Igreja

Vaticano e Terrorismo: duas orientações? Qual seguir?
Marcelo Fedeli


"Seja o vosso falar: sim, sim; não, não!"

Nestes tempos pós-conciliares, o rebanho católico, ou melhor, o "Povo de Deus", usando a ecumênica expressão pós-conciliar, parece cada vez mais desorientado, não sabendo que caminho seguir.

Quase diariamente ele se depara com declarações de pastores dando orientações em direções contrárias umas às outras, sobre os mais diversos temas.

O documento Dominus Iesus, redigido pelo Cardeal Ratzinger com o declarado aval do Papa João Paulo II, é um exemplo: sofreu publicamente os mais violentos ataques de padres a cardeais, e tudo continuou como "dantes no quartel de Abrantes". O rebanho, o amado "Povo de Deus", ficou zanzando, tropeçando, trombando, literalmente perdido, entre afirmações totalmente opostas dos seus pastores.

Perplexo, ele se pergunta: há duas correntes dentro do Vaticano?

Se há, qual seguir? Qual delas está com Nosso Senhor, que é a verdade, o caminho e a vida?

Nos últimos dias, após os ataques terroristas de 11 de setembro em Nova York e Washington, e diante da legítima reação de auto defesa dos Estados Unidos e Inglaterra, tivemos novo exemplo da desorientação dos pastores ao tão badalado "Povo de Deus". Enquanto este discutia sobre a legitimidade ou não do ataque anglo-americano ao terrorismo instalado no Afganistão - o que já é um absurdo: discutir a legitimidade do atacado se defender, e que indica o estado de confusão mental reinante -- aguardava-se orientação clara, segura e certa da Igreja, "Mater et magistra gentium", para saber o justo e o injusto daquela gravíssima questão.

A primeira manifestação do Vaticano foi emitida por Joaquim Navarro-Valls, porta voz da Santa Sé, no dia 24 de setembro, no Kazakistão, onde acompanhava o Papa em visita àquele país. Dizia a notícia distribuída pela Reuters:

"Porta voz do Vaticano: o uso da força é legítimo se não houver alternativas"

Navarro: O Papa não é um "pacifista".

"O Vaticano prefere uma solução não violenta à crise internacional gerada pelos atentados nos Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, compreenderia um recurso às armas por parte de Washington para defender os cidadãos americanos de futuras ameaças". E prosseguia a notícia: "Esta é a posição do Vaticano sobre a crise e sobre a legitimidade moral de uma eventual ação militar americana, declarada pelo porta-voz da Santa Sé, Joaquim Navarro-Valls, à agência de notícias Reuters, afirmando, ainda, que o Papa não é ‘pacifista’".

Disse Navarro-Valls: "Às vezes é mais sábio agir que permanecer passivos. Neste sentido, o Papa não é um pacifista, pois, é preciso lembrar que em nome da paz pode-se cometer grandes injustiças".

"O direito à autodefesa"

"É justo que se alguém causa um grande dano à sociedade e se ainda houver risco de que ela seja atingida se esse alguém permanecer em liberdade, temos o direito de recorrer à própria defesa da sociedade ainda que os meios escolhidos sejam agressivos", disse Navarro, acrescentando que a "autodefesa, às vezes recorreu ao uso da violência na falta de alternativa".

"Às vezes, a autodefesa implica numa ação que pode levar a morte à uma pessoa, ou, então, aqueles que cometeram crimes horríveis que sejam indiciados e presos, portanto colocados numa condição de não poder fazer mais mal algum, ou, então, se deixa de lado o princípio da autodefesa, com todas as suas conseqüências".

Navarro-Valls lembrou que a ética cristã exige uma resposta adequada quando se aplica o princípio da autodefesa: "A ética cristã diz que, quando a força vem a ser utilizada como último recurso da autodefesa, então o seu uso deve ser proporcionado à ameaça, sem atingir pessoas inocentes. O Vaticano sustenta que qualquer ação militar deve ser dirigida contra o terrorismo e não contra o Islã".

