O Papa

Porque o Papa desmente Bertone (e Messori)
Antonio Socci

 
É incrível que os jornais tenham praticado “barriga” quanto a duas clamorosas notícias que chegam de Portugal. Uma (dramatica) é implícita nas palavras do Papa: a profecia sobre o Papa morto e o massacre de Cardeais e Bispos tem relação não com o passado, mas com o nosso futuro próximo (falarei disso depois).
 
Pelo contrário, uma outra está preto sobre o branco e é esta: o “quarto segredo” (isto é, uma parte até agora não publicada do Terceiro Segredo) existe e as palavras do Papa sobre o escândalo da pedofilia são uma prova disso.
 
O Papa está empenhado em fazer uma grande operação-verdade também sobre Fátima, a custo de desmentir a versão dos secretários de Estado vaticanos. Eis o contradição entre as suas palavras e as do Pontífice.
 
O então  Secretário de Estado Cardeal Sodano, em 13 de Maio de 2000, ao anunciar solenemente ao mundo a publicação do terceiro segredo, explicando que ele coincidia com o atentado ao Papa em 1981 e as perseguições dos anos Novecentos, disse: “As vicissitudes a que faz referência a terceira parte do ‘segredo’ de Fátima parecem já agora pertencer ao passado”.
 
O successor dele, Bertone, eliminou também o prudencial “parecem” e, para reafirmar que o segredo se referia ao atentado ao papa em 1981 e tudo já se havaia realizado, escreveu textualmente (na página 79 de um seu livro): “O encarniçamento mediático é o de não querer se convencer que a profecia não está aberta para o futuro, pois ela se realizou no passado, no acontecimento indicado (o atentado ao Papa, nota do autor). Não se quer render-se à evidência”.
 
Agora, em vez, o Papa Bento XVI nos explica exatamente o oposto, isto é, que o terceiro segredo se refere a eventos posteriores ao atentado de 1981, como o atual escândalo da pedofilia e também a eventos que estão ainda em nosso futuro.
 
De fato, Ratzinger declarou:
 
“Além dessa grande visão do sofrimento do Papa, que, em primeira instância podemos referir ao Papa João Paulo II, são indicadas realidades do futuro da Igreja quepouco a pouco se desenvolvem  e si mostram… e que, portanto, são sofrimentos da Igreja que se anunciam. Quanto às novidades que podemos hoje descobrir nessa mensagem, aí há também o fatto de  que não somente de fora vem ataques ao Papa e à Igreja, mas os sofrimentos da Igreja vêm extamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja”.
 
O atentado do 1981 não aparece nas palavras de Bento XVI e portanto não é apontado como “a” realização do Terceiro segredo.
 
Fala-se só do “sofrimento de João Paulo II” que é unido ao dos outros Papas (de que fala a segunda parte do Segredo). Bento XVI coloca o cumprimento do Terceiro Segredo nos anos posteriores ao atentado do 1981 e no nosso próprio futuro: “são realidades do futuro que pouco a pouco se desenvolvem e si mostram”, declarou “sofrimentos da Igreja que se anunciam”.
Como qualquer um pode ver é o contrário do quanto foi proclamado por Sodano e, mais dogmaticamente, por Bertone (“a profecia não está aberta para o futuro, mas foi realizada no passado, no acontecimento indicado”).
 
De resto fora a própria Irmã Lúcia que desementira que a profecia fosse referida ao passado e tivesse sido realizada com o atentado do 1981. Ela o escreveu numa carta fundamental de 12 de Maio de 1982.
 
Depois de ter mostrado que já fora realizada a primeira parte da profecia, relativa à revolução comunista, à segunda guerra mundial e às perseguições à Igreja, Irmã Lúcia, falando da terceira parte do segredo, escrevia textualmente:
 
“se não constatamos ainda a consumação completa do final desta profecia, vemos que somos encaminhados a ela  pouco a pouco a passos largos”.
 
Portanto, nessa carta fundamental que foi publicada pelo próprio Vaticano, Irmã Lúcia, um ano depois do atentado de Alì Agca em 1981, não só não diz que tal atentado foi a realização do Terceiro Segredo (não disse isso jamais nem aqui, ne, em outro lugar), mas nem mesmo o cita, nem sequer alude a ele  vagamente. Antes explica “apertis verbis” que o Terceiro Segredo deve ainda realizar-se. E escrevia isso em 1982!
 
