pouco. O materialismo triunfante e a deterioração natural desse tipo fizeram triunfar os modelos podres das escolas realistas e naturalistas. Ter êxito na vida, isto é, ficar rico de qualquer forma, ser forte, sensual, tornou-se objetivo de um mundo ateu.

A força passou a ser em si mesma um valor. A força em todas as suas manifestações: econômica, política, física. No fim do século XIX, apareceu o atleta de músculos desenvolvidos e membros ágeis, como novo ideal humano. Logo ele foi superado pelo galã provocador de suspiros e desmaios, que o cinema projetou nas telas e nas almas. Foi o tempo de Rodolfo Valentino, e, no Brasil, o dos suicídios de amores fracassados, tomando guaraná com formicida.

Vieram então as grandes guerras. Delas emergiu a figura do novo triunfador americano. Era o “boy yankee”, jovial, mascador de chicletes, risonho, otimista, superficial, esportivo, e sem filosofia, nutrindo-se de vitaminas e adorando o automóvel e o jazz.

A década de 60 viu nascer do fastio do “american way of life” o novo modelo social: o anti-herói, o anti-modelo. Feio e desalinhado, sujo e revoltado, fazendo questão de manifestar sua inconformidade com as leis sociais e com a etiqueta. Ser anormal e defeituoso passou a ter conotação positiva. Vários desses “modelos” se orgulhavam de suas depravações. Vanglorivam-se por serem toxicômanos ou anormais. São eles uma das causas da difusão desses vícios entre a juventude atual.

Hoje, ao que parece, chegamos ao fundo do abismo. O último modelo tem conotações claramente satânicas. Basta observar as capas dos discos mais em voga, ou os grafites nos muros dos colégios, para confirmar isso. As “gangs” juvenis adotam modas, costumes e nomes significativos: Hell’s Angels, Satanic, Devils, Evil, Possessed, Depravados, Ex-comungados, Malignus, etc. Esses jovens desesperados e drogados, sem norte e sem ideal, cheios de revolta e de ódio, querem a violência pela violência. Aspiram pela morte e pelo inferno. Sob o olhar incrédulo e impotente daqueles que o geraram.

Nem no paganismo se desceu tão fundo.


    Para citar este texto:
"De Aquiles a Boy George"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/politica/aquiles/
Online, 26/09/2017 às 18:46:27h