O Papa

Como a extrema esquerda modernista vê o Papa: "A cruzada de Bento XVI"
Christian Terras, Romano Libero
    O rigor com o qual Bento XVI reconhecidamente escreve e relê seus textos tornou mais vivo ainda o espanto nascido em conseqüência de suas palavras pronunciadas, há pouco, em Ratisbona.  
    Com efeito, o caráter explosivo dos juízos feitos sobre o Islã, ainda que, através de um personagem interposto, por meio de uma antiga citação, suscitaram já resultados previsíveis, a começar pelo assassinato de uma religiosa italiana na Somália. 
    Outras represálias são previsíveis. 
    Um processo foi desencadeado. Os tímidos pesares emitidos pelo Pontífice, domingo passado, sem dúvida, não bastaram para acalmar a tempestade.  
    Quanto ao fundo, fica-se confundido pelas palavras do Papa. Com efeito, ele não é simplesmente um universitário engajado em controvérsias intelectuais, mas um chefe de Estado e um líder mundial. 
    Sua palavra deve contribuir para fazer reinar a justiça e a paz. Ele está cercado de diplomatas e peritos muito competentes. Os textos lidos por ele não são o fruto de um simples capricho de momento ou de cabeçadas. Por isso,  deve-se deplorar ainda mais a verdadeira inconsciência do Pontífice Romano neste assunto. 
    Além disso, de um ponto de vista universitário, os pensamentos simplificadores e injustos de Joseph Ratzinger também não são aceitáveis. Com efeito, estar-se-ia no direito de esperar de um intelectual tão prestigioso uma análise circunstanciada e matizada cuidadosa capaz de honrar os contrastes, e de não se pronunciar de maneira global. 
    É causa de bastante estupefação ver que Joseph Ratzinger trata o Islã como um bloco, quando o Islã é constituído de mundos muito compósitos. 
    Na realidade, se agora a água extravasa do recipiente, e se esse episódio em nada se parece com uma pequena gota, é conveniente situar aquilo que, de modo algum depende de um deslizamento inábil e escusável, num contexto que lhe dê seu alcance e seu sentido. 
    Tanto mais que a inexperiência do Papa surgiu em plena luz e não deixa de inquietar as chancelarias. O Papa Bento XVI não deixa nada ao acaso. Ele permanece fiel à sua visão das coisas, a uma teologia intransigente e a uma perspectiva de restauração e de reconquista, que se desenvolve tanto no interior quando fora da Igreja. 
    O Papa atual parece romper com o estilo aberto, mas lúcido, de diálogo inter-religioso praticado e intensificado por seu predecessor. Uma convicção de fundo parece animá-lo sobretudo: fazer triunfar a verdade católica, mais do que procurar junto com outros, crentes e não crentes, um futuro mais humano. 
    Nesse sentido, ele dá as costas aos textos do Concílio Vaticano II sobre a liberdade religiosa (todo homem de boa vontade e de qualquer tradição religiosa que seja, da qual ele se declara, é detentor de uma parcela de verdade, na sua busca de Deus). 
    Uma orientação conciliar que permanece, ainda na hora atual, como um verdadeiro pomo de discórdia no seio da Igreja Católica, e que levará – entre outros – à condenação de numerosos teólogos da inculturação e ao cisma com os integristas de Monsenhor Lefebvre, dos quais, hoje, Bento XVI  deseja a reintegração. 
    Ademais, no texto "Dominus Iesus", tratando sobre o diálogo inter-religioso, o qual, o então patrono da ortodoxia romana, Joseph Ratzinger, tinha redigido para o falecido Papa João Paulo II, por ocasião do jubileu do ano 2000, a arquitetura doutrinária e teológica do futuro Papa é de uma grande clareza: fora da Igreja Católica, não há salvação! As outras religiões estando apenas a caminho da verdade... 
    Ora, o Papa Bento XVI, menos midiático que seu predecessor, não parece menos determinado. Bem pelo contrário, ele cultiva para a Igreja um projeto vasto e muito ambicioso de renovação... mas no sentido mais integralista possível. 
    Certo, seria igualmente simplista ver nele um integrista no sentido habitual do termo, um puro nostálgico do passado. A teologia pessoal de Joseph Ratinzer, resiste evidentemente a qualquer tentativa de redução a uma opção ideológica. Ao mesmo tempo, Bento XVI pretende ser um Papa de reconquista do terreno perdido. Para ele, o dogma católico é a Verdade, ponto final, ao lado da qual nenhuma outra verdade poderia se impor como alternativa ou como concorrente, nem mesmo como complementar ou apenas diferente.
    As escolhas do atual pontificado, que vão cada vez mais tomando forma, traem à sua maneira esta orientação de fundo, esta intenção fundamental. O Papa deseja o triunfo da verdade católica; para ele, o diálogo não constitui, de modo nenhum, um fim em si mesmo; ele pode apenas, por vezes, eventualmente, constituir um meio tolerado, se ele se revela estrategicamente portador de vantagem. Lembramos das reticências daquele que não era ainda senão o Cardeal Ratzinger face à reunião das religiões em Assis ,em 1986, desejada por João Paulo II. 
