Igreja

A obra de Tolkien e o catolicismo
Anônimo
Tradução: Missa Tridentina em Brasília / Montfort.
 
Publicamos aqui as conferências dadas por um padre americano a propósito das obras de Tolkien. Como a visão sobre a catolicidade destas obras no Brasil costuma ser benevolamente unívoca, traduzimos essa conferência que parece nos trazer uma análise mais objetiva.

O áudio da conferência foi publicado inicialmente no site que se chamava Audio Sancto e que publicava sermões e conferências de padres atrelados à Missa Tridentina e em situação canônica regular. O nome do sacerdote não era divulgado, de modo a manter-se discreto e a não prejudicar o seu labor apostólico específico. A transcrição da conferência se encontra aqui no original inglês.

A conferência suscitou uma grande reação, provavelmente mais veemente do que a publicação de um texto heterodoxo, provando que o sacerdote tem, no mínimo, uma certa razão em suas críticas. Os argumentos são interessantes e merecem ser levados em conta.

Salve Maria!
 

  
 
 
SUMÁRIO
 
 
Mais preparados a defender a literatura moderna que a Sagrada Escritura ou os dogmas da Igreja.
 Discernimento dos espíritos após muitas leituras. Analisando a obra e não o autor.
 Hoje pessoas boas podem ser enganadas muito facilmente, casos: Dr. Wolfgang Smith, Louis de Wohl, Karol Wojtyla, capela de uma casa religiosa no Midwest.
Comecemos nossa exposição... Se encontramos algum autor contradizendo doutrinas da Igreja, sabemos que temos um problema.
 Tolkien revolucionário: o mito como melhor meio para transmitir certas verdades mais elevadas: “Eu cordialmente desgosto da alegoria em todas as suas manifestações”
 Se tão eficaz, onde estão as conversões? Frutos da obra: Exemplos psicodélicos na década de 1960 e 70.
 A Bíblia não contém mitos! Os modernistas que a tratam assim.
 Comparando outras obras quanto ao mito. Santa Teresa desaprovou totalmente todo romance e preveniu as religiosas de ler trabalhos de baixo nível nos carmelos. Mestre Eckhart, promovido pela Nova Era, no século XIV tentou "cristianizar o mito".
 A chamada visão elevada sustentada por Tolkien e promovida por Joseph Pearce, não ajudou a Igreja nesses tempos difíceis.
 Analisando o mito da criação de Tolkien. Produtos de uma “imaginação extravagante”: alguns elementos gnósticos. Não devemos insistir que fantasia ou mito é desculpa para a heresia.
 A morte como um presente de Ilúvatar
 Não existe inferno ou pena eterna pelo pecado, somente o Vazio.
 Coisas mágicas e ocultistas vistas como milagres.
 Nada de sobrenatural, na obra poderes secretos estão na própria natureza. Não há oração, não há menção à graça, à vida interior, à fé, à esperança, à caridade.
 No mundo real toda magia se apoia nos poderes demoníacos.
 Erros similares em comparação com C.S. Lewis, 
 Um mundo em oposição ao que Deus criou. Toda literatura fantástica é um beco sem saída e deve ser evitada.
 
 
Todos nós podemos julgar suas obras e seus efeitos e frutos. Para a obra ser católica é necessário "revisar conscientemente", uma estranha forma de se aproximar das verdades divinas.
Um erro presente hoje: olhar apenas para o lado bom, enquanto ignoramos o mal ou o erro. Similaridades com o pensamento Nova Era.
Comparação com a Caverna de Platão.
A mentalidade da Nova Era triunfa. Não ha mais Index, Fátima e outros santos são ignorados e com o Concílio pastoral as autoridades da Igreja têm medo de apontar os erros
Em Platão os observadores acorrentados rejeitaram a mensagem e o mensageiro, porque ele tocou na única coisa em que achavam prazeroso. Não imitemos tais erros!
Um conceito chamado "aplicabilidade". A objetividade está perdida! As obras de Tolkien se encaixam com o pensamento relativista.
Similaridade com George Lucas, o produtor de Star Wars, um membro da Nova Era influenciado por Joseph Campbell.
Funções mitológica em Campbell: Metafísica, Cosmológica, Sociológica e Pedagógica. O mito serviria para justificar as modernas formas de pensar.
Panorama histórico da revolução: ano de 1300, os líderes da cristandade começaram a rejeitar a escolástica e se voltaram para os escritos pagãos dos gregos e romanos.
Século XV: Inocêncio VIII contra o problema de bruxaria. Séculos XVI a XVII: muitas possessões como Magdalena da Cruz (1560) ou infestações de conventos inteiros.
Século XIX: Ocultismo reavivado e quase completa aceitação: Napoleão no Egito, Eliphas Levi, Madame Blavatsky. Como resultado, o ocultismo tornou-se popular e entrou em nossa cultura moderna.
Século XX: O Mágico de Oz, a "magia boa" e "magia má", a cultura da droga de 1960, ler Tolkien "era como um sonho de drogadição". O ocultismo nunca possuiu tanto poder como agora!
Diferente da redenção de Cristo, em O Senhor dos Anéis o mal é necessário para salvarem o dia.
Similaridades com a Teosofia e o Silmarillion: demônios co-criadores, que vieram ajudar o ‘homem-animal’ no processo evolutivo de ondas de criação e destruição.
Em Lewis ha idéias semelhantes: poderes espirituais, estrelas caídas, Aslan e seu livro de magias, salvação apelando ao deus Tash, felicidade em seres do subterrâneo etc.
No gnosticismo seus princípios tornaram-se uma importante corrente na cultura moderna. Santo Irineu nos diz: "todos os dias, cada qual inventa algo novo".
Dr. Smith explica as principais características doutrinárias: (1) a desvalorização gnóstica do cosmos; (2) formas de vôo místico; (3) a necessidade de um conhecimento especial, a gnose.
Exemplos 1: Copernicanismo, a relatividade de Einstein, Darwinismo / Melkor a espalhar suas sementes de desarmonia, e destruir o mundo; Rivendell e Loth Lorien são os únicos lugares seguros, e até mesmo eles estão desaparecendo.
Exemplos 2: conto "A vida secreta de Walter Mitty"; Seitas de suicídio coletivo como "Heaven's Gate" em 1997 e os membros da Ordem do Templo Solar (1994-1997), um indivíduo que afirma criar sonhos lúcidos ./ Frodo, Elrond, Galadriel, Gandalf e todos os outros precisaram partir do mundo, para o Ocidente.
Exemplos 3: Dorothy do Mágico de Oz precisava era saber como usar as sandálias de prata, as seita de sucídio tem um conhecimento especial para onde fugirão, as supostas aparições marianas de Mary Ann Van Hoof falam de fuga a uma Terra-Média / Elrond, Gandalf e outros iluminados estão sempre falando sobre esoterismo, conhecimento secreto etc.
Análises de Quasten sobre gnosticismo: o Gnosticismo separou Deus de Sua criação. Onde está Deus na obra do Senhor dos Anéis? Todo o misticismo é natural.
O Senhor dos Anéis fornece uma espécie de vôo místico, nestes tempos conturbados e preocupantes, muitos podem facilmente se identificar com o enredo, neste momento tão gnóstico da história.
Mística verdadeira e católica: na vida dos Santos encontramos coisas que podem nos maravilhar por toda a vida: São José Cupertino, Santa Teresa de Jesus, Santa Lydwine de Schiedam, Santo Antônio do Deserto etc.
O Senhor dos Anéis e outros mitos não promovem o Evangelho, mas sim os frutos de uma imaginação extravagante.
 

 
 
 
 
1ª Conferência

São Paulo escreveu para São Timóteo:  
“Sabe, porém, que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos […] Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino: prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina, mas acumularão mestres em volta de ei, ao sabor das suas paixões, (levados) pelo prurido de ouvir. Afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão as fabulas. Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, cumpre o teu ministério.”  (2Tim 3, 1 e 4, 1-4)
 
 
Gostaria de começar essa conferência com um pedido de desculpas. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo fato de que aquilo que apresento hoje sobre literatura fantástica, mitos e Gnosticismo venha tão tardiamente. Parece-me que a maior parte dessa informação deveria ter se tornado conhecida bem antes… e em instâncias com maior autoridade.
  
Em segundo lugar, o que apresento pode não ser fácil de ouvir para alguns. Muitos e muitos católicos bons e bem intencionados amam as obras de Tolkien e de C.S. Lewis… a tal ponto que esse assunto tornou-se uma espécie de tabu (vaca sagrada). Como resultado, é triste dizer, muitos desses católicos bem intencionados estão mais preparados para defender essas obras da literatura moderna do que para defender a Sagrada Escritura ou os dogmas da Igreja. Tal reação é sempre um sinal de que algo está errado.
 
 
Em terceiro lugar, estou falando a partir de minha própria experiência nessa área, dado que eu mesmo fui, durante muitos anos, muito cativado pelas obras de literatura fantástica de Lewis e de Tolkien. Era meu hábito, por mais de uma década, ler ou ouvir O Hobbit ou O Senhor dos Anéis ao menos uma vez por ano. Eu ouvi todas as versões… a versão não abreviada, as versões dramatizadas da BBC e outras produções americanas. Ouvi tudo o que tinha disponível. Também ouvi o Silmarillion do Tolkien duas vezes. Somente depois que um padre amigo começou a me alertar por um certo tempo é que eu finalmente iniciei a ver as coisas mais de perto e a discernir os espíritos. Na época em que essa conversão ocorreu, eu exercia o ministério com irmãs de clausura e procurava rezar o tanto quanto elas. Esse tempo de silêncio e os longos períodos de meditação permitiram-me discernir muitas coisas… como Santo Inácio fez há muito tempo. Refletindo sobre os conselhos do Padre e percebendo os maus efeitos de minha audição anual de O Senhor dos Anéis, finalmente tive a força e a coragem para destruir meus áudios da série do Tolkien. Como resultado, quase imediatamente, tive uma graça especial, confirmando a minha decisão. Eu estava livre. Desde então, encontrei outras almas confiáveis e fiéis (entre elas, alguns padres) que tinham experimentado a mesma coisa. Dessa forma, eu sabia que estava no caminho certo. Mas por quê?

É isso que espero revelar agora. Todavia, para fazer isso bem, comecemos com um pequeno esclarecimento. Não estou aqui para condenar J.R.R. Tolkien nem aqueles que, segundo posso auferir, estão enganados ao promover suas obras como autenticamente católicas… e aqui refiro-me especialmente ao bem intencionado sr. Joseph Pearce. Para preparar essa conferência, ouvi o seu curso em oito partes sobre O Senhor dos Anéis, bem como outras palestras e entrevistas que ele deu sobre o assunto. Também vi vários de seus livros e artigos sobre o assunto. Eu devo-lhe muito no meu melhor entendimento do Tolkien. No entanto, ao mesmo tempo, estou aqui para cumprir meu dever de sacerdote da Santa Igreja Católica Romana… cuja responsabilidade é ser vigilante na proteção dos fiéis quanto ao que é potencialmente perigoso, quanto ao que é fábula e não a são doutrina.
 
