O Papa

Bento XVI, o diálogo e o ecumenismo
Orlando Fedeli

    O Concílio Vaticano II adotou o método subjetivista da Fenomenologia como atitude básica da Igreja ao tratar de questões doutrinárias.
    Para a Fenomenologia, o homem seria incapaz de atingir a realidade objetiva. Seríamos como cegos apalpando um elefante. Cada um dos cegos chega a uma conclusão distorcida do que é o elefante, porque não têm possibilidade de vê-lo.
    Um dos cegos abraça uma das pernas do paquiderme, e conclui, peremptoriamente, que o elefante é um tronco de árvore. Outro se agarra à sua tromba, e o define como uma grande serpente móvel. Um terceiro, apalpando o costado do animal, o descreve como uma larga parede rugosa. Outro ainda, apalpando uma das presas do elefante, se ri do que disseram os demais cegos, porque pensa que eles estão totalmente errados, pois que o elefante é um chifre.
    Cada um desses cegos tem uma compreensão parcial e enganadora do elefante. E se um deles afirma ter certeza de que possui a verdade sobre o elefante, esse é um homem duplamente cego, física e espiritualmente cego. Além disso, seria um fanático e um ignorante.
    Os cegos se fossem sábios deveriam trocar informações entre si, estabelecendo um diálogo que os aproximaria da verdade, sem, porém, jamais atingi-la.
    Dialogar seria a solução.
    Assim seriam também as várias religiões diante da realidade de Deus. Cada uma delas possui apenas uma impressão particular e parcial da Divindade absolutamente inacessível. Caso uma religião se afirme, então, possuidora da verdade, ela daria provas de sua ignorância e de seu fanatismo.
    É o que pensou fenomenologicamente o Concílio Vaticano II.
    É o que se repetiu exaustivamente e cegamente no período pós conciliar
    É o que afirmou Jean Sullivan, em seu livro Matinales (Paris , 1976):
 
Os crentes imaginam que a Fé traz consigo certezas. Meteram-lhes isso nas cabeças. É preciso desconfiar da certeza, As certezas geralmente se fundamentam em que? No não aprofundamento dos conhecimentos” (Apud Romano Amerio, Iota Unum, Riccardo Ricciardi Editori, Milano- Napoli, 1985, p. 300).
 
