O Papa

A Vitória Póstuma de Monsenhor Lefebvre
Christian Terras

Publicamos mais um artigo do site francês modernista Golias acerca dos últimos acontecimentos, mais uma vez comentando e criticando o benevolebte gesto do Papa em acolher os bispos lefebvristas.
 

 
Como o Papa Bento XVI cedeu às pressões dos Bispos integristas
ou
A Vitória Póstuma de Monsenhor Lefebvre

 
 
Depois de ter recebido Monsenhor Fellay, Superior da Fraternidade São Pio X, em 19 de Agosto de 2005 em sua residência de verão de Castelgandolfo, depois de ter «relativizado» a tradição do Concílio Vaticano II, em 22 de Dezembro de 2005,  contestando-lhe sua qualidade de «aggiornamento» e de «mudança de rumo» como o qualificara então o Papa João XXIII, ao fazer a sua convocação exatamente há 50 anos atrás, Bento XVI tinha convocado em 13 de Fevereiro de 2006 uma reunião dos Cardeais responsáveis dos diversos «Dicastérios» (ministérios) do Vaticano, a fim de refletir sobre a maneira de abordar a questão do cisma integrista lefevrista (ver Golias n°106). 
 
 
No curso dessa reunião de cúpula, Bento XVI tinha largamente invocado a questão da evolução das relações da Santa Sé com a Fraternidade São Pio X e de considerar, já então, a possibilidade de retirar a excomunhão dos Bispos lefevristas. Lembremos dos escritos do então Cardeal Ratzinger em 1985 :
« Nós devemos tentar tanto quanto for possível tudo em vista de uma reconciliação e, por isso, aproveitar todas as ocasiões», teria ele afirmado, em seu livro «Conversas sobre a Fé», enquanto era Prefeito da Congrégação para a Doutrina da Fé, exatamente a propósito do movimento lefevrista que devia se tornar cismático, três anos mais tarde. O Cardeal Ratzinger, entretanto, tinha declarado que ele não via «nenhum futuro para uma posição de recusa fundamental com relação ao Vaticano II, em si ilógica ». Uma visão das coisas que transparecia perfeitamente no protocolo do acordo de 5 de Maio de 1988 entre a Santa-Sé e a Fraternidade, protocolo redigido pelo … Cardeal Ratzinger e que nós publicamos no final deste texto.
 
Lembremo-nos também que Monsenhor Lefebvre, no último momento, romperá as negociações e não assinará esse documento. Desde então, muita água correu sob as pontes da Roma pontifícia. No outono de 2006, o Papa Ratzinger-Bento XVI ofereceu ao trânsfuga do integrismo lefevrista – Padre Laguérie - um estatuto na medida com seu Instituto (sacerdotal) do Bom Pastor. passando por cima das advertências dos Bispos da França
 
Em Julho de 2007, o Papa publicou seu « Motu proprio » (decisão pessoal) «liberalizando» a Missa em latim, que, de passagem, jamais cessara de ser celebrada.
 
Em Junho de 2008, por intermédio do Cardeal Castrillon Hoyos, encarregado da Comissão «Ecclesia Dei» que controla as relações com os tradiçionalistas, Bento XVI colocou cinco condições aos responsáveis lefevristas para uma reintegração no seio da Igreja. Ora, para «controlar» seus interlocutores, nos cinco pontos enunciados, a adesão ao Concílio Vaticano II não era  explicitamente pedida. São exigidos «evitar toda intervenção pública que não respeitasse a pessoa do Santo Padre e que seria negativa para a caridade ecclesial, como também «evitar a pretensão de exercer um magistério Superior ao do Santo Padre e não propor à Fraternidade como um magistério paralelo ao da Igreja ».
 
Nós insistimos sobre este ponto capital, não era pois explicitamente pedido aos Bispos integristas que reconhecessem o último Concílio e a validade da Missa segundo o rito doravante ordinário da Igreja.
 
Roma tinha apresentado então este gesto como uma proposta de «retorno à comunhão». Os Lefevristes recusarão esta « mão extendida». O Vaticano tinha cometido o erro de fazer suas propostas por ocasião do 20 aniversário do cisma. Não era questão então para a Fraternidade São Pio X de aceitar um tal acordo em fidelidade à  memória de Monsenhor Lefebvre. 
 
As pontes não foram totalmente cortadas. Assim, as negociações foram retomadas, e no início do outono de 2008, Monsenhor Fellay, o chefe da Fraternidade, pedia a seus fiéis que rezassem 1 milhão de terços até o Natal para apoiar seus esforços.
 
