O Papa

Um longo, curto Conclave?
Alberto Zucchi
   

Normalmente a sucessão de um Papa pode ser dividida em três grandes fases.

A primeira quando começam aparecer às notícias ou indícios que a saúde do papa não anda bem, de tal forma que a vida dele esteja sob ameaça.  Nessa situação inicial aqueles que pretendem suceder o Papa ou influenciar na sua escolha começam a agir de maneira discreta. Entretanto, demonstrar grande interesse em suceder o Papa nesta fase pode ser fatal a uma pretensão, uma vez que pode ser sinal de uma grande ambição.

A primeira fase será tanto mais demorada, quanto as condições de saúde do papa se mantiverem graves. Caso as previsões da morte do papa não se confirmem, o processo de sucessão termina. Mas se Nosso Senhor chama o seu vigário para a prestação de contas de seu governo, inicia-se uma nova fase.

Longos períodos de uma enfermidade papal favorecerão os candidatos que tem capacidade de articulação política e que, devido a sua posição, normalmente próxima ao centro das decisões, terão tempo para as manobras que favorecerão suas pretensões.

A segunda fase se inicia com a confirmação do falecimento do Papa. É oficialmente nesse momento que começa o processo de sucessão. Esta é uma das vantagens do governo monárquico da Igreja sobre as democracias liberais. A sucessão se inicia apenas, realmente, com a morte do papa enquanto nas repúblicas a escolha do sucessor se inicia imediatamente após a eleição do presidente ou do primeiro ministro.

Ente o falecimento do papa e o início do Conclave, alguns cardeais procuram avaliar suas reais possibilidades e promover os candidatos de sua escolha. Outros procuram obter informações que orientem sua escolha, tendo como objetivo em princípio o bem da Igreja, embora na realidade pareça que o critério, muitas vezes, não seja este.

É natural que, neste momento, aqueles que se encontrem mais longe da Cúria procurem conhecer com detalhes como foi o reinado do último Papa. Quais foram os problemas enfrentados? O que deu certo? O que deu errado? Quem eram de fato os principais aliados do Papa? Quem foram seus inimigos fora e dentro da Igreja?  -  que Deus nos perdoe se fazemos juízo temerário imaginando que possa haver no clero inimigos do Papa! Quais os problemas que precisam ser resolvidos com urgência? Qual a situação financeira do Vaticano? Que escândalos podem surgir de um momento para o outro?

Tudo isto começa a ser tratado, se não abertamente entre os cardeais, ao menos de uma forma mais direta, uma vez que agora, ao contrário da primeira fase, não se importar com a sucessão é sinal de desinteresse pelos assuntos da Igreja.

A terceira se inicia com o Conclave. Apesar de os cardeais se comprometerem a não divulgar o que ocorre durante uma eleição, não se sabe direito através de que processo de comunicação, as notícias acabam “vazando”. O que se sabe é que o jogo da sucessão, para não dizer a luta, fica aberto entre os vários partidos e atores que participam do conclave.

Vejamos o exemplo da eleição de João Paulo II. Quem conta como ocorreu esta eleição são Carl Bernstein e Marco Politi  no livro “Sua Santidade”.  Bernstein desvendou a história do caso Watergate, que terminou por provocar a renúncia do presidente amaericano Richard Nixon. Politi é um conhecido vaticanista.

O conclave de João Paulo II ocorreu em um momento inesperado. A morte de João Paulo I foi súbita e, assim, não houve uma primeira fase preparatória. O resultado foi que os partidos existentes pareceram estar desarticulados.

Antes do início da eleição, era consenso que o próximo papa continuaria sendo um italiano. Os candidatos eram o cardeal Siri, considerado conservador e contrário às reformas do Vaticano II, a ponto de ser apoiado até por Dom Lefebvre, e o cardeal Benelli, representante da ala progressista. O conclave foi muito disputado, com o “sobe e desce” de vários candidatos.

O cardeal Siri não foi eleito, devido a uma entrevista concedida a um jornalista italiano, amigo seu. Segundo o combinado com o jornalista, a entrevista somente seria publicada após o início do conclave, quando os cardeais não teriam mais acesso a ela. Na entrevista, Siri fazia críticas contundentes ao Vaticano II.  Entretanto, na véspera da eleição, cópia da entrevista foi entregue a todos os cardeais. Que pena o Cardeal Siri confiar em jornalistas, especialmente os amigos...

Atribui-se a cilada ao Cardeal Benelli.

Acabou sendo eleito o Cardeal Woytila. O Papa que destruiria o comunismo.

E quem foram os seus grandes eleitores, ou seja, as pessoas que trabalharam pela sua eleição?

O principal foi o Cardeal Köning de Viena. Um Cardeal favorável ao dialogo e a coexistência pacífica com os comunistas. Um inimigo do Cardeal Mindszenty. Um grande defensor da “Ospolitik” do Vaticano. E um dos principais responsáveis pela ausência de qualquer condenação ao comunismo no Vaticano II.

O outro grande eleitor, bem menos importante, mas que atuou junto aos cardeais do chamado terceiro mundo a favor de Woytila,  foi o cardeal de Fortaleza, Dom Aloisio Lorscheider. Segundo os autores do livro o cardeal era:

“um inimigo de todos os ditadores [não comunistas], um defensor do clero mais liberal, e protetor das “comunidades de base” esquerdistas inspiradas pela nova teologia da libertação, eivada de marxismo”.

