O Papa

Mais uma vez os americanos salvarão a Europa?
Alberto Zucchi
 

Foi marcada a data para o início do Conclave 12 de março. Em poucos dias conheceremos o novo Papa.  A nós católicos resta somente a oração. Rezar para que o Espírito Santo consiga encontrar alguém que possa conduzir a barca de Pedro para de volta as duas colunas das quais ela nunca deveria ter saído. A Sagrada Eucaristia e a devoção a Nossa Senhora.

Quanto mais concreto e objetivo é o bem que procuramos, tanto será mais fácil para nós nos empenharmos em rezar. Assim, uma pessoa pode rezar para ter uma boa situação financeira, mas se houver um negócio específico a ser realizado certamente rezará com maior devoção.

Portanto, ter clara a situação em que nos encontramos nos ajudará a aumentar o fervor de nossas orações.

A finalidade deste artigo é, portanto, convidar nossos amigos e leitores à oração pelo conclave.  A oração é fundamental, sobretudo neste momento em que tantos escândalos aparecem na mídia sobre o clero. A oração foi o grande conselho dado por Nossa Senhora aos três pastorinhos em Fátima e, mais do que nunca, é a ela que devemos nos dirigir.

A situação da Igreja é muito grave. Bento XVI, em seus últimos dias de Pontificado, a comparou  aos momentos em que os Apóstolos, incluindo São Pedro, pensavam que o barco em que estavam iria naufragar, enquanto Cristo permanecia dormindo.

A corrupção moral, tão comum nos governos modernos, parece ter atingido a Cúria Romana, e a imprensa divulga esta chaga de inúmeras maneiras.  Para citar um exemplo, a televisão na Itália está apresentando uma série sobre o Papa Alexandre VI. Nesta série, a qual evidentemente fazemos questão de não conhecer, segundo se informa,  há uma clara insinuação sobre a semelhança entre a corrupção na Cúria no final do século XV e início do século XVI e a  atual.

Também muito tem se falado sobre o famoso “VATILIX” (sic!), o qual conteria importantes revelações sobre este estado de corrupção da Cúria. Teria sido mesmo a causa da renuncia do Papa pois, diante dos escândalos que lhe foram apresentados, Bento XVI julgou que não possuía as condições, nem físicas nem espirituais, para promover a restauração que é necessária. Entretanto, renunciando o Papa, toda a Cúria está demitida e o novo Papa poderia dar início a um processo de moralização.

Infelizmente, Bento XVI não se sentiu em condições de imitar Nosso Senhor, quando este expulsou os vendilhões do templo:

 “A Minha casa é casa de oração, mas vós fazeis dela um antro de ladrões.”  (MT 21,13)

O próximo Papa, se desejar reconduzir a barca de Pedro às colunas da Eucaristia e da devoção a Nossa Senhora terá, sem dúvida, do ponto de vista natural um trabalho gigantesco e necessitará de uma energia incomparável. Expulsar os vendilhões do templo não é tarefa fácil. Cristo teve que usar de violência. Não existe outra passagem do Evangelho que relate algo semelhante.

Para expulsar os vendilhões, é necessário perguntar como eles conseguiram entrar no templo.

Parece claro para nós que a origem do problema está nas transformações que ocorreram na Igreja após o Concílio Vaticano II.

A intenção do Concílio foi adaptar a Igreja ao mundo. Veja-se, o discurso de João XXIII, em  14-02-60, em que preparava o Concílio:

“O primeiro e imediato objetivo do concílio é apresentar ao mundo a Igreja  em seu perene vigor de vida e de verdade, e com sua legislação ajustada às circunstâncias atuais, de maneira que responda mais à sua missão divina e esteja preparada para as necessidades de hoje e de amanhã. (Concílio Vaticano II, volume I Frei Boaventura kloppenburg, Editora Vozes, Petrópolis RJ, 1962 p. 23)

O Concílio, portanto, não visava a renovação moral do mundo já tão necessária em 1960. E pedida por Nossa Senhora em 1917. João XXIII, que não parecia acreditar nas profecias de Fátima,  considerou que o Concílio deveria apresentar uma Igreja palatável e adaptada ao mundo.

Em outro discurso em 8-03-62 o Papa confirma esta idéia.

Eis que se realizou o nosso desejo de restauração, de adaptação às novas circunstâncias do mundo” (Concílio Vaticano II, op. cit. p. 23)

E quais eram as circunstâncias às quais a Igreja deveria se adaptar? Evidentemente, isso não devia se referir às condições técnicas originadas no progresso científico, uma vez que não haveria necessidade de convocar um concílio para isto.  Um concílio deveria estabelecer as condições doutrinárias e de atuação da Igreja de acordo com o que  pedia o mundo moderno.

E o que pedia o mundo moderno à Igreja? A aceitação dos princípios da Revolução Francesa, que são o seu sustentáculo doutrinário, mas especificamente o liberalismo. Realmente seria um grande trabalho de adaptação, uma vez que o liberalismo havia sido reiteradamente condenado pela Igreja. Só um Concílio teria autoridade para se sobrepor a tudo aquilo que os Papas haviam ensinado anteriormente. Vejamos apenas um exemplo para constatarmos o vigor desta condenação.

