Igreja

Voltando a Roma: as discussões sobre o Concílio Vaticano II.
Orlando Fedeli

  
     Acabo de voltar de Roma. Mas o título deste artigo é Voltando a Roma. Pois quero tratar do retorno do Papa a Roma anterior ao Vaticano II. Dom Bosco teve uma visão desse retorno em uma famoso "sonho" que Deus lhe deu sobre a grave crise da Igreja a que estamos assistindo.

     Nessa visão, ele viu ele uma procissão, liderada por um Papa, saindo do Vaticano, em meio a espessas trevas. Depois de 200 dias de caminhada, durante os quais os clérigos que seguiam o Papa, em sua saída de Roma, iam caindo mortos, percebeu-se que já não se estava mais em Roma. Então, um anjo deu ao Papa um estandarte, ordendo-lhe que retornasse à Cidade eterna. O Papa começou a voltar para Roma e, à medida que ele caminhava em seu retorno, tudo ia ficando claro. Afinal, o Papa retornou a Roma e a São Pedro, rezando um Te Deum de vitória.
 
     É a esse retorno a Roma que faz referência o título deste artigo. 
 
     (E se algum leitor queiser mais detalhes sobre essa visão, peço que consulte, no site Montfort, os artigos em que contamos isso: www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao...bosco).

     Esse “sonho”-visão de Dom Bosco é bem semelhante ao que foi já revelado do Terceiro Segredo de Fátima, onde também Nossa Senhora falou de uma procissão, liderada pelo Papa, que sai de uma cidade arruinada (Roma) e sobe uma montanha encimada por uma cruz (um Calvário, isto é, um altar) e conta que, nesta montanha, o Papa e seus seguidores serão mortos a tiros e flechadas.

     É a esse retorno que nos referimos, no título deste artigo.

     Portanto, voltando a Roma. E não voltando de Roma.

     Certo, estamos voltando de Roma, onde fomos assistir ao Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum e sobre a Missa de sempre, organizado pela Amicizia Sacerdotale Summorum Pontificum.

     No Congresso do ano passado, estavam presentes uns vinte ou trinta sacerdotes.

     Neste ano, havia 80.

     O Congresso deste ano contou com a presença de Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Karaganda, no Kazaquistão; de Mons. Guido Pozzo, Secretário da Comissão Ecclesia Dei; de Mons. Brunero Gherardini, Decano da Universidade Lateranense e autor do livro Vaticano II, un Discorso da fare; de Mons.Camilo Perl, ex-Secretário da Comissão Ecclesia Dei, e que deu a bênção final aos Congressistas, enquanto o Arcebispo Monsenhor Raymond Leo Burke, Prefeito da Segnatura Apostólica, celebrou a solene Missa Pontifical na Capela do Santíssimo Sacramento, em São Pedro do Vaticano.
 
     Desde 1969, näo se celebrava a Missa de sempre, em São Pedro.

     Também nisso houve um retorno a Roma.

     A Missa de sempre voltando solenemente a São Pedro.

     No Angelus de domingo, dia 18 de Outubro de 2009, o Papa Bento XVI saudou os participantes desse Congresso, o que veio a reforçar a importância desse evento e do que nele se tratou.

     Pormenor importante: o Congresso foi realizado às vésperas do início dos debates teológicos entre a Santa Sé e a FSSPX a respeito dos erros e ambiguidades dos textos do Concílio Vaticano II, preparando a futura e prometida decisão do Papa a respeito da interpretação e correção do Vaticano II.

     Em seu pronunciamento, no Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum, a palavra mais que autorizada de Monsenhor Guido Pozzo, Secretário da Ecclesia Dei, e pessoa que vai dirigir os debates entre os teólogos da Santa Sé e os teólogos lefrevistas, agradeceu ao Papa  a inserção da Ecclesia Dei na estrutura da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, reforçando a importância dessa Comissão.

     De importância central, no Congresso, foi a palestra de Monsenhor Brunero Guerardini, que explanou seu livro sobre o Vaticano II, obra que será tomada como base dos debates entre a Fraternidade São Pio X e os teólogos da Santa Sé, em suas discussões sobre o Vaticano II.

     Para apresentar quem é  Mons. Brunero Gherardini, citaremos as palavras de um excelente artigo – de autor anônimo - publicado num importante e acreditado site brasileiro:
 
     http://www.santamariadasvitorias.com.br/documentos/livro_de_mons_gherardini.doc:

     “Monsenhor Gherardini é considerado por muitos como o último teólogo da escola romana, que conta entre os seus grandes nomes os dos cardeais Franzelin, Billot, Parente e outros como o de Monsenhor Piolanti. Monsenhor Gherardini foi o Decano de Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, sendo responsável pela cátedra do importantíssimo De Ecclesia (Eclesiologia), que é a nosso ver a matéria de maior relevo quanto ao que concerne à crise atual. Monsenhor Guerardini é também cônego da Basílica Vaticana de São Pedro. É, então, de um homem entranhado de romanidade, de respeito à hierarquia e ao Magistério e um eminente teólogo (que conheceu, além disso, muito bem o mais alto ambiente filosófico-teológico eclesiástico anterior e posterior ao Concílio) o livro do qual vamos agora expor alguns pontos em prol da sã teologia, em prol de nossa Santa Mãe, a Igreja, e em prol da salus animarum.

