O Papa

Comentando um comunicado da FSSPX
Orlando Fedeli

Foi com alegria que tomamos conhecimento quer do trabalho do Abbé Celier (Par fidélité à Mgr Lefebvre, la Fraternité Saint-Pie X doit-elle signer au plus tôt un accord avec Rome?), quer, depois, do Aviso do Abbé de Cacqueray, premunindo os católicos  tradicionais contra sites sede vacantistas.
E com alegria publicamos esses documentos no site Montfort, pouco nos importando com os ataques que temos sofrido por parte de certos membros da FSSPX, porque visamos apenas o triunfo da Igreja, e não nosso prestigio. 
Depois da publicação do Abbé Celier, condenando o sede vacantismo e defendendo a tese de que Dom Fellay tem o direito e o dever de decidir, quando as circunstâncias lhe parecerem justas, uma plena união da FSSPX com Roma, vem agora a público, um Comunicado do Superior do Distrito da França contra sites sede vacantistas.
O Abbé Régis de Cacqueray mostra que os sede vacantistas são, na verdade, aliados dos modernistas, defensores dos erros do Concílio Vaticano II.
Estranha aliança dialética que realmente existe.
Os sede vacantistas negam que Bento XVI seja Papa. Os modernistas estão a ponto de se separarem de Roma, porque não admitem as medidas de Bento XVI a favor da Missa de sempre, e por ter condenado o “espírito do Vaticano II”. Sede vacantistas e modernistas se unem no ódio ao Papa Bento XVI.
Sobre isto diz o Abbé de cacqueray em seu Aviso de prevenção anti sede-vacantista:
 
“Essa aliança entre tendências aparentemente opostas não deve surpreender ninguém: os especialistas em técnicas revolucionárias fabricam com cuidado cada uma das presas das tenazes com que esperam mais facilmente agarrar suas presas. Sua maior habilidade é a de se servir, sem que se perceba, de homens ou grupos que concorram para seu fim”.
 
A dialética gnóstica sempre atuou assim. Não é sem razão que Deus fez a serpente um animal com língua bífida.
 
Outro ponto interessante a colocar em destaque é o por quê se publica, neste momento, este Aviso, assim como o trabalho do Abbé Celier, ambos esses trabalhos contra o sede vacantismo, que se opõe fortemente a qualquer acordo da FSSPX com Roma.
Claro que quem considera que Bento XVI não é Papa, -- chegando alguns a chamá-lo simplesmente de Joseph Ratzinger! - se opõe com todas as forças a que a FSSPX se uma plenamente a Bento XVI. E não é segredo para ninguém, que, mesmo dentro da FSSPX, há quem defenda o sede-vacantismo, uns de forma escancarada (Padre Méramo, por exemplo), outros de modo bem pouco velado, tolerando que o sede vacantismo grasse entre os tradicionalistas...
Parece, então, que a condenação dos sites sede-vacantistas dá oportunidade à FSSPX de unir suas fileiras - E isso é ótimo! - num possível, talvez bem próximo, “acordo” com Roma.
Muito importantes e bem reveladores são os argumentos expostos pelo Abbé de Cacqueray.
Vejamos alguns deles.
Em primeiro lugar, o Superior do Distrito de França da FSSPX  critica os que afirmam que fazer “acordo” com Bento XVI seria trair Dom Lefebvre, que se oporia a qualquer “acordo” com Roma.
Diz Padre Régis de Cacqueray:
 
“Sob capa de fidelidade a Monsenhor Lefebvre,  trata-se de denunciar toda ação da Fraternidade como suspeita de desvio e de infidelidade  a seu Fundador. Não se a qualificará mais de cismática, mas se dirá prestes a trair o combate de seu Fundador, de preparar sua submissão à Roma conciliar e a seus erros”.
 
E responde a isso o mesmo Abbé de Cacqueray:
 
como se Monsenhor Lefebvre não tivesse tido, ele antes de todos, a preocupação constante de trabalhar pelo retorno de Roma à Tradição, e não tenha multiplicado esforços incessantes para com as autoridades da Igreja”.
 