“Já falamos algures, e principalmente na Encíclica Immortale Dei, daquilo a que chamam as liberdades modernas; e distinguindo nelas o bem daquilo que lhe é oposto, nós estabelecemos ao mesmo tempo que tudo o que essas liberdades contém de bom é tão antigo como a verdade, tudo isso a Igreja aprovou sempre com ardor, e o admitiu efetivamente na prática.  O que se lhe acrescentou de novo, apresenta-se, a quem procura a verdade, como um elemento corrompido, produzido pela perturbação dos tempos e pelo desordenado amor da inovação. Mas, visto que muitos se obstinam em ver nestas liberdades, mesmo no que elas contém de vicioso, a mais bela glória de nossa época e o necessário fundamento das constituições políticas, como se sem elas se não pudesse imaginar governo perfeito, pareceu-nos necessário para o interesse público, em face do qual nós nos colocamos, tratar expressamente esta questão “ (Encíclica Libertas, nº 2, Leão XIII)

Alguém poderia objetar que não foi este o resultado do Vaticano II. Quem acredita nisto está em desacordo com o Paulo VI, que impulsionou e concluiu o Concílio iniciado por João XXIII. Vejamos alguns trechos do discurso de Paulo VI no encerramento do Vaticano II em 7 de dezembro de 1965:

"A Igreja, nesses quatro anos, se ocupou muito do homem, do homem tal como ele se apresenta na realidade em nossa época, o homem vivo. O homem todo inteiro ocupado consigo mesmo, o homem que se faz não somente o centro de tudo o que lhe interessa, mas que ousa pretender ser o princípio e a razão última de toda a realidade (...)

" A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião, porque ela é tal, do homem que se faz Deus".

"Uma simpatia imensa invadiu totalmente a Igreja. A descoberta das necessidades humanas – e elas são tão maiores à medida que o filho da terra se torna maior – absorveu a atenção deste Sínodo".

"A Igreja quase que se fez serva da humanidade".

"Sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, nós, mais que quem quer que seja, nós temos o culto do homem".

[...]". http://www.montfort.org.br/anotacoes-esquecidas-viii-dogmas-da-nova-religiao-a-basic-religion/

Mas como o católico comum, que não conhece os textos do Vaticano II, passou a ter esta mentalidade que substitui Deus pelo homem?

A difusão da doutrina “humanística” do Vaticano II se deu através das mudanças na Missa.

Nesse sentido, vale a pena recordar as palavras de sua Eminência o Cardeal Cañizares:

“Não podemos esquecer-nos de que a reforma litúrgica e o pós-concílio coincidiram com um clima cultural marcado ou dominado intensamente por uma concepção do homem como “criador”, o que dificilmente está em sintonia com uma liturgia que é, sobretudo, ação de Deus e prioridade de Deus, direito de Deus e adoração de Deus, e também tradição que recebemos, aquilo que nos foi dado para sempre”.

“A liturgia, nós não a fazemos; não é nossa obra, mas de Deus. A concepção do homem “criador” conduz a uma visão secularizada de tudo, em que Deus, com frequência, não tem lugar. A paixão pela mudança e a perda da tradição ainda não foram superadas”. http://www.montfort.org.br/a-natureza-da-liturgia-e-o-acordo-com-a-fraternidade-sacerdotal-sao-pio-x/

Portanto, voltando ao tema de nosso artigo, é necessário um Papa que tenha força para enfrentar os erros de nosso tempo, na linha do que pediu Pio IX quando no Syllabus condenou a seguinte afirmação:

“80º O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna.

Nesta questão temos o cerne da disputa que se travará no conclave. O Papa e a Igreja devem continuamente se adaptar ao mundo - o que significa atualmente aceitar as regras modernas sobre aborto, contracepção, casamento de homossexuais, sacerdócio feminino, abandono da Missa Gregoriana, etc.? Ou o Papa deve se opor à mentalidade moderna, restaurando a moralidade, não só na Cúria, mas em toda a sociedade e até mesmo na liturgia? Sem dúvida é pela segunda opção que devemos rezar.

É claro que isto exigirá do novo Papa um vigor e uma determinação que Bento XVI afirmou já não possuir. E haverá algum cardeal com tal determinação?

O liberalismo produziu o tumor do nacionalismo, o qual produziu dois cânceres modernos, o nazismo e o comunismo.  Em ambos os casos, foram os americanos, vindos do outro lado do oceano, muito acostumados, apesar de sua profunda mentalidade liberal,  a enfrentar inimigos e dificuldades e decididos em tudo o que fazem, os que salvaram a Europa. Os caminhos da Providência são realmente inesperados...


    Para citar este texto:
"Mais uma vez os americanos salvarão a Europa?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/mais-uma-vez-os-americanos-salvarao-a-europa/
Online, 27/04/2017 às 06:14:16h