O Papa

Quo Vadis, Domine?
Orlando Fedeli

 
Apêndices:

Documento 1: Sermão do Cardeal Joseph Ratzinger na abertura do Conclave, na Missa Pro Eligendo Pontífice, no dia 18 de Abril de 2.005 Documento 2: 'SANTA MISSA PELA IGREJA UNIVERSAL'
Documento 3: DISCORSO DI SUA SANTITÀ BENEDETTO XVI AGLI EMINENTISSIMI SIGNORI CARDINALI  PRESENTI IN ROMA
Documento 4: Sermão de Bento XVI na Missa de entronização a  24 de Abril de 2.005:


 
Introdução

Conta uma poética lenda – senão verdadeira, bem achada – que quando se deu a primeira  perseguição aos cristãos em Roma imperial, São Pedro, mal aconselhado, -- na cidade da loba, haveria já, então, Monsenhores de boa vontade ? --resolveu deixar Roma, sair da cidade eterna, para evitar a morte. E, estando na Via Ápia, já a alguns quilômetros da Cidade eterna, apareceu-lhe Cristo carregando sua cruz, indo em direção a Roma. E o primeiro Sumo Pontífice perguntou-lhe:
 
Quo Vadis, Domine?” (“Aonde vais, Senhor?”)
 
Ao que Jesus lhe teria respondido:
 
“Vou a Roma, para ser de novo crucificado, visto que tu a abandonas e ao meu rebanho”.
 
E Pedro, compreendendo seu erro, e arrependido, retornou a Roma  Para ser crucificado.
 
Essa história pode não ter acontecido.
 
A lição aconteceu, algumas vezes, na História.
 
Poderia acontecer de novo?
 
Ela nos veio à mente, esta semana, depois de ler vários sermões históricos.
 
O primeiro, o do Cardeal Ratzinger, na Missa Pro Eligendo Pontífice, abrindo espetacularmente o Conclave.
 
Outro, o do Papa Bento XVI, logo depois de eleito. Fechando desanimadamente o Conclave. Um terceiro, o de Bento XVI agradecendo os Cardeais que o elegeram. Finalmente, o último, pronunciado domingo dia 24 de Abril, na Missa de entronização do novo Papa.
 
Foram discursos bem diferentes, parecendo não ser de uma mesma pessoa, tanto são contrastantes, no seu primeiro significado.
 
O que causou perplexidade realmente e literalmente universal.
 
Saindo do Conclave, vários Cardeais esquerdistas, da chamada ala liberal – pró modernista -  garantiram que Bento XVI seria bem diferente do Cardeal Ratzinger.
 
Como saberiam disso?
 
Haveria, no Conclave um aparelho capaz de detectar não só as idéias, mas também o futuro do Papa, um aparelho revelador do que o Papa faria? Haveria lá uma Raztzingermancia? Teriam eles um aparelho ultraratzingergráfico?
 
Ou, mais simplesmente, combinou se o que o Papa faria?
 
Por mais que alguns Cardeais modernistas queiram afirmar que o Papa Bento XVI será diferente do Cardeal Ratzinger — o dos últimos tempos do reinado de João Paulo II – o Cardeal Ratzinger e o Papa Bento XVI são a mesma pessoa.
 
Por mais que a graça e o carisma pontifício sejam eficazes, eles não causam uma divisão de mentalidade, ou uma diferença diametral na expressão do pensamento real do Papabile e do Papa eleito.
 
Entretanto,  a palavra do Cardeal Ratzinger, na segunda feira, na Missa de abertura do Conclave foi uma. E bem clara. A palavra de Bento XVI, logo após de ser eleito Papa, foi outra. Bem obscura e de tom totalmente diferente. E a palavra de Bento XVI no sermão da Missa de entronização foi bem nebulosa, pelo que coloca nas linhas, e pelo que faz entrever nas entrelinhas.
 
O Cardeal Ratzinger, na segunda feira, iniciando o Conclave, falou como eco de uma voz do céu, apavorando e deixando furiosa a esquerda modernista de um lado, e de outro, dando ânimo aos fiéis cansados de ouvir as vozes da terra. E essa voz – em dó maior -- causou ódio nos teólogos da mídia, nos “vaticanistas de padaria”, que só querem ouvir as vozes da terra, vozes que rugiram ameaçadoras e ofensivas, impotentes e praticamente cismáticas.
 
Assim se manifestaram teólogos da textura dos kungs, bofes e bettos.
 
Assim se manifestaram os vaticanólogos da mídia. Praticamente todos cantando a mesma canção. Como que obedientes a um só maestro invisível.
 
Mas, no sermão da Quarta Feira, depois de eleito Papa, o ex Cardeal Ratzinger, já então Bento XVI, pareceu falar afinado à voz da terra, -- em ré menor  -- voltando a dar ânimo aos modernistas de todos os matizes. Os mais exaltados  modernistas concederam então, ao Papa, cem dias de tolerância e de observação...
 
Depois...
 
Que teria acontecido à voz de Ratzinger-Bento XVI entre a Segunda e a Quarta feira?
 
Por que a mudança súbita de tom maior para tom menor?
 
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Pro Eligendo Pontífice

No sermão da Missa Pro Eligendo Pontífice, o Cardeal Ratzinger recusou fazer um discurso eleitoral, neutro, para captar votos. Pelo contrário, fez um discurso desafiante, expondo seu pensamento de modo contundente, atacando conceitos que estavam em voga e na moda eclesiástica, desde o Vaticano II.
 
Nesse discurso, o Cardeal Ratzinger denunciou e condenou com toda a clareza a “ditadura do relativismo”. Ora, é impossível negar que a difusão do relativismo cresceu muitíssimo graças ao ecumenismo do Vaticano II e a seu estilo “pastoral”.
 
Disse o Cardeal Ratzinger:
 
Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo”.
 
E defendeu os que não temem defender a fé integralmente, e que, por isso mesmo, são apodados pelos relativistas como “fundamentalistas”:
 
Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é freqüentemente catalogado como fundamentalismo”.
 
Por mais que se queira, e até que se possa, interpretar essas palavras à luz da doutrina do Ratzinger, teólogo do Vaticano II, elas foram entendidas, no contexto histórico em que foram ditas, como uma reprovação do relativismo conciliar vigente há quarenta anos. Pois foi a linguagem ambígua do Vaticano II que fez instaurar nos ambientes da Igreja, e mesmo no mundo, a Ditadura do Relativismo. E são os opositores do Vaticano II que são, hoje, apodados de “fundamentalistas” quando defendem a doutrina católica de sempre.
 
Ratzinger deixava bem claro que somente uma fé verdadeira poderia realizar a unidade, pois que, sem a verdade, não há nem caridade, e nem unidade.
 
O que era uma crítica indireta a todo ecumenismo nascido do Vaticano II. Pois, embora um texto conciliar tenha condenado o relativismo, o que resultou, em concreto, da aplicação prática dos documentos conciliares sobre o ecumenismo, foi colocar o amor acima da verdade. Para conseguir a unidade ecumênica, praticamente, ou relegou-se a verdade para um último plano, ou a esqueceu-se completamente. Aliás, o Vaticano II preconizou o método de procurar nos hereges e nas heresias mais os pontos de semelhança do que os pontos de dissensão doutrinária. A Igreja sempre fizera o oposto: sempre condenara o erro sem procurar o que os hereges ainda admitiam de verdade.
Após o Vaticano II, buscou-se a unidade no amor e não na Fé. E o resultado foi um relativismo crescente que acabou se impondo em todos os ambientes eclesiásticos. Ditatorialmente. E é o que constatou Ratzinger em seu discurso ao condenar a “Ditadura do Relativismo”.
 
Ratzinger afirmou, então, diante dos Cardeais reunidos para o Conclave:
 
Devemos amadurecer esta fé adulta. A esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo. E é esta fé - e somente a fé - que cria unidade e se realiza na caridade.
 
E intrepidamente criticava o Cardeal os atuais hereges, comparando-os às crianças instáveis, e a ondas batidas e agitadas pelo vento:
 
Em contraste com as contínuas peripécias daqueles que são como crianças batidas pelas ondas, S. Paulo oferece-nos a este propósito uma bela palavra: praticar a verdade na caridade, como fórmula fundamental da existência cristã. Em Cristo, verdade e caridade coincidem. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, assim também na nossa vida, verdade e caridade se fundem. A caridade sem a verdade seria cega; a verdade sem a caridade seria como «um címbalo que tine» (1 Cor 13, 1). (O destaque é nosso).
 
Esta linguagem clara e desafiadora demonstrava uma vontade de não entrar em acordos, de não ceder nada à heresia modernista. Era a fala de um homem cônscio de sua responsabilidade na defesa da Fé. Ele não bajulava a esquerda modernista do Conclave, implorando os seus votos. Falava como seguro da vitória, e só querendo a vitória da doutrina católica de sempre.
 
E foi o que comentou Jeff Israely, jornalista  da Time:
 
“E então, na segunda-feira do conclave, ele [Ratzinger] fez uma homilia que efetivamente declarou sua candidatura, tornando evidente que ele não transigiria com seus ideais para ganhar votos. Foi um desafio lançado aos possíveis concorrentes e um encorajamento a quem o apoiava. 'Que história é essa de ele declarar todo um programa para o futuro da  Igreja?', perguntou o adido de um cardeal esquerdista. 'Aquele deveria ser um momento para o decano dos cardeais refletir sobre o processo espiritual no qual eles estavam prestes a entrar, não declarar seus  pontos de vista.' (JEFF ISRAELY , The Conquest of Rome -- The stealth campaign for Ratzinger began 18 months ago. An inside look at how he won,  Sunday, April 24, 2005).
 
Claro que esse discurso causou revolta entre os teólogos modernistas mais avançados e importantes como Hans Kung, ou em teólogos de subúrbio marxista como o ex frei Boff, assim como no seu eco fidelista, o petista semi frei Betto. A imprensa registrou os uivos dos lobos -- porque sempre há lobos interessados na eleição do Pastor -- protestando ameaçadoramente contra o Cardeal Ratzinger, chegando alguns jornais a pretenderem estupidamente ligá-lo ao nazismo.
 
Apesar desta fala ousada e desafiante contra o Modernismo, o Conclave foi curto. Na Quarta Feira, dia 20 de Abril, o Cardeal Medina, com rosto estranhamente preocupado, anunciou, na “loggia” de São Pedro o “grande gáudio” de que fora eleito Papa o Cardeal Ratzinger, e que ele escolhera o nome de Bento XVI.
 
Primeira surpresa: Ratzinger recusara chamar-se João XXIV  !
Ele recusara chamar-se Paulo VII !!
Ratzinger recusara mesmo chamar-se João Paulo III !!!
 
Obviamente, Ratzinger não quis adotar nomes dos Papas conciliares, dos Papas que haviam feito e promovido o Concílio Vaticano II.
 
Teria isso algum significado?
 
Se o tivesse, seria isso o indicativo de um esfriamento dele com relação ao Vaticano II?
 
Os Papas eleitos, ao adotarem um nome, sempre indicam por meio dele o que desejam vir a realizar.
 
Levantamos a hipótese de que não querendo tomar o nome de um dos Papas conciliares, Ratzinger optara por um nome de Papa anterior ao Concílio, mas do século XX. Aí a escolha ficava limitada a três nomes: Leão, Bento e Pio.
 
Se escolhesse Pio, ele se chamaria Pio XIII, o que seria um nome polêmico demais, pois que daria idéia de favorecer os sede-vacantistas, os quais apontam Pio XII como o último Papa legítimo e verdadeiro.
Leão era um nome excessivamente longínquo. E rugidor.
 
Restava Bento.
 
E Bento seria um nome bem ambíguo, pois poderia ser entendido pelos modernistas como que aceitando Ratzinger ser um continuador de um inimigo de São Pio X  e de sua obra, como Bento XV o foi.
 
E Bento XV escolhera o nome Bento inspirando-se no romance Il Santo, do modernista Antonio Fogazzaro, autor condenado por São Pio X, e cujo romance — aliás bem chato e bem herético – foi colocado no Index. Por tudo isso, o nome Bento agradaria a esquerda.
 
Mas o nome Bento poderia ser entendido também como querendo fazer uma obra similar a de São Bento, construtor da Europa cristã, hoje ameaçada pela Ideologia do Mal promovida pelo Parlamento Europeu. E isto agradaria a direita.
No Vaticano, a linguagem ambígua é tradicional, embora não seja tradicionalista.
 
Logo, nos chegou uma informação vinda de um douto sacerdote do Rio, ponderando-nos judiciosamente que Ratzinger estivera em Subiaco na véspera da morte de João Paulo II, e que, lá, ele fizera uma pregação falando da construção da Europa por São Bento. Além disso, Ratzinger sempre demonstrou preocupação com a Liturgia, e combatera a destruição do espírito da Liturgia causada pela Nova Missa de Paulo VI. E a Ordem de São Bento sempre esteve ligada à questão litúrgica. Isso explicaria o nome de Bento assumido pelo Papa Ratzinger.
 