 
Como diz São Paulo… esses são tempos perigosos. Isso significa que pessoas boas podem ser enganadas muito facilmente. Há uma revolução em curso e ela alcançou, agora, os mais altos níveis na história. Estamos até o pescoço em águas tóxicas. Quão fácil é ingerir um pouco dessa água e ficar intoxicado… tornar-se cativo disso. Considerem-se alguns poucos exemplos. Eu aprecio bastante o físico e escritor católico, Dr. Wolfgang Smith. Ele escreveu um excelente tratado (publicado por TAN Books) desmascarando Teilhard de Chardin e a sua nova religião da evolução. Ele também escreveu muitos artigos profundos sobre a ciência contemporânea considerada sob a luz da tradição, alguns deles reunidos em um volume intitulado The Wisdom of Ancient Cosmology. E, no entanto, nesse livro, ele tem uma seção em que discute a teosofia germânica e um homem chamado Jacob Boehme, que teria recebido revelações místicas sobre o universo. Essas duas coisas são ocultistas, a teosofia e o autor. Elas estão fora das fronteiras seguras da Igreja. Claramente, ele caiu em uma armadilha considerando essas coisas como fontes seguras. Esses são tempos perigosos.

Outro exemplo. Talvez, tenham ouvido falar do autor Louis de Wohl. Ele escreveu muitas novelas históricas sobre a vida dos santos e várias personagens históricas… Rei Davi, São Paulo, Constantino, São Bento, São Tomás, São Francisco de Assis, Santa Catarina e muitos outros. E, no entanto, ele era um astrólogo confesso, tendo escrito um livro que defende a astrologia nos anos 30, chamado Secret Service of the Sky. Ele intitulou a sua autobiografia de I follow my stars (Eu sigo minhas estrelas). De Wohl trabalhou para o MI5 (serviço secreto inglês) durante a segunda guerra usando a astrologia. Ele também escreveu uma novela sobre o combate espiritual entre um “astrólogo católico” e uma espécie de bruxa semelhante ao anticristo intitulada Stange Daughter… ele era o astrólogo da estória. Bom homem… mas voltando-se para locais inseguros. Santo Agostinho, que chegou a resvalar na astrologia antes de sua conversão, glorificou a sábia e bondosa Providência de Deus como oposta às noções fatalistas da astrologia. E, no entanto, com o reavivamento do oculto no século XIX, a astrologia voltou… Esses são tempos perigosos. Para condenar essas ideias revolucionárias, o Concílio Vaticano I repetiu o ensinamento de que Deus, por meio de Sua Providência, protege e guia tudo o que criou. A Igreja sempre rejeitou a astrologia enquanto promoveu a confiança e o abandono à Providência Divina.

Outro exemplo: Karol Wojtyla (Papa João Paulo II). Quando jovem, ele costumava atuar no Teatro Rapsódico de Kotlarczyk. Kotlarczyk focava no “mistério da palavra entoada”, trabalhando primariamente com a mecânica da voz, a emoção e a expressão. Mais tarde, ele escreveu um livro chamado Art of the Living Word (1975), no qual ele abertamente discute as contribuições da magia e do arcano – palavra que significa esotérico ou secretamente escondido. Pensem sobre isso. O que fazem os ocultistas a não ser pronunciar palavras que parecem causar algo que acontece? Especial destaque merece o fato de que entre as muitas obras arcanas de que trata Kotlarczyk encontram-se as obras da famosa ocultista e fundadora da Teosofia, Madame Helena Petrvno Blavatsky (falecida em 1891). E, no entanto, o Cardeal Wojtyla escreveu um prefácio para essa obra de Kotlarczyk. Mais uma vez, vemos o que parecem ser pessoas bem intencionadas, mas procurando coisas em lugares errados… Esses são tempos perigosos.

Um último exemplo. Uma vez, visitando a capela de uma casa religiosa no Midwest (meio-oeste dos Estados Unidos), fiquei impressionado com a beleza do altar-mor e do baldaquino em mármore italiano coberto com mosaicos. E, no entanto, foi-me mostrado (sem sombra de dúvida) que a coisa toda era, em realidade, uma obra de arte rosa-cruz, maçônica (provado por vários peritos e exorcistas)… Ficou muito claro para mim o quanto esses tempos são perigosos. À primeira vista, parecia bem católico, mas olhando com mais cuidado, não era nada católico. Tempos perigosos. Tempos perigosos.

E esses são apenas alguns poucos exemplos de quão facilmente podemos ser enganados com o que parece ser bom inicialmente, mas que, na verdade, olhando com mais cuidado, é contrário e tóxico para a nossa fé… é ofensivo a Deus e à sua Igreja.
 
 
 
Comecemos nossa exposição sobre a literatura fantástica fazendo o que São Paulo disse, isto é, usando a doutrina (a regra da fé) para fazer as devidas correções.
Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, admoesta com toda a paciência e doutrina, porque virá tempo em que (muitos) não suportarão a sã doutrina.
O que é a Palavra senão a Palavra de Deus, a Revelação Divina? Nessa Palavra, nessa Revelação está contido tudo o que é necessário para que sejamos santificados e salvos nessa vida. É a fonte de toda a felicidade e paz para a nossa alma. Essa Revelação, essa Palavra só pode ser encontrada no Depósito da Fé da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Então, devemos começar aqui, sempre devemos recorrer às doutrinas de nossa fé santa e infalível para sobreviver a esses tempos perigosos.

Não é de surpreender que Santo Inácio ensine algo semelhante na primeira de suas “Regras para Sentir com a Igreja”, a saber,
Renunciando a todo juízo próprio, devemos estar dispostos e prontos a obedecer em tudo à verdadeira esposa de Cristo Nosso Senhor, isto é, à santa Igreja hierárquica, nossa mãe.”
  
Assim, se encontramos algum autor contradizendo doutrinas da Igreja, sabemos que temos um problema. O bem integral da obra perdeu-se e só pode ser aproximada com grande cuidado e atenção, se é que não deve ser completamente rejeitada como prejudicial à fé. Ainda que achemos a obra agradável, fascinante, cativante e estimulante, devemos colocar de lado nosso próprio juízo e nossas emoções para nos conformar à nossa Santa Madre Igreja e para viver da fé.
 
 
Voltando-nos para o nosso tema de hoje, é bem estabelecido que J.R.R. Tolkien, um filólogo, isto é, alguém que estuda palavras e línguas, apreciava pesquisar e conhecer mitologia, sobretudo a do norte da Europa. Como resultado, ele desenvolveu uma espécie de “filosofia do mito” enquanto rejeitava a alegoria, dizendo: 
Eu cordialmente desgosto da alegoria em todas as suas manifestações”.  
Ele criticava C.S. Lewis pelas suas alegorias muito transparentes e resistia a todas as tentativas de tornar suas próprias obras alegóricas. Aqui, já temos um problema, pois Deus ama a alegoria. Ele colocou alegorias na Sagrada Escritura como São Paulo explica aos Gálatas. Assim, uma das principais formas de interpretar a Sagrada Escritura em algumas passagens é pelo chamado sentido alegórico.  Toda uma escola de pensamento no início da Igreja, a Escola de Alexandria, contribuiu em muito para a interpretação das Escrituras em seu sentido alegórico. Os Padres da Igreja, os Doutores, os Santos empregaram a alegoria para explicar a fé. Isso não é algo que deva ser menosprezado ou desprezado, independentemente de quão bem ou mal vários autores, modernos e medievais, usaram da alegoria.

Todavia, há mais. De acordo com Joseph Pearce, Tolkien pensava que o mito era um meio melhor para transmitir certas verdades mais elevadas.
Tolkien… acreditava que a mitologia era um meio de transmitir certas verdades transcendentes que são quase inexprimíveis dentro dos confins fáticos de uma narrativa realística.
Em outro lugar:
Para Tolkien, mito… era o único meio pelo qual certas verdades transcendentes poderiam ser expressas de forma inteligível” (Tolkien, Man and Myth, Pearce, p. XIII).
Espero que a sirene de alarme esteja soando. Isso é o sinal de um pensamento revolucionário moderno, que ensina que somente em tempos recentes aprendemos a fazer as coisas corretamente. No caso específico, aprendemos a transmitir verdades transcendentes mais elevadas. O quê? Todos esses séculos falhamos em transmitir as verdades transcendentes de Deus em maneira realista? Isso faz algum sentido? Não!
 
 
Para ver o que estamos falando aqui, paremos um momento para considerar as milhões e milhões de pessoas que leram O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Era algo tão popular nos anos 60 que os livreiros, especialmente aqueles nas universidades, nem se davam ao trabalho de colocar os livros nas prateleiras. Eles simplesmente empilhavam esses livros perto do caixa. Ballantine Books (editora) estima que mais de 50 milhões de pessoas tinham lido os livros até 1968 (mais de 150 milhões até 2011). Logo hobbit se tornou um modo de vida, com festas hobbit. As sociedades (inspiradas em) Tolkien surgiram. E entrou mesmo na vida religiosa. Eu ouvi falar de “hobbits em hábitos” e vi muitas fotos de religiosas como elfos ou hobbits no Photoshop.

Nos anos 60,
grafites, de costa a costa (dos EUA), diziam: GANDALF PARA PRESIDENTE, VENHA PARA A TERRA MÉDIA. Um oficial boina-verde americano traduziu o livro em vietnamita e o distribuiu aos mais altos oficiais vietnamitas. Tolkien foi inundado com ofertas de fabricantes de brinquedos, produtores de filmes, executivos de televisão, todos esperando arrecadar com o sucesso do livro. Até os Beatles aproximaram-se de Tolkien para fazer um filme de O Senhor dos Anéis com John Lennon (o mais ávido leitor de Tolkien entre eles) no papel de Gollum, Paul McCartney no papel de Frodo, Ringo Star como Sam e George Harrison como Gandalf. Havia até mesmo uma Sociedade do Frodo do Bornéu do Norte. Em Londres, clubes de rock seguiram a moda, com lugares como Middle Earth e Gandalf’s Garden alimentando aspirantes a hobbits” (Turn off your mind, p. 78).
  
 
 
Várias bandas de rock psicodélico surgiram, nomeando-se a partir das obras de Tolkien… Gandalf gravou um álbum pela Capital records em 1969; Gandalf the Grey, pela Grey Wizard Records, apareceu em 1972. Em 1970, uma banda chamada Khazad Dum – a partir de uma cidade nas minas de Moria, na Terra Média de Tolkien – lançou também um álbum (idem, p. 78, nota). Pensem sobre isso. Tudo isso sobre O Senhor dos Anéis. Milhões e milhões leram essas obras. E, no entanto, onde estão as conversões? Em vez de virem para Cristo, foram para o rock-and-roll. Se essa mitologia do Tolkien é supostamente mais eficaz para transmitir verdades mais elevadas sobre Deus, onde está o efeito? Edith Stein, que se inclinava ao ateísmo, leu a Autobiografia de Santa Teresa de Jesus em uma noite. Pela manhã, ela era católica. Alguns anos depois, ela entrou em um convento e morreu uma morte cruel pela nossa santa fé. Ela é somente um exemplo entre tantas conversões ocorridas a partir das obras de santos como Santa Teresa de Jesus. Entre os milhões de ávidos leitores de Tolkien, tem algum que veio às verdades de nossa fé por meio desses livros? Não que eu conheça. O que isso significa? Parece-me claro que esses livros, que esses mitos da Terra Média não são canais da graça. Eles não transmitem efetivamente altas verdades que convertem as almas.
 
