Igreja

E agora? Como fica o Ecumenismo? E como fica o Concílio Vaticano II
Orlando Fedeli
     Alguns sites modernistas, assim como alguns “teólogos” da Libertação, estão acusando Bento XVI de enterrar o Concílio Vaticano II. Outros julgam que isso é um exagero. Que se esta fazendo o enterro antes do óbito do enfermo, que está muito mal das pernas, mas que ainda não as esticou, após o suspiro final.
     Nessa agonia, e em meio à disputa se o Vaticano II vai ou não ser enterrado por Bento XVI, o Papa fez um novo discurso bem importante, no qual abalou – ou derrubou ? – duas colunas fundamentais do ecumenismo deste Concílio.
     Foi Quarta-Feira passada, na pregação semanal ministrada pelo Papa em sua Audiência Geral, que ele tratou de São Justino e das famosas “sementes do Verbo”.
     No Concílio Vaticano II, as "sementes do Verbo", atribuídas a São Justino, serviram para fundamentar o ecumenismo, pois se disse que nas religiões pagãs havia sim as famosas "sementes do Verbo". Dessas sementes nasceram tempestades... ecumênicas.
     Seriam elas sementes do Verbo ou do joio semeadas pelo inimigo furtivamente à noite, em meio ao trigal da verdade católica?
     Os teólogos e Bispos modernistas juravam e garantiam: "Foi São Justino que disse isso. É patrístico! De primeira fonte! É da Tradição! São Justino é Padre da Igreja!"
     Isso gerou polêmicas teológicas das quais participou, a seu tempo, o Cardeal Ratzinger. 
     Com efeito, no Capítulo II do decreto Ad Gentes — documento do Concílio Vaticano II —, se lê:

Art. 1
O TESTEMUNHO CRISTÃO -- Testemunho de vida e diálogo 

11. A Igreja tem de estar presente a estes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a. eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os demais homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai (1) e compreendam, mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana. 
Para poderem dar frutuosamente este testemunho de Cristo, unam-se a esses homens com estima e caridade, considerem-se a si mesmos como membros dos agrupamentos humanos em que vivem, e participem na vida cultural e social através dos vários intercâmbios e problemas da vida humana; familiarizem-se com as suas tradições nacionais e religiosas; façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo nelas adormecidas; (Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, 11. Os destaques são nossos).

     O Concílio Vaticano II diz com todas as letras – tidas por alguns como infalíveis – que nas tradições nacionais e religiosas dos pagãos há sementes do Verbo adormecidas. 
     Está lá. Tudo bem escritinho:

"familiarizem-se com as suas tradições nacionais e religiosas; façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo nelas adormecidas"
; (Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, 11. Os destaques são nossos).

     Portanto, conforme o Vaticano II, haveria "sementes do Verbo" até nas religiões falsas. Foi nisso que os Cardeais Bea, Kasper, Arns e quejandos fundamentaram os seus atos ecumênicos.
     Agora, Bento XVI lhes prega uma surpresa. Pois, nesse discurso sobre São Justino, Bento XVI afirma, também com todas as letras, que nas religiões pagãs não havia sementes do Verbo. Bento XVI garante-nos que São Justino nunca disse isso.
     Pelo contrário, São Justino disse que sementes do Verbo existiam na filosofia grega, nunca nas religiões pagãs, que seriam diabólicas. Nas religiões pagãs, existiriam os frutos resultantes das sementes do diabo.
     Não me acreditam que Bento XVI disse isso? Disse isso, e disse muito mais.
     Eis a prova do isso. (O muito mais fica para depois):

Com efeito, com a religião pagã, os primeiros cristãos recusaram absolutamente qualquer compromisso. Eles consideravam que ela era uma idolatria, com o risco de serem acusados de «impiedade» e de «ateísmo». Justino, em particular, notadamente em sua primeira Apologia, conduziu uma crítica implacável com relação à religião pagã e a seus mitos, que ele considerava como «caminhos falsos» diabólicos no caminho da verdade(Bento XVI, Discurso sobre São Justino na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007. Destaques nossos).