     “Vale destacar, também, a oficialidade que reveste a publicação da obra de Monsenhor Ghuerardini, com prefácios de Dom Mario Oliveri, Bispo de Albenga, Itália e de Dom Ranjith, na época ainda  Secretário da Congregação para o Culto Divino. São, então, um bispo e um arcebispo a quem o Senhor, por mediação do sumo pontífice, confiou uma parte de seu rebanho que aprovam a obra de Monsenhor Gherardini como uma grande contribuição para a serena consideração do Concílio.  Ademais, a publicação é feita pela editora Casa Mariana Editrice, pertencente aos Franciscanos da Imaculada, que cooperam também e à sua maneira para o grande debate doutrinário sobre o Concílio”. 

     Tudo isso coloca em foco um problema crucial que se tem debatido no Brasil através da Internet: o Concílio Vaticano II foi, ou não foi, infalível?

     A Montfort – repetindo o que disseram João XXIII, Paulo VI e o Cardeal Ratzinger - sempre afirmou, decididamente, que o Vaticano II foi essencialmente pastoral e que, portanto, ele não foi um Concílio infalível, podendo ter erros. Foram esses erros e ambigüidades do Vaticano II os responsáveis pela desastrosa crise atual da Igreja que o Papa Bento XVI, gloriosamente reinante, está procurando sanar.

     Por isso a Montfort tem sido caluniada e violentamente atacada, sendo acusada de herética e de cismática, por não aceitar o Vaticano II como um Concílio infalível.

     Dispensamos-nos de citar quem assim nos acusa caluniosamente de heresia ou de cisma por esse posicionamento. Nossos acusadores são conhecidos, na Internet.

     Ora, o pontificado atual tem deixado cada vez mais clara a intenção do Papa de corrigir os erros do Vaticano II. Com seu discurso de 22 de Dezembro de 2005 à Cúria Romana, no qual Bento XVI condenou o chamado “espírito do Concílio”, se deu início ao processo de retorno à Teologia tradicional, assim como à aproximação entre a Santa  Sé e os grupos tradicionais, especialmente com a FSSPX.

     Que, na Santa Sé, não se considera o Vaticano II infalível é patente para quem sabe ler o que disse o Cardeal Ratzinger e o que faz e diz o Papa Bento XVI.

     Em primeiro lugar, a admissão de discutir os textos do Vaticano II com a FSSPX é sinal claro disso, pois não se pode discutir o que se tem por infalível. Se Bento XVI admite discutir teologicamente os textos do Vaticano II é porque não os tem como infalíveis.

     Bento XVI, perdoando a excomunhão dos Bispos de Dom Lefebvre por terem sido consagrados sem a permissão do Papa, demonstra que não os condena por serem contra a Missa Nova e contra o Vaticano II. Com os debates agora já iniciados, o Papa visa, mais do que se aproximar de FSSPX, dar à Teologia tradicional um status de legitimidade, na Igreja, mesmo sendo ela contra o Vaticano II. Portanto, Bento XVI não considera que ser contra o Concílio Vaticano II seja uma heresia. Logo, o Vaticano II não é tido pelo Papa Bento XVI como obrigatório, e nem que esse Concílio exija a adesão dos fiéis ao que o seu texto diz, como sendo de fé divina e católica, isto é, como infalível.

     O Superior Geral dos Franciscanos da Imaculada, que goza da simpatia e apoio de Bento XVI, Padre Manelli declarou recentemente que o Papa:
 
     “procura evitar rupturas, notadamente na recepção do Concílio Vaticano II – é a famosa "hermenêutica da reforma na continuidade". Pode ser que existam no Concílio descontinuidades      sobre pontos precisos, mas isso não seria nada escandaloso, porque o Concílio se declarou "pastoral" e pode ser que nele haja "erros" que o Papa pode corrigir, como Mons.      Gherardini o mostrou num estudo que publicamos e que será logo mais traduzido em francês».

     “Tais declarações, novas não em seu fundo, mas na clara segurança com a qual elas são doravante formuladas, são, com efeito,  como cristalisadas pela «linha hermenêutica» que      representa Mons. Bruno Gherardini [1], à qual Disputationes theologicae deu um largo eco”
 
     (Abbé Claude Barthe, As discussões entre a Santa Sé e a FSSPX: O Concílio ao risco da      interpretação de Mons. Gherardini, in Disputationes Theologicae, 7 de Setembro de 2009). 