Agora, o próprio Papa fez conhecer que escolheu o nome Bento quer por causa de Bento XV, que teria trabalhado pela paz — coisa que os franceses nunca acreditaram, pois acusavam Bento XV de ser germanófilo – como por causa de São Bento, pilar da Cristandade européia.
 
Gregos e Troianos eram satisfeitos. A ambigüidade continuava
 
No dia 23 de Abril, Dom Crispino Valenziano, consultor da Sala de Celebrações Litúrgicas Pontifícias, explicou que Bento XVI não «foi eleito sucessor de João Paulo II, mas de Pedro».
Curioso...
 
Explicou mais:  «o Papa Bento XVI deu início solene a seu pontificado na praça de São Pedro, «pois é o lugar do martírio de Pedro», onde se encontrava o circo romano de Nero, explicou, e não por motivos logísticos.
Isto é, a Missa não foi feita na Praça de São Pedro por causa da multidão de fiéis. Mas foi rezada lá, porque lá foi o local do martírio de São Pedro. Bento XVI pensava no martírio de São Pedro. Ocorrido depois do Quo Vadis...
Por que Bento XVI pensou no martírio de São Pedro?
 
Dom Valenziano,  membro da Comissão Pontifícia de Arqueologia Sacra, explicou que a Missa deste domingo começou com uma estação («statio») no sepulcro de São Pedro para significar que «Pedro comece desde onde está Pedro».
 
Curiosíssimo!...
 
Curiosíssimo mesmo!
 
Entretanto, é preciso ponderar que se todo Papa é sucessor de São Pedro, isso não obsta – é óbvio! -- considerá-lo sucessor do Papa que acabou de falecer. Tanto mais que Bento XVI, mesmo que não tenha adotado nome de nenhum dos Papas conciliares, não deixou de frisar, num sermão feito aos Cardeais, na sala Clementina, no dia 22 de Abril, que lhe era caro, naquele momento, voltar seu pensamento “aos meus venerados predecessores, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, e João Paulo II”.
 
Dos quais, porém, não quis adotar o nome...
 
Por que o nome Bento?...

Enquanto os católicos fiéis se rejubilavam com a eleição de um Papa cuja linguagem era oposta a da heresia relativista, os teólogos modernistas vociferavam sua fúria contra o Papa eleito.
 
Em meio à alegria geral oficial, um Cardeal demonstrou publicamente sua decepção e irritação com a eleição de Ratzinger: foi o Cardeal Daneels de Bruxelas, que grosseiramente afirmou que embora Bento XVI  «tenha sido eleito legitimamente pelo colégio  cardinalício, se me perguntarem se ele é o candidato ideal, essa é outra questão ....Continuo pensando o mesmo que antes a respeito dele».
 
Para o Cardeal Daneels, Bento XV continuava a ser o Cardeal Ratzinger.
 
E a mídia internacional não escondia seus temores: o “Grande Inquisidor” fora eleito Papa.
 
Como já dissemos, logo alguns Cardeais começaram a anunciar que Bento XVI surpreenderia, porque seria bem diferente do Cardeal Ratzinger.
 
O Presidente da Conferencia Episcopal Alemã, Cardeal Karl Lehmann, demonstrou uma surpreendente esperança de que os meios de informação, que tanto haviam criticado o Cardeal Ratzinger, corrigiriam suas opiniões ao verificar o pontificado de Bento XVI, ao ler os livros que escrevera antes, e ao estudar melhor o seu passado. “Bento XVI vai  convencer os meios de comunicação”, declarou o Cardeal Lehmann à televisão alemã.
 
Como poderia ele adivinhar o futuro? Acionara ele o ultraratzingergráfico?
 
E Lehmann sempre fora bem contrário á orientação de João Paulo II e a de Ratzinger, por exemplo, na questão do
aborto. [E como é possível um Cardeal católico divergir do Papa numa questão tão grave quanto a do aborto? Defender o aborto ou incentivar a ele é pecado que acarreta excomunhão automática, latae sententiae. Haveria então Cardeais passíveis de excomunhão?]
 
No jornal Le Monde, Henri Tincq afirmava com segurança:

Por trás do Cardeal Ratzinger, desponta agora Bento XVI. Como se a sua eleição para ocupar o trono de São Pedro tivesse transformado este eminente representante da hierarquia da Igreja Católica numa figura de 'pastor' que ninguém suspeitava que ele fosse capaz de assumir. Essa mutação, contudo, não se fará num único dia. Bento 16 não possui o carisma das multidões que caracterizava João Paulo 2º, nem a energia do seu aperto de mão ou da sua palavra”.
 
Como ele podia garantir isso?
 
Fizera ele um gráfico de Bento XVI aplicando-lhe a esotérica ciência da Ratzingermancia?
 
O ex frei Boff, inicialmente, havia declarado que Bento XVI seria um Papa difícil de ser amado...
 
E o semi-frei Betto se apressara a declarar que o novo Papa ia reforçar os conservadores no Brasil, e que a Igreja Católica “deu um passo atrás” ao eleger o Cardeal alemão Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, como novo pontífice.
 
A eleição do Cardeal Ratzinger é um sinal de que a direção da Igreja está mais confusa e perdida do que se imaginava”(,,,)Eleger o responsável pela ortodoxia, chefe do antigo Santo Ofício, é gesto de retração e defesa frente a um mundo conturbado, que espera de Roma mais do que anátemas, censuras, desconfianças e segregações”.No último sermão como cardeal, Ratzinger acusou a cultura ocidental de relativista, condenou o marxismo, o liberalismo, o ateísmo, o agnosticismo e o sincretismo, como quem insiste em rejeitar o pluralismo cultural e religioso, a diversidade de culturas, e sonha com uma Igreja institucionalmente soberana entre povos e governos, impondo valores e normas. É a volta à Cristandade, quando a Igreja imperava no período medieval”. (Frei Betto, Artigo )
 
Ele vai reforçar os setores mais conservadores da nossa Igreja, sobretudo no que concerne a nomeação de novos bispos e cardeais”, disse esse dominicano-cubano. “E isso possivelmente vai afetar o trabalho das comunidades eclesiais de base desencadeado no Brasil nos últimos 40 anos.”.
 
Frei Betto definiu a eleição do novo Papa como “uma escolha infeliz”. “O Cardeal Ratzinger disse que, com exceção do catolicismo, todas as religiões são imperfeitas. Isso me soa como uma coisa muito grave. Eu peço a Deus que Bento XVI contradiga o cardeal Ratzinger”, acrescentou Frei Betto. (Uol-- 29 de Abril de 2005  Frei Betto. Além do Fato: O retrocesso ronda a Igreja. Jornal do Brasil, 20.04.2005)
 
O teólogo Fernando Altemeyer Jr., ex padre e ouvidor da PUC-SP, disse acreditar que o perfil conservador atribuído ao Cardeal Ratzinger não será tão evidente no novo pontífice:
 
 “Ele trocou de lugar. Creio que, agora como papa, ele será completamente diferente no estilo do que como cardeal”, afirmou Altemeyer, que disse esperar um pontificado “de diálogo, abertura e maior sensibilidade”.
 
Ora, esse “teólogo” errara redondamente suas previsões até na hora da eleição, porque quando já saía fumaça branca da chaminé da Capela Sistina, ele garantia, numa entrevista radiofônica, que a eleição ia demorar. E esperava a eleição de um Papa, quem sabe, asiático...
 
Depois da eleição de Ratzinger, como podia ele prever tão seguramente o que ia acontecer, logo mais, e o que ninguém — nem ele -- esperava?
 
Recebeu ele por fax o resultado do exame de Bento XVI através do ultraratzingergrafico ?
 
Teria ele recebido algum telefonema de Roma, contando-lhe o que acontecera no Conclave, e que deixara o rosto do Cardeal Medina tão preocupado ao clamar: “Gaudium Magnum”?
 
Logo, o Cardeal-Arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes, disse que o Papa Bento XVI, como queriam os modernistas radicais. “poderia convocar um novo concílio ecumênico para atualização do Vaticano II”, “porque, se muitas de suas diretrizes do último concílio continuam atuais, o mundo mudou e coloca a Igreja diante de novas realidades”.
 
Dom Hummes constata então que o Vaticano II, ao completar quarenta anos, já foi superado. Está desatualizado.
 
Que vida tão curta!...
 
E será que a Igreja tem que se adaptar sempre às mudanças do mundo? Não seria missão dela fazer o mundo aceitar a verdade de Cristo que jamais muda?.
 
“Não vos conformeis com este século” (Rom, XII, 2).
“Ora, o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (I Jo. II, 17).
 
O que disse Dom Hummes foi exatamente o que sempre haviam exigido os modernistas radicais: uma atualização do Vaticano II, para exprimir em letra clara – preto no branco -- o que o Vaticano II insinuava em seu “espírito”, em suas ambigüidades... diplomáticas...
 
Ora, à medida que insistentemente se espalhava, proveniente de Cardeais que haviam participado do Conclave, a informação que o Papa Bento XVI seria bem diferente do que fora o Cardeal Ratzinger, mais aumentava a expectativa dos fiéis.
 
Que diria o novo Papa em seu primeiro sermão como Papa?


 
Sermão na Missa Pro Ecclesia
 
Logo depois de encerrado o Conclave, Cardeais da esquerda, opositores de Ratzinger, fizeram declarações triunfantes, que depois foram repetidas como se fossem uma palavra de ordem pela mídia e por líderes esquerdistas: Bento XVI não será o Cardeal Ratzinger, porque o papado muda a pessoa.
 
E na sua primeira missa,-- 'MISSA PELA IGREJA UNIVERSAL'--, realizada na Quarta Feira, dia 20 de Abril, Bento XVI se expressou em tom e vocabulário bem diferentes do que usava Ratzinger nos últimos anos, e, até mesmo, dois dias antes.
 
Ratzinger parece ter mudado bastante durante sua vida. Mas mudar tão rapidamente é bem estranho, e é demais.
 
Claro que sabemos que o Cardeal Ratzinger foi um dos teólogos modernistas do Vaticano II. Claro que, mesmo quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ele publicou livros e artigos defendendo teses das mais “avançadas”, e que ele afirmou que a Gaudium et Spes era um Anti Syllabus, e coisas até piores.
 
Entretanto, sua atuação nos últimos anos deu pelo menos a impressão de estar mudando em algo mais profundo. Daí o ódio que contra ele devotam os expoentes do Modernismo radical. E os maus não se enganam em seu ódio.
 
E é evidente que uma pessoa pode mudar, e que na mudança pode ter vacilações. Ratzinger mudou no passado. Mudou de novo, em dois dias, ao se tornar Bento XVI?
 
Já na saudação inicial do sermão de Bento XVI, na Missa Pro Ecclesia, se nota a diferença de tom, pois assim saudou o Papa:
 
“Veneráveis Irmãos Cardeais, queridíssimos Irmãos e Irmãs em Cristo, vós todos, homens e mulheres de boa vontade”
 
O chamar os simples fiéis de irmãos e irmãs, e não de “filhos” deixa ver imediatamente uma adesão ao novo estilo, mais igualitário, do Vaticano II. E pior que isso é a saudação “A vós todos, homens e mulheres de boa vontade”.
 
Ora, quem são esses misteriosos “homens de boa vontade” — e agora também “mulheres de boa vontade” -- que não se incluem entre os irmãos e irmãs do Papa, na Fé?
 
Quem seriam esses mui misteriosos “homens -- e mulheres -- de boa vontade”, senão aqueles de quem escreveu Jules Romain em sua série de romances sobre os maçons, isto é,  “Les Hommes de Bonne Volonté”? Seriam “Os homens de boa vontade à procura de uma Igreja”? (Cfr. Jules Romain, Les Hommes de Bonne volonté – À la Recherche d´ Une Église). Ou então “Os Filhos da Luz”, como foram chamados os amigos de João XXIII, no romance de Roger Peyrefitte, Les Fils de la Lumiére”?
 
Estranha saudação que coloca Bento XVI na mesma linha dos Papas que usaram esse tipo de saudação, e dos quais ele, obviamente, não quis adotar o nome...
 
Logo depois, Bento XVI evocou a “diplomática” e ambígua definição de Igreja da Lúmen Gentium ao dizer:
Deus que, através da sua Igreja, deseja formar, de todos os povos, uma grande família, mediante a força unificadora da Verdade e do Amor (cf. Lumen gentium, 1).
 
É certo que Bento XVI salientou a união também na Verdade, coisa que não aparece na definição de Igreja no número 1 da Lumen Gentium, e nem fez menção da Igreja como sendo “como que o sacramento, ou o sinal e instrumento  da íntima união com Deus e da unidade de todo o Gênero humano” (Lumen Gentium, 1).
É certo ainda que no discurso que ele faria aos Cardeais na Sala Clementina, ele acabou citando esse texto inteiro da Lumen Gentium, inclusive a parte em que se define a Igreja como sacramento:
 
“Antes de tudo a gratidão. Sinto, em primeiro lugar,  dever dar graças a Deus, que, apesar de minha fragilidade humana, me quis Sucessor do apóstolo Pedro, e me confiou a tarefa de reger e guiar a Igreja, para que ela seja no mundo sacramento de unidade para todo o gênero humano (cfr. Lumen gentium, 1). ' (Bento XVI. Discurso Aos Eminentíssimos Senhores Cardeais Presentes em Roma. Sala Clementina, Sexta Feira, 22 de Abril de 2005).
 