Ora, João Paulo II iria marcar seu pontificado com a condenação da Teologia da Libertação e a determinação de que Leonardo Boff ficasse em silêncio.  Dom Aloisio foi a Roma interceder por Boff, mas graças a Deus, João Paulo II não considerou que a gratidão exigisse a absolvição do herege.

 Na realidade, entretanto, o livro insinua que a preparação do conclave começou muito antes da eleição de João Paulo II, que ocorreu no dia 16 de outubro de 1978.

Em 1974, entrou em contato com o então Cardeal de Cracovia uma professora polonesa, que vivia nos Estados Unidos, de nome Anna-Teresa Tymieniecka, expoente mundial no estudo da fenomenologia, casada com o professor Hendrik S. Houthakker, das universidades de Stanford e Harvard, e antigo assessor de Nixon.

Tymieniecka, com o intuito de realizar uma atualização filosófica na linha da fenomenologia,  e uma tradução para o inglês  do livro A Pessoa Atuante, escrito pelo cardeal e até então publicado exclusivamente na língua polonesa,   promoveu viagens de João Paulo II ao Estados Unidos. Comentam os autores do livro:

“Ela o promoveu, ajudou a planejar sua primeira viajem longa aos Estados Unidos e conseguiu que Harvard o convidasse a pronunciar sua primeira conferência nos Estados Unidos. Trabalhando com o delegado apostólico em Washington, ela conseguiu marcar palestras suas na capital do país. Obteve para ele um convite para tomar chá com o presidente Gerald Ford na Casa Branca (o cardeal teve que recusar devido a um conflito de programação) e inundou a mídia com comunicados de imprensa anunciando a visita aos Estados Unidos do destacado cardeal polonês que alguns europeus estavam dizendo que poderia concorrer ao papado”.

Na eleição de João Paulo II o Cardeal Ratzinger esteve presente. Apesar de discreto, ao que tudo indica, ele foi  muito atuante.  Trata-se, portanto, de alguém com grande experiência em conclaves.

Todo o processo eleitoral descrito até aqui precisa ser revisto, no entanto, se o Papa estiver vivo, ou seja, se ele tiver estabelecido uma data para a sua renuncia. Em alguns pontos ele será parecido com a morte súbita de um papa, pois o conclave se inicia sem uma preparação prévia. Em outros pontos será diferente, uma vez que o Papa que renunciou está vivo.

O Conclave então se inicia com o anuncio do Papa de que irá renunciar.

Nessa situação, que é a atual, os cardeais foram pegos de surpresa e é bem possível que não tenham tempo para as articulações prévias da primeira fase.

Todos sabiam que a saúde do papa não o impedia de governar. Em Roma, comentava-se que o papa teria mais cinco anos de vida. Antes da renuncia nem um dia de cama, nem um compromisso adiado. Houve uma operação, tão comum em nossos dias, que segundo os médicos, não impediria o Papa de exercer suas atividades. Após o aviso da renuncia, os compromissos são mantidos. Houve ainda um discurso de improviso para o clero de Roma que durou mais de quarentas minutos.

Quem esteve na última audiência pública de João Paulo II será capaz de jurar que  Bento XVI reúne todas as condições de saúde para governar. A não ser que exista a ele uma tal oposição, que torne a saúde de um homem de 85 anos insuficiente para continuar o governo da Igreja.  Como disse o cardeal Sodano, foi um raio em céu azul.

Assim, a renúncia de Bento XVI eliminou a primeira fase do conclave. Aqueles que pretendiam realizar suas articulações políticas não puderam fazê-lo. Exceto alguém que soubesse previamente que o Papa iria renunciar mas, ao que tudo indica, o único cardeal que sabia deste fato era o cardeal Ratzinger.

Entramos, portanto, diretamente na 2ª fase do conclave. É natural que, com grande avidez, os cardeais procurem informações sobre o que aconteceu e iniciem as suas articulações.

Qual seria a melhor fonte para essas informações? Em situações normais, aqueles que estão mais próximos do Papa. Na situação concreta, o próprio Papa. Caso não seja possível falar com ele, vão-se procurar aqueles que foram seus interlocutores mais próximos, para obter informações tão precisas quanto possível. Assim, parece quase impossível, por mais que o papa o deseje, que ele não venha a influir na eleição.

A ausência da primeira fase valoriza a segunda e parece tornar o resultado deste conclave um mistério.

Também agora se começa a falar de documentos que serão entregues antes do início do Conclave, que poderão colocar fim a muitas pretensões. Desta vez, dos progressistas, daqueles que defendem uma adaptação da igreja ao mundo. Mundo este que sempre combateu a Igreja.

Já na eleição de Bento XVI a primeira fase foi muito longa. Durante muito tempo, a saúde de João Paulo II indicava uma morte próxima. Assim, houve um grande tempo para que o cardeal Ratzinger se preparasse o conclave. Sua eleição foi muito tranqüila e praticamente não houve oposição.

 Será que Bento XVI, assim como o Cardeal Ratzinger, será capaz de novamente vencer a oposição? Sem dúvida, ele conta com a surpresa, ele conta com os documentos, creio mesmo que ele conta com o apoio do Céu. Terá ele coragem? Em breve saberemos.

Lembremos que, no Conclave, mais do que os cardeais, o Espírito Santo conduz a Igreja. Rezemos, portanto, para que o modernismo e o progressismo sejam definitivamente esmagados.


    Para citar este texto:
"Um longo, curto Conclave?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/um-longo-curto-conclave/
Online, 29/05/2017 às 19:42:44h