 
Para ver como isso é verdade, foquemos nossa atenção na definição e no uso de mito. Em geral, mitos são narrações fictícias ou fábulas que procuram explicar como o mundo e a humanidade chegaram na presente forma, incluindo pessoas, ações e eventos sobrenaturais. Eles incorporam algumas ideias populares relativas à natureza e aos eventos históricos. Assim, os mitos aparecem em muitas culturas para explicar o início delas, tocando, inevitavelmente, na origem do cosmos e da humanidade, bem como em outros pontos importantes: as origens das instituições humanas, a busca do homem pela felicidade e seus sucessos e falhas em tal busca. Por exemplo, a Maçonaria baseia-se muito no mito em torno do Templo de Salomão. Historicamente, o foco particular do mito é mostrar como os deuses se relacionam com a natureza e com o homem. Entre os mitos mais famosos que nós temos, estão os mitos dos gregos, dos egípcios e dos romanos.
 
 
→ Quando olhamos o desenvolvimento e uso históricos dos mitos, é muito importante saber que nenhum deles remonta à Sagrada Escritura. Isso porque a Bíblia não contém mitos! Só recentemente os estudiosos modernistas tentaram forçar a categoria de mito na Bíblia (mais especialmente em Gênesis 1-11 e nas pragas do Egito no Êxodo). Em outras palavras, esses “especialistas das Escrituras” tentaram dizer que os sagrados escritores da Bíblia não foram originais, mas que eles emprestaram muito dos antigos mitos de seu tempo. E, no entanto, Pio XII tratou do tema na Encíclica Humani Generis, n. 39:
… o que se inseriu na Sagrada Escritura tirado das narrações populares, de modo algum deve comparar-se com as mitologias e outras narrações de tal gênero, as quais procedem mais de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à verdade que tanto resplandece nos livros do Antigo Testamento, a tal ponto que os nossos hagiógrafos devem ser tidos neste particular como claramente superiores aos antigos escritores profanos."
Note-se o que diz Pio XII: não há mitos em toda a Bíblia. O que nós encontramos nela é superior a essas formas mitológicas:
“…as mitologias, as quais procedem mais de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à verdade.”
O Profeta Baruc (3, 23):
… os filhos de Agar, à procura de prudência terrestre, os contadores de fábulas e os desejosos de prudência, não puderam conhecer o caminho da sabedoria, nem dela obter informações sobre suas veredas.
Em outras palavras, há muita pouca busca séria da verdade em fábulas e mitos, que estão fora da Igreja.

Em segundo lugar, devemos notar que cada vez que os Apóstolos Pedro e Paulo empregam a palavra grega mithos é com conotação pejorativa. Aqui um exemplo: São Pedro (2Ped. 1, 16-17):
Efectivamente, não foi seguindo fábulas (mithos) engenhosas que vos fizemos conhecer o poder e a vinda (no fim do mundo) de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas foi depois de termos sido espectadores da sua grandeza. De fato, ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da majestosa glória desceu a Ele uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem pus as minhas complacências.
Cristo é o Verbo Encarnado e não tem mitos nesse Verbo! São Paulo menciona mitos quatro vezes, todas pejorativas. Ele fala para São Timóteo (2Tim 4, 4), como ouvimos no início dessa conferência, a saber quantos
“afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas (mithos).”
Aqui um outro exemplo da epístola a São Tito (1, 14):
não deem ouvidos a fábulas (mithos) judaicas nem a mandamentos de homens que se afastam da verdade.
A Igreja e as Escrituras parecem dizer a mesma coisa… mitos, isto é, fábulas artificiais… o trabalho de uma imaginação extravagante… não são um caminho seguro para a verdade!

Agora, alguns podem objetar dizendo que há várias referências mitológicas na Bíblia. O que dizer do unicórnio mencionado pelo Rei Davi? Dos faunos mencionados por Jeremias? E o Leviatã? Quando consideramos isso com a ajuda dos Padres da Igreja e dos Doutores, vemos que o unicórnio é um rinoceronte, que o Leviatã é uma baleia ou um dinossauro, que faunos e outros semelhantes  são manifestações demoníacas. Não são seres míticos.

Em todo caso, é fácil ver porque não há mitos nas Sagradas Escrituras. Porque nós temos a coisa verdadeira. Deus, nosso Pai, é o Criador. Sabemos o que Ele fez com certeza, pois Ele nos falou. E é maravilhoso contemplar. Sabemos como Ele age com os homens e com a Sua criação. Não temos necessidade de mitos! Temos o Verbo Encarnado!

Para levar isso a um outro nível, considere, por um momento, que nenhum dos Padres da Igreja e nem sequer um dos santos tomou os mitos antigos como algo bom, como algo para ser comentado ou como algo a ser imitado para transmitir uma verdade. De acordo com o renomado especialista nos Padres da Igreja, Joahnnes Quasten, os primeiros apologistas gregos, como São Justino Mártir (que tinha um “conhecimento excelente de mitologia grega”) “expôs os absurdos e as imoralidades do paganismo e dos mitos de suas divindades, mostrando, ao mesmo tempo, que apenas o cristão tem o entendimento correto de Deus e do universo (Patrology, Christian Classics, vol. 1, p. 187). Quasten também explica como a Exortação aos Gregos de  São Clemente I contém uma
polêmica contra a mitologia antiga
enquanto defende
a maior antiguidade do Velho Testamento" (idem, vol. 2, p.8).
O Papa Pio XII está apoiado por eles. Mais tarde, quando os neoplatônicos tentaram recuperar vários mitos gregos dando-lhes uma interpretação alegórica, Eusébio de Cesaréia expôs a loucura deles e refutou-lhes em sua obra Preparação para o Evangelho (idem, vol. 3, p. 329). E assim por diante com os outros Padres.
 
 
Quando reflito sobre as obras dos santos, não consigo pensar em um que tenha escrito um mito ou fábula para transmitir a verdade. Há a Divina Comédia de Dante, mas é mais um poema épico que é alegórico em sua natureza do que mitológico. Há a Utopia, de São Tomás More, que é um romance, mas que não é desconectado desse mundo e que não é uma tentativa de explicar as origens de algum tipo. De fato, ele traz à tona a discussão de assuntos importantes que tocam à vida humana e ao estado. Não é uma obra mitológica. Santa Teresa de Jesus escreveu um romance quando adolescente, mas, depois, desaprovou totalmente todo romance e preveniu as religiosas de ler trabalhos de baixo nível nos carmelos. Dom Bosco tinha sonhos vívidos. Não mitos, mas visões que diziam respeito à vida da Igreja, algumas das quais ainda devem se cumprir. Em uma palavra, não consigo achar exemplos de santos que tenham usado mitos ou fábulas para transmitir a verdade.

Há os trabalhos de um dominicano do séc. XIV, Mestre Eckhart. Aparentemente, ele tentou reavivar o uso de mitos e cristianizá-los. Suas obras foram levadas à julgamento e condenadas pela presença de inúmeros erros. E não deveria ser surpresa encontrar vários filósofos heréticos do séc. XIX, como Madame Helena Blavatsky da Sociedade Teosófica, trazendo de volta essas ideias e as adotando. Muitos outros pensadores da Nova Era, como o apóstata Padre Matthew Fox, promoveram Mestre Eckhart. Obviamente, somos forçados a concluir que os santos não consideraram o mito apto para transmitir a verdade, enquanto os heréticos sim. A Igreja e a História têm mostrado que os santos estão certos.
 
 
Deve ser notado aqui que Joseph Pearce fala e repete sem cessar do quanto Tolkien é mal compreendido (trocadilho entre misunderstood – mal compreendido – e mithunderstood). A principal razão que ele dá para isso? Tolkien teria uma compreensão diferente do mito, mais elevada. Todavia, aqui também, estamos no campo errôneo de uma maneira de pensar moderna, que sempre tenta redefinir palavras e sentidos, embora permaneça a mesma palavra. Os fatos que já elencamos falam por si só… mitos não são uma estrada segura para transmitir a verdade. Parece-me claro que Tolkien provou isso como ninguém antes. Pense… 150 milhões de pessoas leram seus livros… Como resultado, toda uma indústria nasceu em torno disso: filmes, uma nova leva de autores de literatura fantástica, novos mitos, jogos e assim por diante. Trata-se de um grande negócio! Nos quartos de nossos jovens, encontramos pôsteres em tamanho real dos atores de O Senhor dos Anéis (conhecidos por levarem uma vida pervertida e sustentarem posições contrárias a Cristo e sua Igreja). E diante de toda essa atividade a Igreja não cresceu em tamanho… mas, ao contrário, muitos e muitos de seus membros caíram e até apostataram. Esses frutos falam por si. A noção de mito, mesmo na assim chamada visão elevada sustentada por Tolkien e promovida por Joseph Pearce, não ajudou a Igreja nesses tempos difíceis.

Para solidificar essa conclusão e confirmar a nossa fé, devemos agora voltar a nossa atenção aos próprios trabalhos de literatura fantástica de Tolkien. Também falarei, brevemente, de outros autores de literatura fantástica, como C. S. Lewis, quando conveniente. Mais uma vez, devemos parar por um momento. Alguns tentam afirmar que as obras de Tolkien são mais mitológicas do que fantásticas. Não obstante, fantasia (literatura fantástica) é definida como ficção imaginativa envolvendo magia e aventura, especialmente em um cenário distinto do mundo real. Isso abrange praticamente tudo o que Tolkien e Lewis apresentaram… ficção imaginativa, mágica, em outro mundo. O que mais precisa ser dito? Mito e fantasia cobrem o mesmo campo. De fato, o mito de Tolkien está mais alinhado com a fantasia do que os mitos antigos porque seu mito é ainda mais imaginário e separado do nosso do que os do mundo antigo.
 
 
É bem conhecido que para construir seu mito da Terra Média, Tolkien primeiro compôs uma língua e montou a estória em torno dela… criando povos que pudessem falar essa língua. Joseph Pearce chega ao ponto de dizer que a Terra Média era a palavra (o verbo) de Tolkien feita carne. Não é surpreendente que, como um mito, a Terra Média de Tolkien tem uma estória da criação por trás, e que pode ser encontrada mais completamente no Silmarillion. Como se espera para todos os mitos, essa estória da criação explica, entre outras coisas, como o mundo passou a existir, como o mal entrou no mundo. Lewis teve que fazer a mesma coisa com Narnia, embora com muito menos habilidade que Tolkien.

