Igreja

Comentário do livro "Suba Comigo" de Pe. Inácio Larrañaga, fundador da "Oficina de Oração e Vida"
Orlando Fedeli

Novos - Velhos Erros do Frei Larrañaga
 
     Atendendo ao pedido de Dona Margarita Cano, para que eu analisasse as obras do Frei Larrañaga que orientam o movimento Oficinas de Oração e Vida , li outros livros desse sacerdote.
     Disse eu que as obras dele “orientam” o movimento Oficinas de Oração e Vida. O certo, porém, seria dizer que desorientam os católicos que têm a infelicidade de entrar em contato com livros maus, tais são os absurdos que encontramos no livrinho base desse Movimento (Encontro) e que vimos confirmados em um segundo livro dele que acabamos de ler.
     Trata-se do livro Suba Comigo, escrito por Padre Larranãga “Para os que vivem em Comunidade” (Editora Paulinas, São Paulo, 15a edição, 2002).
     Que significa aí Comunidade?
     Hoje, esse termo está de tal modo deformado que não sei se o autor o aplica a membros de uma Ordem ou Congregação religiosa, ou se ele foi aplicado a grupos das Oficinas de Oração e Vida que se constituíram em comunidade religiosa com votos de perfeição normais. De qualquer modo, seria um livro escrito para pessoas consagradas, e com votos de pobreza, obediência e castidade.
     Nesse novo livro, Frei Larrañaga nos surpreende logo de início pela escandalosa epígrafe que escolheu: nada menos que uma frase – ou verso – do comunista Pablo Neruda. E logo em seguida, completando ecumenicamente o escândalo, ele coloca o versículo de um salmo. Veja-se que piedoso: juntar um comunista com um salmo.
     Em todo seu livro ele vai citar autores heréticos, como por exemplo o comunista cabalista Buber (p.13); o marxista Erich Fromm (pp. 16, 24, 53, 73, 79, 109, 127); o herege protestante Dietrich Bonhoeffer, (p.33, 51, 52 , 53 , 54, 56); o herege gnóstico Ângelo Silesius ( p.p. 109); o ateu louco Nietzsche (pp. 20-125); o filo-nazista Heidegger (p.63), etc.
     Como se vê, as fontes desse Padre são péssimas. De um autor pode-se dizer: “Dize-me quem ele cita, e te direi quem ele é”. E piores devem ser suas fontes teológicas, que ele toma o cuidado de não citar...
     Sem dúvida, Frei Larrañaga é inteligente e surpreendente.
     Já no primeiro capítulo, ele nos faz uma afirmação profunda. Isto é, profundamente acaciana. Vejam lá se alguma vez já haviam pensado nisso:
     
“Eu sou eu mesmo”
(Frei Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p. 11).

     Pois não é fantástico?
     O que já é um consolo, porque ele ainda não se identificou com uma flor, ou como uma pedra.
     Na Sagrada Escritura, Deus afirma que o temor de Deus é o princípio da sabedoria. 

Timor Domini, principium sapientiae” (Prov. I, 7). E que “o temor de Deus conduz à vida” (Prov. XIX, 23).

     Frei Larrañaga não ensina isso.
     Para ele, é no saber que “eu sou eu mesmo”, “é nisso que consiste e aí está a origem de toda a sabedoria: em saber que sabemos, em pensar que pensamos, em captar-nos simultaneamente como sujeito e como objeto de nossa experiência” (Frei Larrañaga, op. Cit., p. 11).
     Não se caia, porém, no engano de considerar que Frei Larrañaga vá defender a intelecção humana enquanto tal. Ele vai dizer mais adiante outra pérola:

Para compreender bem o que estamos dizendo, temos de eliminar certos verbos como entender, pensar... Temos que ficar com o verbo perceber, pois que é justamente disso que se trata da percepção de si mesmo. E também não podemos falar de idéia, mas de impressão” (Frei Larrañaga, op. Cit. , p. 12).

     Percebe-se, - e, mais ainda, compreende-se - que Frei Larrañaga quer anular o pensamento das pessoas, para lançá-las mais facilmente no erro romântico das impressões... O que será fácil, se a pessoa aceitou antes “largar, soltar o seu cérebro” embalado no relaxamento da contemplação do vazio-nada. (leia o artigo: Encontro
)
     Repetimos: Frei Larrañaga ensina um método budista gnóstico de oração.
     Não erramos, portanto, quando, em nossa carta à Srta. Juliane Kozman, acusamos Frei Larrañaga de recomendar um método de oração anti intelectual.
     Esse anti-intelectualismo é próprio do Modernismo. Ora, Frei Larrañaga, no livro que estamos focalizando hoje, defende expressamente uma tese herética modernista. Aliás, uma das mais claras heresias de Loisy, condenada por São Pio X no Decreto Lamentabili e na encíclica Pascendi.
     O erro 35 condenado no Decreto Lamentabili diz:

Cristo não teve sempre consciência de sua dignidade messiânica” 
 (São Pio X, decreto Lamentabili, n* 35, Denzinger, 2035).