Haveria que acrescentar que justamente sobre essa carta da vidente, Bertone – naquele tempo Monsenhor –  inexplicavelmente “cancelou” uma frase explosiva, que contradizia a sua versão, sem jamais dar nenhuma explicação.
 
Mas é apenas uma das tantas anomalias desta história cinqurntenária que infelizmente está cheia de mentiras, de reticências, de coisas forçadas e de omissões (como  mostrei em meu livro).
 
Mas, voltemos ao dia de hoje. O Papa reabriu, portanto, o dossier de modo tão preciso e claro que todos aqueles que nestes anos tinhamcorrido a sustentar a versão da Cúria ficaram em pânico diante de suas declarações que colocam o escândalo da pedofilia no Terceiro Segredo.
 
Eis o Padre Stefano De Fiores que, interpelado pela tg2 das 20.30 de 11 de Maio, com evidente embaraço, balbucia: “para dizer a verdade de modo explicito não o achamos…”.
 
E bravo De Fiores! Com efeito, no “Terceiro Segredo” dos eclesiásticos não. Mas naquele completo de Nossa senhora, ao qual se refere o Papa, sim. É preciso entendê-lo, Padre De
Fiores. Tinha escrito um livro apologético do cardinal Bertone jurando que jamais existira uma parte não publicada do “Terceiro Segredo”, e agora acontece que o Papa em pessoa o desmente. 
 
Vittorio Messori, um outro intelectual católico que correra a apoiar a curial Secretaria de Estado, ontem no Corriere della Sera exprimia o seu embaraço por se encontrar desmentido pelo Papa: “Agora no vasto grupo dos ‘fatimitas’ haverá fermento para mostrar que o Papa Bento XVI se traiu…”.
 
Na realidade, o Papa Bento jamais identificou o Terceiro Segredo com o atentado de 1981. Ademais – quando ainda era Cardeal – sublinhou que não havia “definições oficiais, nem interpretações obrigatórias” do Terceiro Segredo.
 
Diversamente dos eclesiásticos da Cúria, que transformaram em dogma as próprias idéias (e fábulas), Ratzinger explicou que as interpretações do ano 2000 eram hipóteses de interpretação. Meras hipótesses (hoje, superadas).
 
Em Terceiro lugar – com a humildade que o caracteriza – já no ano 2000, pouco depois da revelação do Segredo,  respondendo a uma respeitosa carta, mas crítica do Bispo Pavel Hnilica sobre seu comentário teológico, Ratzinger não hesitara em afirmar que não de modo algum quisera “atribuir exclusivamente ao passado os conteúdos do segredo, de modo simplicista”.
 
Na realidade, Bento XVI, como pelo escândalo pedofilia, quer nos fazer entender que jamais é preciso ter medo da verdade, mesmo quando ela é dolorosa ou embaraçante.
 
Porque não se serve a Deus com a mentira. Quando se pretende mentir para Deus, na realidade mentimos a nós mesmos: Deus não precisa de nossas mentiras para defender e construir a sua Igreja. É melhor fazer um mea culpa, porque Deus é maior e mais poderoso do que todos os nossos pecados.
 
Certo, essa atitude não é compreendida na Cúria. Nem pelos  “ratzingerianos” e justamente, com afeto, Giuliano Ferrara escreveu que sobre a questão pedofilia, “dito com muita auto ironia, para nós foglianti o Papa está um pouco fora da linha”.
 
É verdade. Porque o Papa sabe mais do que nós, e considera esse escândalo como sendo apenas a ponta de um iceberg “terrificante” do pecado na Igreja (pensamos nos verminários denunciados por ele na Via crucis do ano 2005) e pensa no grande pecado da apostasia na Igreja.
 
E se tudo isso é “a cidade meia em ruína” cheia de cadáveres, descrita na visão do Terceiro Segredo, e se o Papa assassinado não pode ser o Papa ferido em 1981, significa que a grande perseguição do mundo e o grande martírio do Papa e da Igreja é coisa do próximo futuro.
 
O Papa talvez não pode dizê-lo explicitamente, mas procura preparar a sua Igreja para essa pavorosa prova (“os sofrimentos da Igreja que se anunciam”) confiando tudo nas mãos da Senhora de Fátima. São horas extraordinárias. Mas os jornais não as perceberam.
 
 Antonio Socci

    Para citar este texto:
"Porque o Papa desmente Bertone (e Messori)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/papa-desmente-bertone/
Online, 23/04/2017 às 20:43:40h