O Papa

Mais um Eco ´iludido`
Orlando Fedeli

No jornal Folha de São Paulo de 11 de maio de 2008, foi publicada uma entrevista com Umberto Eco, o famoso semiólogo, autor de O Nome da Rosa, na qual ele dá seu julgamento sobre a atuação do Papa Bento XVI.
Tido como uma das inteligências mais brilhantes de nosso tempo, Umberto Eco não pode ser tido como um católico. Bem longe disso. Menos ainda, ele pode ser considerado um ingênuo. Seria um absurdo clamoroso tê-lo como um “iludido”, por uma suposta manobra maquiavélica de Bento XVI, fingindo-se de conservador, para enganar os “tradicionalistas” e fazê-los aceitar o Concílio Vaticano II, como teme “às vezes” o Superior da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Dom Bernard Fellay.
A política eclesiástica de Bento XVI tem causado grande comoção não só na Igreja, como em todo o mundo. Em toda parte e em todos os círculos pensantes, desde a considerada extrema direita tradicionalista,-- a citada Fraternidade São Pio X, (os seguidores de Dom Marcel Lefebvre)---, até os comunistas, debate-se o enigma Ratzinger.
Joseph Ratzinger, o atual Papa Bento XVI, foi um teólogo modernista, estreitamente ligado ao principal herege modernista, o Padre Karl Rahner, a alma negra do Concílio Vaticano II. Depois, Padre Ratzinger foi perito do Vaticano II, onde atuou de modo importante, como teólogo do Cardeal Frings, um dos líderes da ala modernista do Concílio. Fez carreira como professor de Teologia em Universidades alemãs.
No Pós Concílio, Ratzinger colaborou na revista modernista Concilium, junto com os mais radicais teólogos daquele tempo. Mais tarde, separou-se deles, e fez lançar a revista Communio, mais moderada que a Concilium.
Tornou-se Arcebispo de Munich. Publicou muitas obras de Teologia de cunho progressista. Foi nomeado Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, sob João Paulo II, que o fez Cardeal.
Em 1982, já como membro da Cúria, consta que participou de uma reunião reservada de seis Cardeais, que julgaram negativamente os resultados da Nova Missa de Paulo VI, criticando erros dela, e projetando restabelecer a Missa de sempre, para sanar a crise da Igreja, aberta pelo Concílio Vaticano II.
Pouco a pouco, o Cardeal Ratzinger foi assumindo posições cada vez mais conservadoras, e até, por vezes, “tradicionais”, especialmente em matéria de Liturgia.
Ao falecer João Paulo II, Ratzinger, como Camerlengo, fez discursos terríveis sobre a crise da Igreja e a necessidade de combater os erros que submergiam a barca de Pedro, e atacando violentamente a sujeira - “la sporchizia” - que manchava o clero. Entrou para o Conclave como o Cardeal mais “direitista” da Igreja. Era uma bem surpreendente mudança doutrinária que alcançava 1800..
Seria uma mudança sincera, ou seria uma “jogada” político-diplomática” para ser eleito Papa? Era o que todos os observadores mais atentos se perguntavam. 
O Conclave foi breve.
No dia da eleição, o ex padre Fernando Altmeyer, - que apesar disso tinha cargo de diretor do ensino religioso da PUC, em São Paulo - dava entrevista numa rádio, afirmando que o conclave demoraria cerca de dez dias. Naquela mesma hora, saiu a fumaça branca da chaminé da Capela Sixtina, anunciando que fora eleito um novo Papa, em substituição ao “carismático” e “mediático” João Paulo II. E apareceu no balcão de São Pedro o novo Papa, Cardeal Joseph Ratzinger, que assumiu o nome de Bento XVI.
Aquela figura branca causou enorme comoção. Era o Cardeal que condenara Frei Boff e a Teologia da Libertação. A esquerda boffou de raiva. Bispos, monges, frades ligados à Teologia da Libertação, teólogas e até gerentes de igrejas, manifestaram sua decepção e seu temor.
Vieram os primeiros discursos e as primeiras medidas do novo Papa. Bento XVI se revelou mais conservador que o antigo Cardeal Ratzinger.
Imediatamente, após a eleição de Bento XVI, Cardeais tidos como modernistas, como o Cardeal Martini, ou ligados à Teologia da Libertação da linha de Lula e Boff, como o Cardeal Hummes, apressaram-se a dar entrevistas dizendo que o Papa Bento XVI não seria o Cardeal que dirigira o ex Santo Oficio, mas que ele surpreenderia pela moderação e pelo espírito de abertura. O Cardeal Daneels, furioso, recusou comparecer ao jantar que o novo Papa ofereceu a todos os Cardeais que estavam em Roma, declarando que não gostara da eleição;
Vieram os primeiros discursos e as primeiras medidas do novo Papa. Bento XVI se revelou mais conservador que o antigo Cardeal Ratzinger.
Primeiro trovão terrível: o Discurso de Bento XVI à Cúria Romana por ocasião dos cumprimentos de Natal (22 de Dezembro de 2005), discurso no qual Bento XVI condenou o chamado “espírito do Vaticano II” e sua interpretação do Concílio Vaticano II.
Terremoto na Igreja conciliar.
Júbilo entre os que criticavam o Vaticano II.
Ódio e entusiasmo se confrontaram.
É “jogo” começaram a dizer os céticos.
Em Setembro de 2006, novo trovão e novo terremoto por causa do Discurso de Bento XVI em Regensburg, condenando a separação entre Fé e razão, atacando a Teologia liberal do século XIX, e fazendo restrições ao método histórico crítico.
Foi um novo tremor de ódio na terra, e um novo estremecimento de alegria nos céus da Igreja.
É “jogo”. É enganação, teimaram os que vêem a História só como politicagem humana, na qual Deus nunca intervém providencialmente.
Acentuaram-se os contatos da Santa Sé com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X... Dom Fellay, o Superior da FSSPX, alternava pronunciamentos entusiásticos e otimistas, com declarações pessimistas, passando pendularmente da esperança efusiva à extrema desconfiança.
Bento XVI era contra a obra do Vaticano II ? Queria corrigir os erros do Vaticano II?
Bento XVI era um enganador? Estava ele “fazendo jogo” para iludir os tradicionalistas, e levá-los suavemente a aceitar os erros do Concílio?.
Em 2006, Bento XVI aceitou a fundação do IBP com o direito de rezar exclusivamente a Missa de sempre, e - incrível ! - o direito de criticar “construtivamente”.
Novo tremor de terra.
Nova alegria nos céus da Igreja.
Retornou a teimosa dúvida: era “jogo”. Para enganar os defensores da Missa de sempre. Permitia-se a Missa para destruir a Missa (Sic)
Veio o Motu Proprio Summorum Pontificum, liberando a Missa de sempre.
A esquerda modernista uivou.
Dom Fellay exultou:
 