     Para os modernistas, Cristo foi apenas um homem que teve uma experiência com Deus – um “encontro com a Divindade”, diria Frei Larrañaga – e que desde então foi se acreditando divinizado. Ele teria sido apenas o primeiro homem a divinizar-se, e não Deus. Por isso, diziam os hereges modernistas, Jesus não tinha, desde o princípio de sua vida, noção de sua Divindade e de sua missão divina.
     Veja-se, agora,o que ensina Frei Larrañaga, no livro que estamos analisando hoje:
 
Jesus partiu para o combate do espírito depois de ter experimentado o amor do Pai.
“No crescimento evolutivo de suas experiências humanas e também divinas (Luc. Ii, 52), Jesus, quando jovem de 20 ou 25 anos, foi experimentando progressivamente que Deus não é, acima de tudo, o Inacessível e o Inominado, aquele com quem tratado desde o colo de sal Mãe.
“Pouco a pouco, deixando-se levar pelos impulsos de intimidade e de ternura, Jesus chegou a sentir progressivamente algo inconfundível: que Deus é como um Pai muito querido; que o Pai não é, antes de tudo, temor, mas amor; que não é, antes de tudo Justiça, mas Misericórdia, que o primeiro mandamento não consiste em amar o Pai, mas em deixar- se amar por ele.
“A intimidade entre Jesus e o Pai foi avançando muito mais longe. Quando a confiança – de Jesus para com seu pai – perdeu fronteiras e controles, um dia (não sei se era noite), saiu da boca de Jesus a palavra da maior emotividade e intimidade: Abba, querido Papai!”
(Padre Inácio Larrañaga,Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 15a edição, p. 41).

     Esse texto acima é completamente herético. Nele, o autor afirma que Cristo não era Deus. Era apenas um homem que, graças ao “crescimento evolutivo de suas experiências humanas e também divinas”, lá pelos 20 a 25 anos, foi tendo uma experiência com Deus, e que, levado “pelos impulsos de intimidade e de ternura, Jesus chegou a sentir progressivamente algo inconfundível: que Deus é como um Pai muito querido”.
     Esse texto nega a divindade de Cristo. Frei Larrañaga não é católico, e sim um herege modernista, negador da Divindade de Jesus Cristo.
     Como a senhora Margarita Cano, que, suponho, conhecia bem as obras de Frei Larrañaga, não se deu conta desses erros clamorosos dele? Como os “milhões” de católicos que fizeram os exercícios dessas Oficinas de Oração e Vida não se deram conta da heresia modernista e dos erros yogas que Frei Larrañaga impinge a seus leitores?
     A senhora Margarita Cano, me prestaria um serviço se denunciasse esse meu texto às autoridades do Vaticano, para que este julgue quem é o herege, se eu, ou se Frei Larrañaga, das Oficinas de Oração e Vida.
     Conclamo, pois, a todos os que freqüentam esse movimento, que, constatando a heresia modernista do dirigente mor dessas Oficinas de falsa espiritualidade, saiam desse grupo, e o denunciem ao Vaticano.
     Frei Larrañaga confirma seu pensamento modernista na página seguinte desse seu livro péssimo, ao escrever;

“Há muito tempo, tenho a maior convicção de que viver o Evangelho consiste, originalmente, em experimentar o amor do Pai, precisamente do Pai, Quando se sente isso, surge no coração humano um desejo incontido de tratar todos os outros como o Pai me trata. A partir dessa experiência, o outro se transforma, para mim em um irmão.
“Intimamente também estou completamente seguro de que foi isso que aconteceu com Jesus: experimentou intensamente o amor do Pai, quando era jovem” (Padre Inácio Larrañaga,Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 15a edição, p. 42).

     Quer dizer que Cristo teve a mesma experiência que Frei Larrañaga. E essa experiência se sente no coração.
     Veja-se como o que escreveu São Pio X, ao condenar o Modernismo, na encíclica Pascendi se parece como que ensina Frei Larrañaga:

Para o modernista crente, é coisa certa e verificada que a realidade do divino existe realmente em si mesma e não depende em absoluto do crente. E se se lhe pergunta em que se fundamenta finalmente esta afirmação do crente, responderão; na experiência particular de cada homem. Afirmação pela qual, se é certo que [ por meio dela] se afastam dos racionalistas, vêm por outro lado a cair na opinião dos protestantes e dos pseudo místicos” (São Pio X, Pascendi, Denzinger, 2081. O destaque é do original).

     E continua São Pio X com palavras que servem para condenar perfeitamente o que diz Frei Larrañaga:

Eles –[ os modernistas] -  o explicam assim; no sentimento religioso é preciso reconhecer certa intuição do coração, pela qual o homem, sem nenhum intermédio,alcança a realidade de Deus,e adquire tão grande persuasão da existência de Deus e de sua ação tanto dentro como fora do homem, que sobrepuja de muito toda persuasão que possa vir da ciência. Eles colocam, pois, uma verdadeira experiência e que essa seria superior a qualquer experiência racional” (São Pio X, Pascendi, Denzinger, 2081. O destaque é nosso).