No dia 13 de Novembro de 2008, nós anuncimos em Golias Hebdo n°54,  que o levantamento das excomunhões dos Bispos integristas era eminente. Isso foi feito no dia 21 de Janeiro de 2009 pelo decreto assinado pelo Papa e pelo Cardeal Re, Prefeito da Congregação para os Bispos. Um decreto que esse Prelado assinará a contra gosto e que lhe valerá proximamente sua «substituição»…
 
Ora, é preciso constatar que nesse documento de 21 de Janeiro levantando a excomunhão, os termos a partir dos quais o Cardeal Ratzinger - patrono da ortodoxia romana sob João Paulo II considerava, em 1985 e 1988, um acordo com os Lefebvristes; estes termos agora desapareceram completamente. Com efeito, somente é pedido aos Bispos  integristas reconhecer o primado da Sé de Pedro.
 
Quanto às questões teológicas e doutrinárias de fundo, elas são relegadas aos acessores litúrgicos sob a forma de futuras «conversações» ; conversações sobre as quais pesa o vago o mais completo. Nenhum arrependimento é pedido aos Bispos integristas, nenhuma palavra pelos insultos e pelos processos  inquisitoriais que eles não cessaram de fazer contra os Padres, os Bispos e os leigos que deram sua vida para realizar as reformas do Vaticano II. Pelo contrário, uma postura arrogante e altiva, como o deixa transpirar o comunicado de Monsenhor Fellay de 24 de Janeiro, comunicado no qual ele dirá o que é preciso entender como verdadeira Fé católica.
 
Inscrevendo um cisma no coração da Igreja Católica, o Papa Bento XVI tomou uma pesada responsabilidade sobre si: a de querer resolver um cisma integrista provocando um outro cisma.
 
Este novo cisma não se apresentará em palco, nem praticará o lobby incrível que os integristas não cessaram de fazer junto ao Vaticano há 20 ans já para chegar a seu objetivo. Este cisma crescente será o dos membros do Povo de Deus, que, saindo na ponta dos pés, sem fazer barulho, sem espalhafato, esvaziarão por última vez a Igreja de sua substância a mais evangélica a mais missionária, não mais se reconhecendo numa Ecclesia que, para « salvar » menos de 100.000 pessoas de um cisma integrista, perderá nos próximos meses 10  a 20 vezes mais…
 
Esta decisão constitui um ponto de não retorno na confiança que alguns mantinham ainda nos  responsáveis pela Igreja. Nesse sentido Bento XVI cedendo às pressões dos integristas, compromete doravante a Igreja Católica num caminho de divisão. Com efeito, a vontade do Papa de favorecer a unidade no seio da Igreja Católica, que se pode considerar legítima em si, apoia-se sobre bases de tal modo falseadas que elas não podem senão provocar  novos dilaceramentos: dilaceramentos muito maiores e escancarados que os que ele quer justamente reparar. Nesse caso, a decisão do Papa de levantar a excomunhão dos Lefevristes é, antes de tudo, uma vitória póstuma de Monsenhor Lefebvre.
 
 
 
 

 
Documento
 
Protocolo do acordo de 5 de Maio de 1988 entre a Santa-Sé e a Fraternidade Sacerdotal São-Pio X (depois rompido por Monsenhor Lefebvre)
 
Extratos do protocolo de acordo estabelecido no curso da reunão tida em Roma em 4 de Maio de 1988 entre o Cardeal Joseph Ratzinger e Monsenhor Marcel Lefebvre, e assinado pelos dois Prelados em 5 de Maio de 1988. Monsenhor Lefebvre rompeu-o antes que ele realizasse, em 30 de Junho de 1988, as sagrações episcopais, sem mandato pontifício, e contra a vonade do Santo Padre. Vinte anos depois, volta-se à situação inicial.
 
I - Texto da declaração doutrinária: Eu, Marcel Lefebvre, Arcebispo-Bispo Emérito de Tulle, assim como todos os membros da Fraternidade Sacerdotal São-Pio X por mim fundada:
1] Nós prometemos ser sempre fiéis à Igreja Católica e ao Pontífice Romano, seu pastor supremo, vigário de Cristo, sucessor do Bem aventurado Pedro em seu primado e chefe do corpo dos Bispos.
2] Nós declaramos aceitar a doutrina contida  no n° 25 da Constituição dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano Il sobre o Magistério eclesiástico e dar-lhe a adesão que lhe é devida.
3] À propósito de certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano Il ou concernentes às reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição, Nós nos comprometemos  a ter uma atitude positiva de estudo e de comunicação com a Sé Apostólica, evitando toda polêmica.
4] Nós declaramos, além disso, reconhecer a valididade do Sacrifício da Missa e dos sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que faz a Igreja e conforme os ritos indicados nas edições típicas do missal romano e dos rituais dos sacramentos promulgados pelos Papas Paulo VI e João Paulo II.
5] Enfim, Nós prometemos respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiasticas, especialmente aquelas contidas no Código de Direito Canônico promulgado pelo Papa João Paulo ll, permanecendo salva a disciplina especial concedida à Fraternidade por uma lei particular. [...]

[Tradução: Montfort. Texto original em francês no site Golias]


    Para citar este texto:
"A Vitória Póstuma de Monsenhor Lefebvre"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/vitoria-postuma-lefrebve/
Online, 24/05/2017 às 16:29:11h