De todo o modo, porém, era algo que não se esperava da pessoa que havia falado dois dias antes contra a ditadura do relativismo, e que a unidade só se alcança com a verdade.
 
E para salientar a adesão ao Vaticano II, Bento XVI fez explícita referência à Colegialidade:
 
Assim como Pedro e como os outros Apóstolos constituíram por vontade do Senhor um único Colégio apostólico, do mesmo modo o Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos o Concílio recordou-o com vigor (cf. Lumen gentium, 22) devem estar entre si intimamente unidos. Esta comunhão colegial, mesmo se na diversidade dos papéis e das funções do Romano Pontífice e dos Bispos, está ao serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em grande medida a eficiência da ação evangelizadora no mundo contemporâneo. Por conseguinte, por esta vereda pela qual caminharam os meus venerados Predecessores, também eu pretendo prosseguir unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo”.
 
Bento XVI explicitamente ainda apresentou o Vaticano II — causa de tantos desvios de rota, de tantas confusões, de tantas crises e apostasias --  como a bússola segura para os anos futuros da Igreja:
 
Com o Grande Jubileu foi introduzida no novo milênio levando nas mãos o Evangelho, aplicado ao mundo atual através da autorizada repetida leitura do Concílio Vaticano II. Justamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como 'bússola' com a qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milênio (cf, Carta apost. Novo millennio ineunte, 57-58). Também no seu Testamento espiritual ele anotava: 'Estou convencido que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu' (17.III.2000)”.
 
E por que falar em bússola nessa hora? Quem fala em bússola, fala em rumo.
 
Ora, o discurso de Ratzinger na abertura do Conclave, indicava uma mudança de rumo na Igreja. Um “meia volta volver”,  dizendo que a Igreja devia tomar um rumo diametralmente oposto ao que fora seguido, há 40 anos, desde o Vaticano II. Agora, neste novo sermão, Bento XVI garante que seguirá no mesmo rumo indicado pela bússola ambígua do Vaticano II.
 
Teria alguém reclamado contra o heróico “meia volta volver” do Ratzinger candidato a Papa?
 
Teria alguém exigido – e sob que ameaça — que Bento XVI seguisse o mesmo rumo desnorteado do Vaticano II, que fez a Igreja se afastar do que Ela sempre ensinou? Afastado a Igreja das duas colunas de que fala o sonho de Dom Bosco, a Missa e Nossa Senhora?
 
Teria alguém reclamado que o Cardeal Ratzinger proclamara o desejo – e o programa -- de que o Papa voltasse para Roma, de onde, como Pedro se havia afastado ?
 
Mistério...
 
Daí, Bento XVI insistir que é seu propósito continuar com “vigor e decidida vontade” nas sendas do Vaticano II, ele que pedia que fosse feita uma “reforma da reforma”, pelo menos na Liturgia:
 
Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de atuação do Concílio Vaticano II, no seguimento dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bi-milenária tradição da Igreja”.
 
Só que no final da frase, em típica linguagem “pastoral”, Bento XVI coloca uma restrição lefevrista: ele seguirá com “vigor e vontade decidida” o Vaticano II, mas “em fiel continuidade com a bi-milenária tradição da Igreja”.
 
Ora, essa condição era a exigida por Dom Lefebvre, e vai contra os que defendem o “espírito do Vaticano II”.
 
Afinal, Bento XVI vai seguir o espírito ou a letra do Vaticano II, e, ainda assim à luz da tradição bi milenar da Igreja?
 
Aliás, se se fala em releituras do Vaticano II à luz da Tradição, está se confessando que sua leitura primeira
pode dar asa pelo menos a dois sentidos diferentes. E isso é a confissão da ambigüidade dos textos Vaticano II.
Decididamente, para onde vai Bento XVI? Para onde aponta a bússola do Vaticano II?
 
Quo vadis, Domine?
 
Contrariando frontalmente o que disse o Cardeal Hummes sobre a necessidade de atualizar o Vaticano II num Vaticano III -  Libera nos, Domine!!! – Bento XVI declarou:
 
Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; ao contrário, os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da atual sociedade globalizada”.
 
Portanto, nada de convocação de um Vaticano III.
 
Entretanto, o posicionamento ecumênico do novo Pontífice é indubitável, deixando perplexos aqueles que ficaram  contentes com as palavras do Cardeal Ratzinger condenando o relativismo;
 
O atual Sucessor de Pedro deixa-se interpelar em primeira pessoa por esta exigência e está disposto a fazer tudo o que estiver em seu poder para promover a fundamental causa do ecumenismo. No seguimento dos seus Predecessores, ele está plenamente determinado a cultivar todas as iniciativas que possam parecer oportunas para promover os contactos e o entendimento com os representantes das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais. Aliás, envia também a eles nesta ocasião a saudação mais cordial em Cristo, único Senhor de todos”.
E a distinção entre Igrejas – as Orientais, com sucessão apostólica — e Comunidades eclesiais – as seitas heréticas protestantes – está de acordo com a Declaração Dominus Iesus.
 
E, imediatamente após a sua entronização, Bento XVI fez gestos ecumênicos especialmente endereçados aos judeus e aos maometanos...
 
É preciso ser bem equilibrado ao praticar o ecumenismo no Oriente Médio...

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Perplexidades e contentamentos
 
O tom, a linguagem e os posicionamentos deste primeiro sermão do Papa Bento XVI contrastando totalmente com o tom, a linguagem e, sobretudo, com os claros posicionamentos enunciadas pelo Cardeal Ratzinger na abertura do Conclave, causaram perplexidades nos meios católicos anti modernistas e contentamentos surpresos na ala modernista.
 
Ficou impossível não ver que o Cardeal Ratzinger e Bento XVI defenderam posicionamentos opostos.
 
Ficou patente que a divisão da Igreja atingira não só o Colégio dos Cardeais, mas a própria cabeça de Ratzinger – Bento XVI.
 
Como é possível tanta contradição? Era a pergunta de todo mundo.
 
Como foi possível mudar tanto em dois dias?
 
Ou Ratzinger não teria mudado, mas apenas expresso de modo sibilino o mesmo pensamento?
 
Em quem acreditar agora? E para onde vai a Igreja? Para onde vai Bento XVI?
 
Para onde aponta a bússola de Bento XVI?
 
Quo vadis, Domine?
 
Vós que tendes a palavra de Deus como apanágio, Vós que tendes o dom da infalibilidade, Vós que sois o mestre infalível da VERDADE  IMUTÁVEL, como mudastes tão rapidamente?
 
O mundo parou, interrogando-se. O mundo parou interrogando:
 
Quo vadis, Domine?
 
O jornal El Mundo – só para citar um – publicou a seguinte manchete:

“Bento XVI deixa para trás a Imagem de Joseph Ratzinger” (EL MUNDO 22/04/05). E comentava:

“Joseph Ratzinger parece disposto a diminuir as distâncias que o separam de Bento XVI.
 
“Não é a mesma coisa exercer o Dicastério do antigo Santo Oficio e carregar o báculo do Papa, assim parece que o sucessor de João Paulo II quer despojar-se da imagem inquisitorial, e fechar sob chave o caráter de guardião da ortodoxia. 
 
«Paciência, paciência. Já vereis como Bento XVI não será Ratzinger», assinalava com ironia o veterano Cardeal italiano Silvestrini. «Dele podemos esperar duas coisas: um homem abertíssimo e desejoso de compreender a realidade da Igreja e da sociedade. E uma transformação, porque o Papado muda o homem». (O destaque é nosso).
 
“Para Monsenhor Tucci, «A transformação existe, começando porque a sucessão de Pedro amadurece potencialidades presentes porém ainda não manifestadas. Tornado-se Papa, existe um novo sentido de responsabilidade que causa uma grande mudança na pessoa», explicava ontem o purpurado italiano ao microfone da Rádio Vaticana”.
 
E notava o jornal El Mundo: 
 
“Desapareceram da homilia os trovões apocalípticos e as sentenças fatalistas. Bento XVI já não falava como o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé”.
 
«Com esse Papa vamos ter que viver muitas surpresas», sustentava ontem o Cardeal Severino Poletto. «É uma figura atenta às necessidades do homem e  sensível. E ele tem a  responsabilidade de governar a Igreja em um momento incerto. Não é a fotocópia de João Paulo II», acrescentava o Arcebispo de Turim recém chegado do Conclave”.
 
O Cardeal britânico Murphy O'Connor dizia ontem que Joseph Ratzinger vai prosseguir pelo caminho da reconciliação religiosa, porém sua assinatura ainda aparece impressa no polêmico documento Dominus Iesus, segundo o qual a plena salvação só pode ser encontrada na Igreja Católica”
 
Parece que todos esses Cardeais haviam lido o resultado do exame ultraratzingergráfico feito em Bento XVI ao término do Conclave.
 
Entre as inúmeras cartas que recebemos de pessoas perplexas pela diferença de tom entre os dois discursos de Ratzinger como Cardeal e como Papa, destacamos uma, que bem resume as perguntas que ficaram no ar sobre que rumo indica a bússola:
 
“Muito Prezado Professor Orlando, Salve Maria Imaculada!
Professor. Eu sei que conheço pouco a Doutrina Católica e a história do Papado a ponto de fazer qualquer conjectura, mas confesso que estou perdido.
O Ratzinger foi eleito Papa e deixou muitos com medo, seja por desconhecimento, seja por não concordar com muitas de suas posturas. Na mídia, chegou-se a dizer que a Igreja se congelou. A Rigidez litúrgica e Doutrinária, que ele sempre fez questão de deixar evidente, causa preocupação e, como o senhor mesmo diz, até ódio dos mais modernistas.
“Mas estou perdido. Algo, de fato aconteceu naquele conclave em que Joseph Ratzinger foi eleito o Papa e adotou o nome de Bento XVI.
“O que significa tudo isso, professor? Ele visivelmente amenizou o tom. Não parece o mesmo Ratzinger. Tudo bem que ele deixou claro, e isso muito antes de ser Papa, que o Chefe da Igreja Católica não governa segundo suas convicções pessoais ('o verdadeiro programa de governo não é fazer a minha vontade, não perseguir minhas idéias'). Ele até reafirmou isso na homilia de ontem, ao mesmo tempo que falava da atual situação do mundo.
“Mas, por outro lado, se Ratzinger era tão rígido assim e tão pouco ecumênico, porque esse discurso em tom conciliador? Por que manter Walter Kasper no governo do Vaticano, e exatamente na Congregação para a Unidade dos Cristãos? Tem outro detalhe: ele não usou a coroa e o trono. Que sinais são estes? O que Ratzinger quer dizer com tudo isso?
“Ao que está me parecendo, professor, e, talvez só a História poderá confirmar ou desmentir, é que Bento XVI começou...mas Ratzinger parece ter terminado. Ratzinger existia antes de Bento XVI, mas pode existir Bento XVI sem Ratzinger?
Um abraço “Raphael”.
 
Esta carta exprime muito bem a perplexidade geral dos católicos ante mudança de rumo tão brusca em dois dias.
 
Que aconteceu ?
 
Será possível um homem mudar tão radicalmente de orientação em dois dias?
 
“Pode existir Bento XVI sem Ratzinger?”
 
Evidentemente o que me perguntou esse missivista “Raphael” está na cabeça de todos: em Conclaves—com chaves—não existiriam conchavos?
 
Teria a esquerda dobrado Ratzinger?
 
Ainda antes do Conclave, houve quem falasse em cisma, caso fosse eleito Ratzinger. Ratzinger foi eleito. Não houve cisma. Mas Ratzinger mudou notavelmente de tom ao falar como Bento XVI...
 
A jornalista Ilze Sacamparini escreveu :
 
“Naquela homilia [a da abertura do Conclave] o Cardeal alemão não citou o Concílio Vaticano Segundo, nem o diálogo inter-religioso como caminhos a serem seguidos pelo futuro papa. Dois dias depois, na sua primeira missa como Papa eleito, Bento XVI lançou como prioridades do seu pontificado a reconciliação entre os cristãos e o diálogo com outras religiões.
“Prometeu seguir com força os passos do Concílio, que foi convocado em 1962 por João XXIII. Para os vaticanistas italianos estaria claro. Durante o conclave, houve um pacto entre os cardeais. Segundo Alceste Santini, Ratzinger teria sido eleito porque prometeu fazer as reformas desejadas pelo Cardeal Carlo Maria Martini e pelo grupo que o apoiava”.
(Ilze Scamparini. Bastidores do conclave. 20.04.2005)
 
Então teria havido um pacto entre o candidato triunfante e a ala modernista extremada...
 