     Compreende-se agora porque Frei Larrañaga é tão oposto à intelecção e tão favorável ao sentimento e aos impulsos do coração e à experiência religiosa. (cfr. Padre Inácio Larrañaga,Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 15a edição, pp. 38-39).
     E Frei Larrañaga apresenta, neste livro, seus exercícios espirituais como ”Encontros de Experiência de Deus, para preparar os grupos para o momento de intimidade com Deus”  Padre Inácio Larrañaga,Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 15a edição, p.99. O destaque é meu).

     Queremos citar mais um trecho da Pascendi, para facilitar a compreensão dos seguidores das Oficinas de Oração e Vida:

Daí a firmação do princípio da imanência religiosa. Ora pois, como se disséssemos, o primeiro movimento de qualquer fenômeno vital, tal como dissemos, é a religião, é preciso fazê-lo derivar de alguma indigência ou impulso; e as origens, se devemos falar mais precisamente da vida,é preciso colocá-las em certo movimento do coração que se chama sentimento. Pelo que, como o objeto da religião é Deus, é preciso concluir absolutamente que a fé, princípio e fundamento de toda religião, deve colocar-se em certo sentimento íntimo que nasce da indigência do divino”. (São Pio X, Pascendi, Denzinger, 2074. O destaque é do original).
     
     Cremos ter deixado bem patente o modernismo de Frei Larrañaga, desorientador dos fiéis que seguem suas Oficinas de Oração e Vida, e que são mais escolas de Morte espiritual.
 
São Paulo, 15 de Março de 2006
Orlando Fedeli




A Imagem Trinitária


            No livro Suba Comigo, Frei Larrañaga usa várias vezes o termo “abismo” para designar a Deus. Claro que ele tentaria justificar esse uso apelando para a Mística ou para a Teologia negativa, podendo citar autores ortodoxos que utilizaram esse termo. Entretanto, nenhum autor realmente ortodoxo recomenda meditar sobre o “nada-vazio”, e utilizando métodos daYoga ou do budismo.
Ademais ele apresenta uma estranha doutrina sobre as relações em Deus: da relação paternidade proviria o ser do Pai, e da relação filiação proviria o ser do Filho.
Ora, São Tomás, fundamentando-se na Metafísica, e tratando do ser em geral, ensina o oposto: é num ser que existe a relação para outro ser. Não podem existir relações, sem existirem os sujeitos dessas relações, pois a relação é sempre ordenação de um ser a outro. A relação exige a existência de dois seres, que são os sujeitos das relações. Em Deus, as Pessoas divinas se relacionam entre si, porque existem como Ser, na única e mesma substância divina.
 
Qualquer Catecismo elementar, como o do Padre Astete SJ, ensina:

“Deus: Nosso Senhor é um Ser infinitamente bom, sábio, poderoso, justo, princípio e fim de todas as coisas. (cf. Ex., 3, 14)
“A Santíssima Trindade é o mesmo Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Três Pessoas distintas e um só Deus verdadeiro. (cf. 1 São. Pedro 1,2).

            As Relações, na Santíssima Trindade, são as que estabelecem a distinção entre as Pessoas divinas que são um só Deus (uma substância) e isto sem antes nem depois – eternamente --: O Intelecto divino que é infinito, tem um Verbo mental de si mesmo, por assim dizer, do conhecimento infinito que tem de si mesmo e é tão perfeito, que este Verbo – assim gerado mas não criado - é outra Pessoa divina: o Verbo eterno de Deus. E também eternamente – sem antes nem depois -, o amor destas duas Pessoas divinas Pai e Filho, com Vontade infinita, é tão perfeito que é outra Pessoa que Procede do Pai e do Filho por aspiração (Dz 460); é o amor substancial que é o Espírito Santo, Terceira Pessoa da Trindade. Assim, são três Pessoas divinas e um só Deus verdadeiro.
 
Para Frei Larrañaga as relações em Deus seriam “processos intermináveis”: Seriam como que fluxos intermináveis. E note-se que ele usa o termo “intermináveis” em vez de dizer eternos:

“Por exemplo, o Pai não é propriamente pai, mas paternidade, isto é, um processo interminável de dar à luz – ao Filho – de relacionar-se. Inclusive, para falar com exatidão, teríamos que inventar aqui, uma nova palavra, inter-ação, processo de fazer-se pai”
(Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, pp.29-30). E conclui ele que “da relação depende o Ser (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p.30).
 
Para Frei Larrañaga, da relação depende o ser, do acidente proviria o ser substancial. O que é absurdo.
Esse Frade, fundador das Oficinas de Oração e Vida, chama Deus de Abismo. E como já vimos, tal como os gnósticos budistas, ele recomenda que se medite no nada-vazio. Então, a suspeita de que ele considera Deus não como ser, mas como não-ser, como Abismo, ou como o nada-vazio, é reforçada pela sua doutrina de que das relações divinas é que proviria o ser delas, e não o oposto, como ensina a Igreja, que do ser é que provêem a relação. Sem ser não há relação.
Frei Larrañaga é então um místico de tendências gnósticas, pois como Eckhart, Jacob Boehme, e os mestres da Gnose e da Cabala usa a mesma estranha terminologia deles para designar a Deus, assim como para explicar as relações em Deus, e o que são as Três Pessoas da Santíssima Trindade. Por isso, ele não afirma claramente Deus como Ser, mas como Abismo, e conseqüentemente diz que as relações são “processos intermináveis” dos quais dependeria o ser das Pessoas divinas.
           