Na criação de Tolkien, tem-se um deus criando seres espirituais ou demiurgos, semelhantes aos nossos anjos. O deus dele mostra, então, a esses semideuses o tema musical da criação e lhes pede que cantem em harmonia com esse tema. Pelo cantar deles, tornam-se partícipes da criação do mundo que vai se tornar a Terra Média para os elfos e para os homens. Chegamos em um dos problemas essenciais do mito. Como produtos de uma “imaginação extravagante”, os mitos sempre se tornam desconectados do mundo que Deus realmente criou. Como eles são mundos inventados, podemos deixar de lado o ensinamento da Igreja a propósito da criação? Em outras palavras, a heresia pode ser permitida no mundo mítico? Afinal, é só fantasia! Não, devemos insistir que fantasia ou mito não é desculpa para a heresia! Especialmente se esse mito é promovido como sendo “profundamente cristão.”

O que Tolkien nos deu aqui na sua estória da criação não é católico, mas gnóstico. Os Padres da Igreja rejeitaram o ensinamento gnóstico sobre a criação, que afirma que o mundo foi feito pela intermediação de outros seres. São Tomás diz:
é impossível para qualquer criatura criar, seja pelo seu próprio poder, seja instrumentalmente, isto é, ministerialmente.” (ST Ia, 45, 5)
 
E então ouvimos o profeta Isaías dizer:
“Eis o que te diz o Senhor, que te remiu e que te formou no ventre da tua mãe: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que só por mim estendi os céus e firmei a terra; quem estava comigo?” (Isaías 44,24)
 
O Concílio Vaticano I repetiu o dogma da criação afirmado no IV Concílio de Latrão:
criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo.
 
Desde já, com esse erro somente, podemos ver que o bem integral das obras de Tolkien se perdeu. Elas são perigosas para a nossa fé.

Ouçam o que alguns seguidores católicos de Tolkien falaram de suas idéias… sendo citados por Pearce. O Padre jesuíta V. Schall, ecoando as palavras de outro jesuíta, o Padre Robert Murray, amigo de Tolkien, exclamou:
Eu nunca li nada tão bonito quanto a primeira página do Silmarillion… A prosa era apropriadamente escriturária.”
Não, desculpem, é pura gnose.

Outro amigo próximo de Tolkien admitia:
Eu me orgulho do Silmarillion… a idéia de que Deus permite que os arcanjos participem da criação… Chama a minha atenção sua descrição dos arcanjos como crianças pequenas com o pai… Tudo isso é a base para O Senhor dos Anéis como tendo sido criado pelos arcanjos, os Valar, sob a direção do Um.”
Em vez de transmitir a verdade através de seu mito, ele está promovendo a heresia, nomeadamente a heresia do Gnosticismo, e ela está sendo bem recebida!

Infelizmente, há muitos e muitos outros pontos semelhantes em suas obras. Quão certo estava São Tomás quando disse:
uma falsa ideia sobre a natureza da criação sempre se reflete em uma falsa ideia sobre Deus.”
Consideremos mais algumas dessas falsas ideias. Tolkien tem o desabrochar do seu mundo a partir de eons (períodos geológicos)… e assim favorece as ideias evolucionistas de nosso próprio tempo.
Tolkien… escolheu um lugar para a habitação dos Filhos de Ilúvatar ‘nas Profundezas do Tempo e no meio das numerosas estrelas.’ Assim, no ato de uma engenhosa invenção, ou subcriação, Tolkien não só distingue os Homens e os Elfos como sendo feitos diretamente à ‘imagem de Deus’, essencialmente diferentes do resto da Criação, mas ao mesmo tempo acomoda a teoria da evolução. A evolução do cosmos era simplesmente o desenrolar da Música dos Ainur, dentro da qual o Um coloca seus Filhos em habitação preparada para eles… Em um similar ato de ingenuidade, Tolkien explica que os Valar, poderes angélicos com responsabilidade de formar o cosmos, têm sido chamados frequentemente de deuses pelos Homens. Assim, ele consegue acomodar tanto o paganismo quanto a evolução dentro do seu mito, fazendo ambos subsistirem dentro da ortodoxia cristã.” (Tolkien: Man and Myth, pp. 90-91).
Ah… Esperem um minuto! Paganismo… Evolucionismo… subsistindo dentro da ortodoxia cristã? Será que não podemos ver como Pearce caiu na ideia errônea de que o paganismo politeísta é uma preparação para o cristianismo, uma espécie de processo evolutivo, em vez de vê-lo tal como a escritura nos diz…
todos os deuses dos pagãos são demônios” (Salmo 95, 5)?
Essas mitologias pagãs são retrocessos e não desenvolvimentos. Como sabem, nós e outros falamos muitas vezes da pseudociência da evolução e da sua total falta de ortodoxia. Mais uma vez, podemos ver como o bem integral das obras de Tolkien está profundamente comprometido… tornando-as perigosas de serem lidas.
  
 
 
Consideremos ainda outro ponto, a saber, que, na Terra Média de Tolkien, a morte é um presente:
os filhos dos homens morrem de verdade, e deixam o mundo, motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança.” (Silmarillion, cap. I).
A Igreja ensina que a morte é um castigo pelo pecado. Ouçamos o Livro da Sabedoria:
Deus não fez a morte.” (Sabedoria 2, 24)
São Paulo declara:
Por um homem, o pecado entrou no mundo e pelo pecado, a morte.” (Romanos 5, 12)
A Igreja nos ensina que Deus deu a Adão e Eva o dom da imortalidade, o que é completamente oposto ao que Tolkien está afirmando. Uma vez mais, vemos que o mito falha miseravelmente em transmitir verdades muito importantes.
 
 
Não é uma surpresa que, se alguém considera a morte como um prêmio mais do que como uma punição, ele muito provavelmente afirmará que não existe inferno ou pena eterna pelo pecado. Para o mito de Tolkien, claro, esse lugar não existe, mas somente o Vazio ou a Sombra. Quando Gandalf confrontou Balrog nas minas de Moria, ele não dá uma ordem como um exorcista o faria, isto é, mandando que a criatura infernal volte para o inferno. Gandalf simplesmente diz:
Volte para a Sombra!
Quando Eowyn mata um dos Nove Cavaleiros Negros, sua morte é retratada como uma voz que some, que
“foi engolida e que nunca mais foi ouvida de novo nessa era do mundo.”
Ela será ouvida em outra era? Ele poderá voltar? Não há menção de uma punição eterna aqui. De novo, o mito de Tolkien não está transmitindo uma verdade, mas parece mais apto a transmitir o erro.
 
 
Outro ponto essencial. Como todos sabem, há muita magia mencionada nos trabalhos de Tolkien e Lewis. Alguns exemplos das obras de Tolkien: magos, feitiços, coisas mágicas como anéis, cajados e bolas de cristal. Tudo isso tem grande participação para fazer de O Senhor dos Anéis uma estória de sucesso. E tudo isso sempre foi considerado pela Igreja como coisa do ocultismo. De sua parte, Joseph Pearce tenta superar isso fazendo uma distinção entre a “boa” magia e a má “magia”. Ele fala:
Seria mais exato descrever a chamada magia em O Senhor dos Anéis como milagrosa, quando ela serve ao bem, e como demoníaca quando ela serve ao mal.
Assim, de acordo com Pearce, toda a magia operada por Gandalf e outros seriam milagres e não magia. A Igreja, porém, sempre considerou o milagre como um fato sensível (perceptível aos sentidos) que supera a natureza e é produzido por Deus para testemunhar alguma verdade, a santidade de algum indivíduo ou para dar um motivo para crer verdadeiramente. Dessa forma, o milagre do sol em Fátima testemunha a verdade das aparições diante de setenta mil espectadores, entre os quais havia muitos ateus. Porém, em O Senhor dos Anéis, não se faz menção de Deus, nem da fé ou da crença nEle. Não há nada que indique a santidade dos indivíduos porque não há menção à santidade em toda a série. E Gandalf fecha portas com feitiços, faz coisas queimar para manter a sociedade (do anel) aquecida na montanha gelada, ilumina o caminho deles nas escuras minas de Moria, quebra a ponte sobre o Balrog, consegue ver longe com a bola de cristal, lê o pensamento dos outros e assim por diante.  Como essas coisas são milagrosas da forma que a Igreja entende o milagre? Não são. Além disso, dado que não há uma única citação ao sobrenatural no livro inteiro, como  algo que ocorre nele pode ser considerado milagroso?
 
 
O mito de Tolkien, porém, indica que as ações mágicas que Pearce quer chamar de milagrosas vêm do poder do anel na mão de Gandalf e do cajado que ele carrega. Fica obscuro como a anel toca o fogo sagrado. O fogo sagrado é o Espírito Santo? Não está indicado. Mais uma vez, milagres apontam para a presença de Deus, para a verdade de Deus, para os santos de Deus. Não há oração, não há menção à graça, à vida interior, à fé, à esperança, à caridade nesses livros. Tudo é horizontal, ou seja, uma batalha entre aqueles que têm acesso aos poderes secretos que está dentro da natureza desse mundo mítico criado pelo Tolkien. Nada de sobrenatural é indicado. Um claro indicador disso é como os anéis começam a falhar depois da destruição do anel e como, consequentemente, já não há muita magia “boa” ou “má” feita depois disso.
 
 
Talvez no mito de Tolkien haja “boa” e “má” mágica, mas isso é distante do que ocorre no mundo real. TODA magia é uma forma de feitiçaria/bruxaria e se apoia nos poderes demoníacos, quer a pessoa que usa da magia aceite isso ou não. Assim, Deus sempre foi muito estrito em punir e proibir todos os magos, bruxos e toda sorte de feitiçaria… até mesmo mandando a morte deles na Lei de Moisés. Infelizmente, essa não é a mensagem que se encontra em O Senhor dos Anéis. Parece-me que Pearce está lendo na estória aquilo que ele quer que ela fale.
 
 
Quanto a C.S. Lewis, suas obras de fantasia (Crônicas de Narnia e Trilogia Espacial) também estão repletas de problemas. Não somente ele tem muito dessa “boa” magia, mas também mundos múltiplos e paralelos, e vida em outras planetas. Em O Sobrinho do Mago, a criança vai para uma espécie de lugar intermediário onde há muitos e muitos portais para mundos diferentes… alguns dos quais já acabaram e outros que estão começando. Assim, desse modo as crianças puderam estar presente na criação de Narnia. Isso é problemático porque programa nossas crianças para as vias da ciência moderna, que é bem baseada na fantasia atualmente… com todas as suas pretensões de um multi-universo, de ufologia e de vida em outros planetas. Embora Lewis tente muito incorporar uma alegoria cristã em suas obras – o que Tolkien desprezava – ele teve que usar o mito para construir seu sistema… e, não por acaso, em vez de promover a verdade, os elementos míticos de Lewis promovem o erro e a heresia.
 
