O Papa

A missão de Joseph Ratzinger: a reação da Igreja para defender as raízes
Vittorio Messori

O pontificado de Bento XVI iniciou-se na manhã de domingo com missa solene na Praça de S. Pedro.
 
É com solidária simpatia que veremos nesta manhã como Bento XVI irá contrastar aquela sua timidez, a sua introversão que caracteriza as pessoas que, como ele, têm um rico patrimônio interior. Espiritual e intelectual. É a timidez que, nas suas primeiras palavras como Papa, na sacada das bençãos de S. Pedro, lhe impediu de externar tudo aquilo que ele quisera ter dito. Não saíram senão poucas palavras (e aquele agradecimento aos «Senhores Cardeais» confirmaram a sua delicadeza, o seu respeito pelas regras), mas suficientes para engasgar algumas vezes, apesar da sua longa e excelente familiaridade com a língua italiana.
 
O Ratzinger, conhecido de quem o visitou privadamente, o cordial e agradável conversador, é intimidado pela multidão. Mas, na perspectiva do crente, ao pontificado liga-se uma especialíssima «graça  de estado». Portanto, pode ocorrer que dentre os dons que receberá daquele Senhor do qual se disse «simples e humilde servo» esteja também o de maior extroversão. Admitindo-se, naturalmente, que este seja também uma das características papais. Apesar da ditadura da mídia, há – graças a Deus – uma diferença entre um Vigário de Cristo e um show-man. De qualquer forma, no momento da homilia da missa desta manhã que inicia o pontificado, Bento XVI dará o melhor de si: não irá improvisar, levará um texto escrito, ao qual, sexta-feira, dedicou três horas. É a sua habitual seriedade de professor.
 
Com aquele rosto de menino quase octagenário, com aquela voz que os seus conterrâneos qualificam de lieblich (algo entre «amável» e «suave»), estará plenamente à vontade, porque irá ler um «documento», o mais importante dentre os muitos que escreveu. Nós o ouviremos, obviamente, com grande interesse, poderá haver alguma surpresa extemporânea, embora quem conhece bem seu pensamento já sabe que, no final, tudo girará ao redor de um centro: a fé. Vamos tentar, então, explicar o significado da fulminante escolha do Prefeito da Congegação da Fé por um Colégio Cardinalício diferente em sensibilidade e posições, mas, no fundo, compacto quanto ao essecial. Àqueles que, nas últimas semanas, me perguntavam quais seriam os maiores problemas que o sucessor de João-Paulo II deverá enfrentar, não exitava em responder:  «Não os problemas, mas sim o Problema. Aquele sobre o qual tudo se fundamenta, aquele sobre o qual a Igreja toda permanece ou cai; a verdade do Evangelho, a certeza de que Deus não só falou mas se encarnou em Jesus de Nazaré, a convicção de que Cristo continua seu caminho na história numa comunidade em que o bispo de Roma é o seu representante e que diariamente transforma o pão e vinho na sua carne e sangue».
 
A própria fé, enfim, na sua plenitude, na sua ortodoxia, no seu «escândalo» e na sua «loucura», usando as palavras de S. Paulo. Esta – dramática e paradoxalmente – é hoje o real desafio não só para o catolicismo mas para todo o cristianismo. A dúvida sempre rondou os crentes, mas agora a erosão da certeza da verdade do Credo parece ter atingido todos os níveis eclesiais. Se tantos homens e mulheres da Igreja se recusam a ser testemunhas do Sagrado para se tranformarem em «operadores sociais»; se nos falam sempre e só das misérias do homem para sanar e jamais das grandezas de Deus para contemplar; se substituiram a caridade pela soliedariedade e a oração pela obrigação social, é porque reduziu-se o Jesus vivo na Eucaristia a um profeta da tradição hebráica que anunciava paz, solidariedade, diálogo. O tanto concentrar o catolicismo aos problemas do mundo, e só sobre eles, corrresponde a debilitar a crença na outra vida, na esperança da vida eterna. Enquanto a fé se evapora em humanismo, bonismo, solidarismo  «politicamente correto», a Igreja pareceu nestes anos debilitada, sem suficientes anticorpos para reagir. E os apelos apaixonados e repetidos de João Paulo II acabaram caindo no vazio.
 