Já a Cabala afirmava que a divindade seria o Nada absoluto – o Ein Sof, conforme o chamou Isaac, o Cego – seria o Nada do qual emanaria o Ser, isto é, o Deus criador:
 
Entre as descrições simbólicas do desdobramento de Deus em sua revelação, cumpre dar especial atenção àquela que se baseia no conceito do Nada místico” (Gerschom Scholem, A Mística Judaica – Major Trends in Jewish Mysticism – Perspectiva, São Paulo, 1972, p.219).
 
E explica Scholem que, para a Cabala, a criação a partir do nada é uma imagem de algo que teria acontecido, antes, na própria Divindade, que sendo Nada absoluto, teria produzido o ser de Deus. Do Nada teria emanado o Ser.
E ainda:

"No Zohar, bem como nos escritos hebraicos de Moisés de Leão, a transformação do Nada em Ser é amiúde explicada pelo uso de um símbolo particular, o do ponto primordial”
(Gerschom Scholem, A Mística Judaica – Major Trends in Jewish Mysticism – Perspectiva, São Paulo, 1972, p.220).
 
É o que expõe misteriosamente o Zohar, logo de início, ao falar que “Quando o Mistério de todos os Mistérios quis se manifestar, ele criou inicialmente um ponto” (Moisés Schem Tov de Leon, Sepher Ha-Zohar, 2a, edição Maisonneuve et Larose, Paris 1975, vol I, 2a).
            Por sua vez, o gnóstico Mestre Eckhart, em sua linguagem serpentina, considerava que a Divindade era não-ser.
Para completar a dificuldade labiríntica da exposição de Eckhart, ele adotava uma expressão dialética de pensamento, em que os contrários poderiam coexistir num único sujeito. A dialética permitia a Eckhart expressar assim teses absolutamente opostas sobre o mesmo problema. Por exemplo, que Deus seria ser e que Deus seria também não-ser, apenas "mudando a perspectiva" de enfoque do problema. 
           Se pesquisarmos as obras desse mestre dominicano herético, veremos que ora ele afirma que Deus é ser, e que só Ele é ser (solus Deus proprie est ens), (Vladimir Lossky, Théologie Négative et Connaissance de Dieu chez Maître Eckhart, Vrin, Paris, 1973, pág.98), ora ele afirma que Deus não é ser, conclusão a que ele chega aplicando o método teológico negativo (Vladimir Lossky, Théologie Négative et Connaissance de Dieu chez Maître Eckhart, Vrin, Paris, 1973, pág. 200).
Essa contradição ocorria porque Eckhart utilizava um método dialético:

 "Mestre Eckhart recorrerá à dialética todas as vezes que ele terá que falar da relação entre o ser que é Deus e os seres criados" (V. Lossky, ob. cit, pág. 38. Tradução nossa).

"O ser é verdade? Se se interrogasse tal ou tal mestre, ele diria: "Sim! ", Se se me tivessem me tivessem interrogado, eu teria respondido “Sim!” Mas agora eu digo: "Não!" porque a verdade é também acrescentada. (...) e se ele não é nem bondade, nem ser, nem verdade, nem Um, que é ele então? Ele é o Nada, ele não é nem isto, nem aquilo
". (Maître Eckhart, Sermon n. 23. Jesus hiez sine jungern ífgan", ed. cit, pág. 201)].
 
Por fim, Jacob Boheme, a fonte herética e cabalista de todas as gnoses modernas, denominava Deus pelo termo Ungrund, isto é, o Não-ser, o Nada-Vazio, o mesmo Nada-Vazio sobre o qual, como vimos em artigo anterior, Frei Larrañaga aconselha meditar, nada-vazio que é o Nirvana da Gnose hindu, o Ein Sof da Cabala.
 Jacob Boheme, o pai da gnose Moderna, escreveu a respeito da Divindade:

1- O Sem Fundo – o Ungrund – é um eterno nada, e produz entretanto um eterno começo, isto é, um atrativo, porque o nada é um atrativo para com alguma coisa; e entretanto, lá onde não há nada que dá o alguma coisa; mas o atrativo é, ele mesmo o que lhe dá disso; isso também não é nada senão uma atrativo nu e desejante” (Jacob Boheme, Mysterium Pansophicum ou Instructions Fondamentale sur le Mystère Celeste et Terrestre em IX Textes- 1620 -, Apud Louis Claude de Saint Martin, in Cahiers de l´Hermétisme—Jacob Böhme, Albin Michel, Paris,1977, p.189).
 
Tipicamente confuso, como sempre o é Jacob Boehme.
 
