Igreja

O véu Eucarístico
São Pedro Julião Eymard

“Cur faciem tuam abscondit?...”
(“Por que me ocultais Vossa Face?” – Jô, 13,24). 

I
 
Por que motivo vela-se Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento sob as Espécies Santas? Sendo difícil habituar-nos ao estado oculto de Nosso Senhor, precisamos continuamente tornar a esta verdade, pois devemos crer firme, de forma prática, que Nosso Senhor Jesus Cristo, embora velado, se encontra real, verdadeira e substancialmente presente na Santa Eucaristia.
 
E se assim é, por que presença tão silenciosa, véu tão impenetrável que nos levam a exclamar: “Mostrai-nos, Senhor, vossa Face!”. E, apesar de não ver, de não lhe ouvir as palavras doces e boas, Nosso Senhor faz-nos sentir sua força, atrai-nos, conserva-nos respeitosos em sua presença. Se Ele se mostrasse, e só se mostraria à pessoa amada, que consolação para nós, que certeza de gozar sua amizade! 

II
 
Pois bem, Nosso Senhor oculto é mais amável do que se se mostrasse; silencioso, mais eloqüente do que se falasse, e o que julgamos ser um castigo, é tão-somente um efeito do seu Amor e de sua Bondade.
 
Ah! Vê-lo seria nossa desgraça. O contraste de suas virtudes e de sua glória, humilhando-nos, nos faria exclamar: “Que bom pai e que miseráveis filhos!”. Não ousaríamos sequer aproximar-nos Dele, a Ele nos mostrar, enquanto agora, conhecendo apenas sua Bondade, chegamos a Ele sem receio.
 
E assim todos podem vir. Presumindo que Nosso Senhor só aos bons se patenteasse – pois ressuscitado não se pode deixar ver pelos pecadores – quem se julgaria bom? Quem não recearia vir à Igreja, temendo que Jesus cristo, por não o achar bastante bom, a ele se ocultasse? E então surgiriam as invejas. E só os orgulhosos, cheios de confiança de si, se chegariam a Nosso Senhor. Agora, no entanto, todos gozam dos mesmos direitos, todos podem considerar-se amigos.
 
III
 
Não nos havia de converter a vista da glória? A glória amedronta e ensoberbece, mas não converte. Os judeus não ousaram aproximar-se de Moisés iluminado pelo raio divino e, aos pés do Monte Sinai em fogo, tornaram-se idólatras. Os próprios Apóstolos, no Tabor, desarrazoaram.
 
Ah! Jesus, permanecei velado, melhor é assim. Poderei então aproximar-me de Vós e, já que não me repelis, poderei contar com o Vosso amor. Mas sua Palavra, por ser tão poderosa, não nos havia de converter? Os judeus que, durante três anos, ouviram a Nosso Senhor, por acaso se converteram? Alguns poucos. Não é a palavra humana de Nosso Senhor, a que nos é dado ouvir, que converte, mas sim a palavra da Graça. Ora, Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento, fala-nos ao coração. Não nos deve isto bastar, por ser uma palavra verdadeira?

IV
 
Pudesse eu ao menos sentir palpitar o Coração de Nosso Senhor, sentir o calor de suas chamas ardentes que, modificando meu coração, aumentando-lhe o amor, acabaria por abrasá-lo!
 
Quando, confundindo o amor com o sentimento, pedimos a Nosso Senhor para amá-lo, queremos que Ele nos faça sentir que, de fato o amamos. Quão triste se assim fosse! Não, o amor é sacrifício, é o dom da vontade, é a submissão ao bel-prazer divino.
 
Ora, a virtude característica da contemplação da Eucaristia e da Comunhão – união perfeita a Jesus – é a força. A doçura, sendo passageira, só aquela permanece. E do que carecemos para lutar contra nós mesmos e contra o mundo, senão de força? A força é paz.
 
Não vos sentis tranqüilos em presença de Nosso Senhor? Prova cabal de que o amais. Que mais quereis? Se dois amigos se reúnem e ficam a se olharem um ao outro, dizendo e redizendo seu amor, perdem seu tempo, pois isso de modo algum lhes aviva a amizade. Mas, uma vez separados, se pensarem um no outro, imprimir-se-á reciprocamente na lembrança a imagem do amigo despertando saudades.
 
Assim também com Nosso Senhor. Em três anos de convivência diária com ele, que fizeram os Apóstolos? Jesus oculta-se para que ruminemos sua Bondade e suas Virtudes e que o nosso amor, tornando-se sério, livre dos sentidos, se contente com a força e a paz de Deus.
 
(A divina Eucaristia, Extratos dos escritos e sermões de São Pedro Julião Eymard, edições Loyola, 2002, destaques nossos)

    Para citar este texto:
"O véu Eucarístico"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/veu_eucaristico/
Online, 18/12/2017 às 05:00:31h