    E Romano Amerio conta que, no Congresso dos Teólogos Católicos realizado em Arícia, em 1971, se concluiu que: “nenhuma proposição pode ser tida absolutamente verdadeira” (R. Amerio, ob. Cit., p, 301).
    Portanto, o Concílio Vaticano II proclamou pastoralmente, -- porque ninguém tem certeza de nada -- que ficava instituído o diálogo dos cegos, em matéria de religião.
    E o mundo entrou em diálogo.
    Multiplicaram-se os encontros inter religiosos, nos quais cada um apresentava sua visão de cego. Instituíram-se Pontifícias Comissões para o Diálogo ecumênico com hereges, pagãos, ateus etc. Só não se fez um Pontifícia Comissão Para o diálogo com os Satanistas.
    O diabo continuou, se não excluído, pelo menos esquecido. Foi uma conseqüência de sua aposentadoria conciliar.
    Da Igreja, o diálogo se estendeu à política, às empresas, às cadeiras universitárias. Nas escolas, não se ensinou mais. Os professores se tornaram dialogantes. Tudo passou a ser debatido.
    O mundo virou um hospício de cegos, uma balburdia dialogante, e jamais chegando a qualquer conclusão.
    Na CNBB, se passou a dialogar, e como resultado desse perpétuo dialogar, os Bispos começaram a publicar incontáveis manifestos. Looongos. Chatos. Chatíssimos. Indigestos. Que ninguém lia.
    Hoje, faz-se diálogo pelo diálogo.
    Foi o triunfo exultante  convicto-- com certeza absoluta -- da incerteza e do relativismo.
    Aí foi eleito Bento XVI...
    Os modernistas, a princípio, garantiram que Bento XVI seria diferente do cardeal Ratzinger. Depois, fizeram cara amuada. Depois, começaram a murmurar... Vieram os primeiros protestos.
    No folhetim dominical O Domingo, na oração pela Igreja, tirou-se o número XVI depois do nome Bento. A seguir, tirou-se o nome Bento, rezando-se pelo papa, sem dizer seu nome. Depois...
    Depois, o que virá?
    O cisma explícito?
    Em sites como o Golias, ou como o Adista, a revolta contra Bento XVI é pública e violenta.
    Em sacristias outrora silenciosas e cheirando a incenso, hoje, entre os rumores de um rock estúpido, padres moderninhos murmuram, que esse Papa já tem 80 anos, que ele não durará muito, e que logo virá um outro que recolocará a Igreja nos eixos dialogantes do Concílio Vaticano II.
    E quando padres esperam a morte de um Papa...
    Acusa-se Bento XVI de ser um traidor do Concílio Vaticano II.
    Agora, neste ano de 2008, no sábado santo aconteceu algo que feriu fundo os corações conciliares:  Bento XVI batizou um maometano!!!
    Isso é proselitismo!!!
    Isso equivale a proclamar que, para se salvar, é preciso pertencer à Igreja Católica!
   Isso é negar o “dogma” pastoral do Concílio Vaticano II.
    O Papa -- dizem os relativistas conciliares -- desafiou o mundo e desacatou o Concílio Vaticano II, afirmando por um gesto simbólico, a necessidade de ser católico para se ir ao céu. Ele negou --por meio de um gesto -- o grande dogma relativista do ecumenismo conciliar: vale tudo em matéria religiosa.
    Pior ainda foi o modo como Bento XVI quis batizar uma maometano.
    Ele poderia ter mandado um padre desconhecido de um subúrbio qualquer fazer esse batismo discretamente.
    Às escondidas.
    Que nada!
    Não. Bento XVI quis “escandalizar”!
    Ele quis, ele mesmo, fazer o batizado do Vice Diretor do Corriere della Sera, o  ex maometano Magdi Allam.
    Pior ainda!
    Quis fazer esse batizado em São Pedro!
    Em pleno Vaticano!
    E na cerimônia do Sábado Santo, quando havia uma multidão assistindo!
    E o catecúmeno quis ter um nome provocativo, que manifestasse para sempre sua conversão: fez batizar com o bem expressivo nome de Cristiano.
    Foi demais!
    Tudo isso foi uma provocação, rugem os modernistas dialogantes.
    Isso foi um crime de lesa-diálogo. Foi uma afronta ao ecumenismo e ao Concílio Vaticano II.
   Rasgaram-se vestes.
    Organizam-se conchavos.
    Nas trevas.
    Conspira-se.
    Fazem-se cálculos.
    Maggdi Cristiano Allam foi condenado à morte pelo Islam.
    E o diálogo?
    Agora, veio a público uma carta muito interessante de Magddi Cristiano Allam, da qual queremos destacar alguns trechos, para alegria dos católicos fiéis, e para raiva dos hereges modernistas.
    Ei-los:
    Inicialmente. Cristiano Allam informa o Diretor do Corriere della Sera de como se deu sua decisão de se batizar:
 
”Caro Diretor, o que vou exporconcerne à minha escolha de fé religiosa e de vida pessoal, e não pretende de forma alguma implicar o “Corriere della Sera”, do qual tenho a honra de fazer parte desde 2003 como vice-diretor a título pessoal.  Escrevo-lhe, portanto, como protagonista do evento  na qualidade de  cidadão privado.  Ontem me converti à religião cristã católica, renunciando  à minha anterior fé islâmica. Enfim eu vi assim a luz, pela graça divina,  fruto  sadio e maduro de uma longa gestação vivida no sofrimento e na alegria, depois de profunda e íntima reflexão e de uma postura consciente e manifesta. Sou particulamente grato à Sua Santidade o Papa Bento XVI que me dispensou os sacramentos da iniciação cristã, Batismo, Crisma e Eucaristia na Basílica de São Pedro durante a solene celebração da  Vigília Pascal.  Adotei o nome cristão mais simples e explícito: “Cristiano”.
“Desde ontem, portanto, me chamo “Magdi Cristiano Allam”. Para mim é o dia mais belo da minha vida. Receber o dom da fé cristã na celebração da Ressurreição de Cristo pela mão do Santo Padre constitui, para um crente, um privilégio inigualável e um bem inestimável. Perto dos meu 56 anos, na minha pequenez, é um fato histórico, excepcional e inesquecível, que assinala uma mudança radical e definitiva com relação ao  passado”.
 
    E Cristiano não teme criticar duramente o Islam:
 
“(...) “Minha mente se livrou assim do obscurantismo de uma ideologia que legitima a mentira e a dissimulação, a morte violenta que induz ao homicídio e ao suicídio, a cega submissão e a tirania, permitindo-me aderir à autêntica religião da Verdade” .
 