E nesta última observação perece estar a solução para o enigma Ratzinger x Bento XVI.
 
Ratzinger não fez regateios para obter os votos da esquerda no Conclave. Pelo contrário, a desafiou. Desafiou, e venceu a eleição para o Sumo Pontificado.
 
Que aconteceu então?
 
Parece certo que ele tinha a maioria no Conclave. É certo que a esquerda não tinha nem um terço dos votos.
 
Se foi assim, então a esquerda modernista só poderia dobrar o Cardeal Ratzinger em Bento XVI com alguma ameaça.
 
E a única ameaça mais perceptível e plausível seria a de fazer um cisma aberto e clamoroso. Como se anunciou antes do Conclave, se Ratzinger fosse o eleito.
 
Para evitar que a rede do pescador fosse rasgada, o Cardeal Ratzinger teria aceito então as imposições da esquerda liderada por seus “amigos” Kasper, Lehmann e Martini.
 
Daí o discurso de posse ter tantas concessões ao Vaticano II, assim como o  uso de sua terminologia.
 
Se essa hipótese for verdadeira, quem mandaria, hoje, seria  a esquerda que impôs a sua vontade ao Cardeal eleito.
 
Daí, um Bispo comunista brasileiro ter declarado, depois da eleição, que “esse Papa não tem a força de personalidade de João Paulo II”, e que, por isso, “poderemos dizer o que quisermos”. “E se Bento XVI ordenar algo que considerarmos ruim, não sairemos da Igreja,  mas simplesmente não obedeceremos”.
 
O  cisma silencioso tornou-se uivante. Os lobos uivam.
 
Desse modo, a ambigüidade de Ratzinger- Bento XVI só deixou patente o que dizíamos em artigo anterior: a herança de João Paulo II foi uma Igreja profundamente dividida.
 
A divisão existiria até na mente de Ratzinger-Bento XVI?        
 
Esperamos que não. Rezamos que não.
 
Esperamos que ele não cumpra os conchavos que -- talvez -- lhe tenham imposto no final do Conclave, porque o Papa não é obrigado a obedecer a pacto algum. Ele só deve obedecer a Deus, e ensinar a Verdade e sua lei imutáveis.
 
Aliás o documento de João Paulo II que estabeleceu as regras do Conclave, e que está em vigor, o Universi Dominici Gregis estipula em seu número 82:
 
'De igual modo, proíbo aos Cardeais fazerem, antes da eleição, capitulações, ou seja, tomarem compromissos de comum acordo, obrigando-se a pô-los em prática no caso de um deles vir a ser elevado ao Pontificado. Também estas promessas, se porventura fossem realmente feitas, mesmo sob juramento, declaro-as nulas e inválidas.' (João Paulo II, Universi Dominici Gregis,n0 82).
 
Essa era a situação, quando, domingo, na Missa de Entronização, Bento XVI fez mais um sermão bem misterioso.

 
O  Sermão na Missa de Entronização
24 de Abril de 2005, na Praça de São Pedro
 
Certamente ciente das perplexidades causadas por sua reviravolta doutrinária, Bento XVI, na Missa de Entronização como “sucessor de Pedro”, aquela que ele quis ligar ao martírio de Pedro, declarou que aquele não era o momento para apresentar seu programa de governo.
 
Ora, não podia haver momento mais conveniente e oportuno do que esse da entronização, para o Papa apresentar o programa de seu reinado.
 
Queridos amigos! Neste momento não é preciso apresentar meu programa de governo. Pude dar uma indicação do que vejo como minha missão na Mensagem de quarta-feira, 20 de abril, e haverá outras oportunidades de fazê-lo. Meu verdadeiro programa não é fazer minha própria vontade, não é perseguir minhas próprias idéias, mas ouvir, juntamente com toda a Igreja, a palavra e a vontade do Senhor, ser guiado por Ele, para que Ele próprio lidere a Igreja nesta hora de nossa história”. (Os destaques são nossos)
 
Em vez de tratar de seu “verdadeiro programa” – E por que verdadeiro? --- Bento XVI disse que preferia tratar dos símbolos que recebera nessa Missa: o Pálio e o Anel do Pescador.
 
Ao explicar o símbolo do Pálio, feito de pele de cordeiro, e depois de reconhecer que há fome no mundo, Bento XVI afirmou, contra a Teologia da Libertação, que, pior que o deserto da fome material, há o deserto das trevas de Deus. É este deserto do conhecimento de Deus e de sua palavra que causa o deserto da fome.
 
Claro, porque nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
 
“Há o deserto das trevas de Deus, o vazio das almas não mais cientes de sua dignidade e do objetivo da vida humana. Os desertos externos do mundo estão crescendo porque os desertos internos tornaram-se tão vastos”.
Frase essa contrária às teses econômico-marxistas da Teologia da Libertação.
 
E para sanar esse deserto das trevas de Deus, o Papa Bento XVI lembrou que “amar significa estar pronto para sofrer. Amar significa dar às ovelhas o que é verdadeiramente bom, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus, o alimento de Sua presença, que Ele nos dá no Santíssimo Sacramento.”
 
Isto significa que os meios a utilizar para combater o deserto das trevas de Deus são dois: a palavra de Deus, -- a doutrina católica – e a Hóstia consagrada, o Santíssimo Sacramento, a Missa. Os meios não seriam os da conscientização revolucionária.
 
Excelente! Verdade de Deus e Santíssimo Sacramento são os dois remédios absolutos, verdadeiros e tradicionais que os modernistas não aprovam.
 
E então, o Papa diz que, naquela hora, não podia dizer mais. E por que não dizer mais?
 
Meus queridos amigos – neste momento, só posso dizer: orai por mim, que eu possa aprender a amar o Senhor mais e mais. Orai por mim, para que eu possa aprender a amar Seu rebanho mais e mais – em outras palavras, a santa Igreja, cada um de vós e todos vós juntos. Orai por mim, para que eu possa não fugir com medo dos lobos”.
 
Epa!
 
O Pastor Supremo pede às ovelhas do rebanho: Orai por mim, para que eu possa não fugir com medo dos lobos”?
 
Quando o Pastor confessa que pode vir a ter medo do lobo, que se reze para que ele não fuja, que sentimento dominará as ovelhas?
 
Certamente as ovelhas fiéis rezaram para que o Papa não fuja de medo dos lobos.
 
Mas, cabe perguntar: de onde saíram esses surpreendentes lobos?
 
Depois do Vaticano II, pensava-se que não era mais possível existirem lobos.
 
O próprio Bento XVI não saudara os católicos, os irmãos separados, os crentes e os não crentes, os homens e mulheres de boa vontade?
 
Em que grupo ficariam os lobos nessa classificação universal?
 
E também com os lobos não se faria um diálogo ecumênico?
 
Seria a tolerância do Vaticano II preconceituosa contra os lobos?
 
Não existiriam lobos de boa vontade?
 
Não se poderia instituir uma Comissão para Diálogo com os lobos?
 
E, para completar, aconselharia Monsenhor Aggiornatto, se poderia fazer de São Francisco de Assis o patrono do diálogo com os lobos...
 
Que pacífico símbolo! Onde há guerra entre lobos e ovelhas, que eu leve a paz. Onde os lobos têm fome, que eu leve ovelhas... E etc.
 
Não se viu, depois do Vaticano II, os lobos fazerem a primeira comunhão de fitinha branca no braço? (Evidentemente, no braço esquerdo).
 
E não se viram já alguns lobos serem ordenados, ficarem Bispos e até chegarem ao cardinalato?
 
Não teriam sido lobos que impuseram ao eleito Cardeal Ratzinger certas condições -- um pacto ? -- porque, senão, eles romperiam a unidade da Igreja?...Por que não?
 
É bem possível.
 
Em todo caso, Bento XVI pede orações para que Deus lhe dê coragem para não fugir de medo dos lobos. Coragem para enfrentar os lobos.
 
Mas então, há lobos assustando Bento XVI?...
 
Quem são esses lobos de boa vontade?

 
Conclusão
 
Explicando o símbolo do Anel do Pescador, Bento XVI falou do peixe, que é retirado do mar amargo para ter a verdadeira vida.
 
E, de repente, sem nexo com o texto anterior, entra uma frase polêmica bem importante:
 
Não somos um produto sem sentido do acaso da evolução. Cada um de nós é resultado de um pensamento de Deus”. (O destaque é nosso)
 
De repente uma condenação inesperada do evolucionismo. Sem ligação maior com o contexto, Bento XVI esbordoa, com o cajado do Pastor, Darwin e sua macacada. (Que bom treino para vir a esbordoar lobos!)
 
Ora, para o Modernismo, a evolução seria uma lei absoluta, pois o próprio Deus sendo evolutivo, também evoluiriam a verdade, o dogma, a moral e a beleza.
 
Não!
 
Diz Bento XVI, de repente: Não somos um produto sem sentido do acaso da evolução”.
 
Curiosa irrupção de uma tese bem católica e bem anti-modernista.
 
Bento XVI trata então do símbolo da rede de Pedro, na pesca milagrosa. E aí o texto do discurso é interessantíssimo, e bem misterioso, pois o Papa Bento XVI lembra que, segundo o Evangelho, a rede não se rasgou:
 
'Apesar de tantos [peixes], a rede não rasgou' (Jo 21:11).
 
Entretanto, Bento XVI contesta o que foi dito no Evangelho, exclamando:
 
Mas, amado Senhor, com tristeza temos de reconhecer que ela se rasgou!”
 
E quando teria se rasgado a rede de Pedro? Teria Cristo falhado em sua promessa?
 
Isso é impossível.
 
A rede da Igreja não se rasgou nunca.  Ela não se rasgará nunca.
 
Teria ela se rasgado no tempo do Arianismo? No tempo do Cisma do Oriente? No tempo da Reforma?
 
Propriamente nesses acontecimentos a rede de Pedro não se rasgou, de modo algum: a Igreja continuou una. Ela não precisa buscar a unidade. Ela a possui sempre na sua única Fé e em seu único Batismo, em seu governo papal, monárquico, uno.
 
Foram os cismáticos e os hereges que se separaram dela, lançando–se no abismo amargo do cisma e da heresia.
A rede da Igreja não se rasgou
 
Bento XVI prossegue em seu discurso dizendo:
 
Mas não - não devemos nos entristecer! Rejubilemo-nos por causa de Tua promessa, que não desaponta, e que todos façamos tudo o que pudermos para perseguir o caminho da unidade que prometeste. Lembremo-nos em nossa prece ao Senhor, quando pedirmos a ele: sim, Senhor, relembra tua promessa. Faze que haja um rebanho e um pastor! Não permitas que Tua rede se rompa, ajuda-nos a sermos servos da unidade!(Os destaques são nossos).
 
Nessa última frase que sublinhamos, Bento XVI coloca o verbo romper no subjuntivo presente, pedindo, portanto, que roguemos a Deus que a rede da Igreja não se rompa, hoje.
 
E quem a ameaça fazer ruptura, hoje, se não os modernistas?
 
Como citamos já, não declarou um Bispo brasileiro que Bento XVI é fraco, e que agora os modernistas – os lobos – poderão uivar à vontade? O pastor não teria coragem ou força para atacá-los. E que, caso ele mande algo, proclamaram os lobos, não o obedecerão.
 
Repetimos: o cisma silencioso que já existia durante o governo de João Paulo II, ameaça agora tornar-se público e uivante.
 
Repetimos: não teriam os modernistas imposto um dilema a Bento XVI após ter sido eleito: ou se dobra à nossa vontade abandonando o programa de seu discurso “eleitoral”, ou... “rasgaremos a rede”.
 
Ilze Sacamparini diz que houve um pacto...
 
Bento XVI implora a Deus: “ajuda-nos a sermos servos da unidade!”
 
Sacrificou Ratzinger o seu programa de governo para impedir a ruptura da unidade eclesial?
 
Nenhum Cardeal ou facção de Cardeais tem o direito de impor qualquer coisa ao Papa eleito, e este não está obrigado de modo algum a obedecer ao que lhe imponham. E mesmo que tenha prometido algo, o Papa não é obrigado a cumprir o que prometeu, sob pressão, porque se deve obedecer a Deus antes que aos homens. E a palavra de Deus não pode ser ligada.
 
Agora, dia 26 de Abril, jornais noticiam declarações seguras do Cardeal Martini, líder da ala modernista radical no Conclave.
 
Cardeal italiano diz que Bento 16 surpreenderá críticos 
da France Presse, no Vaticano (da Folha Online)
 
”O cardeal italiano Carlo Maria Martini, considerado o principal rival de Joseph Ratzinger --atual papa-- durante o conclave, afirmou nesta terça-feira:
'Estou certo de que Bento 16 tem reservado muitas surpresas a respeito de prejulgamentos e de lugares comuns, características que alguns críticos associaram à sua personalidade', afirmou Martini em uma longa entrevista ao jornal italiano 'La Repubblica'.
 