 
Ainda que muitos outros pontos pudessem ser considerados, como, por exemplo, o fato desses mitos terem se tornado um grande negócio ou o fato de eles serem constantemente reintroduzidos, constantemente promovidos para continuar em voga… novos livros, novos filmes, novos jogos.. eu espero que concordem que já temos o suficiente para discernir claramente que não existe algo que seja como um mito cristão. Querendo ou não, eles produzirão um mundo que está em oposição com a criação de Deus… serão um “mundo feito carne” em oposição a Cristo, o Verbo feito carne. E isso ocorre porque nós temos a verdade, a realidade. Mestre Eckhart tentou batizar o mito no séc. XIV e suas obras foram condenadas. Mitos são perigosos porque nos desconectam da realidade e tentam nos introduzir em uma terra de fantasia que não existe. Ainda quando tais mundos fantásticos têm belas representações de várias verdades, eles inevitavelmente introduzem o erro e a heresia. Tanto Tolkien quanto Lewis têm várias coisas que tocam na verdade… por exemplo, Pearce fala muito da data da Encarnação de Nosso Senhor, 25 de março, como sendo a data da destruição do anel. Lewis, com Aslam sendo Cristo, tem muito mais pontos de contato que Tolkien. Todavia, tais pontos de contato com o cristianismo autêntico não são suficientes para purificar o todo. Como eu falei no início dessa conferência, a capela das irmãs, à primeira vista, era impressionante. Tudo parecia tão católico, mas olhando mais de perto, embora houvesse semelhanças, ela era maçônica (algo baseado em mitos). Parece claro, para mim, que toda literatura fantástica é um beco sem saída e deve ser evitada.

Na próxima conferência, eu espero mostrar-lhes porque livros como O Senhor dos Anéis tiveram tanto sucesso nesse momento da história. Para terminar, por enquanto, repitamos as profundas palavras de São Pedro, o primeiro Papa:
Efetivamente, não foi seguindo fábulas engenhosas que vos fizemos conhecer o poder e a vinda (no fim do mundo) de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas foi depois de termos sido espectadores da sua grandeza. De fato, ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da majestosa glória desceu a ele uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, em quem pus as minhas complacências’”.  (I Pedro, 1, 16-17)
Agradaremos a Deus e O conheceremos não por meio de mitos, mas estudando a Sua divina Revelação.
 

 
 
2ª Conferência 
(tradução: Montfort)
 
"Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a sua majestade com nossos próprios olhos. 17. Porque ele recebeu de Deus Pai, honra e glória, quando do seio da glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto." (2Ped 1:16-17).
 
São Paulo: "Ó Timóteo, guarda o depósito! Evita o palavreado vão e ímpio, e as contradições de uma falsa ciência."
(1Tim 6:20).
 
 
Vamos começar por repetir o aviso dado anteriormente, ou seja, que não estou aqui para julgar a pessoa de J.R.R. Tolkien. Afinal, ele era um católico devoto. Mas todos nós podemos julgar suas obras e seus efeitos e frutos. Parece claro a mim, e isso foi feito em nossa conferência anterior para chegarmos a um grau satisfatório usando a sã doutrina, embora muitos outros pontos poderiam ser discutidos. O que resta é perguntar por que ele escreveu essas histórias? Por que ele tentou batizar o mito, algo que não tinha sido feito com sucesso por quase dois milênios? Como Tolkien, um católico devoto, acabou escrevendo assim? Foi somente para escrever histórias a seus filhos?
 
Joseph Pearce afirma que o mito de Tolkien é "profundamente cristão", "um suspense teológico." Em uma de suas cartas, Tolkien escreveu: que "o Senhor dos Anéis é um trabalho fundamentalmente religioso e católico; inconscientemente no início, mas com  consciência na revisão. Por que teve que revisá-lo conscientemente para ser católico? Esta é uma das maneira mais estranhas de se aproximar das verdades divinas. É uma afirmação de que não se preparou para fazer um trabalho católico no início.
 
 
Antes de responder por que ele escreveu desta forma, gostaria de abordar um problema que está muito presente atualmente nos membros da Igreja, ou seja, a de olhar apenas para o lado bom, enquanto ignoramos o mal ou o erro. Tradicionalmente, a Igreja não só aponta o que é verdadeiro e bom, mas também o que é falso, errôneo, mau, o que deve ser evitado. Ao lidarmos com o surto da revolução, que ainda hoje nos acompanha, a que realmente começou com o Renascimento, o Concílio de Trento repetiu-nos inúmeras vezes, dizendo que foi convocado para "extirpar as heresias e a reforma moral,  para direcionar os incrédulos para a fé, superar os hereges e confirmar os fiéis. "(3ª sessão).
 
Por outro lado, os adeptos da Nova Era, os filhos da revolução, tendem a olhar apenas para o lado positivo das religiões, a fim de escolher e rejeitar somente o que lhes agrada, não se preocupando com o resto. Assim, eles louvarão a Nosso Senhor por alguns de seus provérbios, e passarão por cima daqueles que mencionam o inferno, o pecado, requerem a conversão do coração e que exigem a castidade. Madame Helena Blavatsky se esforçou por isto, e para formar um grupo oculto chamado a Sociedade Teosófica, afim de estudar e comparar religiões, filosofia e ciência. (a propósito, ela foi uma das que trouxe de volta as obras de Meister Ekhart!) Portanto, é uma mentalidade da Nova Era para examinar as obras de alguns homens, como Tolkien e Lewis, ressaltando o que acham verdadeiro e bom, e fazendo passar desapercebido o que acham errôneo.
 
 
Considere por um momento a alegoria de Platão na caverna, encontrada na obra República. Nesta alegoria, há pessoas em uma caverna, acorrentadas desde a  infância, em uma mesma posição, de maneira que não podiam partir ou se movimentar em demasia. Tudo o que podiam ver era a imagem de um conjunto de sombras que passavam, com uma oculta luz de fogo. As pessoas, nas sombras, carregavam todo o tipo de coisas em movimento, de tal modo que projetavam diferentes tipos de imagens. Essas mesmas pessoas também conversavam durante a passagem, enquanto os espectadores ouviam apenas ecos saltando das paredes, aparentemente vindo das sombras. Usando a razão, os observadores acorrentados discutiam o que tais coisas significavam. Nomeavam as figuras e desenvolviam elaboradas idéias e teorias a respeito delas. Em certo momento, no entanto, um desses observadores foi liberto e lhe foi mostrado o que realmente estava acontecendo. Ele foi, então, levado da caverna para o mundo exterior, ao ar livre e à luz do sol. Ele viu com clareza muitas coisas, e percebeu quão erradas estavam suas idéias anteriores. Voltando para a caverna, tentou convencer seus companheiros aprisionados a respeito do que era real, de que estavam vendo meras sombras. Porém, todos eles rejeitaram a verdade, ridicularizado-o, e até querendo mata-lo.
 
Essa alegoria se aplica facilmente aos nossos tempos. Como católicos, temos a plenitude da fé, ou seja, temos o benefício de estar fora da caverna, à luz do sol,  e a revelação de Deus. Além disso, não estamos acorrentados as formas de pensar do mundo, como os outros, temos a capacidade de olhar para a realidade do mundo, a luz de nossa fé,  sob a orientação dos ensinamentos da Igreja, juntamente com a Patrística e seus Doutores. Será que percebemos quão grande é este presente?
 
Por outro lado, aqueles que são do mundo, que não querem abraçar a Revelação divina, tornam-se muito apegados ou acorrentados às suas próprias teorias e limitadas idéias. Trancados neste mundo, sofrendo os efeitos do pecado original (como a obstinação e o escurecimento do intelecto), eles não podem fazer uso de tudo o que pensam, e teorizam sobre a verdade, quando na realidade possuem pequenas pistas de informações para seguir, através de uma perspectiva muito distorcida. Que não sejamos contados entre eles!
 
 
Além disso, atualmente uma espécie de doença está presente entre nós. Não há mais nenhum índice de livros nocivos à fé, foram colocadas de lado as penas da Igreja,  ignoradas as sóbrias profecias de Fátima, de outros idôneos santos e com o último Concílio pastoral, as autoridades da Igreja têm medo de apontar os erros,  por receio de parecerem negativas, de soarem como a Igreja do Concílio de Trento,  ao invés disto, preferem a Igreja do Concílio Vaticano II. Desta forma, a tendência agora é se concentrar apenas no que é verdadeiro, bom e positivo. Isto não é a Tradição! Isto não é autêntico Catolicismo! Isto não é seguro! Na verdade, poderíamos argumentar que é uma mentalidade da Nova Era, fazendo progressos dentro da Igreja. O que estou fazendo pode parecer mesquinho, prejudicando a diversão de muitos católicos, mas não é isso. O que estamos fazendo é o que os bons católicos sempre fizeram!
 
 
No que diz respeito à literatura de fantasia e aos mitos, devemos sair da caverna, precisamos deixar de lado nossos apegos emocionais a tais obras, e julgá-las conforme a luz divina, a luz do depósito da fé, a luz da Doutrina. Embora gostemos de sentar na caverna, e não obstante, possamos encontrar muitas idéias sendo propostas por mestres aparentemente esclarecidos, como interessantes, fascinantes e cativantes, quando virmos tais realidades, devemos rejeitá-las e nos tornar livres, para que não corroam nossos pensamentos ou ainda pior, prejudiquem nossa fé. Estas histórias são empolgantes, sim, e por isso se tornam prazerosas. Mas ao mesmo tempo, tal prazer cega nosso julgamento, tornando-se mais difícil aceitá-los como perigosos. Assim, não nos surpreende que na alegoria da caverna, os observadores acorrentados rejeitaram a mensagem e o mensageiro, porque ele tocou na única coisa em que achavam prazeroso. Não imitemos tais erros!
 
 
Tudo isso se aplica, diretamente, ao modo como Joseph Pearce apresenta o Senhor dos Anéis, como um "mito profundamente cristão", e um "suspense teológico", enquanto passa por cima de pontos controversos, já apresentados. Por exemplo, nada é dito a respeito da estranha e condenável doutrina gnóstica, tecida na história da criação de Tolkien. Além disso, Pearce apresenta um conceito chamado "aplicabilidade", onde o mito se torna relevante, enquanto ainda for um mito e não uma alegoria. Assim, o cajado de Gandalf pode ser, por vezes, a haste de Moisés (que, por meio da tipologia, pode se tornar a Cruz de Cristo, de acordo com a Patrística, e por isso que Moisés quase sempre a usou com os braços estendidos). Mas, quando vemos o cajado de Gandalf despedaçado diante de Balrog,  não é mais aplicável,  porque a Cruz permanece firme e inabalável. O cajado de Moisés nunca foi quebrado, mas foi colocado dentro da Arca da Aliança. Esta "aplicabilidade" não é nada, além de uma receita para o relativismo, o subjetivismo em que cada pessoa determina o que é ou não "aplicável" para si mesma. A objetividade está perdida! É assim que os membros da Nova Era se comportam, escolhendo agora o que acham aplicável à si mesmos, e não se preocupando com o resto. E certamente, hoje esta é uma das principais razões pelas quais as obras de Tolkien são tão populares, e se encaixam com o pensamento relativista. Todos podem ler esta obra e fazer do ‘simbolismo’ o que quiser, enquanto rejeitam o resto, sem nenhum remorso. Afinal, isto é apenas uma fantasia, um mito, e somos todos livres para fazer o que quisermos.
 
