Igreja

Uma Escada, uma Vida, uma Via
Paulo Miranda


Noite fria. No claustro escuro, em direção à escada, um vulto se arrasta. Bate o vento que estremece o alquebrado corpo, o qual, sem poder ir mais além, por um momento pára.

Para depois recomeçar. Devagar, passo a passo, detendo-se – por quanto tempo! – a cada momento, a pequena freira aos poucos avança.

Triste e demorado avanço. Meia hora para atravessar o exíguo corredor e subir os poucos degraus da rude escada. O gélido vento a detém. Detém-na a fadiga. Detêm-na a doença, os ultrajes, o silêncio. Detém a dor. A dureza do sofrimento que a impede, por um tempo, de ir mais além.

* * *

E nos difíceis, nos dolorosos passos do claustro, a pequena irmã revê os dolorosos e difíceis passos de sua vida.

Não os do início, por certo, quando tudo lhe sorria. Os próximos lhe sorriam, a vida lhe sorria, o futuro lhe sorria, Deus lhe sorria, acariciando a flor que em breve colheria para Si.

Mas não era por sorrisos que ela ansiava, Seu amor a Nosso Senhor chamava-a a tomar outras vias. "Eu escolho tudo", disse certa vez, referindo-se aos meios para atingir a santidade.

"Tudo". Inclusive, e sobretudo, o sofrimento. O sofrimento aceito, em silêncio. O sofrimento até mesmo procurado. Tal como o sofrimento de Nosso Senhor.

E a pequena menina de sorriso ameno resolveu deixar seu caminho aprazível e tomar um atalho para o Céu: o convento.

Ali perto, o convento carmelita. Desde muito pequena ela corria, em companhia de sua irmã, em torno de seus altos muros. Quantas vezes elas, bem juntas uma à outra, espreitaram curiosas por entre aquelas altas grades, na vã esperança de divisar algum vulto em oração que passasse. E quem sabe até – suprema alegria – reconhecer uma de suas irmãs mais velhas que as haviam precedido naquele lugar santo. Quantas vezes, juntas, sonharam...

Tão perto, o convento. Ali mesmo, a alguns minutos de sua casa. Mas, tão longe... Quinze anos não era idade suficiente para ser carmelita, diziam. Seis anos ainda, seis longos anos deviam separá-la do claustro almejado.

* * *

Apoiando-se nas paredes, arrastando os pés, respirando com dificuldade, tremendo de frio, a freira solitária finalmente consegue deixar para trás o pequeno corredor. É quando esbarra no primeiro degrau da escada, na primeira pedra de seu pequeno, curto, mas amargo calvário.

* * *

Para passar pelos altos portões do Carmelo tão próximo, decidiu ir até a longínqua Roma, suplicá-lo ao Papa.

Na nova via, algumas pedras. O Bispo local se opunha. Piedosas mulheres cochichavam que o pai aceitara levá-la apenas para que desistisse de sua idéia pueril.

Na viagem, alguns atrativos do mundo. Que ela, altaneira, desprezou.

E na Cidade Eterna, em pleno Vaticano, diante do Vigário de Jesus Cristo, quanta coragem foi preciso reunir para vencer o olhar reprovador do Bispo, atirar-se aos pés do Santo Padre e expor-lhe sua decisão e sua súplica!

Mas ela o fez. Tal como decidira. Tal como julgara necessário para romper as barreiras que a separavam do caminho que escolhera.

* * *

Outro degrau. Mais um degrau no claustro frio do convento, no caminho difícil da vida. Vida que lhe poderia ter sido tão fácil, não houvesse dado ela ouvidos àquele incomensurável apelo à santidade, a ser buscada no alto daquela pequena mas íngreme escada, que era preciso, a qualquer custo, galgar. Santidade que ela divisava no fim da pequena via que escolhera.

* * *

E depois? Uma frase cheia de revolta do superior carmelita, lançada no momento de sua primeira vitória, no dia de sua entrada no convento.

E depois? Uma priora neurótica que a maltratava.

E depois? A morte do pai – cuja culpa chegaram a atribuir-lhe – as incompreensões e maledicências de algumas freiras, a tuberculose atroz, as mortificações... e o seu silêncio.

* * *

E o terrível silêncio do claustro gélido.