"O bem comum acima da paz"

"Na ética cristã, a paz é um valor muito elevado, mas, o bem comum, seja físico ou moral, está, às vezes, acima dela", ressaltou Navarro. Neste sentido é errado, ao seu ver, considerar o Papa um pacifista: "Alguém, na Europa, pretenderia apresentar o papa como um pacifista, assim como na América, alguém gostaria de vê-lo como um que quer a justiça por qualquer meio. Ambos estão errados. O pacifismo é um recipiente em que se pode colocar qualquer coisa. Por outro lado, a justiça é algo que caminha junto, mas não ao custo de uma outra injustiça".

Essas foram as declarações do porta-voz da Santa Sé, Sr. Joaquim Navarro-Valls.

Entretanto, sobre o mesmo tema, em 23 de outubro último, as agências noticiosas divulgaram declaração de Monsenhor Renato Martino, observador permanente da Santa Sé na ONU, diante da Assembléia Geral daquela entidade, dedicada à Cultura da Paz. No seu discurso, mesclando vagos termos como "conversão" [não dizendo a que ou a quem, pois a nova teologia pós-conciliar não admite proselitismo algum] e "diálogo" [não precisando entre quem], declarou Monsenhor Martino, conforme despacho da Agência de Notícias ACI:

1 - "A imperfeita paz vivida pelo mundo viu-se abalada de modo imprevisto por violentos ataques, sem sentido, contra seres humanos inocentes e ela [a paz] só é possível mediante a conversão dos corações e das mentes mediante o diálogo, conforme vem afirmando o Papa João Paulo II ao longo do seu pontificado".

2 – "A paz começa nos corações. Ela não é só ausência de guerras, não a procuramos somente para evitar a difusão dos conflitos, mas pelo contrário, para dirigir nossos pensamentos e, portanto, nossas ações para o bem de todos".

3 - "A paz se transforma em filosofia de ação que nos torna responsáveis do bem comum e nos obriga a dedicar todos os nossos esforços à sua causa. Uma ‘cultura de paz’ deve ser considerada com esse modelo de comportamento humano que deve ser cultivado e transmitido às gerações futuras".

4 – "Há no mundo atual situações de conflito em que as partes implicadas podem, há tempo, ter recusado uma solução justa. Isto favoreceu sentimentos de frustração, de ódio e tentações de vingança diante das quais devemos todos ficar atentos. Quem honra a Deus deve ocupar as primeiras fileiras na luta contra qualquer forma de terrorismo".

5 – "Os atos de violência não sanarão esse ódio, porque as represálias que se abatem indiscriminadamente contra os inocentes prosseguem a espiral de violência e são soluções ilusórias que impedem o isolamento moral dos terroristas".

6 – "Construir uma cultura de paz não é uma idéia absurda, nem mesmo um sonho utópico. É, pelo contrário, uma realidade que se pode alcançar. Para João Paulo II a busca da paz foi sempre um tema central manifestado em todo o lugar sua convicção de que o diálogo verdadeiro, é uma condição essencial para a paz verdadeira".

Nos aludidos discursos há a mesma orientação? Há a mesma doutrina? Há neles a mesma clareza?

Assim, o "Povo de Deus", diante dessas duas declarações, pergunta: por que duas versões diferentes do Vaticano?

E nenhum dos dois porta vozes é desmentido, nem demitido.

Haveria, no Vaticano, duas correntes distintas? Quem as dirige? Qual seguir? Por que os pastores não seguem a ordem tão simples dada por Nosso Senhor Jesus Cristo: "Seja o vosso falar: sim, sim; não, não" (Mt. V, 37)? Ou esse trecho do Evangelho, como outros, não é mais lido na Liturgia da Palavra pós conciliar?

Marcelo Fedeli
25 de outubro de 2001


    Para citar este texto:
"Vaticano e Terrorismo: duas orientações? Qual seguir?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/vaticanoeterrorismo/
Online, 24/11/2017 às 20:25:21h