 
É fato conhecido que George Lucas, o produtor de Star Wars, é um membro da Nova Era, ou seja, alguém que segue a espiritualidade oculta e está procurando o advento desta Nova Ordem. Em seu filme Willow, por exemplo, o ator principal aprende que o poder da magia reside em si mesmo, em suas próprias mãos. Embora George Lucas tenha nascido e crescido em uma família metodista, os temas religiosos e míticos em Star Wars foram inspirados pelo seu interesse nos escritos do mitologista Joseph Campbell. Como resultado, Lucas fortemente se identificou com as filosofias religiosas orientais, que estudou e incorporou em seus filmes, e tais filosofias foram uma grande inspiração para o filme "a Força". Eventualmente, Lucas identifica sua religião como "Metodista Budista". No entanto, quantos católicos bem intencionados vão assistir a trilogia de Star Wars, enxergar coisas boas, e ainda defender a série como benigna e promotora de virtudes.
 
 
Como observado, Lucas absorveu de Joseph Campbell sua compreensão do mito. Campbell era um outro membro da Nova Era, alguém sendo conduzido por conceitos ocultos. Façamos aqui uma pausa, para notar se seu pensamento não coincide quase exatamente com o que Joseph Pearce ensina sobre Tolkien. Para Campbell, a mitologia possui quatro funções na sociedade humana.
(i) A Função Metafísica, que desperta um sentimento de medo diante do mistério do ser. De acordo com Campbell, o mistério absoluto da vida, o que ele chama de ‘realidade transcendente’, não pode ser capturado diretamente em palavras ou imagens. Símbolos e metáforas míticas, por outro lado,  apontam para fora de si mesmas, e para aquela realidade. "Os símbolos mitológicos tocam e estimulam os centros da vida, além do alcance da razão e da coerção. A primeira função da mitologia é reconciliar o despertar da consciência com o mistério tremendo e fascinante deste universo, tal como é." Soa familiar? O que Pearce disse sobre a razão de Tolkien ter escolhido o caminho do mito como sua forma literária preferida? "Para Tolkien, o mito era a única maneira em que certas verdades transcendentes poderiam ser expressas de forma inteligível." (Tolkien: homem e mito, Pearce, p. XIII).
(II) A Função Cosmológica, que explica a forma do universo. Soa familiar? Tolkien fez isso em sua obra Silmarillion.
(III) A Função Sociológica, que valida e explica a ordem social existente. Embora Pearce aponte que o mito de Tolkien era sobre uma Inglaterra idealizada, sob o reinado de um rei, o leitor, no entanto, pode ler nas obras de Tolkien os males do nazismo e do comunismo, bem como as questões que tocam o tema da ecologia e sobre a industrialização atual.
(IV) A Função Pedagógica, que orienta o indivíduo através das fases da vida, servindo esta orientação como um guia.Campbell também acreditava que, se os mitos existem para cumprir suas funções vitais no mundo moderno, devem continuamente se transformar e evoluir, porque as mitologias mais antigas, que não se transformaram, simplesmente não se dirigiam as realidades da vida contemporânea, particularmente em relação à mudança das realidades cosmológicas e sociológicas de cada nova época. Assim, vemos mais uma vez, quão perigoso é o uso do mito. Uma confusão! Serve para justificar as modernas formas de pensar, tais como a teoria da evolução, o ‘big bang’, o progresso, etc. Não é de se admirar que tais histórias sempre ressurgem de novas maneiras!
 
 
No entanto, há muito mais. Se olharmos detalhadamente a história da revolução que estamos atravessando, tão acentuada, saberemos que teve início em meados de 1300, quando os líderes da cristandade começaram a rejeitar a escolástica e se voltaram para os escritos pagãos dos gregos e romanos. Infelizmente, este movimento foi erroneamente rotulado como Renascimento, um novo nascimento. G.K. Chesterton, com razão, mencionou que foi uma morte e não um nascimento. Com o Renascimento, toda a excelsa sabedoria da Idade Média foi rejeitada e abandonada. Logo, o mundo, a carne, e o demônio começaram a trazer de volta os antigos escritos pagãos que haviam sido tão cultuados, porém rejeitados pela Patrística e pelos Santos Doutores. Como resultado do Renascimento, o homem tornou-se cada vez mais o centro das atenções, e Deus cada vez mais esquecido.
 
 
Não nos surpreende saber que o ocultismo começou a se manifestar também. Em meados do século XV, o Papa Inocêncio VIII escreveu uma bula papal a fim de abordar o problema de bruxaria. Ao mesmo tempo, apoiado por este Papa, os dominicanos reuniram um dos ensinamentos mais profundos sobre o ocultismo, denominado Malleus Maleficarum - O martelo das bruxas.
 
 
Além disso, muitas possessões ocorreram nos séculos XVI e XVII, incluindo uma das mais famosas da história, como Magdalena da Cruz (1560), que depois de fazer um pacto na infância com o demônio, recebera visões, possou por levitações, tivera os estigmas, e muitos outros fenômenos extraordinários. Ela enganou a todos! No início do século XVII, houve momentos em que até mesmo conventos inteiros ficaram infestados com muitas religiosas possuídas pelo demônio.
 
 
Em meados do século XIX, o ocultismo foi reavivado e houve quase sua completa aceitação, o que ficou mais evidente depois de Napoleão ter ido para o Egito. Um pouco mais tarde, o seminarista francês Alphonse Louis apostatou, na década de 1840, tornando-se um ocultista, e convertendo seu nome para Eliphas Levi. Ele pesquisou com profundidade e riqueza de detalhes sobre o ocultismo, reunindo tudo o que pode em vários volumes, que passaram por inúmeras impressões. Estes volumes foram muito estudados e utilizados por Madame Helena Blavatsky, Aleister Crowley entre outros. Como resultado, o ocultismo tornou-se popular e entrou em nossa cultura moderna.
 
Na época em que Eliphas Levi estava escrevendo, houve muitas outras manifestações de ocultismo na América. Por exemplo, Andrew Jackson Davis, também conhecido como o "Poughkeepsie Seer", muitas vezes caiu em ataques de êxtase e falou sobre planetas e vidas em outros mundos, e como o universo começou com uma explosão (ou seja, um Big Bang!). Edgar Allen Poe esteve presente para gravar muitas falsas visões de Davis e usá-las em suas estranhas obras. Davis escreveu vários volumes, dentre eles a obra “Princípios da Natureza”,  em que estabelece um mito da criação: "NO PRINCÍPIO, o Univercoelum era um ilimitado, indefinível e inimaginável oceano de FOGO LÍQUIDO!" Ele passou a descrever a criação do grande universo, e todas as suas dimensões espirituais,  sendo única a vida da terra. (cf. América Oculta, Mitch Horowitz, p. 38). (A propósito, Tolkien possui um fogo secreto colocado no coração do seu universo, que aparece por toda parte, além do anel de Gandalf, as letras de fogo no anel Um e o anel, que só pode ser destruído no fogo do Monte Doom, etc.)
 
 
Não demorou muito para que livros, tais como o Mágico de Oz, de Frank Baum, chegassem às prensas e se tornassem um grande sucesso. Este, por sinal, é um dos meios pelos quais o público é programado a pensar que há magia boa e magia ruim, bruxas boas e bruxas más. Logo, houve uma explosão neste tipo de escrita e pensamento, que pareceu chegar a um ápice na década de 1960, no início da cultura da droga.
 
Apresentamos essa longa história para demonstrar que os escritos de Tolkien, lamentavelmente, se encaixam com exatidão em toda essa linha de pensamento, essa espiritualidade oculta e decaída. Isso explica por que ele foi o autor mais popular na década de 1960! O próprio Tolkien declarou publicamente ao The Daily Telegraph Magazine, que “o que realmente queria era criar uma nova versão do mito de Atlantis" (Desligue sua Mente, Lachman, p. 78). O gerente de livraria da Faculdade de Berkeley, na Califórnia, ao referir-se à incrível popularidade das obras de Tolkien, na década de 1960, parece ter "apontado o dedo sobre a obra, dizendo que era mais do que uma moda do campus, era como um sonho de drogadição”. Alguns notáveis leitores deixaram a entender que a obra era como aquelas viagens com LSD. "uma vez lida a obra, você já possui algo em comum com aqueles que a leram." (idem).
 
Como Louis de Wohl, Dr. Wolfgang Smith e Dr. Kotlarczyk, o que vemos são bons homens olhando para caminhos errôneos, e sendo levados pela rápida correnteza da revolução. Será que não vemos quão perigosos são estes tempos? O ocultismo nunca possuiu tanto poder como agora! É tão insidioso que, hoje, a maioria não consegue reconhecer, nem mesmo os católicos muito inteligentes! Como estava certa aquela abençoada Carmelita ao dizer: "o diabo é como o vento, que entra através das rachaduras mais minúsculas."
  
 
 
Para ver tudo isso de outra maneira, consideremos as antigas obras pagãs, humanistas e naturalistas do Renascimento, que levaram o homem para fora de sua realidade, no século XIII. O antigo pensamento pagão é encontrado nas obras de Tolkien. Alguns exemplos: como Bilbo escapou da caverna dos goblins, nas Montanhas Enevoadas? Ele foi levado pelo meliante Gollum. Como Gandalf conseguiu escapar do profundo poço, onde ele e Balrog caíram nas Minas de Moria? Ele admite abertamente que Balrog o trouxe para fora, caso contrário, não saberia como escapar. O que acontece no clímax da história do Senhor dos Anéis, quando Frodo luta para destruir o anel no Monte Doom? Ele não consegue. Ele é conduzido pelo anel! Apenas o maligno Gollum parece ser capaz de ajudá-lo a concluir o trabalho! Seria muita pretensão para Frodo ser uma figura de Cristo, que ao invés de superar o mal, é dominado por ele, e somente é salvo do completo fracasso pela intervenção de uma criatura maligna! Estes temas recorrentes não apontam que Deus deriva o bem do mal, mas ressaltam as forças obscuras e seus personagens salvando o dia, e  uma vez cumprido seu propósito, partem.
 
Não é assim que Deus trabalha! Não há qualquer santo que tenha dado créditos ao demônio, a Caifás, a Judas, ou a Pilatos, da morte de Cristo para nossa redenção! Ao contrário, Cristo permitiu que eles o matassem para que pudesse nos trazer seu maior bem. Cristo nos trouxe nosso maior bem, não eles. Nenhum pagão, naturalista, humanista, muito menos as forças ocultas levaram Cristo ou sua Igreja a realizar o bem! No entanto, isso foi exatamente o que o Renascimento levou muitos a acreditar. Esta é uma inversão ou desorientação da ordem de Deus.
  
 
 
Consideremos alguns outros pontos de contato entre o ocultismo e as obras de Tolkien e Lewis. De acordo com a Teosofia, o demônio e seus companheiros eram apenas "anjos de luz", seres avançados, que a Teosofia define como descendentes (assim "a queda") de Vênus à terra,  nas eras passadas,  para trazer o princípio do pensamento para o, então, ‘homem-animal’. Eles vieram para ajudar no processo evolutivo! Na perspectiva Teosófica, os descendentes desses ‘anjos de luz’ não caíram em pecado ou desgraça, mas sim, fizeram um ato de grande sacrifício, como sugerido no nome "Lúcifer", que significa ‘o portador da luz’. Vieram para estar com o homem e ajudá-lo a evoluir. Não nos surpreende que tais seguidores ocultos selecionam e escolhem passagens das Sagradas Escrituras, bem como outras obras tradicionais, para justificar suas teorias.
 
