O Papa

Bento XVI condena a gnose e o panteísmo
Orlando Fedeli


 

Na audiência geral de 3 de Dezembro de 2008, o Papa Bento XVI fez importante pronunciamento doutrinário ao tratar do pecado original e da Redenção de Cristo.
Inicialmente, comentando textos de São Paulo, o Papa mostrou como a tendência para o mal moral, patente em nossa natureza, coloca o problema do pecado e o do mal. O Papa salienta que o problema do pecado original – dogma da Fé católica — está ligado a outro dogma: o da Redenção de Cristo.
O pecado de Adão afetou profundamente a natureza humana, inclinando-nos ao erro e ao pecado.
Deus tudo fez bom. No Gênesis, se lê que a cada coisa que Deus criava, Deus afirmava que essa coisa era boa. E, no final da criação, Deus, vendo tudo o que havia feito, afirmou que tudo era muito bom, pois todas as criaturas eram bens ordenados entre si.
O mal enquanto ser, não existe. Se o mal existisse enquanto ser, enquanto coisa, esse mal teria sido feito por Deus, e Deus tudo fez bom.
Santo Agostinho, que durante certo tempo foi maniqueu, mostrou bem o absurdo do dualismo gnóstico maniqueu que afirmava existirem dois princípios eternos e iguais: o do bem e o do mal.
Santo Agostinho, em seu livro Contra Manicheos, mostra que imaginar que possa existir um Princípio absolutamente mau é um absurdo. Porque, existir é um bem. Se existisse um princípio absolutamente mau, ele teria um bem: o da existência. Logo, tendo o bem da existência, ele não seria absolutamente mau. Logo, não pode  haver um ser absolutamente mau.
O mal não existe enquanto ser. Mal é falta do que deveria existir ou a falta de ordem. Assim, se falta um olho  a um homem, isso seria um mal. Se falta ordem num ser, isso é um mal. Se um homem tem uma terceira orelha em sua fronte, ela estaria colocada fora de ordem e lhe seria prejudicial. Mal aí seria a falta de ordem no ser.
Porém somos capazes de fazer ações más, isto é, desordenar os bens. O mal moral existe. Por exemplo, roubar é um mal moral, e ele consiste em colocar um bem menor (o dinheiro, a riqueza) acima de um bem maior: a justiça.
                       
                  Bem menor -  a  Riqueza $
Roubar = ----------------------------------------------  =  ação má, imoral.
                   Bem Maior  -  a   Justiça
 
Nossa inteligência compreende que não devemos fazer essa desordem, mas há uma força negativa no homem que o impele a ter um desejo desordenado por algum bem e o leva ao pecado. Essa tendência, em nós, a cometer pecados é conseqüência do pecado original, que colocou no homem uma desordem profunda.
O pecado original, ofendendo a Deus, teve gravidade infinita, e só o mérito infinito de Cristo, Deus encarnado, poderia nos livrar dessa culpa original. Como Deus, Jesus Cristo tinha mérito infinito. Como homem, Ee se apresentou a Deus Pai como o único responsável por todos os nossos pecados, pagando desta forma todas as nossas culpas.
Bento XVI mostra assim que sómente Cristo é nosso Redentor e que sua redenção nos libertou da culpa original e, por meio da graça de Cristo, o homem pode agir bem e vencer a tendência misteriosa que sentimos para o pecado.
Mas, “o fato do poder do mal no coração humano e na história humana é inegável. A questão é:  como se explica este mal?” perguntou Bento XVI na audiência geral de 3 de Dezembro passado.
E o Papa prosseguiu explicando que, no passado histórico, duas tentativas de solução, contrárias à explicação dada pela doutrina católica, foram elaboradas, para explicar o problema do mal. Ambas pretendendo seduzir o homem. dizendo-lhe mentirosamente que, de fato, ele seria deus. Ambas constituindo-se como que as duas forma da Religião do Homem, o Antropoteísmo.
 
A  falsa solução da Gnose. Ela considera que o mal é inerente ao Ser, e mesmo ao ser da Divindade, e que, conseqüentemente, o próprio Deus  transmitiu o mal ontológico aos seres existentes no mundo. O mundo criado seria obra do Deus mau, e fruto da queda da própria Divindade.Portanto, em todo ser, haveria dois princípios contrários e iguais: o bem e o mal constituindo cada ser numa perpétua luta dialética. O ser então não seria idêntico a si mesmo. O dualismo seria o fundo de todo ser, e a luta entre o princípio bom contra o princípio mau causaria a evolução dialética, tal como, por exemplo, Hegel a explica em sua Gnose.
Esse sistema gnóstico existiu em toda antiguidade pagã e foi vencido pelo Cristianismo.  Na Idade Média, ele voltou a se expandir através do Catarismo que a Inquisição combateu, mas não venceu. E foi essa Gnose, triunfante na  Filosofa mística de Eckhart derivada de Duns Scoto que veio a desembocar na mística e moral da Reforma de Lutero e no Humanismo do Renascimento, dando origem a toda Gnose Moderna, desde Descartes à Fenomenologia de Husserl e ao Modernismo do Vaticano II.
A Gnose é irracionalista e inimiga de toda matéria, considerada por ela como o princípio do mal, o sepulcro ou cárcere de um espírito divino que estaria preso nos seres materiais e que seria preciso libertar por meio de um conhecimento intuitivo, dialético, não racional (Gnosis = conhecimento). O Hinduísmo, o Budismo, o Mazdeísmo, o Maniqueísmo, o Catarismo, o Romantismo e o Nazismo foram exemplos típicos de movimentos gnósticos. Na Igreja, atualmente, a Gnose aparece no Modernismo e nos movimentos carismáticos dominados pelo irracionalismo e sentimentalismo.
Veja-se agora o que ensinou nosso Papa Bento XVI sobre a versão gnóstica do Antropoteísmo, da Religião do Homem, que desde Adão luta na História contra a única religião verdadeira:

Na história do pensamento, prescindindo da fé cristã, existe um modelo principal de explicação, com diversas variações. Este modelo diz:  o próprio ser é contraditório, tem em si quer o bem quer o mal. Na antiguidade, essa idéia incluía a opinião que existiam dois princípios igualmente originários:  um princípio bom e um princípio mau. Este dualismo seria insuperável; os dois princípios estão no mesmo nível, por isso haverá sempre, desde a origem do ser, esta contradição. A contradição do nosso ser, portanto, refletiria apenas, por assim dizer, a contrariedade dos dois princípios divinos” ”.(Bento XVI, Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade, Audiência Geral de Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008).
 
De passagem, cabe perguntar: como ficam certos teólogos da internet que se divertem, afirmando que a Montfort vê Gnose em tudo? Será que Bento XVI também vê Gnose em toda a parte?
A essa versão gnóstica da heresia metafísica, que pretende erigir o homem em Deus, sempre se opôs uma segunda versão mais bruta e racionalista do Antropoteísmo: a do Panteísmo. Para o Panteísmo, não haveria uma Divindade transcendente. A Divindade seria imanente ao universo e se confundiria com ele. A Matéria seria eterna e constituída por dois princípios contrários e iguais, que ocasionariam a evolução contínua do mundo da pedra bruta para a vida vegetal, desta para o mundo animal, e este para o homem.
E por que não depois para o Super Homem?
Todo Panteísmo desemboca na Gnose. Darwin e Marx trabalham para  divinizar o Homem.
O Panteísmo é defensor de um monismo dualista, dialético, evolucionista, racionalista, cientificista, mecanicista.
Foi também de Duns Scoto, através de Guilherme de Ockham que nasceu o racionalismo moderno, triunfante na vertente racionalista do cientificismo cartesiano, nos empiristas, no iluminismo enciclopedista, em Darwin e no Marxismo, e, finalmente, hoje, na Teologia da Libertação.
Eis como Bento XVI apresentou essa segunda versão da Religião do Homem, o Antropoteísmo:           

“Na versão evolucionista, atéia, do mundo volta de maneira nova a mesma visão. Mesmo se, nesta concepção, a visão do ser é monista, supõe-se que o ser como tal desde o início tenha em si o mal e o bem. O próprio ser não é simplesmente bom, mas aberto ao bem e ao mal. O mal é igualmente originário como o bem. E a história humana desenvolveria apenas o modelo já presente em toda a evolução precedente”.
(Bento XVI, Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade, Audiência Geral de Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008).
 
Daí, o Antropoteísmo, em suas duas versões –a Gnóstica e a Panteísta--  procura substituir a verdade do pecado original pela idéia de queda metafísica. A Divindade caiu no ser. Na história, a Divindade luta para se libertar através da evolução dialética. Panteísmo e Gnose seriam como dois fios – um vermelho e o outro branco—que se enroscam um no outro, dando origem ao fio da história.
O panteísmo materialista e anti clerical é defendido pelas sociedades secretas laicistas, enquanto a Gnose é propagada pelas seitas secretas místicas. Ambas são como os dois chifres do bode, ou as duas pontas da língua bífida da serpente. Mas  a cabeça do Panteísmo e da Gnose é uma só.
Bento XVI acentua a face anti-metafísica dessa doutrina anti católica ao dizer:

“Aquilo a que os cristãos chamam pecado original na realidade seria apenas o caráter misto do ser, uma mistura de bem e de mal que, segundo esta teoria, pertenceria à própria capacidade do ser. No fundo, trata-se de uma visão desesperada:  se assim é, o mal é invencível. No final conta unicamente o próprio interesse. E cada progresso deveria ser necessariamente pago com um rio de mal e quem quisesse servir o progresso deveria aceitar pagar este preço. No fundo, a política é delineada precisamente sobre estas premissas:  e vemos os seus efeitos. Este pensamento moderno pode, no final, criar tristeza e cinismo” ”.
(Bento XVI, Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade, Audiência Geral de Quarta-Feira, 3 de Dezembro de 2008).
 
Essa luta entre a Igreja e a anti Igreja atinge, em nosso dias, o paroxismo.
 
O Papa Bento XVI tem bem clara a dramaticidade da batalha que se trava, hoje, no Vaticano e no mundo, mundo que está  à beira de um colapso geral. Religião, política finanças são os estopins dessa derradeira batalha que alcança aspectos apocalípticos. Que a resolução do combate atual é iminente parece se entrever nas derradeiras palavras do Papa no final deste seu pronunciamento:

A noite escura do mal ainda é forte. E por isso rezemos no Advento com o antigo povo de Deus:  "Rorate caeli de super". E rezemos com insistência:  vem Jesus, dá força à luz e ao bem; vem onde dominam a mentira, a ignorância de Deus, a violência, a injustiça, vem, Senhor Jesus, dá força ao bem no mundo e ajuda-nos a ser portadores da tua luz, artífices da paz, testemunhas da verdade. Vem Senhor Jesus! ”.(Bento XVI, Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade, Audiência Geral de Quarta-Feira, 3 de Dezembro de 2008).
 
Rezemos pelo Papa Bento XVI, que está n centro dessa batalha e é alvo odiado por todos os seguidores do Antropoteísmo, quer os do ramo gnóstico, quer os do ramo panteísta.

São Paulo, 17 de Dezembro de 2008

Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Bento XVI condena a gnose e o panteísmo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/bxvi_gnose/
Online, 23/03/2017 às 09:16:34h