 
 
Martini, 78, arcebispo emérito de Milão (norte da Itália), considerado um dos cardeais mais cultos e progressistas do Colégio Cardinalício, e que o próprio Ratzinger, 78, define como 'diferente por formação e temperamento', diz acreditar que o novo papa será transformado de fato pela responsabilidade assumida.

'Estou certo de que a grande responsabilidade que pesa sobre o novo papa o converterá cada vez mais em uma pessoa sensível e aberta aos problemas que agitam os corações dos crentes e não-crentes, o que conseqüentemente abrirá novos caminhos', disse.

Martini, que se mudou para Jerusalém há alguns anos para estudar textos bíblicos, reconheceu que a eleição de Ratzinger para substituir João Paulo 2º nasceu também do desejo de ter um pontificado breve após o último e longo papado.
 
No entanto, mesmo sob o estrito segredo imposto pela Constituição Apostólica sobre o conclave, Martini deu a entender que como líder de uma corrente crítica não se opôs à eleição do primeiro papa alemão da história recente, chamado de 'guardião do dogma' por suas severas posições no campo doutrinário.
 
'A diversidade nos une (?). O Evangelho no ensina que é justamente o irmão diferente que devemos amar', acrescentou.

Ao analisar as primeiras intervenções públicas de Bento 16, Martini disse que não detectou elementos inovadores, mas, sim, a confirmação das grandes linhas traçadas por seu antecessor João Paulo 2º.

'Não vi nada de inovador em seu primeiro discurso, que fora provavelmente preparado de antemão pelas repartições competentes. O mais positivo foi a confirmação das grande linhas de abertura estabelecidas por João Paulo 2º.'

Sobre outros temas mais internos, como o pedido de um colegiado maior dentro da igreja -- com o estabelecimento de uma relação nova entre a Cúria e os bispos de todo o mundo-- e um maior diálogo com as outras religiões, Martini se diz convencido de que o novo papa, então considerado um homem de ferro, 'não será rígido'.

'São pedidos fortes de boa parte da igreja e estou seguro de que o novo papa vai considerá-los seriamente e tudo se resolverá de forma eficaz.'

Ante os desafios que a sociedade moderna impõe à igreja, a necessidade de paz e de uma maior espiritualidade, Martini é otimista. 'A igreja e a sociedade se movem em ritmos diferentes... mas a igreja tem as chaves dos corações dos homens e não perderá o trem da história', disse.
 
A Igreja tem as Chaves do Reino dos Céus, e jamais ela pode perder o trem da História. Ela é rainha da História.
Ela é Rainha dos corações e Mestra da Verdade que não muda, guardiã da Lei da qual nem um só jota será tirado.
 
Nada valem acordos políticos de cegos com paralíticos a fim de aprovar a lepra.
 
Diante de tudo isso, cabe perguntar: Para onde vai a  Igreja? Cabe bem perguntar respeitosamente a Bento XVI:
Quo vadis, Domine?
 
É certo que os modernistas radicais estão dispostos a tudo – inclusive a rasgar a rede de Pedro – estão prontos a dilacerar a Igreja, para executar o seu programa. E como o mal é dinâmico, eles exigirão cada vez mais maiores concessões e capitulações.
 
O Papa resistirá! A Igreja não perecerá.
 
Conforme registrou o jornalista John Allen:
 
“Obviamente, o Papa Bento está ciente de que alguns Católicos estão hesitantes quanto ao rumo que seu papado tomará, e ele está se esforçando nos primeiros dias para acalmar as ansiedades”.
 
“Não se enganem: o pontificado de Bento XVI será dramático, e ele nem sempre será confortável para os católicos cujas opiniões podem convencionalmente ser descritas como “liberais” em matéria de moral sexual, dissidência teológica ou autoridade na Igreja. Ao mesmo tempo, o Papa Bento XVI é conhecido como um homem de profunda inteligência e profundo amor pela Igreja, e até hoje não deu prova de que ele pretenda lançar um novo expurgo anti-modernista.(Isso não impediu que alguns alegres partidários dele fizessem sua própria lista de inimigos, mas é cedo demais para saber o que virá de tudo isso.) Minha opinião pessoal é que Bento XVI é um Papa que pode surpreender a todos. Qualquer que seja o rumo de seu pontificado, será fascinante observá-lo.” (Os destaques são nossos).
(John L. Allen Jr. Pondering the first draft of history: Reflections on covering one pope's funeral and another's election. The Word From Rome, 26 de Abril de 2005, Vol. 4, No. 29.)
 
O pontificado de Bento XVI promete, sim, ser dramático.
 
Que fará o papa? Que farão os modernistas?
 
Se os modernistas radicais impuserem a sua vontade, vai se permitir então o fim do celibato sacerdotal?
 
Os padres poderão se casar? As mulheres serão ordenadas? O aborto será liberado?  A eutanásia será aprovada? O casamento gay será liberado? Admitir-se-á a evolução da moral?  O dogma deixará de ser exigido? A ditadura do relativismo triunfará?
 
Se tudo isso, que o Cardeal Ratzinger condenou, junto com a Igreja Católica, se tudo isso for aprovado, haveria quem à
tentação de dizer que as portas do inferno teriam prevalecido.
 
Ora, a promessa de Cristo não pode falhar. 
 
As portas do inferno não prevalecerão. A rede de Pedro não será rasgada. A Igreja jamais deixará de ser una.
 
Os acordos, frutos de conchavos, — se eles existiram – não serão cumpridos.
 
Bento XVI governará infalivelmente a Igreja com a voz de Cristo que jamais muda.
 
Pode a situação se tornar confusa e muito grave, mas a Igreja  é imperecível e o Papa é infalível.
 
Bento XVI resistirá aos lobos.
 
Os féis rezarão pelo Pastor, e Deus dar-lhe-á a força de não fugir dos lobos, e a coragem para enfrentá-los.
 
Claro que essa resistência poderá vir a significar a realização da visão do Terceiro Segredo de Fátima: um Papa fuzilado por subir o Calvário para rezar a Missa de sempre. Mas se o sangue dos mártires é semente de cristãos, que messe imensa não produzirá o martírio de um Papa por ter ousado levantar a Cristo na Hóstia consagrada?
 
A Montfort atende com fidelidade e obediência total ao pedido de Bento XVI, e reza para que Deus lhe dê a coragem para não fugir dos lobos, e ainda mais que lhe conceda fortaleza para enfrentá-los.
 
Hoje, a Montfort, de joelhos, reza pelo Papa, reza por Bento XVI, para que Deus o fortaleça e o faça o condutor seguro e impertérrito da Igreja, trazendo-a de volta para Roma, para as duas colunas vistas por Dom Bosco em sua profecia: a coluna da Hóstia e a coluna de Nossa Senhora.
 
Quando virá esse dia?  Quando cessará a tempestade? Quando será a alvorada?
 
Ninguém conhece o futuro. Mas, como católicos conhecemos que, no futuro, a Igreja triunfará. As portas do inferno não prevalecerão. Bento XVI -- Deo adjuvante -- realizará a vitória da Igreja.
 
Os acontecimentos se precipitam. Bento XVI foi eleito com 78 anos. Seu pontificado normalmente não será muito longo.  E será dramático.
 
Rezemos pelo Papa!
 
No horizonte desponta o sol.  A noite passará depressa. A aurora da verdade católica já raia no horizonte da História.
Amen. Veni, Domine Jesus.
 
Porque cremos em Vós e em Vossa palavra. Cremos no Papa, e rezamos por ele.
 
E se lhe perguntamos: Quo vadis, Domine ?, não é por duvidar, mas para obedecer à sua palavra infalível e indefectível que aponta o rumo verdadeiro com a bússola da infalibilidade que não foi usada pelo pastoral Vaticano II.
 
Santidade, aonde iremos senão a ti?
 
Somente tu, tens a palavra infalível da vida eterna.
 
Dic nobis: Quo vadis, Domine?
 
            São Paulo, 28 de Abril de 2.005
            Orlando Fedeli
 

 
Apêndices
 
Documento  1
 
Sermão do Cardeal Joseph Ratzinger na abertura do Conclave, na Missa Pro Eligendo Pontífice, no dia 18 de Abril de 2.005
 
'Nesta hora de grande responsabilidade, escutamos com particular atenção aquilo que o Senhor nos diz com as suas próprias palavras. Das três leituras, queria escolher apenas algumas passagens que nos dizem diretamente respeito, num momento como este.
 
A primeira leitura oferece um retrato profético da figura do Messias - um retrato que ganha todo o seu significado quando Jesus lê este texto na sinagoga de Nazaré, e diz: «Hoje cumpriu-se este passo da Escritura» (Lc 4, 21). No centro deste texto profético, encontramos uma palavra que - pelo menos à primeira vista - parece contraditória. O Messias, falando de Si mesmo, diz que foi enviado «a proclamar o ano da graça do Senhor, o dia da vingança da parte do nosso Deus» (Is 61, 2).
 
Escutemos, com alegria, o anúncio do ano da misericórdia: a misericórdia divina põe um limite ao mal - disse-nos o Santo Padre. Jesus Cristo é a Misericórdia divina em pessoa: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus.
 
O mandato de Cristo tornou-se o nosso mandato, através da unção sacerdotal; somos chamados a promulgar - não só com palavras, mas com a vida, e com os sinais eficazes dos sacramentos, «o ano de misericórdia do Senhor».
Mas o que é que Isaías quer dizer quando anuncia o «dia da vingança do nosso Deus»? Jesus, em Nazaré, na sua leitura do texto profético, não pronunciou estas palavras - concluiu anunciando o ano da misericórdia. Foi talvez, este o motivo do escândalo que se gerou depois da sua pregação? Não o sabemos.
 
De qualquer modo, o Senhor ofereceu o seu comentário autêntico relativamente a estas palavras com a morte de cruz. «Ele levou os nossos pecados em seu Corpo, sobre o madeiro…», diz S. Pedro (1 Pe 2, 24). E S. Paulo escreve aos Gálatas: «Cristo resgatou-nos da maldição da Lei, ao fazer-Se maldição por nós, pois está escrito: “Maldito seja todo aquele que é suspenso no madeiro”. Isto para que a bênção de Abraão chegasse até aos gentios, em Cristo Jesus, para recebermos a promessa do Espírito, por meio da fé» (Gl 3, 13 ss.). A misericórdia de Cristo não é uma graça que se pode comprar por baixo preço, não supõe a banalização do mal. Cristo carrega no seu Corpo e na sua Alma todo o peso do mal, toda a sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor.
 
O dia da vingança e o ano da misericórdia coincidem no Mistério Pascal, em Cristo morto e ressuscitado. Esta é a vingança de Deus: Ele mesmo, na Pessoa do Filho, sofre por nós.
 
Quanto mais somos tocados pela misericórdia do Senhor, tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento - tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne «o que falta à Paixão de Cristo» (Cl 1, 24).
 
Passemos à segunda Leitura, à Carta aos Efésios. Aqui, trata-se, essencialmente, de três coisas: em primeiro lugar, dos ministérios e dos carismas na Igreja, como dons do Senhor ressuscitado e que subiu ao Céu; em seguida, trata-se do amadurecimento da fé e do conhecimento do Filho de Deus, como condição e conteúdo da unidade no corpo de Cristo; e, por fim, trata-se da participação comum no crescimento do Corpo de Cristo, isto é, da transformação do mundo na comunhão com o Senhor. Detenhamo-nos apenas sobre dois pontos.
 
O primeiro é o caminho para «a maturidade de Cristo» - assim diz o texto italiano, simplificando um pouco. Segundo o texto grego, devemos mais precisamente falar da «medida da plenitude de Cristo», à qual somos chamados a atingir, para sermos realmente adultos na fé. Não devemos permanecer crianças na fé, em estado de menoridade. E em que é que consiste ser crianças na fé? Responde S. Paulo: significa ser «batidos pelas ondas e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina…» (Ef 4, 14). Uma descrição muito atual! Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi não raro agitada por estas ondas - lançada dum extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao ponto de chegar à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.
 
Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que S. Paulo disse sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é freqüentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar «ao sabor de qualquer vento de doutrina», aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio «eu» e os seus apetites.
 
Nós, pelo contrário, temos um outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É Ele a medida do verdadeiro humanismo. Não é «adulta» uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É esta amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade.
 
Devemos amadurecer esta fé adulta. A esta fé devemos guiar o rebanho de Cristo. E é esta fé - e somente a fé - que cria unidade e se realiza na caridade. Em contraste com as contínuas peripécias daqueles que são como crianças batidas pelas ondas, S. Paulo oferece-nos a este propósito uma bela palavra: praticar a verdade na caridade, como fórmula fundamental da existência cristã. Em Cristo, verdade e caridade coincidem. Na medida em que nos aproximamos de Cristo, assim também na nossa vida, verdade e caridade se fundem. A caridade sem a verdade seria cega; a verdade sem a caridade seria como «um címbalo que tine» (1 Cor 13, 1).
 