Voltando-se para Tolkien, na primeira seção de sua obra Silmarillion, o primeiro Deus criou o Ainur, um grupo de espíritos eternos ou demiurgos, chamado de "a prole de seu pensamento" (isto é puro Gnosticismo). Após três tentativas de cantarem juntos a canção da criação, tendo alguns cantado em desarmonia, o único Deus Ilúvatar parou a música e mostrou-lhes uma visão de Arda (o que acabaria por se tornar a Terra Média, com todos os seus povos). A visão desapareceu depois de algum tempo, e Ilúvatar ofereceu ao Ainur uma chance para entrar em Arda e governar o novo mundo.
 
Então Tolkien tem muitos Ainur descendo para tomar uma forma física e se vincular a esse mundo. O grande Ainur ficou conhecido como Valar, enquanto o menor Ainur era chamado de MaiarValar tentou preparar o mundo para os próximos habitantes (elfos e homens), enquanto Melkor (um dos mais poderosos Ainur), que queria Arda para si, repetidamente destruiu seu trabalho. Isso continuou por milhares de anos até que, através de ondas de destruição e criação, o mundo tomou forma. Cada Ainur assumiu algum papel em Arda, o ar, os mares, a terra e abaixo da terra, assim como os mitos pagãos ensinavam. Será que não vemos aqui uma grande semelhança com doutrinas ocultas? Poderes superiores descendo, fazendo um sacrifício, por assim dizer, estar entre homens e elfos, a fim de ajudá-los a entrar na existência. É significativo que Tolkien também tenha identificado o gênero masculino ou feminino, que novamente é oculto, como gostam de dar aos céus e as identidades da terra, e a todos os gêneros demiurgos. Notemos, também, quão próximo isso está com o Animus, que é a crença em um poder sobrenatural, que organiza e anima o universo material. A doutrina da Igreja nos diz que tudo isso é errôneo e deve ser rejeitado! Deus criou o universo e todas as suas partes de em um só momento.
 
Também, notamos quão próximas estão essas idéias dos mitos pagãos. Tolkien tem seu Manwë, o Valar do ar, o maior dos Valar, vivendo e mantendo um tribunal no topo da montanha mais alta de Arda. Será que o Olimpo não vem à nossa mente? É a montanha mais alta da Grécia, onde Zeus, Apolo, Athena, Poseidon e outros, viveram e governaram. Será que isto é profundamente cristão? Pelo contrário, isso vem do ocultismo! Assim, não devemos nos espantar com o quanto os ocultistas, os membros da Nova Era, entre outros, amam tais livros!
  
 
 
Não surpreendentemente, Lewis tem idéias semelhantes apresentadas em sua trilogia espacial, onde o Dr. Ransom (que Lewis admite ser realmente J.R.R. Tolkien) leva o vôo espacial para Vênus e Marte. Como Tolkien, ele também possui certos poderes espirituais que vem para ajudar a cuidar dos mundos, chamando-os de Eldila. Também, podemos nos lembrar que na obra ‘A Viagem do Desolador da Alvorada’, há uma ilha da estrela, onde "uma estrela caída" vive reparando alguns crimes esquecidos do passado. Em primeiro lugar, estrelas caídas sempre foram consideradas demônios. Será que Lewis está promovendo a salvação universal, onde até mesmo o demônio será, de algum modo, reabilitado ao final? Esse é um tema constante no ocultismo, simpatia por Satanás e seus anjos, onde realmente não são rebelados e maus, mas os católicos assim os fizeram!  Nossa! Nesta mesma ilha, Lewis faz poderes mágicos fluírem livremente, enquanto as crianças experimentam-nos, com um livro de feitiços aberto na biblioteca. Isso soa católico para alguém? Uma estrela caída associada diretamente a um livro com feitiços, que realmente funcionam! Tempos perigosos! Não somente isso, mas Lewis continua a contar como a estrela caída tem uma "filha", que acaba se casando com o rei. Além disso, quando Aslan aparece a Lucy, ele pergunta se ela gostou de seu livro de magias! Na obra ‘O cavalo e seu menino’, Lewis traz o inimigo se transformando em burro, mas Aslam lhe diz que desde que ele apelou para o seu deus Tash, será curado em seu templo, no ano seguinte. Isso é completamente oposto ao dogma católico que nos ensina que NÃO HÁ SALVAÇÃO fora de Cristo e de sua Igreja! Tempos perigosos!
 
Mais alguns pontos de contato. Ao olharmos para o ocultismo e para aqueles que o aceitam, se descobre que isto inverte a ordem de todas as coisas. Por exemplo, conforme a Tradição, a Igreja tem ensinado que o Inferno, a casa dos demônios e o lugar de punição eterna, está no fundo da terra, e próximo está o Purgatório e o Limbo. O ocultismo inverte tal ensinamento. De repente, descobre-se que quanto mais baixo, melhor. Afinal, há muita felicidade lá embaixo. Na obra a Cadeira Prateada, por exemplo, Lewis traz alguns gnomos sendo escravizados e trazidos para fora do seu próprio mundo, do profundo da terra. Eles são miseráveis, até que são liberados e autorizados a descer, de volta para suas casas, onde encontram a felicidade completa. Acho que não há inferno em Nárnia. Charles Manson estava sempre olhando no Vale da Morte para uma entrada baixa, em uma cidade mágica na terra inferior. Tolkien também nos traz esta noção, mostrando a felicidade dos anões ao viverem abaixo do solo, em imensas cidades subterrâneas.
 
Embora haja muitas outras coisas que poderíamos observar, há uma questão remanescente que abrange o todo, e expõe tais mitos ao que eles realmente são: perigosos. Penso no regresso da antiga heresia do Gnosticismo, que nós, anteriormente e com brevidade, tratamos. O Dr. Wolfgang Smith explica, em um artigo escrito para Homelitic e Revisão Pastoral, que embora haja muitas estranhas seitas gnósticas, é inacreditável que seus essenciais princípios tornaram-se uma importante corrente na cultura moderna. Creio que isso se dê, em parte, pelo crescimento do ocultismo e de sua literatura acompanhada da fantasia, que ora discutimos.
  
 
 
Historicamente, o Gnosticismo é uma antiga heresia (uma das primeiras a atacar a Igreja) nem sempre simples de definir, pois se assemelha a moderna Nova Era, selecionando e escolhendo coisas a partir dos sistemas de pensamento e crenças modernas. Absorve aspectos do cristianismo, da astrologia, das religiões persas, dos rabinos judeus e idéias do Talmud, dos mitos egípcios, e da filosofia grega, todas as  idéias somam-se aos indivíduos, que também adicionam seus próprios pensamentos. Assim, Santo Irineu nos diz: "todos os dias, cada qual inventa algo novo." Estudiosos calculam até trinta diferentes sistemas especulativos, entre os gnósticos judaico-cristãos. Em uma palavra, Quasten nos afirma que o antigo gnosticismo é uma mistura entre religiões orientais e filosofia grega. Das religiões orientais, o Gnosticismo separou Deus de Sua criação, o espiritual do material, o céu da terra, a alma do corpo, com o anseio espiritual pela libertação do mundo material. Da filosofia grega, o Gnosticismo pegou seus elementos especulativos. Desta forma, as especulações relativas a vários mediadores entre Deus e o mundo foram introduzidas a partir do neo-platonismo; de um tipo naturalista de misticismo do neo-pitagoreanismo; e da apreciação do individual e sua característica ética do neo-estoicismo. Assim relata Quasten (cf. Patrology, Vol. 1, pp. 254-5).
  
 
 
Refletindo a respeito dessas antigas formas de Gnosticismo, o Dr. Smith explica que realmente houve seu retorno, e dispõe três principais características doutrinárias: (1) a desvalorização gnóstica do cosmos; (2) a libertação, através de algumas formas de vôo místico; (3) a necessidade de um conhecimento especial, a gnose.
 
Diante de todo o exposto, podemos agora ver como o mito de Tolkien está extremamente em consonância com o Gnosticismo, bem como esta antiga heresia retornou neste momento da história. Vamos analisar, no tempo restante, estes três fatores para ver como tudo isso é real.
  
 
 
Vivemos em uma época em que a pseudo-ciência chegou ao poder, impondo-se sobre nós. Parece que, quase todos os cientistas de hoje devem promover os vários pseudo-sistemas, que constantemente são provados serem falsos, porém eles estão mais preocupados em manter seus empregos. Copernicanismo, a relatividade de Einstein, Darwinismo, e assim por diante. Este padrão é visto com mais clareza em consonância com a evolução Darwiniana, que nada mais é do que um postulado ideológico, mascarado por trajes científicos. É sobre filosofia, não sobre ciência. É sobre crença, não sobre observação. De qualquer forma, todos estes sistemas (analisados sozinhos ou em conjunto) conduzem a uma fraca visão do nosso cosmos. Nós fomos (falsamente) ensinados, desde a infância, sobre o quanto nós somos completamente acidentais, não especiais, vindos de uma simples partícula que explodiu. Tudo é relativo. Quem quer crescer em um lugar tão insignificante? Então somos informados a respeito de como viemos de outra partícula (uma única ameba), e depois de muitos anos de dolorosas mutações, mortes e doenças, nós, humanos, finalmente surgimos. Quem se alegra em fazer parte desse processo? Será que não enxergamos a desvalorização do cosmos de Deus?
 
Essa desvalorização também está presente no mito de Tolkien, onde é permitido a Melkor espalhar suas sementes de desarmonia, e destruir o mundo. Ele explica, no Silmarillion, como Melkor, que queria Arda para si, repetidamente destruiu o trabalho dos bons Valar, e isso continuou por milhares de anos até que, através de ondas de destruição e criação, finalmente o mundo tomou forma. Será que isto se assemelha a criação de Deus, que foi perfeita desde o início? Por toda a obra do Senhor dos Anéis, há uma certa sensação de desgraça, que paira sobre o livro,  como Rivendell e Loth Lorien são os únicos lugares seguros,  e até mesmo eles estão desaparecendo. Lembremo-nos que, mesmo depois do maligno anel Um finalmente ter sido destruído, tais lugares continuaram a decair, e todos os problemas que Frodo atravessou não puderam ser superados, enquanto ele permaneceu na Terra Média. Não importava o quanto ele tentasse, seu sono continuava perturbado.
  