     Disse ainda Bento XVI:

"Justino, e com ele os outros apologistas, marcaram a tomada de posição nítida da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a escolha pela verdade do ser, contra o mito do costume". (Bento XVI, Discurso sobre São Justino, na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007. Destaques nossos).

     Bento XVI contradiz o Concílio Vaticano II! 
     Com que Magistério ficar? Com o Magistério "vivo" de Bento XVI, ou com o magistério "escrito" do Vaticano II?
     Afinal, as famosas "sementes do verbo" estavam nas religiões diabólicas pagãs, com as quais os cristãos nada queriam ter em comum, ou na Filosofia grega?
     Bento XVI nos garante que, segundo São Justino, as sementes do Verbo estavam na Filosofia grega, nunca na religião diabólica dos pagãos. Bento XVI garante-nos nesse discurso que os Padres da Igreja não eram ecumênicos. 
     Eles eram apologistas que faziam duas coisas muito anti ecumênicas: 

10 – Defendiam a Fé contra as "pesadas acusações dos pagãos e dos judeus"

"O termo « apologista » designa os antigos escritores cristãos que se propunham defender a nova religião contra as pesadas acusações dos pagãos e dos judeus" ((Bento XVI, Discurso sobre São Justino na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007.).

20 – Difundiam a Fé. Eram missionários. Duas coisas que um ecumênico jamais faz e que detesta que se faça. Aliás, aplicando isso à Internet, o site Montfort procura fazer, na medida de suas poucas forças, exatamente isso: defender a Fé e difundir a Fé. É um site apologista. Por isso é um site anti ecumênico e contra o Concílio Vaticano II.

     Como fica então o Magistério "infalível" do Vaticano II? 
     Vai ver que tinham razão os que diziam que um concílio meramente pastoral nada tinha de infalível. Aliás, como afirmou também o Cardeal Ratzinger: o Vaticano II nada proclamou dogmaticamente. Nada ensinou infalivelmente. 
     Portanto, ensinou falivelmente. E o que é falível, alguma vez, pelo menos, pode errar. Bento XVI afirma que o Vaticano II errou ao dizer que havia sementes do Verbo nas diabólicas religiões pagãs.
     E agora, José?
     Lá ficou, balançando, -- balançando só? -- a primeira coluna do ecumenismo.
     Vamos agora ao “muito mais” que ensinou Bento XVI, nesse discurso sobre São Justino.
     Disse Bento XVI:

Justino, e com ele os outros apologistas, marcaram a tomada de posição nítida da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a escolha pela verdade do ser, contra o mito do costume. Algumas décadas depois de Justino, Tertuliano definiu a mesma escolha dos cristãos com a sentença lapidar e sempre valida: «Dominus noster Christus veritatem se, non consuetudinem, cognominavit — Cristo afirmou ser a verdade, não o costume» (De virgin. vle. 1, 1). Notar-se-á a este propósito que o termo consuetudo, aqui empregado por Tertuliano com referência à religião pagã, pode ser traduzido nas línguas modernas pelas expressões «hábito cultural», « moda do tempo».

Numa época como a nossa, marcada pelo relativismo no debate sobre os valores e sobre a religião – tanto como no diálogo inter-religioso –, trata-se de uma lição, essa aí, para não esquecer
(Bento XVI, Discurso sobre São Justino, na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007. Destaques nossos).

     Qual a lição de São Justino que hoje não se deve esquecer?
Que se deve seguir a verdade e não a moda. 
     E qual a moda hoje? A moda é o relativismo. 
     E onde reina, hoje, o relativismo? No debate sobre os valores e sobre a religião, e – vejam a surpresa: “no diálogo inter-religioso”.
     Ora, hoje, o diálogo inter-religioso reina por causa do Magistério falível do Concílio Vaticano II. 
     Foi Bento XVI quem disse isso. Não fui eu. Eu estou apenas constatando o que ele disse. E constatando com alegria esse magistério bem vivo do Papa. 
     E agora, José?
     Nesse pequeno discurso sobre São Justino, que reproduzimos na íntegra logo abaixo, para documentar que nada inventamos, Bento XVI abalou duas colunas do ecumenismo: 

1)
É falso o que disse o Concílio Vaticano II no decreto Ad gentes que havia “sementes do Verbo “ nas religiões pagãs;
2) O diálogo inter-religioso posto em moda pelo Vaticano II é relativismo.