É sintomático que também o Abbé Celier, em seu trabalho mais recente, tenha tomado a mesma posição anti sede vacantista do Abbé de Cacqueray:
 
“Mons. Lefebvre tendo se expressado muitas vezes, entre1961 e 1991, sobre a presente situação da Igreja, a corrente sede vacantista, particularmente, procurou, a partir da considerável massa de textos conservados, “fazer falar” o Bispo de Écône no sentido de uma oposição a qualquer contato com a Roma atual. Os defensores dessa tese não hesitam, mais de quinze anos após a morte de Mons. Lefebvre, em descrever em pormenor como ele reagiria, hoje, face a tal ou tal acontecimento, usando para isso alguns farrapos de frases esparsas, ou uma série de textos selecionados de modo a evitar outras passagens que trazem matizes, e até mesmo uma revisão do que fora dito.
“Desse modo, eles  procuram impedir que Mons. Fellay, atual Superior geral da FSSPX, use sua legítima liberdade de julgamento e de ação, criando uma oposição fictícia e enganadora entre as diretivas e as escolhas de Mons. Fellay hoje, e aqueles que, conforme sua reconstituição hipotética, Mons. Lefebvre teria decidido se estivesse vivo” (Abbé Celier, Par fidélité à Mgr Lefebvre, la Fraternité Saint-Pie X doit-elle signer au plus tôt un accord avec Rome?).
 
 
Quem estaria procurando impedir que Dom Fellay use de sua autoridade livremente?
Seriam pessoas da própria FSSPX, ou de fora?
Se forem membros da FSSPX que estão agindo assim, seria lamentável. Como seria ótimo se Dom Fellay tivesse autoridade e poder para realizar o acordo com Roma, quando julgasse conveniente, vencendo possíveis oposições de sede vacantistas.
Essa coincidência de pensamento entre o Abbé Celier e o Abbé de Cacqueray vai na boa direção, e a coincidência de publicação dos documentos deles indica uma decisão e orientação única.
 
 
Uma segunda objeção sede vacantista a possíveis “acordos”com Roma seria que o Papa e os Cardeais que o cercam, hoje, seriam todos tão modernistas que seria impossível -intelectualmente - de se converterem. Pretender convertê-los seria trair Dom Lefebvre e aderir ao Vaticano II e à Missa Nova.
A essa acusação absurda responde o Abbé de Cacqueray:
 
“Todo esforço que ela empreender para trabalhar pela conversão intelectual das autoridades conciliares servirá para que ela seja acusada de  acordo com o inimigo”.
 
A isso responde o Abbé de Cacqueray:
Mas eles vivem, na realidade, no medo mais profundo de um possível retorno das autoridades conciliares para a tradição. Esse  retorno, eles quereriam muito que fosse impossível ! Porque esse retorno provaria seu erro de julgar ser sem esperança a conversão das autoridades romanas.
Portanto, o Abbé de Cacqueray considera possível um retorno das autoridades romanas para a tradição.
E não poderia ser de outro modo. Pensar que isso é impossível seria equivalente a pensar que tais autoridades são já precitos vivos, o que é um absurdo de um orgulho quase que de precito.
 
Uma terceira objeção falaciosa seria que admitir discutir com as autoridades romanas os erros e as novidades do Vaticano II seria, só por isso, aderir a esse erros e novidades.
Diz o Abbé de Cacqueray:
 
”a Fraternidade é sem cessar denunciada como estando prestes a abandonar o combate por causa das conversações que ela mantém com essas autoridades”.
 
É exatamente o oposto que é verdade.
Discutir os erros do Concílio Vaticano II não é de modo algum aderir a eles.
Quando Roma aceita discutir os pontos mais polêmicos do Concílio, ela, por isso mesmo, já está implicitamente admitindo que esses textos podem ter erro e que não são dogmas. Pois dogmas não se discutem. Então, com a abertura dessas discussões doutrinárias, é Roma quem admite, de início, que o Vaticano II pode ter erros. Daí o ódio furioso dos modernistas contra Bento XVI, tido por eles como traidor do Vaticano II.
Excelente !
Esse Aviso de Prevenção anti sede vacantista vem em boa hora. Seria precipitado dizer que o documento do Abbé Celier e este Aviso do Abbé de Cacqueray - tão harmônicos! - podem ser vistos com um faixa de luz no horizonte noturna em que vive a Igreja, hoje?
Que Dom Lefebvre e Dom Mayer, que cremos no céu, roguem a Deus para que conceda ao Papa Bento XVI a fortaleza para enfrentar os lobos modernistas tão numerosos em Roma.
Afinal, Roma nasceu sob o signo da loba. Ela foi a loba das nações que São Pedro transformou em amamentadora dos povos, dando-lhes o cristianismo e a cultura católica. Os modernistas quiseram, de novo, fazer de Roma, uma fera, o dragão vermelho que, com sua cauda, arrastou, muitas estrelas do céu para o abismo.
Possa Nossa Senhora, a Mulher vestida de sol, expulsar esse dragão vermelho de Roma e de toda a Igreja, através da ação corajosa de Bento XVI.                 
Rezemos pelo Papa.
Rezemos por Dom Fellay.
 
São Paulo, 17 de Junho de 2008.
Orlando Fedeli
 
 

    Para citar este texto:
"Comentando um comunicado da FSSPX"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/comunicado_fsspx/
Online, 25/11/2017 às 09:12:28h