***
 
Deus é o Ser por excelência, o Ser absoluto, e não o nada-vazio, o “Abismo”.
É o que foi revelado pelo próprio Deus a Moisés, no Sinai, ao dizer o seu nome, ao definir-se: “Eu sou Aquele que é” (Ex. III, 14).
E São Tomás explicou que Deus é o Ser Absoluto, o Ato puro.
Ora, ao ler o livro Suba Comigo de Frei Larrañaga, nos deparamos com a mesma noção gnóstica e cabalista de um Deus Abismo, isto é, um Ungrund, um Deus Nada, um Deus que não seria ser.
Escreveu Frei Larrañaga:

“Na Trindade, cada pessoa é relação subsistente. Isto é, cada pessoa, naquele Abismo, é pura relação para com as outras pessoas. Por exemplo, o Pai não é propriamente pai, mas paternidade, isto é, um processo interminável de dar à luz – ao Filho – de relacionar-se. Inclusive, para falar com exatidão, teríamos que inventar aqui, uma nova palavra inter-ação, processo de fazer-se pai.

“O Filho não é propriamente filho, mas filiação, isto é, processo eterno de ser gerado. O Pai não seria pai sem o Filho. O Filho não seria filho sem o Pai.

Pois bem, o Pai e o Filho projetam-se mutuamente, e nasce uma terceira pessoa, que, na linguagem que estamos usando, chamar-se-ia Intimidade (Espírito Santo). Essa terceira pessoa não seria nada sem as duas anteriores. De maneira que, o Espírito Santo, é como que o fruto de uma relação, é como que a Plenitude, a Maturidade, a Pessoa acabada.

Essa terceira pessoa,constitui, naquele Abismo, o que chamaríamos de Lar [
sic!!!]; e origina uma corrente vital, em forma de circuito, entre as três pessoas divinas, uma corrente infinita e inefável de simpatia, conhecimento e amor. Toda essa vitalidade foi resumida por Jesus, quando disse que os três são Um.

Dessa maneira, naquela Casa, tudo é comum. Usando nossa linguagem, cada pessoa é essencialmente mesmidade (interioridade), e essencialmente relação, mas uma relação subsistente, isto é, da relação depende o Ser.
 
***
        
Essa comunicação (relação) faz das Três Pessoas uma comum-unidade (como nós somos um), de tal forma que as Três Pessoas divinas têm — repito — tudo em comum: têm o mesmo conhecimento e o mesmo poder. Todavia, apesar de ter tudo em comum, nenhuma pessoa perde sua mesmidade, mas subsiste como realidade diferenciada, toda inteira. Portanto, não existe fusão. Existe união: identidade de pessoa e comunhão de bens.
 
* * *
 
Aqui está a chave da comunidade: ser diferentes na comunicação de si mesmos, principalmente porque não se trata de intercambiar bens ou palavras, mas interioridades. Cada pessoa divina, como cada pessoa humana, é um sujeito verdadeiro. Entretanto, são, devem ser, sujeitos que dão e que recebem tudo o que têm e tudo o que são. 

Em outras palavras: naquela inefável Comunidade, cada pessoa, permanecendo subsistente em si mesma, é, ao mesmo tempo, Dom de si; de tal maneira que o Verbo, procedendo do Pai, possui e conserva as mesmas perfeições do Pai. O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, possui e conserva as mesmas perfeições das pessoas de quem procede. É assim que se "realizam" essas pessoas, dando e recebendo. (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, pp.29-30. Os negritos são de responsabilidade deste articulista).
 
Perdoe-nos o paciente leitor esta longa citação, mas foi para evitar a escapatória de se dizer que pinçamos frases do autor que criticamos. Citamos então o texto que interessava, no seu contexto.
Para a Gnose, a Cabala, para os gnósticos Eckhart e Boehme como para muitos outros hereges, Deus seria “Abismo” entendo eles essa palavra como o Nada-Vazio, o Não ser.
Realmente por abismo se entende normalmente um buraco, uma ausência de ser. E designar então Deus como Abismo, no sentido de Nada-Vazio, como o faz Frei Larrañaga, é pelo menos suspeito de negar o ser de Deus, e isso é herético.
Como conseqüência dessa negação de Deus como ser, Frei Larrañaga vai dizer, contraditoriamente, que das relações existentes em Deus dependeria o ser delas:
 
“(...) cada pessoa é essencialmente mesmidade (interioridade), e essencialmente relação, mas uma relação subsistente, isto é, da relação depende o Ser.” (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p.20. Os negritos são de nossa responsabilidade).
 