"este é um dia verdadeiramente histórico. Expressamos a Bento XVI nossa profunda gratidão. Seu documento é um presente da Graça. Não é um passo, é um salto na boa direção". (Dom Fellay, entrevista, La Razón, 12 de Julho de 2007- ACI).
 
É “jogo”, repetiam os duvidosos.
E assim, a política de Bento XVI continuou, desde então, causando perplexidade, entusiasmo e ódio. Esperanças e suspeitas.
Em Janeiro de 2008, o Bispo da FSSPX. Dom Galarreta fez pronunciamento na Coréia, manifestando confiança no Papa, ao dizer que a FFSSPX deveria correr riscos, porque não se ganham batalhas ficando nos quartéis. Que a vitória obtida com a liberação da Missa de sempre, dava a esperança de que se poderia obter a vitoria decisiva no debate sobre o Vaticano II. Concluís que se deveria aceitar a mão oferecida pelo Papa à FSSPX.
Veio também a Spe salvi, condenando a Modernidade, com a qual o Vaticano II quis fazer um casamento espúrio.
É “jogo”, repetiam os astutos desconfiados.
Na Spe salvi, Bento XVI não quis citar uma só vez o Vaticano II.
É  “jogo”, garantiam os sabidos.
Os modernistas faziam declarações violentamente contrárias a Bento XVI.
É “jogo”, repetiam os eternos entendidos.
Mais recentemente, Dom Fellay, o Superior da FSSPX, fez novo pronunciamento prevenindo contra a ilusão de aceitar essa mão estendida pelo Papa. Prevenia contra os “ingênuos” que acreditavam na oferta da Santa Sé do Papa Ratzinger.
 