 
 
Qual é a conclusão lógica? Perceba! Desde que o homem esteja preso a este mundo, preso a seu estado (status quo) ou a nossa realidade material, a única saída é uma viagem mística. Você já leu o conto, "A vida secreta de Walter Mitty?" Ele está frustrado com sua miserável vida, e com seu sobrecarregado casamento, e ele parte para alguns vôos místicos incríveis. Porém, há muito mais do que somente escapismo, pois isto também está ligado ao ocultismo. Alguns exemplos: 39 membros de um grupo da Nova Era, chamado "Heaven's Gate" (“O Portão do Céu”), cometeram suicídio em massa, em 26 de março de 1997. De acordo com seus ensinamentos, acreditavam que através de seus suicídios estariam "saindo de seus vasos humanos", para que suas almas pudessem fazer uma viagem a bordo de uma nave espacial, e assim seguiriam o cometa Hale-Bopp. Um vôo místico.
 
De 1994 a 1997, os membros da Ordem do Templo Solar iniciaram uma série de suicídios em massa, resultando em 74 mortes. Cartas de despedida foram deixadas por seus membros, dizendo que suas mortes seriam “uma fuga das hipocrisias e opressões deste mundo". Eles acreditavam que por seus suicídios "passariam para a estrela, Sirius." Um vôo místico.
 
Lembro-me de ouvir os programas da NPR, enquanto freqüentava a faculdade, na década de 1980. Um deles entrevistou certo homem da Califórnia, que alegava ter o poder de produzir sonhos lúcidos e, em seguida, entrar neles. Muitos outros falavam de suas experiências fora do corpo. Um vôo místico.
 
Embora Tolkien corretamente rejeite o suicídio como uma forma de vôo místico, como visto em seu personagem, Denathor, ele introduz este elemento do Gnosticismo moderno. No Senhor dos Anéis, Frodo, Elrond, Galadriel, Gandalf e todos os outros precisaram partir do mundo, como tantos anteriores, e tiveram que deixar a Terra Média para encontrar a paz em algum outro lugar no Ocidente, sobre os mares. Eles não conquistaram, mas fugiram (a propósito, observe a direção que partiram, o Ocidente, o oposto do que os católicos sempre consideraram como a sagrada direção. Anton Levae, em suas lições sobre a criação de altares para adoração satânica, direcionou-os sempre para o Ocidente,  nunca ao Oriente). Claramente, estes livros apontam para o que está ocorrendo no mundo atual, ao invés de nos direcionar para as santas e atemporais verdades divinas. Ao invés de mostrarem os erros do nosso tempo, se coadunam com eles. Não nos espanta tanta popularidade!
  
 
 
Finalmente, o terceiro elemento da gnose, ou do "conhecimento especial", indica como o vôo místico é realmente feito. Observe a personagem Dorothy,  no Mágico de Oz, tudo o que precisava era saber como usar as sandálias de prata, e assim voltou para o Kansas. Os grupos da Nova Era, o Portão do Céu (“Heaven’s Gate”) e a Ordem do Templo Solar pareciam ter um conhecimento especial de que, se cometessem suicídio, seriam levados a uma nave espacial. Se analisarmos as supostas aparições marianas de Mary Ann Van Hoof, que ocorreram em Necedah, em Wisconsin, encontraremos os surpreendentes elementos: - temos que nos inscrever para uma nave espacial, que virá para nos levar antes do castigo vindouro. De acordo com as mensagens, tal nave espacial levará os fiéis de todos os lugares, para Terra Média, onde serão poupados do castigo, e então emergirão para repovoar o mundo e estabelecer a VERDADEIRA IGREJA de Cristo.
 
Dr. Smith, cuidadosamente, observa que o que faz esse conhecimento ser "gnóstico" é afirmar algo que não existe no mundo real. Pobres pessoas iludidas, que nunca entraram em nenhuma nave espacial. Mentiras, erros, heresias, truques demoníacos.
 
Não é segredo que há todos os tipos de ‘conhecimento especial’ em torno do mito de Tolkien.  Elrond, Gandalf e outros iluminados estão sempre falando sobre esoterismo, conhecimento secreto, anéis secretos e ocultos em seus dedos, fogos secretos, e assim por diante. E este conhecimento é o que lhes permite fazer suas árduas tarefas, e ao final empreender sua mística viagem final para o Ocidente, deixando para trás a conturbada Terra Média.
 
Até mesmo a publicidade das palestras de Joseph Pearce, sobre o Senhor dos Anéis,  cheira a Gnosticismo: "Neste curso fascinante e perspicaz, Joseph Pearce ressalta o  significado teológico codificado nos personagens, objetos e lugares da Terra Média, desbloqueando e abrindo os segredos do trabalho mais popular do século XX, e da vida de seu autor J.R.R. Tolkien". Palavras como codificando, desbloqueando, segredos.
  
 
 
Lembremo-nos de como Quasten descreveu o Gnosticismo: uma mistura de religiões orientais com a filosofia grega. Das religiões orientais, o Gnosticismo separou Deus de Sua criação. Onde está Deus na obra do Senhor dos Anéis? Ele não é mencionado! A teologia sempre traz Deus como seu objeto de estudo. Como pode o Senhor dos Anéis ser "fundamentalmente religioso e Católico", "um suspense teológico" onde Deus é separado de Sua obra?
 
Quasten continua: da filosofia grega, o Gnosticismo pegou seus elementos especulativos. Assim, as especulações a respeito dos mediadores entre Deus e o mundo foram introduzidas do neo-platonismo. Vemos isto no único deus, do mito de Tolkien, que usou Valar para ajudá-lo a criar Arda.
 
Quasten afirma: o Gnosticismo tem um modo naturalista de misticismo do neo-pitagorianismo. Todo o misticismo é natural, no mito de Tolkien,  não menciona Deus,  nem santidade, graça, fé, esperança ou caridade.
 
Quasten conclui: o Gnosticismo fornece a apreciação do indivíduo e sua tarefa ética do neo-estoicismo. Muito se fala das virtudes dos Hobbits, Aragorn, Gandalf e assim por diante. Porém, todas as suas ações são provenientes de uma virtude natural, nada de sobrenatural. Novamente, nenhuma fé, esperança, ou caridade! Não nos surpreende que Frodo tenha sido superado pelo anel! Ele não tinha nenhuma ajuda sobrenatural! Só o maligno Gollum poderia ajudá-lo!
  
 
 
Digo-vos que estas obras são realmente neo-gnósticas, desde suas entranhas e não são seguras para ler. São populares, não só porque, enquanto fantasia, fornecem uma espécie de vôo místico, nestes tempos conturbados e preocupantes, mas também porque muitos podem facilmente se identificar com o enredo, neste momento tão gnóstico da história.
  
 
 
Gostaria de concluir esta conferência com um apelo para que nós permaneçamos em nossa sagrada Fé, que nos foi confiada. Não precisamos olhar para fora dos limites de nossa Santa Igreja e Verdadeira Religião, em busca de coisas que cativem nossa imaginação e nos encorajem. Na vida dos Santos encontramos coisas que podem nos  maravilhar por toda a vida. Encontramos Santos voando para o céu, em verdadeiros vôos místicos, seja em uma carruagem de fogo, como Santo Elias, em levitações como as de São José Cupertino,  ou nos arrebatamentos de Santa Teresa de Jesus.
 
Temos santos como Lydwine de Schiedam caindo sobre o gelo aos 15 anos, só para permanecer em sua cama por 38 anos, incapaz de comer ou dormir, sofrendo todas as doenças conhecidas, exceto a lepra, sem morrer. No entanto, com seu anjo, chegavam e partiam para algumas viagens místicas, tais como para uma igreja da cristandade, ao Purgatório ou para falar com os Santos que vinham para encontrá-los no Éden.
 
Santo Antônio do Deserto confrontou o diabo, durante anos, com incríveis e intensas histórias para contar. Os Santos viviam no topo das colinas, entravam em buracos na terra, para enfrentar combates ferozes contra o demônio. Um monge, certa vez, caiu do alto de um monastério e permaneceu parado no ar, enquanto São Vicente Ferrer pediu permissão para salvá-lo. Uma adolescente que liderou fortes homens em batalhas históricas, para se tornar a maior general do mundo. A aleijada, cega e corcunda  Margarete de Costello, que foi trancada no alto de uma sacristia, durante a maior parte de sua vida, e ainda assim, era tão cheia de alegria que foi capaz de levitar, curar doenças e apagar incêndios. Temos santos como São João Maria Vianney, que vivia apenas de batatas, não era capaz de dormir, pois o demônio tocava uma música de banda, durante toda a noite, enquanto marchava pela casa, e ainda assim este santo era capaz de ver o interior das almas e também o Purgatório, passando em média 15 horas por dia no confessionário. E a abençoada Anna Maria Taigi, que podia realmente ver os eventos presentes e futuros, com uma bola de luz, dada a ela por Deus. E em outra ocasião, uma bola de fogo desceu ao coração de São Felipe Neri, quebrando três de suas costelas.
  
 
 
Essas são apenas algumas maravilhas encontradas na vida dos Santos. Ao lê-las e estudá-las, não estamos reivindicando um conhecimento que não temos, mas algo que realmente nos foi dado. Estamos ouvindo Nosso Rei, o Amado Filho de Deus Pai, através dos seus santos. Com este verdadeiro conhecimento de Deus, esta verdadeira PALAVRA, nossa fé, esperança e caridade são enormemente fortalecidas. Talvez, seja por isso que tão poucos trilham este caminho. Ao ler sobre a vida dos Santos, a graça está disponível, Deus ali está. Somos confrontados com notáveis exemplos de santidade, de pessoas que são reais, que estão disponíveis a nós, ainda hoje, pessoas que procuraram fazer de suas próprias vidas a encarnação da ÚNICA PALAVRA DE DEUS,  ao invés de suas próprias palavras! Através destes Santos, vemos como o Evangelho é vivido no tempo e no espaço. [com os Santos, não somos livres para fazer de suas vidas o que queremos, pois, na maioria dos casos, eles permaneceram santos por toda a vida.] Mas, nos envergonhamos por nossa mesquinhez e pusilanimidade, e vemos a necessidade, ainda maior, de nos separar de tudo o que é mundano, carnal ou demoníaco. Somos confrontados com a necessidade de conversão, não somente quando nos agrada, mas por toda a vida! Não é assim com o Senhor dos Anéis e outros mitos, não é assim! Pois eles não promovem o Evangelho, mas sim os frutos de uma imaginação extravagante, de palavras estranhas e ocultas, permitindo ao leitor livremente escolher ou rejeitar as fantasias heréticas que lhes agradam. Em tais obras, que não são a Palavra de Deus, que se tornou “carne”, não há nenhuma graça que nos convença a viver fora do Evangelho de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Rei. E isto explica a razão pela qual 150 milhões de pessoas podem ler tais mitos, e não se preocuparem  em se tornar católicas. Libertemo-nos destas correntes e caminhemos livres na verdadeira luz de Nosso Deus, e já não seremos numerados entre os que estão na caverna.
 
"Oh [fiel a Cristo], guarda o depósito (Cristo, a verdadeira Palavra de Deus), evita o palavreado vão e ímpio (mito), e as contradições de uma falsa ciência (gnosticismo)" (1Tim 6:20). 
 

    Para citar este texto:
"A obra de Tolkien e o catolicismo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/tolkien_catolicismo/
Online, 16/07/2018 às 00:09:16h