            Essa afirmação é um absurdo, porque, se não há ser, não há relação possível. Do ser é que dependem as relações, e jamais o contrário.
Como diz o Frei que “da relação depende o Ser” (sic!!!)?
Na linguagem metafísica, considerando-se os seres criados, vemos que a relação é um acidente.
Relação é um dos nove gêneros de acidentes elencados por Aristóteles em seu livro Sobre as Categorias. Todo acidente é inerente a um sujeito. O acidente é ens in alio. Ou seja, só existe numa certa substância, modificando-a de algum modo.
Jamais o acidente tem existência real por si mesmo. O acidente sempre existe numa substância. O acidente depende de um ser substancial
            Por exemplo, a brancura só existe numa tela, numa camisa, numa folha de papel. Segundo Aristóteles a relação é o acidente mais tênue que possa existir, pois que a relação como que faz um ser, de certa forma, ordenar-se a outro. Assim, a paternidade só existe num ser que é pai, e ela é ordenada ao ser do filho. A filiação só existe num ser que é filho, e a filiação é ordenação do ser do filho ao ser do pai.
A relação se distingue então dos demais acidentes pelo fato de que ela estabelece uma referência, uma ordenação de um sujeito a outro. (São Tomás, Suma Teológica, I Q. 40 a.1). Assim, a cor marrom é um acidente na mesa em que estou neste momento. A cor marrom existe na madeira desta mesa. Mas o computador está em cima da mesa, isto é, a relação do computador para com a mesa é de estar em cima dela, enquanto a mesa está em baixo do computador.
A relação de mim para minha mãe é de filiação. A dela para comigo é de maternidade. A relação, porém, como todo acidente supõe um sujeito referente a outro sujeito.
            Em Deus não há acidentes. Mas há relações provenientes das processões divinas, e são essas relações que constituem as três Pessoas divinas, iguais e realmente distintas, na única substância de Deus.
Em Deus há duas processões ou ações:
 
I – A processão intelectiva, pela qual Deus Se conhece a Si mesmo, gerando eternamente uma Idéia de Si mesmo, igual a Ele mesmo, e que é o Verbo, ou o Filho de Deus. Deus, enquanto conhecedor de Si mesmo, é o Pai, Primeira Pessoa da Santíssima Trindade, que gera eternamente a Idéia d’Ele mesmo, o Filho, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
 
II – A processão volitiva, pela qual Deus Se ama. O Pai e o Filho Se amam, e desse Amor mútuo procede o Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
 
Nas duas processões divinas, distinguem-se quatro relações:
 
                                                    1 - Paternidade -------> <------- 2 - Filiação.
                                                    3 - Expiração ----------> <------- 4 - Processão.
 
As Pessoas divinas são as relações, mas embora haja quatro relações, há somente três Pessoas divinas, porque o Espírito Santo procede do amor mútuo do Pai e do Filho, e sendo esse Amor comum aos dois, não pode ser pessoa, pois que o que é comum não pode ser pessoal. (Para o leitor mais interessado em aprofundar esse tema, sugerimos ler nosso trabalho As Processões em Deus, e, mais ainda, ler o que diz São Tomás sobre isso, na Suma Teológica no seu Tratado da Santíssima Trindade (Suma Teológica, I, Q.27 até I Q. 43 inclusive).
Vimos e sabemos que em Deus não há acidentes, mas que existem n’Ele quatro relações.
Ensina ainda São Tomás que “quando algo procede de um princípio de sua mesma natureza, é necessário que o procedente e o princípio do qual ele procede, convenham na mesma ordem, e, portanto, é indispensável que eles tenham entre si relações reais. Por conseguinte, como as processões em Deus existem em identidade de natureza, conforme vimos, (Cf. Suma Teológica,I, Q. 27, a.3 ad 2), é necessário que as relações que se seguem dessas processões sejam relações reais” (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I Q. 28, a. 1).
 O mesmo Aquinate ensina que, em Deus as relações são a própria essência divina:

“Já vimos (I Q. 28, a. 2) que assim como as relações nas criaturas são realidades acidentais inerentes ao sujeito, em Deus são a própria essência divina.; do que se segue que em Deus a essência não é uma coisa realmente distinta da pessoa, e, apesar disso, as pessoas se distinguem realmente entre si. Com efeito, a pessoa conforme dissemos (Suma Teológica, I Q.Q.29, a.4) significa a relação enquanto subsiste na natureza divina. Porém a relação, comparada com a essência , não se distingue dela realmente, senão apenas com distinção de razão, e, em troca, comparada com a relação oposta distingue-se realmente dela em virtude da oposição, e assim temos uma só essência e três pessoas” (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, Q. 39, a. 1).
 
Em Deus, as relações são a própria essência divina, e a essência é o mesmo que a Pessoa. Segue-se que a relação [em Deus] é o mesmo que a pessoa (Cfr. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, Q. 40, a. 1).
Por tudo isso, conclui São Tomás que “a paternidade é o Pai e a Filiação é o Filho”  (Cfr. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, Q. 40, a. 2).
Essa, em resumo, é a doutrina católica a respeito das Pessoas divinas e das relações em Deus. Frei Larrañaga ensina o oposto disso, ao dizer o absurdo de que é das relações que provém o ser.
Se fosse assim, do acidente procederia o sujeito que a relação ordena a outro sujeito. Da paternidade proviria o pai, e não o oposto.
Se fosse assim, Jesus deveria ter-nos ensinado a rezar do seguinte modo:
“Paternidade nossa, que estais no céu”.
 Jesus não fez as Oficinas de Oração e Vida de Frei Larrañaga e nem nos ensinou a rezar como Frei Larrañaga diz que se deve rezar nessas Oficinas. Jesus nos ensinou que devemos rezar ao Pai e não à paternidade, ao dizer: “Pai nosso – e (não paternidade nossa) – que estais no céu”
 Esse erro metafísico absurdo de substituir o sujeito da relação pela própria relação, o Pai pela Paternidade, em Deus,  logicamente tem origem na noção falsa admitida por Frei Larrañaga de que Deus é Abismo, isto é, que Deus seria um Nada-Vazio sobre o qual ele aconselha a meditar de modo yoga, como vimos em seu livro Encontro. Se a Divindade é um Nada-Vazio, um Abismo,então as Pessoas divinas, as relações em Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) não poderiam ser algo ontologicamente existente, mas sim vazios. As Pessoas divinas seriam mais ação, mais fluxo, do que ser.
Daí, ele dizer que “o Pai não é propriamente Pai, mas paternidade, isto é, um processo interminável de dar à luz – ao Filho – de relacionar-se. Inclusive, para falar com exatidão, teríamos que inventar aqui, uma nova palavra inter-ação, processo de fazer-se pai.