     Com isso, o ecumenismo e o Vaticano II que estavam mal, pioraram ainda mais. 
     Será que os sites modernistas -- (Golias e Aprile on line) - têm razão? Será que Bento XVI quer enterrar o Vaticano II? 
     Deus os ouça. Que Bento XVI o queira. E que o faça.

São Paulo, 22 de Março de 2005.
Orlando Fedeli
 
 
 
Audiência Geral : São Justino
Texto integral da catequese do Papa Bento XVI
 
ROMA, Quarta Feira, 21 de Março de 2007
 
Queridos irmãos e irmãs,
No curso destas catequeses, Nós refletimos a respeito das grandes figuras da Igreja nascente.. Hoje, falaremos de São Justino, filósofo e mártir, o mais importante dos Padres apologistas du século II. O termo « apologista » designa os antigos escritores cristãos que se propunham defender a nova religião contra as pesadas acusações dos pagãos e dos judeus, e de difundir a doutrina cristã em termo adaptados à cultura de sua época. Assim, entre os apologistas está presente uma dupla preocupação: aquela, mais propriamente apologética, de defender o Cristianismo nascente (apologhía em grego significa precisamente «defesa »), e aquela que propõe, uma solicitude « missionária» de expor os conteúdos da fé através de uma linguagem e categorias de pensamento compreensíveis por seus contemporâneos.
Justino nascera por volta do ano 100 perto da antiga Sichem, na Samaria, na Terra Santa; ele procurou longamente a verdade, peregrinando por diversas escolas da tradição filosófica grega. Finalmente – como ele mesmo conta nos primeiros capítulos de seu Dialogo com Tryphon – um misterioso personagem, um velho que encontrou numa praia, à beira mar, provocou inicialmente nele uma crise, demonstrando-lhe a incapacidade do homem para satisfazer por meio de suas próprias forças a aspiração ao divino. Depois, ele lhe indicou nos antigos profetas as pessoas para as quais se voltar para encontrar o caminho de Deus e a « verdadeira filosofia».Deixando-o, o ancião o exortou à oração, afim de que lhe fossem abertas as portas da luz. O relato reflete o episódio crucial da vida de Justino : no termo de um longo itinerário filosófico de busca da verdade, ele chegou à Fé cristã. Ele fundou uma escola em Roma, onde ele ensinava gratuitamente os alunos a nova religião, considerada como a verdadeira filosofia. Nesta, com efeito, ele tinha encontrado a verdade e, portanto, a arte de viver de modo reto. Ele foi denunciado por essa razão e foi decapitado por volta de 165, sob o reino de Marco Aurélio, lo Imperador filósofo ao qual o próprio Justino tinha endereçado uma de suas Apologias.
Estas duas obras – as duas Apologias e o Diálogo com o Judeu Tryphon – são as únicas que nos restam dele. Nessas obras, Justino pretende ilustrar antes de tudo o projeto divino da criação e da salvação que realizam em Jesus Cristo, o Logos, isto é, o Verbo eterno, a razão eterna, a razão criadora. Cada homem, enquanto criatura racional, participa do Logos, porta em si o «germe» do Logos e pode acolher as luzes da verdade. Assim, o mesmo Logos, que se revelou como numa figura profética aos judeus na Lei antiga, manifestou-se parcialmente, como em « germes de verdade », igualmente na filosofia grega. Presentemente, conclui Justino, sendo dado que o Cristianismo é a manifestação histórica e pessoal do Logos em sua totalidade, disso decorre que « tudo o que foi expresso de belo por quem quer que seja, pertence anos, cristãos» (2 Apol. 13, 4). Desse modo, Justino, ao mesmo tempo que contesta as contradições da filosofia grega, orienta de maneira decidida para o Logos toda a verdade filosófica, justificando de um ponto de vista racional a « pretensão » de verdade e de universalidade da religião cristã. Se o Antigo Testamento tende a Cristo como a figura orienta para