Vejamos agora o Evangelho, de cuja riqueza queria extrair apenas duas pequenas observações. O Senhor dirige-nos estas maravilhosas palavras: «Já não vos chamo servos… mas chamei-vos amigos» (Jo 15, 15). Tantas vezes sentimos que somos - e é verdade - apenas servos inúteis (cf. Lc 17, 10). E não obstante isto, o Senhor chama-nos amigos, faz-nos seus amigos, dá-nos a sua amizade. O Senhor define a amizade de um duplo modo. Não existem segredos entre amigos: Cristo diz-nos tudo quanto escuta do Pai; dá-nos toda a sua confiança e, com a confiança, também o conhecimento. Revela-nos o seu rosto, o seu coração. Mostra-nos a sua ternura por nós, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da cruz. Confia-se a nós, dá-nos o poder de falar com o seu Eu: «Isto é o meu Corpo…», «Eu te absolvo…». Confia o seu Corpo, a Igreja a nós.
 
Confia às nossas débeis mentes, às nossas débeis mãos a sua Verdade - o mistério de Deus Pai, Filho e Espírito Santo; o mistério do Deus que «amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito» (Jo 3, 16). Fez de nós seus amigos - e nós, como respondemos?
 
O segundo elemento, com que Jesus define a amizade é a comunhão das vontades. «Idem velle - idem nolle», era também para os Romanos a definição de amizade. «Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando» (Jo 15, 14). A amizade com Cristo coincide com aquilo que o terceiro pedido do Pai-Nosso exprime: «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu». Na hora do Getsêmani, Jesus transformou a nossa vontade humana rebelde em vontade conforme e unida à vontade divina. Sofreu todo o drama da nossa autonomia - e é exatamente pondo a nossa vontade nas mãos de Deus, que nos dá a verdadeira liberdade: «Não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» (Mt 26, 39). Nesta comunhão das vontades, realiza-se a nossa Redenção: ser amigos de Jesus, tornar-se amigos de Deus. Quanto mais amamos Jesus, tanto mais O conhecemos, tanto mais cresce a nossa verdadeira liberdade, cresce a alegria de ser redimidos. Obrigado Jesus, pela tua amizade!
 
O outro elemento do Evangelho que queria acenar é o discurso de Jesus sobre o dar fruto: «Fui Eu que vos escolhi e vos destinei para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). Aparece aqui o dinamismo da existência do cristão, do apóstolo: Escolhi-vos para que vades… Devemos animar-nos nesta santa inquietação: a inquietação de levar a todos o dom da fé, da amizade com Cristo. Em verdade, o amor, a amizade de Deus foi-nos dada para que chegue também aos outros. Recebemos a fé para a dar a outros - somos sacerdotes para servir outros. E devemos dar um fruto que permaneça.
 
Todos os homens querem deixar um rasto que permaneça. Mas o que é que permanece? O dinheiro não. Os edifícios também não; muito menos os livros. Após um certo tempo, mais ou menos longo, todas estas coisas desaparecem. A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem criado por Deus para a eternidade.
 
O fruto que permanece é, portanto, aquilo que semeamos nas almas humanas - o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria do Senhor.
 
Então vamos e rezemos ao Senhor para que nos ajude a dar fruto, um fruto que permaneça. Somente assim a terra se transforma de vale de lágrimas, em jardim de Deus.
 
Enfim, voltemos mais uma vez, à Carta aos Efésios. A Carta diz - com as palavras do Salmo 68 - que Cristo, tendo subido ao Céu, «distribuiu dons pelos homens» (Ef 4, 8).
 
O Vencedor distribui dons. E estes dons são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é um dom de Cristo aos homens, para construir o seu Corpo - o mundo novo. Vivamos o nosso ministério assim, como dom de Cristo para os homens! Mas nesta hora, sobretudo, rezemos com insistência ao Senhor, para que depois do grande dom do Papa João Paulo II, nos dê novamente um Pastor segundo o seu coração, um Pastor que nos leve ao conhecimento de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria. Amém.'
Fonte: CNBB  ( Os destaques são nossos)
         

 
 
'SANTA MISSA PELA IGREJA UNIVERSAL'

PRIMEIRA MENSAGEM DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
NO FINAL DA CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
COM OS CARDEAIS ELEITORES NA CAPELA SISTINA
Quarta-feira, 20 de Abril de 2005
 
 
Venerados Irmãos Cardeais

Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo

Vós todos, homens e mulheres de boa vontade!
 
1. Graça e paz em abundância para todos vós (cf. 1 Pd 1, 2)! Convivem no meu coração nestas horas dois sentimentos contrastantes. Por um lado, um sentido de inaptidão e de humana perturbação pela responsabilidade que ontem me foi confiada, como Sucessor do Apóstolo Pedro nesta Sede de Roma, diante da Igreja universal. Por outro lado, sinto viva em mim uma profunda gratidão a Deus, que como nos faz cantar a liturgia não abandona o seu rebanho, mas o guia através dos tempos, sob a guia de quantos Ele mesmo elegeu vigários do seu Filho e constituiu pastores (cf. Prefácio dos Apóstolos I).
Caríssimos, este reconhecimento íntimo por um dom da divina misericórdia prevalece apesar de tudo no meu coração. E considero este facto uma graça especial que me foi obtida pelo meu venerado Predecessor, João Paulo II. Tenho a impressão de sentir a sua mão forte que estreita a minha; parece que vejo os seus olhos sorridentes e que ouço as suas palavras, dirigidas neste momento particularmente a mim: 'Não tenhas medo!'.
 
A morte do Santo Padre João Paulo II, e os dias que se seguiram, foram para a Igreja e para o mundo inteiro um tempo extraordinário de graça. O grande sofrimento pelo seu desaparecimento e o sentido de vazio que deixou em todos foram atenuados pela ação de Cristo ressuscitado, que se manifestou durante longos dias na coral onda de fé, de amor e de espiritual solidariedade, que teve o ponto mais alto nas suas solenes exéquias.
 
Podemos dizê-lo: os funerais de João Paulo II foram uma experiência verdadeiramente extraordinária na qual se sentiu de certa forma o poder de Deus que, através da sua Igreja, deseja formar, de todos os povos, uma grande família, mediante a força unificadora da Verdade e do Amor (cf. Lumen gentium, 1). Na hora da morte, conformado com o seu Mestre e Senhor, João Paulo II coroou o seu longo e fecundo Pontificado, confirmando na fé o povo cristão, reunindo-o à sua volta e fazendo com que toda a família humana se sentisse mais unida.
 
Como não nos sentirmos amparados por este testemunho? Como não sentir o encorajamento que provém deste acontecimento de graça?
 
2. Surpreendendo qualquer minha previsão, a Providência divina, através do voto dos venerados Padres Cardeais, chamou-me a suceder a este grande Papa. Nestas horas penso de novo em tudo o que aconteceu na região de Cesaréia de Filipe, há dois mil anos. Parece que ouço as palavras de Pedro: 'Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo', e a solene afirmação do Senhor: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja... dar-te-ei as chaves do Reino do Céu' (Mt 16, 15-19).
Tu és o Cristo! Tu és Pedro! Parece-me reviver a mesma cena evangélica; eu, Sucessor de Pedro, repito com trepidação as palavras trepidantes do pescador da Galiléia e ouço novamente com íntima emoção a promessa tranqüilizante do divino Mestre. Se é enorme o peso da responsabilidade que recai sobre os meus pobres ombros, é certamente desmedido o poder divino sobre o qual posso contar: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja' (Mt 16, 18). Ao escolher-me para Bispo de Roma, o Senhor quis-me para seu Vigário, quis-me 'pedra' sobre a qual todos possam apoiar-se com segurança. Peço-Lhe que auxilie a pobreza das minhas forças, para que eu seja corajoso e fiel Pastor do seu rebanho, sempre dócil às inspirações do seu Espírito.
 
Preparo-me para empreender este peculiar ministério, o ministério 'petrino' ao serviço da Igreja universal, com humilde abandono nas mãos da Providência de Deus. É em primeiro lugar a Cristo que renovo a minha total e confiante adesão: 'In Te, Domine, speravi; non confundar in aeternum!'.
 
A vós, Senhores Cardeais, com o ânimo grato pela confiança que me demonstrastes, peço que me apoieis com a oração e a constante, ativa e sábia colaboração. Peço também a todos os Irmãos no Episcopado que me acompanhem com a oração e com os conselhos, para que eu possa ser verdadeiramente o Servus servorum Dei. Assim como Pedro e como os outros Apóstolos constituíram por vontade do Senhor um único Colégio apostólico, do mesmo modo o Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos o Concílio recordou-o com vigor (cf. Lumen gentium, 22) devem estar entre si intimamente unidos. Esta comunhão colegial, mesmo se na diversidade dos papéis e das funções do Romano Pontífice e dos Bispos, está ao serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em grande medida a eficiência da acção evangelizadora no mundo contemporâneo. Por conseguinte, por esta vereda pela qual caminharam os meus venerados Predecessores, também eu pretendo prosseguir unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo.
 
3. Tenho às minha frente, em particular, o testemunho do Papa João Paulo II. Ele deixa uma Igreja mais corajosa, mais livre, mais jovem. Uma Igreja que, segundo o seu ensinamento e exemplo, olha com serenidade para o passado e não tem medo do futuro. Com o Grande Jubileu foi introduzida no novo milênio levando nas mãos o Evangelho, aplicado ao mundo atual através da autorizada repetida leitura do Concílio Vaticano II. Justamente o Papa João Paulo II indicou o Concílio como 'bússola' com a qual orientar-se no vasto oceano do terceiro milênio (cf, Carta apost. Novo millennio ineunte, 57-58). Também no seu Testamento espiritual ele anotava: 'Estou convencido que ainda será concedido às novas gerações haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos concedeu' (17.III.2000).
 
Por conseguinte, também eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de atuação do Concílio Vaticano II, no seguimento dos meus Predecessores e em fiel continuidade com a bi-milenária tradição da Igreja. Celebrar-se-á precisamente este ano o 40º aniversário da conclusão da Assembléia conciliar (8 de Dezembro de 1965). Com o passar dos anos, os Documentos conciliares não perderam atualidade; ao contrário, os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas situações da Igreja e da atual sociedade globalizada.
 
4. De maneira mais do que nunca significativa, o meu Pontificado começa no momento em que a Igreja está a viver o especial Ano dedicado à Eucaristia. Como não tirar desta providencial coincidência um elemento que deve caracterizar o ministério para o qual fui chamado? A Eucaristia, coração da vida cristã e fonte da missão evangelizadora da Igreja, não pode deixar de constituir o centro permanente e a fonte do serviço petrino que me foi oferecido.
 
A Eucaristia torna constantemente presente Cristo ressuscitado, que continua a oferecer-se a nós, chamando-nos a participar da mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Da comunhão plena com Ele brotam todos os outros elementos da vida da Igreja, em primeiro lugar a comunhão entre todos os fiéis, o compromisso de anúncio e testemunho do Evangelho, o fervor da caridade para com todos, especialmente para com os mais pobres e pequeninos.
 
Por conseguinte, neste ano deverá ser celebrada com particular relevo a Solenidade do Corpus Domini. Depois, a Eucaristia estará no centro, em Agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Colônia, que se desenvolverá sobre o tema: 'A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja'. Peço a todos que intensifiquem nos próximos meses o amor e a devoção a Jesus Eucaristia e que exprimam de modo corajoso e claro a fé na presença real do Senhor, sobretudo mediante a solenidade e a retidão das celebrações.
 
Peço isto de modo especial aos Sacerdotes, nos quais penso neste momento com grande afeto. O Sacerdócio ministerial nasceu no Cenáculo, juntamente com a Eucaristia, como muitas vezes realçou o meu venerado Predecessor João Paulo II. 'A existência sacerdotal deve a título especial tomar 'forma eucarística'', escreveu na sua última Carta para a Quinta-Feira Santa (n. 1). Para esta finalidade contribui antes de mais a devota celebração quotidiana da sua santa Missa, centro da vida e da missão de cada Sacerdote.
 
5. Alimentados e sustentados pela Eucaristia, os católicos não podem deixar de se sentir estimulados a tender para aquela unidade plena que Cristo desejou ardentemente no Cenáculo. Deste supremo anseio do Mestre divino o Sucessor de Pedro deve ocupar-se de modo muito especial. De fato, a ele foi confiada a tarefa de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 32).
 
Por conseguinte, com plena consciência, no início do seu ministério na Igreja de Roma, na qual Pedro derramou o seu sangue, o atual Sucessor assume como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo. Esta é a sua ambição, este é o seu impelente dever. Ele está consciente de que para isto não são suficientes as manifestações de bons sentimentos. São necessários gestos concretos que entrem nos corações e despertem as consciências, enternecendo cada um àquela conversão interior que é o pressuposto de qualquer progresso pelo caminho do ecumenismo.
 
O diálogo teológico é necessário, o aprofundamento das motivações históricas de opções feitas no passado também é indispensável. Mas o que é mais urgente é aquela 'purificação da memória', tantas vezes recordada por João Paulo II, a única que pode predispor os ânimos ao acolhimento da plena verdade de Cristo. É diante d'Ele, supremo Juiz de cada ser vivo, que cada um de nós se deve apresentar, na autoconsciência de que um dia Lhe deve prestar contas por tudo o que fez ou não em relação ao grande bem da plena e visível unidade de todos os seus discípulos.
 