O Motu Proprio Summorum Pontificum que a reconheceu a Missa tridentina, que nunca foi abrogada coloca um certo número de questões no que concerne o futuro das relações da FSSPX com Roma. Várias pessoas, nos meios conservadores e mesmo em Roma, deram a entender que, o Soberano Pontífice, tendo feito um ato tão generoso, e dado por isso mesmo um sinal evidente de boa vontade com relação a nós, só nos restaria fazer uma coisa: “assinar um acordo com Roma”. Infelizmente alguns de nossos amigos caíram nesse jogo de ilusões” (+ Bernard Fellay, Menzingen, 14 de Abril de 2008).

O que não impede que Dom Fellay mantenha encontros e contatos pessoais “discretos”, assim comocontatos  ”por escrito e por telefone” com a Santa Sé, como revelou o Cardeal Hoyos, em entrevista a Vittoria Prisciandaro, publicada pelo site Totus tuus.
Contou o Cardeal Hoyos nessa entrevista bem recente:

«Há sinais positivos, há um diálogo não interrompido (entre a FSSPX e Roma). Ainda, dias atrás, escrevi uma nova carta a Monsenhor Fellay, superior da Fraternidade, como resposta a uma carta dele. Além de encontros e correspondência, nos telefonamos” (http://www.totustuus.net/modules.php?name=News&file=article&sid=2264)

Portanto, Dom Fellay, sofreria momentos de... “ingenuidade”...
Bento XVI, maquiavelicamente, teria liberado a Missa de sempre, para enganar, os tradicionalistas. Toda a política do Papa seria puro “jogo”, pura enganação para captar ingênuos.
Desse “jogo” fariam parte até as declarações cheias de ódio dos teólogos modernistas mais conhecidos, assim como as declarações praticamente cismáticas de Bispos contrários a Bento XVI, e que sabotam suas medidas....
Para completar o “jogo”, juram os prudentes.
Pouco adianta lhes lembrar que, segundo Paulo VI, liberar a Missa de sempre significava condenar simbolicamente o Vaticano II. Tudo era “jogo” para enganar os “inocentes”, os “ingênuos”, os “iludidos”.
Que visa, afinal, Bento XVI?
Salvar o Vaticano II e a Missa nova, ou restaurar a Missa de sempre e a doutrina católica autêntica?
Essa questão está no fundo de todos os que analisam os acontecimentos eclesiásticos e mundiais.
Agora, chegou a vez de Umberto Eco, um especialista em semiologia, isto é, em interpretação de textos e palavras,  dar a sua opinião sobre o Papa Bento XVI.  E eis que ele se revelaria - Eco também - um “ingênuo”... Ou como mais um cúmplice nessa fantástica manobra universal de enganação da direita católica...
Eis a parte da entrevista de Umberto Eco que nos interessa:
 
“ECO - Está ocorrendo um retrocesso ao século 19, quando havia um confronto entre o Estado liberal e a igreja. De quem é a responsabilidade por isso? Não é por acaso que esse confronto tenha se acirrado com a chegada de Ratzinger [o papa Bento 16]; portanto, talvez se deva à política clerical do novo pontífice.
Sua luta contra a cultura moderna, o chamado relativismo, voltou aos grandes temas da igreja do século 19, que falava contra a revolução e contra a ciência moderna.
Hoje, emergem muitas posições anticlericais, e muitas pessoas se declaram atéias. Ninguém estava pensando nisso antes. Subiu ao trono um papa que pensa como um papa do século 19”. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1105200804.htm)
 
É “jogo”.
 
É eco do “jogo”.
 
Para Umberto Eco, então, Bento XVI é inimigo da Modernidade, defendida pelo Concílio Vaticano II, porque ele ataca a sua essência última: o relativismo. Bento XVI seria um Papa do século XIX. Um Papa que pensa como um Papa do século XIX.
Um Pio IX do século XXI.
 
Será que é por isso que Bento XVI começou a usar a tiara de Pio IX?
 
É “jogo” repetirão os eternos entendidos...
 
***
 
Que Deus ouça Eco e abençoe o Papa Bento XVI.
 
São Paulo, 11 de Maio de 2008.
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Mais um Eco ´iludido`"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/eco_iludido/
Online, 22/10/2017 às 02:45:04h