“O Filho não é propriamente filho, mas filiação, isto é, processo eterno de ser gerado” (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p. 20).
 
Muito estranhas também são as expressões que esse Frei gnóstico encontrou para designar a processão do Espírito Santo.
Como o assunto em foco é árduo, para facilitar a compreensão de nosso paciente leitor, repetimos parte da citação de Frei larrañaga já colocada no princípio deste artigo:

“Pois bem, o Pai e o Filho projetam-se mutuamente, e nasce uma terceira pessoa, que, na linguagem que estamos usando, chamar-se-ia Intimidade (Espírito Santo). Essa terceira pessoa não seria nada sem as duas anteriores. De maneira que, o Espírito Santo, é como que o fruto de uma relação, é como que a Plenitude, a Maturidade, a Pessoa acabada.

Essa terceira pessoa, constitui, naquele Abismo, o que chamaríamos de Lar [sic!!!]; e origina uma corrente vital, em forma de circuito, entre as três pessoas divinas, uma corrente infinita e inefável de simpatia, conhecimento e amor” (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p. 20).
 
Por que chamar o Espírito Santo de “Intimidade”? De que Teologia sentimental – ou sensual – foi tirado isso?
E de onde saiu essa estapafúrdia maneira de chamar o Espírito Santo de “Lar”?
Graças a Deus não somos freudianos – Freud era também um cabalista (Cfr Davi Kaplan, Freud e la Mística Ebraica) –, pois, se tivéssemos a desgraça de ser freudianos, usaríamos, talvez nesse caso, o famoso slogan-piada: “Freud explica”.
Como um frade usa termos como “Intimidade”, e “Lar” para designar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade?
Logo depois, esse frade de teologia bizarra e herética chama o Espírito Santo de “Casa”!
Concluindo, Frei Larrañaga escreveu:

"Essa comunicação (relação) faz das Três Pessoas uma comum-unidade (como nós somos um), de tal forma que as Três Pessoas divinas têm — repito — tudo em comum: têm o mesmo conhecimento e o mesmo poder. Todavia, apesar de ter tudo em comum, nenhuma pessoa perde sua mesmidade, mas subsiste como realidade diferenciada, toda inteira. Portanto, não existe fusão. Existe união: identidade de pessoa e comunhão de bens”. (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p. 20).
 
Como os padres modernistas gostam de colocar hífens dividindo palavras! Isso os ajuda a desintegrar conceitos.
Para que falar em comum-unidade?
E em Deus não há comunidade.
Isso é herético.
Toda comunidade é composta. Se em Deus houvesse uma comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, haveria três deuses. Isso é pior que tolice: é triteísmo. É heresia.
Essa idéia herética do triteísmo, de que há uma “comunidade” em Deus é repetida por Frei Larrañaga no parágrafo seguinte, onde ele diz:

“Aqui está a chave da comunidade: ser diferentes na comunicação de si mesmos, principalmente porque não se trata de intercambiar bens ou palavras, mas interioridades. Cada pessoa divina, como cada pessoa humana, é um sujeito verdadeiro. Entretanto, são, devem ser, sujeitos que dão e que recebem tudo o que têm e tudo o que são” (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, p. 20).
 
Como Dona Margarita Cano, que queria me denunciar às autoridades amigas dela no Vaticano, por ter acusado de modernistas as idéias desse Frei fundador das tais oficinas de Oração e Vida, apenas por algumas frases dele, como não viu ela tantas heresias, mesmo tendo lido ela as obras completas desse frade?
Muito prezada Dona Margarita, pelo dedo se conhece o gigante, e basta uma célula cancerosa para detectar um câncer. E basta uma frase com sabor de Gnose para perceber que um “teólogo” é gnóstico.
Como a senhora não encontrou os imensos tumores cancerosos de heresia existentes nos livros de Frei Larrañaga?
Como foi ele aprovado por seus amigos no Vaticano?
Como milhões de eleitores católicos foram, e são, enganados pelos péssimos livros desse frade?
Como se explica tanta cegueira senão pela difusão do Modernismo pelo clero e pelos fiéis, depois do modernista Concílio Vaticano II?
 