Mais uma vez, impiedoso, o vento a flagela. O tempo arduamente se escoa. Os passos custam a ser dados. Os degraus, lenta, lentamente, se sucedem. A pequena via vai sendo galgada.

* * *

Mas ela jamais reclamou, mesmo quando tinha direito de fazê-lo. Como nas ocasiões em que lhe serviam os restos dos alimentos. Ou quando uma freira a destratou apenas para saber até onde chegaria sua paciência. Ou ainda nas inúmeras vezes em que a Priora lhe ofendeu ou formou escândalos que a humilhavam.

* * *

Do corpo tuberculoso que se arrasta, nem mesmo um gemido se ouve.

* * *"A santidade, dizia ela, é preciso conquistá-la na ponta da espada! É preciso batalhar, é preciso sofrer, é preciso agonizar! É preciso combater!"

E tal era a sua forma de combate. Atravessar a pequena via da aceitação dos sofrimentos que lhe oferecia o quotidiano. Nem grandes flagelações, nem visíveis imolações, nem portentosos milagres. Apenas a aceitação e o silêncio. E eis aí a agonia, eis a batalha, eis a conquista a ponta da espada! Eis a santidade!

* * *

E eis a dura escada do velho convento, que lhe foi tão difícil deixar para trás. E eis a pequena via de sua vida, já agora perto de seu fim. Escada que lhe tomou mais de vinte minutos. Vida que durou mais de vinte anos.

* * *

— Quem é ela?

— É sóror Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face."Vai morrer logo – adianta-nos uma religiosa de seu convento. Na verdade, pergunto-me o que poderá dizer nossa Madre depois que ela morrer. Ela se verá bem apertada: essa irmãzinha não fez nada, por certo, que valha a pena ser contado".

* * *

Por certo, nada para contar. Apenas o silêncio.

Nada para contar. Tudo quanto sofreu, tudo quando orou, todo o seu martírio... E nada para contar.

A não ser os passos. Os pequenos passos no corredor frio do claustro.

Os poucos passos de sua pequena via.

* * *

Agora acabaram-se os degraus. Mas não ainda seus tormentos. Somente daqui a uma hora irmã Teresa conseguirá deitar seu corpo débil sobre as tábuas em que dorme. Ou melhor, dormia. Pois nessa noite, como em muitas anteriores e nas poucas que ainda virão, ela apenas tossirá e sofrerá. E às cinco horas da manhã, ao primeiro toque do sino, ela levantará seu corpo doente. E na hora das orações e das ações de graças, sem perceber, dormirá. Com quanto agrado de Deus!

Mas isso não durará muito, pois "Sóror Teresa vai morrer logo".

Logo. Em 1897, aos 24 anos, Teresa chegará ao ápice de sua escada. Chegará ao fim de sua pequena via. Atingirá, sem que ninguém o perceba, em silêncio, a almejada santidade.

Entrara cedo no Carmelo. Entrou cedo no Céu.

Antes, quiseram barrar-lhe o ingresso precoce no convento. Mas para ela não houve espera. Nem para o convento. Nem para o Céu.

E assim a irmã Teresa da Sagrada Face não precisou esperar muito para contemplar, Face a face, a Sagrada Face de Deus.

* * *

Outono de 1897.

O claustro está vazio. Quem, fora dos muros daquele Carmelo, conhece irmã Tereza e sua pequena via?

Quem poderia supor que seu silêncio pudesse encontrar os gloriosos ecos de graça e santificação por todo o mundo, que a tornaram a padroeira das missões, a santa tão freqüentemente invocada, a tão poderosa intercessora junto a Deus?

Em outubro de 1897, ninguém nada imaginava. Sobre o Carmelo de Lisieux reinava apenas o silêncio.

No Céu, ingressava gloriosa a pequena freira. E começava sua grande obra: a de mostrar sua pequena via a todos nós, que a ela voltamos nossas preces confiantes.

 

Nota: os dados biográficos de Santa Terezinha mencionados no presente artigo – todos verídicos – foram retirados da excelente obra do Pe. Alberto Barrios Moneo, C.M. F., Santa Teresita, Modelo y Martir de la Vida Religiosa.

(artigo publicado em Veritas no. 20 – abril de 1987)


    Para citar este texto:
"Uma Escada, uma Vida, uma Via"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/umaescada/
Online, 26/05/2017 às 06:17:47h