O Papa

Por que Bento XVI deve carregar o peso das culpas de seu predecessor?
Damian Thompson

 
Muito tempo antes de ser papa, Joseph Ratzinger lutou para reforçar os procedimentos da Igreja Católica a fim de enfrentar as acusações de abuso. Entretanto o Vaticano não conseguiu transmitir essa mensagem crucial durante uma epidemia de histeria mediática dirigida – preguiçosa e maliciosamente – contra Bento XVI.  Por que?
     
Poderia ser porque dizendo a verdade sobre Bento XVI se ofuscaria a reputação de João Paulo II?
 
Isso é sugerido por John Allen, que, não obstante escreva para o ultra progressista periódico americano National Catholic Reporter é largamente considerado como o mais autorizado comentarista Vaticano no mundo anglófono. Também o grande Padre Z. o considera tal. (Ante o discurso comedido de Allen, se comparado com os incessantes ataques anti-Bento XVI do 'correspondente'  romano do Tablet, Bobbie Mickens).
 
Allen publicou um trecho sobre o caso do Cardeal colombiano Dario Castrillón Hoyos, que em 2001 escreveu uma carta indefensável a um Bispo francês, congratulando-se com ele pela omissão de denunciar à polícia um padre pedófilo. A carta foi publicada anos atrás, mas, quando foi redescoberta no início deste mês, o Vaticano imediatamente se distanciou de Castrillón. Como nota John Allen:
 
Num caso raro de "resposta rápida", o porta voz oficial do vaticano, o jesuíta padre Federico Lombardi, emitiu quase que imediatamente uma declaração aos jornalistas, depois que a história saiu, na França.
 
A carta, segundo a declaração de Lombardi, oferece "uma outra confirmação de quanto foi oportuna a unificação do tratamento dos casos de abuso sexual de menores, ao se transferir esses processos da Congregação do Clero para a Congregação para a doutrina da fé."
 
Com efeito, foi um modo educado de dizer que Castrillón era parte do problema contra o qual o então Cardeal Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, teve que lutar para afinar os procedimentos Vaticanos para tratar os casos de abuso sexual.
 
Isto esclarece como Bento XVI, como continuo a dizer, era parte da solução, e não parte do problema. Mas tomemos em consideração um outro detalhe: o Cardeal Castrillón revelou na semana passada que ele havia mostrado a sua carta a João Paulo II, e que este o autorizara.
 
Eis a conclusão do artigo de Allen (os sublinhados são meus):
 
“Enfim, uma nota sobre o impacto do episódio Castrillón: ironia da sorte, exumar tal carta de 2001 pode ter condenado Castrillón, mas na realidade poderia realmente ajudar Bento XVI.
 
Durante o giro mais recente da cobertura mediática, houve uma grave incongruência entre o efetivo papel do Papa Bento XVI sobre os abusos sexuais – ou seja, o alto funcionário Vaticano que tomou a crise mais a sério, desde 2001, e que assumiu o encargo da reforma - e a imagem externa do papa como parte do problema.
 
Ainda que houvesse muitas razões para esse fato, o essencial é que o Vaticano teve dez anos para contar ao mundo a história de "Ratzinger o Reformador", e em vez disso, essencialmente deixou passar a ocasião. Tal omissão deixou um vazio nas relações públicas em que uma mancheia de casos do passado do Papa, nos quais o seu papel havia sido na realidade marginal, vieram a definir o seu perfil.
 
Deve-se perguntar, por que o Vaticano não conta a história de Ratzinger?
 
Pelo menos uma parte da resposta, suspeito, é porque para fazer aparecer bem Ratzinger, eles deveriam fazer aparecer mal a outros – entre os quais, obviamente, Castrillón, além de outros altos funcionários vaticanos. Escondida por trás dessa preocupação há outra mais profunda, que é que, para salvar a reputação de Bento XVI, poderia ser necessário ofuscar a reputação de João Paulo II.
 
De fato, ao renunciar à tradicional imunidade de um Cardeal a críticas, nesse caso, Castrillón, inadvertidamente, deu licença ao Vaticano e aos funcionários da Igreja no mundo, para apontá-lo como o "mau".
 
Daí por diante, quando os porta-vozes insistem sobre o fato de que o Papa Bento combateu dentro do Vaticano pela reforma, o mundo terá um quadro muito mais claro da oposição que ele encontrava. Não estava em jogo somente a questão da cooperação com as forças  policiais. Castrillón fazia parte de um bloco de funcionários do Vaticano que pensavam que a crise dos abusos sexuais era alimentada pela histeria da mídia, e que a "tolerância zero" era uma reação excessiva, que remover sacerdotes do ministério, sem longos e pesados processos canônicos, era uma traição à tradição jurídica da Igreja.
 
Isto é importante para esclarecer a situação, porque a verdade é que a real possibilidade de escolha, em Roma, nos últimos dez anos, sobre a crise dos abusos sexuais nunca esteve entre Ratzinger e a perfeição – mas entre Ratzinger e Castrillón.
 
A análise de Allen sublinha a credibilidade das relações pelas quais o Cardeal Ratzinger combateu por uma ação mais severa contra o pervertido Cardeal Hans Hermann Groer, que foi expulso de Viena pela agressão a rapazes e a jovens monges – mas não conseguiu convencer João Paulo II a ordenar uma verdadeira e própria investigação.
 
Devemos prestar atenção aqui, antes de saltar às conclusões. O último Papa era um homem de coragem titânica, santidade pessoal e elevados valores morais; nós não sabemos o que ele sabia ou, se de fato, ele estava numa condição física ou mental, para enfrentar uma crise cujo alcance era oculto pela velha guarda vaticana.
 
Mas o fato puro e simples é que o escândalo não foi adeqüadamente enfrentado durante o seu pontificado, e sei que falo em nome de muitos católicos, quando digo que, não vejo por quê Bento XVI deveria pagar o peso dos erros de seu predecessor.
 
Fonte: Telegraph blog

    Para citar este texto:
"Por que Bento XVI deve carregar o peso das culpas de seu predecessor?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/papa/bento-xvi-culpa/
Online, 23/07/2017 às 13:37:54h