A apologética, ou seja, a apresentação e a defesa das raízes da fé, foi abandonada, camuflando o quanto dela resta sob o nome «teologia fundamental». É estranho (e entristecedor, para um crente), mas a maior traição veio e vem de certa inteligência clerical. Vem de certos exegetas que trituram o Evangelho até torná-los um amontoado de fragmentos de origem incerta e suspeita, em que a única coisa a ser levada a sério seriam as notas do biblista; vem de certos professores de História em seminários que interpretam o passado da Igreja com tal sectarismo negativo a ponto de rivalizar com a historiografia anticlerical do século XVIII; provém de certos teólogos que dissolvem os dogmas como se hoje fossem indignos para «católicos adultos»; vem de certos liturgicistas, furiosos em eliminar dos ritos tudo o que contraste com o seu iluminismo de intelectuais e lembre «devoções populares».  É exatamente esta mesma situação que Joseph Ratzinger confrontou-se – com tenacidade e firmeza, unidas à lucidez de argumentação, conforme seu estilo – nos 24 anos em que esteve à frente da Congregação da Doutrina da Fé. Ganhou a confiança e o reconhecimento do papa Wojtyla, que nele encontrou a garantia da ortodoxia e o colaborador competente, graças a quem ele publicou encíclicas como a Fides et Ratio e concluiu o Novo Catecismo que fixou os limites além dos quais se sai da comunhão da fé.
 
Mas, o Prefeito do ex-Santo Ofício acabou ganhando também o ódio, às vezes surdo e oculto, porém também virulento e sonoro, de muitos Church-intellectuals. Um pequeno episódio pode nos revelar o seu alcance. Vindo de «fora» e, no entanto, descobrindo eu (por pouco que valha) que o problema da Igreja se encontrava no seu próprio fundamento, não podia deixar de ser atraído pela luta, então, quse totalitária do cardeal Ratzinger. Desta solidariedade nasceu o Relatório sobre a fé que ele aceitou a redigir comigo. Caixas lotadas de recortes testemunham a violentíssima reação da parte dos que definiam de «intolerável restauração» a advertência que os artigos do Credo católico eram aqueles e não outros. A mesma editora confessional que havia publicado o livro e o havia divulgado em todo o mundo, tentou perdoar-se publicando imediatamente, na mesma coluna, uma entrevista com Fidel Castro feita por um frade comunista. De fato, à raiva teológica juntou-se a política: eram os anos da «teologia da libertação» em voga.
 
Tais foram as ameaças, até físicas, que me fizeram que, depois da publicação do Relatório, fui aconselhado a apagar por algum tempo meus traços, procurando refúgio numa casa  de religiosos em lugar afastado. A minha reputação, graças ao lobby clerical mais poderoso, foi para sempre prejudicada: a minha culpa foi aquela de ter dado ouvidos ao Grande Inquisidor, não contestando-o, mas mostrando uma perspectiva solidária. Tempos passados? Não totalmente. Já preparam ciladas, instalam armadilhas, projetam manobras na grande mídia para se exorcizar o suposto Panzer Papst, a começar da sua Alemanha onde o consenso da eleição não foi de fato unânime, pelo menos nos meios intelectuais. Alguém já rebuscou fotos do pobre mocinho que, rosto assustado, vestiu uma farda da Flak, a defesa aérea de Munich, na qual fora forçosamente a entrar nos meses de agonia do Reich. Apareceu uma vez naquelas noites de terror, enquanto a capital bávara queimava e os canhões calavam porque não conseguiam atingir a altura dos bombardeiros. De qualquer forma, a intronização desta manhã é a reação de uma Igreja, que julgavam curvada, soube mostrar, seguindo o apelo extremo de João Paulo II.
 
Uma grande maioria (fala-se de mais de 90 votos sobre 115) soube imediatamente ir além das conseqüências que cada um daqueles cardeais conclue da fé. A Igreja inteira, naquele seu Senado supremo, mostrou entender que justamente a própria fé é o Problema. Foi unânime, ou quase, na convicção de que o timão estava confiado a quem sempre é consciente que, indo à raiz extrema, não tem senão uma pergunta importante para o cristão: tomar à letra o Evangelho, incluindo a ressureição de Jesus, é próprio dos crentes ou é dos crédulo? Há décadas, o novo Beato XVI reúne argumentos e razões para uma resposta não exitante que atende juntos a razão e o coração.
 
Vittorio Messori.

*Publicado no CORRIERE DELLA SERA (Itália) - Domingo 25/04/05 – (Dia da Missa da intronização de Bento XVI)
(Tradução do italiano nossa)
 

    Para citar este texto:
"A missão de Joseph Ratzinger: a reação da Igreja para defender as raízes"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/missao_ratzinger/
Online, 21/10/2017 às 04:50:25h