    Ele historia então o processo de sua conversão e as ameaças que, por isso, ele tem sofrido:
 
”Minha conversão ao catolicismo é o ponto de chegada de uma gradual e profunda meditação interior à qual não me poderia ter subtraído, pois há cinco anos estou submetido a uma vida encouraçada, com vigilância permanente em casa e escolta policial armada em qualquer deslocamento meu, devido às ameaças e condenações à morte que me foram infligidas pelos extremistas e pelos terroristas islâmicos, tanto os residentes na Itália como os que agem no exterior.  Tive de interrogar-me sobre a atitude daqueles que publicamente me condenaram ao fatwe, dos juízos jurídicos islâmicos, denunciando-me a mim, que era muçulmano, como “inimigo do islã”, “hipócrita pois é um cristão copta que finge ser muçulmano para prejudicar o islã”,  “mentiroso e difamador do islã”, legitimando desse modo minha condenação à morte. Perguntava-me como era possível eu R11; que me batera convicta e tenazmente por um “islã moderado”, assumindo a responsabilidade de me expor pessoalmente na denúncia do extremismo e do terrorismo islâmico R11; , acabar depois condenado à morte em nome do islã com base numa legitimação corânica. Tive então de convencer-me de que,  além da  contingência que registra o surgimento do fenômeno dos extremistas e do terrorismo islâmico em nível mundial, a raiz do mal está inserida num islã fisiologicamente violento e historicamente conflituoso”.
 
    Cristiano destaca, a seguir, o papel que Bento XVI teve em sua conversão:
 
Porém sem dúvida o encontro mais extraordinário e significativo na decisão de me converter foi com o Papa Bento XVI, a quem eu admirava e defendia desde muçulmano pela sua maestria na colocação do vínculo indissolúvel entre a fé e a razão como fundamento da autêntica religião e da civilização humana, e a quem eu sigo plenamente como cristão para inspirar-me de nova luz no cumprimento da missão que Deus me reservou”.
 
    E o neo batizado fala das ameaças atuais à sua vida:
 
    “Caro Diretor, o Sr. me perguntou se eu não temo pela minha vida,sabendo que a conversão ao cristianismo provocará certamente uma enésima, e bem mais grave, condenação à morte por apostasia. Tem toda a razão. Sei o que me espera, porém enfrentarei minha sorte de cabeça ereta, ombros erguidos, com a solidez interior  de quem está seguro da própria fé”
 
    Cristiano Allam mostra como o Papa Bento XVI foi corajoso, batizando-o, e com esse gesto, mudando a política de medo seguida pelas autoridades da Igreja frente ao Islam, desde o fim do Concílio Vaticano II:
 
    ”Estarei mais ainda depois do gesto histórico e corajoso do Papa, que desde o primeiro instante de seu conhecimento do meu desejo logo aceitou dispensar-me pessoalmente os sacramentos da iniciação ao cristianismo. Sua Santidade proclamou uma mensagem explícita e revolucionária a uma Igreja até agora demasiado cautelosa na conversão dos muçulmanos, ao abster-se de fazer proselitismo nos países de maioria islâmica e calar-se sobre a realidade dos convertidos nos países cristãos. De medo. O medo de não poder proteger os convertidos em face de sua condenação à morte por apostasia e o medo das represálias nos confrontos  dos cristãos residentes nos países islâmicos. Pois bem, hoje Bento XVI,  com seu testemunho, nos diz que é preciso superar o medo e não temer de modo algum afirmar a verdade de Jesus, apesar dos muçulmanos”. (Os destaques são nossoss)”.
Peço a Deus que esta Páscoa especial traga o dom da ressurreição do espírito a todos os fiéis de Cristo que até agora estiveram dominados pelo medo”.  
Magdi Allam
23 de março de 2008.

***
 
    Só podemos nos alegrar com essa conversão tão importante, e, muito mais ainda, exultar com a coragem do Papa Bento XVI, desafiando, mais dos que os fanáticos maometanos, os modernistas ainda mais fanáticos do Concílio Vaticano II.
    Deus guarde o Papa Bento XVI.
    Rezemos pelo Papa Bento XVI. Viva o Papa!
   
São Paulo, 11 de Abril de 2008
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Bento XVI, o diálogo e o ecumenismo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/bxvi_ecumenismo/
Online, 21/08/2017 às 20:50:56h