O atual Sucessor de Pedro deixa-se interpelar em primeira pessoa por esta exigência e está disposto a fazer tudo o que estiver em seu poder para promover a fundamental causa do ecumenismo. No seguimento dos seus Predecessores, ele está plenamente determinado a cultivar todas as iniciativas que possam parecer oportunas para promover os contactos e o entendimento com os representantes das diversas Igrejas e Comunidades eclesiais. Aliás, envia também a eles nesta ocasião a saudação mais cordial em Cristo, único Senhor de todos.
 
6. Neste momento, volto com a memória à inesquecível experiência vivida por todos nós por ocasião da morte e dos funerais do saudoso João Paulo II, Em volta dos seus despojos mortais, colocados na terra nua, reuniram-se os Chefes das Nações, pessoas de todas as camadas sociais, e sobretudo jovens, num inesquecível abraço de afecto e de admiração. Para ele olhou com confiança todo o mundo. Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até aos confins do planeta pelos meios de comunicação social, fosse como um coral pedido de ajuda dirigido ao Papa da parte da humanidade de hoje que, perturbada por incertezas e temores, se interroga sobre o seu futuro.
 
A Igreja de hoje deve reavivar em si mesma a consciência da tarefa de repropor ao mundo a voz d'Aquele que disse: 'Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida' (Jo 8, 12). Ao empreender o seu ministério o novo Papa sabe que a sua tarefa é fazer resplandecer aos olhos dos homens e das mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua, mas a verdadeira luz do próprio Cristo.
Com esta consciência dirijo-me a todos os que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta para os interrogativos fundamentais da existência e ainda não a encontraram. Dirijo-me a todos com simplicidade e afeto, para garantir que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, na busca do verdadeiro bem do homem e da sociedade.
 
Peço instantemente a Deus a unidade e a paz para a família humana e declaro a disponibilidade de todos os católicos na cooperação de um autêntico desenvolvimento social, respeitador da dignidade de cada ser humano.
 
Não pouparei esforços nem dedicação para prosseguir o prometedor diálogo iniciado pelos meus venerados Predecessores com as diversas civilizações, porque da compreensão recíproca surgem as condições de um futuro para todos.
 
Penso em particular nos jovens. A eles, interlocutores privilegiados do Papa João Paulo II, dirijo o meu abraço afetuoso na expectativa, se Deus quiser, de me encontrar com Eles em Colônia por ocasião da próxima Jornada Mundial da Juventude. Convosco, amados jovens, futuro e esperança da Igreja e da humanidade, continuarei a dialogar, ouvindo as vossas expectativas com a intenção de vos ajudar a encontrar sempre mais em profundidade o Cristo vivo, o eternamente jovem.
 
7. Mane nobiscum, Domine! Permanece conosco, Senhor! Esta invocação, que forma o tema dominante da Carta apostólica de João Paulo II para o Ano da Eucaristia, é a oração que brota espontânea do meu coração, enquanto me preparo para iniciar o ministério ao qual Cristo me chamou. Como Pedro, também eu Lhe renovo a minha incondicionada promessa de fidelidade. Ele é o único que pretendo servir dedicando-me totalmente ao serviço da sua Igreja.
 
Para amparar esta promessa invoco a intercessão materna de Maria Santíssima, em cujas mãos confio o presente e o futuro da minha pessoa e da Igreja. Intervenham com a sua intercessão também os Santos Apóstolos Pedro e Paulo e todos os Santos.
 
Com estes sentimentos concedo a vós, venerados Irmãos Cardeais, a quantos participam neste rito e a todos os que escutam através da televisão e da rádio uma especial, afetuosa Bênção.

 
Documento 3
 
DISCORSO DI SUA SANTITÀ BENEDETTO XVI
AGLI EMINENTISSIMI SIGNORI CARDINALI
PRESENTI IN ROMA
Sala Clementina
Venerdì, 22 aprile 2005
 
 
Venerati Fratelli Cardinali!
 
1. Vi incontro anche quest’oggi e vorrei farvi parte, in maniera semplice e fraterna, dello stato d’animo che sto vivendo in questi giorni. Alle intense emozioni provate in occasione della morte del mio venerato predecessore Giovanni Paolo II e poi durante il Conclave e soprattutto al suo epilogo si assommano un intimo bisogno di silenzio e due sentimenti tra loro complementari: un vivo desiderio del cuore di ringraziare e un senso di umana impotenza dinanzi all’alto compito che mi attende.
 
Innanzitutto la gratitudine. Sento, in primo luogo, di dover rendere grazie a Dio, che mi ha voluto, nonostante la mia umana fragilità, quale Successore dell’apostolo Pietro, e mi ha affidato il compito di reggere e guidare la Chiesa, perché sia nel mondo sacramento di unità per l’intero genere umano (cfr Lumen gentium, 1). Ne siamo certi, è l’eterno Pastore a condurre con la forza del suo Spirito il suo gregge, ad esso assicurando, in ogni tempo, Pastori da Lui scelti. In questi giorni si è levata corale la preghiera del popolo cristiano per il nuovo Pontefice e davvero emozionante è stato il primo incontro con i fedeli, l’altro ieri sera, in Piazza San Pietro: a tutti, Vescovi, sacerdoti, religiosi e religiose, giovani e anziani giunga il mio più sentito ringraziamento per questa loro spirituale solidarietà.
 
2. Un vivo ringraziamento sento di dover rivolgere a ciascuno di voi, venerati Fratelli, cominciando dal Signor Cardinale Angelo Sodano che, facendosi interprete dei comuni sentimenti, mi ha indirizzato poc’anzi affettuose espressioni e cordiali voti augurali. Con lui ringrazio il Signor Cardinale Camerlengo Eduardo Martínez Somalo, per il servizio generosamente reso in questa delicata fase di passaggio.
 
Desidero poi estendere la mia sincera riconoscenza a tutti i membri del Collegio Cardinalizio per l’attiva collaborazione da essi prestata alla gestione della Chiesa durante la Sede Vacante. Con particolare affetto vorrei salutare i Cardinali che, a motivo della loro età o per malattia, non hanno preso parte al Conclave. A ciascuno sono grato per l’esempio che hanno dato di disponibilità e di comunione fraterna, come pure per la loro intensa preghiera, espressioni entrambi di amore fedele alla Chiesa, sposa di Cristo.
 
Un grazie sentito non posso, inoltre, non rivolgere a quanti, con diverse mansioni, hanno cooperato all’organizzazione e allo svolgimento del Conclave, aiutando in molti modi i Cardinali a trascorrere nel modo più sicuro e tranquillo queste giornate cariche di responsabilità.
 
3. Venerati Fratelli, a voi il mio più personale ringraziamento per la fiducia che avete riposto in me eleggendomi Vescovo di Roma e Pastore della Chiesa universale. E’ un atto di fiducia che costituisce un incoraggiamento a intraprendere questa nuova missione con più serenità, perché sono persuaso di poter contare, oltre che sull’indispensabile aiuto di Dio, anche sulla vostra generosa collaborazione. Vi prego, non fatemi mai mancare questo vostro sostegno! Se da una parte mi sono presenti i limiti della mia persona e delle mie capacità, dall’altra so bene qual è la natura della missione che mi è affidata e che mi accingo a svolgere con atteggiamento di interiore dedizione. Non si tratta qui di onori, bensì di servizio da svolgere con semplicità e disponibilità, imitando il nostro Maestro e Signore, che non venne per essere servito ma per servire (cfr Mt 20,28), e nell’Ultima Cena lavò i piedi degli apostoli comandando loro di fare altrettanto (cfr Gv 13,13-14). Non resta pertanto, a me e a tutti noi insieme, che accettare dalla Provvidenza la volontà di Dio e fare del nostro meglio per corrispondervi, aiutandoci gli uni gli altri nell’adempimento dei rispettivi compiti a servizio della Chiesa.
 
4. Mi è caro in questo momento riandare col pensiero ai venerati miei Predecessori, il beato Giovanni XXIII, i servi di Dio Paolo VI e Giovanni Paolo I e specialmente Giovanni Paolo II, la cui testimonianza nei giorni scorsi, più che mai, ci ha sostenuto e la cui presenza continuiamo ad avvertire sempre viva. Il doloroso evento della sua morte, dopo un periodo di grandi prove e sofferenze, si è rivelato in realtà con caratteristiche pasquali, come egli aveva auspicato nel suo Testamento (24.II - 1.III.1980). La luce e la forza di Cristo risorto sono state irradiate nella Chiesa da quella sorta di “ultima Messa” che egli ha celebrato nella sua agonia, culminata nell’“Amen” di una vita interamente offerta, per mezzo del Cuore Immacolato di Maria, per la salvezza del mondo.
 
5. Venerati Fratelli! Ciascuno tornerà ora nella rispettiva Sede per riprendere il suo lavoro, ma spiritualmente resteremo uniti nella fede e nell’amore del Signore, nel vincolo della celebrazione eucaristica, nella preghiera insistente e nella condivisione del quotidiano ministero apostolico. La vostra spirituale vicinanza, i vostri illuminati consigli e la vostra fattiva cooperazione saranno per me un dono del quale vi sarò sempre riconoscente e uno stimolo a portare a compimento il mandato affidatomi con totale fedeltà e dedizione.
 
Alla Vergine Madre di Dio, che ha accompagnato con la sua silenziosa presenza i passi della Chiesa nascente e ha confortato la fede degli Apostoli, affido tutti noi e le attese, le speranze e le preoccupazioni dell’intera comunità dei cristiani. Sotto la materna protezione di Maria, Mater Ecclesiae, vi invito a camminare docili e obbedienti alla voce del suo divin Figlio e nostro Signore Gesù Cristo. Invocandone il costante patrocinio, imparto di cuore la Benedizione Apostolica a ognuno di voi e a quanti la Provvidenza divina affida alle vostre cure pastorali.
 

 
       Documento  4
 
Sermão de Bento XVI na Missa de entronização a  24 de Abril de 2.005:
Praça de São Pedro
Domingo 24 de Abril de 2005
 
Senhores Cardeais, Veneráveis Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio distintas Autoridades e Membros do Corpo diplomático, queridos Irmãos e Irmãs:
 
“Durante estes dias tão intensos, cantamos a Ladainha de Todos os Santos em três diferentes ocasiões: no funeral de nosso Santo Padre João Paulo II; quando os Cardeais entraram em conclave; e novamente hoje, quando cantamos com a invocação: Tu illum adiuva - ampara o novo Sucessor de Pedro. Em cada ocasião, de modo completamente singular, encontrei grande consolo. Como nos sentimos sós após o falecimento de João Paulo II - o Papa que por mais de 26 anos foi nosso pastor e guia em nossa jornada pela vida! Ele cruzou o limiar da próxima vida, entrando no mistério de Deus. Mas não deu o passo sozinho. Aqueles que crêem nunca estão sós - nem na vida, nem na morte. Naquele momento, pudemos invocar os santos de todos os séculos - seu amigos, irmãos e irmãs na fé - sabendo que formariam uma procissão viva para acompanhá-lo ao próximo mundo, rumo à glória de Deus. Sabíamos que sua chegada era esperada. Agora sabemos que está entre os seus, realmente em casa. Também fomos consolados ao fazer nossa entrada solene no conclave, para eleger aquele que o Senhor escolheu. Como seríamos capazes de discernir-lhe o nome? Como poderiam 115 bispos, de cada cultura e de cada país, descobrir aquele a quem Deus desejava conferir a missão de ligar e desligar? Uma vez mais, sabíamos que não estávamos sós, sabíamos que estávamos cercados, liderados e guiados pelos amigos de Deus. E agora, neste momento, fraco servo de Deus que sou, devo assumir esta tarefa enorme, que realmente excede toda capacidade humana. Como poderei fazê-lo? Como serei capaz de fazê-lo? Todos vós, meus amigos, acabastes de invocar toda a hoste dos santos, representada por alguns dos grandes nomes da história da relação de Deus com a humanidade. Deste modo, também posso dizer com renovada convicção: Não estou só. Não tenho que carregar sozinho a verdade que jamais poderia carregar sozinho. Todos os santos de Deus estão lá e me protegem, amparam e conduzem. E vossas preces, amigos queridos, vossa indulgência, vosso amor, vossa fé e vossa esperança acompanham-me. De fato, a comunhão dos santos consiste não apenas nos grandes homens e mulheres que foram antes de nós e cujos nomes conhecemos. Todos nós pertencemos à comunhão dos santos, nós que fomos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nós que tiramos vida da dádiva do sangue e do corpo de Cristo, por meio dos quais Ele nos transforma e nos faz como si mesmo. Sim, a Igreja está viva - esta é a maravilhosa experiência destes dias. Durante aqueles tristes dias da doença e morte do papa, tornou-se maravilhosamente evidente para nós que a Igreja vive. E a Igreja é jovem. Ela mantém em si o futuro do mundo e, portanto, mostra a cada um de nós o caminho para o futuro. A Igreja está viva e vemos isso: experimentamos a alegria que o Senhor Ressuscitado prometeu a seus seguidores. A Igreja vive - ela está viva porque Cristo vive, porque ele é verdadeiramente ressuscitado. No sofrimento que vimos no rosto do Santo Padre naqueles dias de Páscoa, contemplamos o mistério da Paixão do Cristo e tocamos suas chagas. Mas nesses dias também fomos capazes, num senso profundo, de tocar o Ressuscitado. Pudemos experimentar a alegria que Ele prometeu, após um breve período de trevas, como fruto de Sua ressurreição.
 
