O Papa

Artigo do site modernista Golias: ´Bento XVI, tradicionalista?`
Christian Terras, Romano Libero

          A expressão, muito audaciosa, é tomada de empréstimo ao Abbé Laguérie, o novo Prior do Instituto do Bom Pastor, reagrupando os os integreistas agora já reconhecidos  por Roma. 
          Essa expressão cheira muito fortemente à recuperação. 
          É por isso que nós julgamos mecessário acrescentar  a essa fórmula um ponto de interrogação. 
          De fato ela contém uma parte de verdade, mas que é preciso delimitar de modo mais exato.

     Bento XVI partilha com a corrente tradicionalista uma visão intransigentista e integralista do catolicismo.
     Como seus amigos da outra margem, ele deseja trabalhar, em todos os planos, por uma verdadeira restauração de uma Igreja poderosa e dona da Verdade. Sua visão sobre o pós Concílio impressiona por sua severidade. Em substância, Joseph Ratzinger deplora a reforma litúrgica.
     Entretanto, ele está longe de partilhar todas as obssessões dos tradicionalistas franceses (por exemplo, em nível político) e ele se recusa a encarar o "verdadeiro" Concílio em termos de ruptura. O que o opõe a Monsenhor Lefebvre.
     Nós preferimos falar de ultra-conservantismo restaurador.
     Presentemente, parece claro para todo o mundo que este pontificado será um pontificado não de compromisso, mas de transição... no sentido forte do termo. Não o de uma mudança adiada, mas antes de verdadeira passagem de um catolicismo ainda marcado pelas audácias conciliares para um nova variante do catolicismo intransigente.
     De fato, os Episcopados locais e numerosos católicos parecem não mais opor resistência a uma tal virada radical. A complacência manifestada pelo Cardeal Ricard com relação aos integristas, que se separa das reticências de seus predecessores, constitui um verdadeiro escândalo para os cristãos de progresso.
     Ela traduz bem também o desmoronamento da utopia dos conciliares reformistas, visando a uma evolução progressiva da Igreja, todavia, sem se libertar radicalmente, de certas maneiras de pensar e de reagir. Essa postura de compromisso, procurando um equilibrio variável entre submissão institucional e liberddae pessoal, foi colocada em crescente dificuldade pela emancipação mais radical da sociedade e dos costumes. O papel de equilibrista tornando-se quase impossível, o número de candidatos forçosamente diminui. Esse envelhecimento das tropas conciliares dá a ilusão numérica de um poder contínuo dos integristas.
     De onde se lhes dá um ouvido cada vez mais favorável.
     Bento XVI, de certo modo, acompanha essa evolução. Ao mesmo tempo, ele a vigia, a controla e a implanta duravelmente. Ele dá a ela uma fundamentação doutrinária e um arcabouço bem constituído; enquanto Karol Wojtyla se apresentava sobretudo como um sedutor e um conquistador de corações.
     De resto, muito hábil, Joseph Ratzinger sabe, se necessário, dar tempo ao tempo. Agora, porém, a máscara já caiu. Os discursos pronunciados quando da viagem na Baviera, os apelos à cruzada, não podem senão dissipar todas as dúvidas a esse respeito. Se em alguns ainda havia dúvidas.
    Bento XVI não se deixa facilmente classificar numa etiqueta. Aliás, as etiquetas são sempre um pouco inadequadas.
    Por enquanto, não hesitamos em afirmar que este Papa, tão hábil, evidentemente julga ser o artesão de uma restauração da qual nós ainda não medimos ainda, hoje, nem a extensão, nem o caráter reacionário.

    Para citar este texto:
"Artigo do site modernista Golias: ´Bento XVI, tradicionalista?`"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/papa_tradicionalista/
Online, 15/12/2017 às 10:11:53h