     Por incrível que possa parecer, os modernistas mais radicais – como os do site Golias—reconhecem que os debates entre a Santa Sé e os teólogos da FSSPX visam dar a verdadeira nota teológica aos textos do Vaticano II:

     “Sem sombra de dúvida, as discussões que serão realizadas, sob pretexto de tratar da «aceitação» do Vaticano II, tratarão essencialmente das notas teológicas de tal asserção, do      gênero literário de tal texto, do grau de obrigação de tal outro. Até mesmo da necessidade de explicitar certos textos que se prestam a ambigüidades”.

     “Em sua famosa carta de 10 de Março de 2009 aos Bispos do mundo Bento XVI explicava: «Ficou claro assim que os problemas que devem ser tratados agora são de natureza      essencialmente doutrinária e visam sobretudo a aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas ». (Romano Libero, “La Dream Team” Du Vatican pour      “dialoguer” avec les Lefrevistes” In Golias). 

    Portanto, os debates entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X serão sobre o Vaticano II. Ora, se esse Concílio fosse infalível, a Santa Sé não poderia colocar em discussão o que diz o Concílio.

     De importância transcendental para resolver essa questão é o livro já citado de Monsenhor Brunero Gherrardini. Veja-se o que, já no Prólogo de seu livro, escreveu esse grande teólogo, bem favoravelmente apreciado pelo Vaticano:

     “Depois, quando um Concílio apresenta a si mesmo, o conteúdo e a razão de seus docuemntos sob a categoria da pastoralidade auto qualificando-se como pastoral, de tal modo, ele      exclui toda intenção definitória. Ele, por isso mesmo, não pode pretender a qualificação de dogmático, nem outros podem lhe dar, conceder-lhe tal qualificação. Nem mesmo se em seu      interior ecoe algum apelo a dogmas proclamados no passado, e mesmo que desenvolva um discurso teológico. Teológico não é sinônimo de dogmático”.

     “Esta é a “ratio” que guiou, desde o início ao fim, o Vaticano II. Quem, citando esse Concílio, o equipara ao Concílio de Trento e ao próprio Vaticano I, creditando-lhe uma força normativa      e vinculante, que, de per si, ele não possui, comete um ilícito e, em última análise, não respeita o Concílio”
 
     (Mons. Brunero Gherardini, Concilio Vaticano II: Un Discorso da Fare, Prólogo,      Casa Mariana Editrice, Frigento, 2009, p. 23. Os destaques são do autor).

     Monsenhor Gherardini vai além, pois diz:

     “Se, depois disso, a exaltação tem por objeto uma reinterpretação redutiva de verdade pertencente ao patrimônio dogmático católico, e se elas passam no crivo das extrínsecas      exigências à “analogia da Fé”  (Rom. XII, 6), despojadas de seu estridente contraste com ela [com a fé], aguadas segundo expectativas e simpatias estranhas a ela — como por exemplo      a do “diálogo” – então a própria categoria da pastoralidade é adulterada e a definição de “dogmático” se torna um absurdo”
 
     (Mons. Brunero Gherardini, Concilio Vaticano II: Un Discorso da Fare, Prólogo, Casa Mariana Editrice, Frigento, 2009, pp. 23-24. Os destaques são do autor).

     Por fim, afirma Monsenhor Gherardini:

     “Alguém dirá que ninguém jamais definiu como dogmático o Vaticano II, e tudo considerado, isso é verdade”
 
     (Mons. Brunero Gherardini, Concilio Vaticano II: Un Discorso da      Fare,Prólogo, Casa Mariana Editrice, Frigento, 2009, p. 24).

 
     Sim. Na Itália e na Europa, onde há mais cultura teológica e mais seriedade intelectual, jamais houve quem se atrevesse a dizer que o Concílio Vaticano foi um Concílio dogmático, e, portanto, infalível.

     Mas, no Brasil, esse absurdo é largamente praticado com ares de sabedoria teológica tupiniquim. Basta ver todos os que acusam a Montfort de herética por não aceitar o Vaticano II, que seria infalível, e que, por isso mesmo, exigiria uma adesão de fé divina e católica.

     Voltaremos ao assunto, já que todas essas citações de Monsenhor Brunero Gherardini estão no Prólogo de seu livro.

     Porque, no corpo do livro de Monsenhor Brunero Gherardini, há muito mais coisas interessantíssimas e importantes a tratar. Mesmo sobre a pastoralidade.

     Haverá muito a comentar…

 São Paulo, 29 de Outubro de 2009.

        Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Voltando a Roma: as discussões sobre o Concílio Vaticano II."
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/voltando-a-roma/
Online, 30/03/2017 às 07:51:40h