A Igreja está viva - com essas palavras, saúdo com grande alegria e gratidão todos vós reunidos aqui, meus veneráveis irmãos cardeais e bispos, meus queridos padres, diáconos, trabalhadores da Igreja, catequistas. Saúdo-os, homens e mulheres Religiosos, testemunhas da presença transfigurante Deus. Saúdo-os, fiéis leigos, imersos na grande tarefa de construir o Reino de Deus que se espalha pelo mundo, em cada área da vida. Com grande afeição também saúdo todos aqueles que renasceram no sacramento do Batismo mas ainda não estão em comunhão total conosco; e vós, meus irmãos e irmãs do povo judaico, com quem somos unidos por uma grande herança espiritual compartilhada, enraizada nas promessas irrevogáveis de Deus. Finalmente, como uma onda ganhando força, meus pensamentos são para todos os homens e mulheres de hoje, crentes e descrentes.
 
Queridos amigos! Neste momento não é preciso apresentar meu programa de governo. Pude dar uma indicação do que vejo como minha missão na Mensagem de quarta-feira, 20 de abril, e haverá outras oportunidades de fazê-lo. Meu verdadeiro programa não é fazer minha própria vontade, não é perseguir minhas próprias idéias, mas ouvir, juntamente com toda a Igreja, à palavra e à vontade do Senhor, ser guiado por Ele, para que Ele próprio lidere a Igreja nesta hora de nossa história. Em vez de apresentar um programa, simplesmente gostaria de falar sobre os dois símbolos litúrgicos que representam a inauguração do Ministério Petrino: ambos símbolos, além do mais, refletem claramente o que ouvimos proclamado nas leituras de hoje.
 
O primeiro símbolo é o pálio, tecido de pura lã, que será colocado em meus ombros. Este antigo símbolo, que os Bispos de Roma têm usado desde o século IV, pode ser considerado uma imagem do jugo de Cristo, que o bispo desta cidade, o Servo dos Servos de Deus, toma em seus ombros. O jugo de Deus é a vontade de Deus, que aceitamos. E essa vontade não pesa sobre nós, oprimindo-nos e tirando nossa liberdade. Saber o que Deus quer, saber onde está o caminho da vida - essa foi a alegria de Israel, este foi seu grande privilégio. Também é nossa alegria: a vontade de Deus não nos afasta, nos purifica - mesmo se isso pode ser doloroso - e portanto nos conduz a nós mesmos. Deste modo, não servimos apenas a Ele, mas à salvação de todo o mundo, de toda a história. O simbolismo do pálio é ainda mais concreto: a lã do cordeiro pretende significar as ovelhas perdidas, fracas e doentes que o pastor põe sobre os ombros e carrega para as águas da vida. Para os Pais da Igreja, a parábola da ovelha perdida, que o pastor busca no deserto, era uma imagem do mistério de Cristo e da Igreja. A raça humana - cada um de nós - é a ovelha perdida no deserto que não sabe mais o caminho. O Filho de Deus não deixará que isso aconteça; ele não pode abandonar a humanidade em uma condição tão miserável. Ele se ergue e abandona a glória do céu, para buscar a ovelha e persegui-la, todo o caminho até a cruz. Ele a ergue nos ombros e carrega nossa humanidade; Ele carrega a todos nós - é o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas. O que o pálio indica, de mais importante e em primeiro lugar, é que somos todos amparados por Cristo. Mas ao mesmo tempo nos convida a carregar uns aos outros. Assim o pálio se torna um símbolo da missão do pastor, da qual a Segunda Leitura e o Evangelho falam. O pastor deve ser inspirado pelo zelo sagrado de Cristo: para Ele não é indiferente que tantas pessoas vivam no deserto. E há tantos tipos de deserto. Há o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede, o deserto do abandono, da solidão, do amor destruído. Há o deserto das trevas de Deus, o vazio das almas não mais cientes de sua dignidade e do objetivo da vida humana. Os desertos externos do mundo estão crescendo porque os desertos internos tornaram-se tão vastos. Assim, os tesouros da Terra não mais servem para construir o jardim de Deus para todos viverem, mas foram levados a servir aos poderes da exploração e da destruição. A Igreja como um todo e todos seus pastores, como Cristo, devem se dispor a liderar as pessoas para fora do deserto, rumo ao lugar da vida, rumo à amizade com o Filho de Deus, rumo Àquele que nos dá vida, e vida abundante. O símbolo do cordeiro também tem um significado mais profundo. No Oriente Próximo da Antigüidade, era costume os reis se apresentarem como pastores de seus povos. Essa era uma imagem de seu poder, uma imagem cínica: para eles os súditos eram como ovelhas, com as quais o pastor podia fazer o que quisesse. Quando o pastor de toda a humanidade, o Deus vivo, tornou-se cordeiro, Ele ficou ao lado dos cordeiros, com aqueles que são pisados e mortos. Assim é que Ele se revela como o verdadeiro pastor: 'Sou o Bom Pastor... dou a vida pelas ovelhas', Jesus diz de si mesmo (Jo 10:14). Não é poder, mas amor que nos redime! Este é o sinal de Deus: Ele próprio é amor. Com que freqüência gostaríamos que Deus se mostrasse mais forte, que atacasse decisivamente, derrotando o mal e criando um mundo melhor. Todas as ideologias do poder justificam-se dessa forma exata, justificam a destruição do que quer que fique no caminho do progresso e da libertação da humanidade. Sofremos por conta da paciência de Deus. Mas precisamos de Sua paciência. Deus, que se fez cordeiro, diz a nós que o mundo é salvo pelo Crucificado, não pelos que o crucificaram. O mundo é redimido pela paciência de Deus. É destruído pela impaciência do Homem.
 
Uma das características básicas do pastor deve ser amar as pessoas confiadas a ele, do mesmo modo que ama o Cristo a quem serve. 'Apascenta minhas ovelhas', disse Cristo a Pedro, e agora, neste momento, diz o mesmo para mim. Apascentar significa amar, e amar significa estar pronto para sofrer. Amar significa dar às ovelhas o que é verdadeiramente bom, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus, o alimento de Sua presença, que Ele nos dá no Santíssimo Sacramento. Meus queridos amigos - neste momento, só posso dizer: orai por mim, que eu possa aprender a amar o Senhor mais e mais. Orai por mim, para que eu possa aprender a amar Seu rebanho mais e mais - em outras palavras, a santa Igreja, cada um de vós e todos vós juntos. Orai por mim, para que eu possa não fugir com medo dos lobos. Oremos uns pelos outros, que o Senhor nos ampare e que aprendamos a amparar uns aos outros.
 
O segundo símbolo usado na liturgia de hoje para expressar a inauguração do Ministério Petrino é a apresentação do Anel do Pescador. A convocação de Pedro para ser pastor, que ouvimos no Evangelho, vem depois da narração de uma pesca miraculosa: depois de uma noite na qual os discípulos lançaram suas redes sem sucesso, eles vêem o Senhor Ressuscitado na margem. Ele lhes diz que lancem as redes uma vez mais, e as redes ficam tão cheias que mal conseguem puxá-las de volta; havia 153 grandes peixes. 'E embora fossem tantos, a rede não se rasgou' (Jo 21:11). Esta narrativa, ao final da jornada terrestre de Jesus com seus discípulos, corresponde a um relato encontrado no início: ali também, os discípulos não haviam pescado nada a noite inteira; ali também, Jesus convidou Simão a pescar mais uma vez. E Simão, que ainda não se chamava Pedro, deu a maravilhosa resposta: 'Senhor, à tua palavra lançarei as redes'. E então veio a missão: 'Não tenhas medo. Daqui em diante, serás um pescador de homens' (Lc 5:1-11). Hoje também a Igreja e os sucessores dos apóstolos recebem a ordem de partir para o mar profundo da história e lançar redes, para conquistar homens e mulheres para o Evangelho - para Deus, para Cristo, para a vida verdadeira. Os Pais fizeram um comentário muito significativo sobre essa tarefa singular. Eis o que dizem: para o peixe, criado para a água, é fatal ser tirado do mar, ser removido de seu elemento vital para servir como alimento humano. Mas na missão do pescador de homens, o inverso é verdadeiro. Vivemos em alienação, nas águas salgadas do sofrimento e da morte; no mar das trevas sem luz. A rede do Evangelho retira-nos das águas da morte e nos traz para o esplendor da luz de Deus, para a vida verdadeira. E é realmente verdade: conforme seguimos Cristo nesta missão de sermos pescadores de homens, temos de trazer homens e mulheres para fora do mar que é salobro com tantas formas de alienação e para a terra da vida, para a luz de Deus. E é realmente verdade: o propósito de nossas vidas é revelar Deus aos homens. E apenas quando se vê Deus a vida realmente começa. Apenas quando encontramos o Deus vivo em Cristo sabemos o que a vida é. Não somos um produto sem sentido do acaso da evolução. Cada um de nós é resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é desejado, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário. Nada é mais belo que ser surpreendido pelo Evangelho, pelo encontro com Cristo. Nada é mais belo que conhecê-Lo e falar aos outros de nossa amizade com Ele. A tarefa do pastor, a tarefa do pescador de homens, pode muitas vezes parecer cansativa. Mas é bela e maravilhosa, porque é verdadeiramente um serviço para a alegria, para a alegria que Deus deseja espalhar pelo mundo.
 
Aqui quero acrescentar algo: tanto a imagem do pastor quanto a do pescador emitem um chamado explícito pela unidade. 'Tenho outras ovelhas que não são deste rebanho; devo conduzi-las também, e elas ouvirão minha voz. E haverá um rebanho, um pastor' (Jo 10:16); essas são as palavras de Jesus ao final de seu discurso sobre o Bom Pastor. E a narrativa dos 153 grandes peixes termina com a declaração alegre: 'embora haja tantos, a rede não rasgou' (Jo 21:11). Mas, amado Senhor, com tristeza temos de reconhecer que ela se rasgou! Mas não - não devemos nos entristecer! Rejubilemo-nos por causa de Tua promessa, que não desaponta, e que todos façamos tudo o que pudermos para perseguir o caminho da unidade que prometeste. Lembremo-nos em nossa prece ao Senhor, quando pedirmos a ele: sim, Senhor, relembra tua promessa. Faze que haja um rebanho e um pastor! Não permitas que Tua rede se rompa, ajuda-nos a sermos servos da unidade!
 
Neste momento, minha mente retorna a 22 de outubro de 1978, quando o papa João Paulo II iniciou seu ministério aqui, na Praça de São Pedro. Suas palavras naquela ocasião ecoam constantemente em meus ouvidos: 'Não tenhais medo! Abri as portas para Cristo!' O papa falava aos poderosos, às potências deste mundo, que temiam que Cristo tirasse algo de seu poder se o deixassem entrar, se permitissem que a fé fosse livre. Sim, Ele certamente tiraria algo deles: o domínio da corrupção, a manipulação da lei e da liberdade como lhes aprouvesse. Mas Ele não tiraria nada que dissesse respeito à liberdade ou à dignidade humana, ou à construção de uma sociedade justa. O papa também se dirigia a todos, especialmente aos jovens. Não estaremos todos, talvez, temerosos de alguma forma? Se deixarmos Cristo entrar totalmente em nossas vidas, se nos abrirmos totalmente para ele, não teremos medo de que Ele tire algo de nós? Não estaremos talvez temerosos de abandonar algo significativo, algo único, algo que faz a vida tão bela? Não nos arriscamos a acabar diminuídos, ou privados de nossa liberdade? E mais uma vez o papa disse: Não! Se deixarmos Cristo entrar em nossas vidas, não perdemos nada, nada, absolutamente nada do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Apenas nessa amizade as portas da vida são bem abertas. Apenas nessa amizade é o grande potencial da existência humana realmente revelado. Apenas nessa amizade experimentamos beleza e libertação. E assim, hoje, com grande força e grande convicção, com base em uma longa experiência pessoal de vida, digo-vos, queridos jovens: Não tenhais medo de Cristo! Ele não leva nada embora, e dá a vós tudo. Quando nos damos a ele, recebemos cem vezes de volta. Sim, abri, abri bem as portas para Cristo - e encontrareis verdadeira vida. Amém.

    Para citar este texto:
"Quo Vadis, Domine?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/quo_vadis_domine/
Online, 25/09/2017 às 08:42:40h