a realidade significada, a filosofia grega visa ela também a Cristo e ao Evangelho, como a parte tende a se unir ao todo. E ele diz que essas duas realidades, o Antigo Testamento e a filosofia grega, são como as duas vias que conduzem a Cristo, ao Logos. Eis aí porque a filosofia grega não pode se opor à verdade evangélica, e os cristãos podem dela se apoderar dela com confiança, como de um bem próprio. É por isso que meu venerado predecessor, o Papa João-Paulo II, definiu Justino como «pioneiro de um encontro frutuoso com o pensamento filosófico, mesmo que marcado por um prudente discernimento », porque Justino, «mesmo conservando após a sua conversão, uma grande estima pela filosofia grega, [...] afirmava com força e clareza que ele tinha encontrado no Cristianismo “a única filosofia segura e proveitosa” (Dialogue, 8, 1) » (Fides et ratio, n. 38).
No conjunto, a figura e la obra de Justino marcam a escolha decidida da Igreja antiga pela filosofia, pela razão, mais do que pela religião dos pagãos. Com efeito, com a religião pagã, os primeiros cristãos recusaram absolutamente qualquer compromisso. Eles consideravam que ela era uma idolatria, com o risco de serem acusados de «impiedade» e de «ateísmo». Justino, em particular, notadamente em sua primeira Apologia, conduziu uma crítica implacável com relação à religião pagã e a seus mitos, que ele considerava como «caminhos falsos» diabólicos no caminho da verdade. A filosofia representa, pelo contrário, o domínio privilegiado do encontro entre paganismo, judaísmo e cristianismo precisamente no plano da crítica contra a religião pagã e seus falsos mitos. «Nossa filosofia... »: é assim, do modo mais explícito, que um outro apologista contemporâneo de Justino, o Bispo Melitão de Sardes acabou por definir a nova religião (ap. Hist. Eccl. 4, 26, 7).
De fato, a religião pagã não percorria os caminhos do Logos mas se obstinava nas vias do mito, mesmo se este era reconhecido pela filosofia grega como privado de consistência na verdade. È por essa razão que o crepúsculo da religião pagã era inelutável: el decorria como uma conseqüência lógica da separação da religião – reduzida a um conjunto artificial de cerimônias, de convenções e de costumes – da verdade do ser. Justino, e com ele os outros apologistas, marcaram a tomada de posição nítida da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a escolha pela verdade do ser, contra o mito do costume. Algumas décadas depois de Justino, Tertuliano definiu a mesma escolha dos cristãos com a sentença lapidar e sempre valida: « Dominus noster Christus veritatem se, non consuetudinem, cognominavit — Cristo afirmou ser a verdade, não o costume » (De virgin. vle. 1, 1). Notar-se-á a este propósito que o termo consuetudo, aqui empregado por Tertuliano com referência à religião pagã, pode ser traduzido nas línguas modernas pelas expressões «hábito cultural», « moda do tempo».
Numa época como a nossa, marcada pelo relativismo no debate sobre os valores e sobre a religião – tanto como no diálogo inter-religioso –, trata-se de uma lição, essa aí, para não esquecer. Com esse objetivo, eu vos proponho de novo—e eu concluo assim – as últimas palavras do misterioso ancião encontrado pelo filósofo Justino à beira mar: «Reze, antes de tudo, para que as portas da luz te estejam abertas, porque ninguém pode ver e compreender, se Deus e seu Cristo não lhe concedem compreender » (Dial. 7, 3).
 
© Copyright do texto original em italiano: Livrarias Editoras Vaticanas
Tradução de Orlando Fedeli
 

    Para citar este texto:
"E agora? Como fica o Ecumenismo? E como fica o Concílio Vaticano II"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/sementes_ecumenismo/
Online, 22/07/2017 às 17:46:17h