***

            Complemento final deste artigo será a estranha aplicação que Frei Larrañaga faz da sua doutrina das Pessoas divinas e da noção de “Intimidade” à vida e ao relacionamento entre religiosos num convento, isto é, numa comunidade, no verdadeiro sentido desta palavra comunidade, tão abusada, hoje em dia.
A fim de que melhor se compreenda a aplicação dessa doutrina herética sobre a Santíssima Trindade ao relacionamento entre pessoas humanas, somos forçados a colocar neste site uma outra longa citação de Frei Larrañaga, pela qual antecipadamente pedimos perdão aos leitores do site Montfort, visto que se trata de uma citação digamos... pouco conveniente... de Frei Larrañaga.
O assunto é, pois, delicado, e nos limitaremos a uma só palavra, sem comentários maiores.
Prometemos manter o máximo laconismo.
Vamos então ao novo tema.
Depois de criticar os “encontros” de personalidades nos quais um religioso domina o outro, anulando um, e ensoberbando o outro, Frei Larrañaga explica em que consistiria um verdadeiro e perfeito Encontro de duas Irmãs religiosas, já que seu livro se destina a membros de uma comunidade religiosa.
Vejamos.
Não!
Copiemos.
Leiamos...E calemos...
 

“Encontro”
            
“Quando duas pessoas navegam – cada uma por sua parte – na corrente abertura-acolhimento, nasce o encontro, que não é outra coisa senão abertura mútua e acolhimento mútuo. O dicionário apresenta uma bela palavra para designar o encontro: intimidade.
 
[Chi...]

“Como nasce a intimidade? Se nos empenharmos em conhecer nossa mesmidade vai acontecer o seguinte: começamos por nos desligar de tudo (até das lembranças, preocupações) menos de nós mesmos. Como em círculos concêntricos de um redemoinho, vamos avançando, cada vez mais para dentro, até o centro. Não é imaginação, e muito menos análise, é percepção.            

“Na medida em que vão se esfumando todas as outras impressões, chegaremos finalmente à simplicidade perfeita de um ponto: a consciência de nós mesmos. Nesse momento poderemos pronunciar de verdade o pronome pessoal "eu". Na simplicidade desse ponto e nesse momento, estão englobados os milhões de componentes de minha pessoa: membros, tecidos, células, pensamentos, critérios... Tudo fica integrado nesse "eu" mediante o adjetivo possessivo: minha mão, meu estômago, minhas emoções.

“Numa palavra, a pessoa é acima de tudo interioridade. Mas essa palavra é um tanto equívoca. Diria, mais exatamente, que a pessoa é interiorização, isto é, processo incessante de caminhar para o núcleo, para a última solidão, de que falava Escoto. Toda pessoa, autenticamente falando, é isso.

“Pois bem, duas interioridades que "saem" de si mesmas e se projetam mutuamente dão origem a uma terceira "pessoa", que é a intimidade, que não é outra coisa senão o cruzamento e projeção de duas interioridades.

“Já estamos no encontro.
            
“Vamos explicar com um exemplo. A intimidade que existe entre você e eu, — essa intimidade — não "é" você, não "sou" eu. Tem algo de você, tem algo de mim. É diferente dê você, é diferente de mim. Ë dependente de você, é dependente de mim. Até certo ponto, é independente de você, é independente de mim. Digo isso porque tivemos uma "filha", como fruto de nossa mútua projeção. E, maravilha! Nossa filha — a intimidade transformou-se, sem sabermos como, em nossa "mãe já que ela — a intimidade — personaliza tanto a você quanto a mim, realiza-nos, dá-nos a luz da maturidade e da plenitude.
 
[Chii...] 

“Essa intimidade é, para nos expressarmos de outra maneira, uma espécie de clima de confiança e de carinho que, como uma atmosfera, envolve a mim e a você, fazendo-nos adultos, e nos afastando das regiões perigosas da solitariedade.
 
[Chiii...] 

“Há outras palavras para significar o que acabo de explicar. Por exemplo, inter-subjetividade, inter-comu-nicação, inter-ação... mas, afinal, é o quê dissemos: duas pessoas mutuamente entrelaçadas. Isso é o encontro.
 
[Chiiii...] 

“Onde há encontro, há transcendência, porque as próprias fronteiras foram superadas. Onde há transcendência, há paz e amor. Onde há amor, há maturidade, que não é senão uma participação da plenitude de Deus, em quem não existe solidão” (Frei Inácio Larrañaga, Suba Comigo, Paulinas, São Paulo, 2002, pp. 27 -29. Os negriros são meus).
 
Não disse que ia ser lacônico em meus comentários?
Nem César conseguiria tanto.
O próximo artigo sobre a obra de Frei Larrañaga será sobre
O Evangelho inventado – segundo Larrañaga.
 
Chiiiii...
 
São Paulo, 22 de março de 2.006
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Comentário do livro "Suba Comigo" de Pe. Inácio Larrañaga, fundador da "Oficina de Oração e Vida""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/suba_comigo/
Online, 29/04/2017 às 06:29:47h