    O grande perigo, segundo Joseph Ratzinger reside num nivelamento das religiões. Para ele, o inimigo principal, repitamo-lo, é o relativismo, a saber, a tendência de relativizar toda pretensão a uma verdade definitiva e absoluta. 
    O espírito das luzes seria grandemente responsável por uma situação atual deplorada pelo Papa, na qual o homem, amputado de sua dimensão religiosa, pagaria hoje os custos, e da qual a Igreja, detentora da verdade, pagaria a nota. 
    Suas recentes declarações, a propósito do vigésimo aniversário nas reuniões inter-religiosas de Assis, vão nesse sentido. Bento XVI poderia, pois, se definir sobretudo como intransigente. O que o aproxima verdadeiramente da corrente mais integrista do catolicismo. 
    Quem ousaria pretender que o reconhecimento bem recente feito por Roma de um quarteto de ex-sectários de Monsenhor Lefebvre, com a concessão de um estatuto jurídico de ouro, depende somente de uma vontade romana de acolhida, e não de uma conivência profunda de pensamento e de estratégia? 
    Voltemos à intervenção de Bento XVI em Ratisbona. 
    Para Joseph Ratzinger somente o cristianismo autêntico reconcilia harmoniosamente a Fé e a Razão. O erro do mundo moderno é o de sacrificar o sentido religioso a um racionalismo cego e inhumano. 
    O Islã, ao contrário, celebraria um Deus de vontade arbitrária, muitas vezes cruel, com o desprezo do respeito da razão. Nesse sentido, as palavras de Bento XVI se pretendem eminentemente apologéticas: trata-se, como na Igreja de cinqüenta anos atrás, e ainda mais, de estabelecer que o cristianismo é a verdadeira religião e que o catolicismo é o verdadeiro cristianismo. 
    Convém lembrar ao Papa teólogo os trabalhos de um certo Ibn Rusd, que foram de tal modo importantes para o ocidente cristão, que ele nos é conhecido pelo seu nome latinizado: Averroés. Ora, este intelectual mulçumano tentou justamente interpretar o Corão com  a ajuda da filosofia, e Santo Tomás não teria jamais conhecido Aristóteles sem ele! Poder-se-ia falar, também da contribuição de Ibn Sina, chamado também Avicena, na medicina! 
    Não se imagina, pois, que o Papa possa ignorar esta cultura árabe-mulçumana que soube reler e traduzir os gregos, como também os persas e hindus, à luz de Corão. Portanto, em um sentido figurado, Bento XVI está animado por um espírito de cruzada. Uma cruzada para o triunfo da verdade católica; uma cruzada contra os costumes por demais livres, contra as opiniões por demais discutidas; uma cruzada que não fará correr sangue, mas que poderia acabar triturando as consciências. 
    O requisitório tomado afinal emprestado contra o Islã não tem nada de um passo em falso de um especialista, nada tem de uma inabilidade de um intelectual pouco diplomata. 
    Ele participa, sublinhemo-lo de novo, de uma atitude de conjunto, de uma postura intransigente, ao mesmo tempo defensiva e ofensiva. Em suma, de um grande combate que o Papa reinante começou ao eliminar rapidamente do organograma do Vaticano o presidente (inglês) do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, Monsenhor Fitzgerald, missionário Padre Branco, o melhor conhecedor do Islã na Igreja Católica, suspeito de ter uma abertura, grande demais, para com a religião de Maomé. 
    Sua cabeça caiu na maior discreção, em nome da cruzada contra o relativismo religioso. Para lá, portanto de uma querela muito significativa, o especialista das religiões seria bem inspirado se reconstituísse o projeto em seu conjunto, se discernisse o fio do colar que dá coerência à justaposição das pérolas. No caso, o acionamento paciente, mas incansável, de uma restauração conservadora do catolicismo mais intransigente. 
    Os discursos e as iniciativas de Bento XVI se tornam ininteligíveis, desde que se perde de vista este projeto fundamental que o suporta. É por isso que, um engajamento renovado, contra todas as formas de fanatismo transversais às religiões e às ideologias, uma vontade de resistência ao que acorrenta ou que ensina a odiar o seu semelhante, mesmo que fosse em nome de Deus ou de uma verdade intangível, uma verdadeira laicidade, que garante uma verdadeira liberdade, constituem, hoje, os pontos decisivos em disputa. 
    O que se disputa em último caso, em tal assunto, vai além dos simples riscos ligados à conjuntura explosiva, e foi expresso muito justamente, no passado, por Paul Ricoeur nesses termos:
 
"A tolerância não é uma concessão que eu faço a outrem, mas o reconhecimento do princípio que uma parte da verdade me escapa". Esta irredutível parte do outro. É por causa dela que nós recusamos sempre todo dogmatismo e toda visão intransigente. E, por isso, toda cruzada é sempre uma blasfêmia".
(tradução nossa do original em francês)

    Para citar este texto:
"Como a extrema esquerda modernista vê o Papa: "A cruzada de Bento XVI""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/golias_cruzada_bxvi/
Online, 25/11/2017 às 09:09:28h