Igreja

O Semeador, o Plantio e os Grillos
André Roncolato Siano

 

Nosso Senhor sempre usava das parábolas pois, ao mesmo tempo em que pelo uso das coisas quotidianas podia ensinar aos simples seus deveres morais, podia, igualmente, pelos uso dos símbolos, ocultar dos maus as profundas verdades da revelação confiadas à Igreja, para que ela, Mãe e Mestra, fizesse o justo uso de seu poder.
 
Cristo, Nosso Senhor, nos Evangelhos, diz mais de uma vez palavras sobre a semeadura. Uma destas parábolas é sobre as sementes jogadas pelo semeador, que ora caem em meio aos abrolhos, ora ao longo do caminho, ora em meio às pedras e ainda algumas em terra fértil.
 
Respectivamente, as primeiras, são sufocadas pelos espinhos, as que caem próximas ao caminho são devoradas pelas aves, ainda as que estão em meio aos pedregulhos morrem por não terem raízes profundas. Mas as que caíram em terreno fértil germinam e dão frutos.
 
A Igreja, durante os séculos, vem imitando Nosso Senhor, até os dias de hoje. Em nossa época, o Papa Bento XVI está semeando a boa semente litúrgica, principalmente a semente do Vetus Ordo a qual, no Motu Proprio Summorum Pontificum, é apresentada à Igreja como um remédio eficaz na contenção dos abusos litúrgicos – que se tornaram regra em praticamente todas as paróquias brasileiras, salvo heroicas exceções – e como farol seguro nas névoas de uma crise litúrgica e doutrinal sem precedentes na Igreja. Como na parábola de Nosso Senhor, a semeadura do Papa encontra vários terrenos. E os terrenos férteis aqui no Brasil, já se mostram numerosos. Estes terrenos são os corações de muitos bons padres e alguns excelentes bispos que compreendem bem essa empresa e põe em prática, com coragem e amor à Igreja, a Santa Liturgia da Forma Extraordinária, mesmo sabendo das incompreensões que sofrerão.
 
Pois bem, é ai que entram os grilos!
 
Grilos que, como se sabe, não existem na parábola de Nosso Senhor. Para nossos amigos – e inimigos – leitores que não estão familiarizados com a jardinagem, os grilos são aqueles bichinhos estridentes, primos dos gafanhotos, que tentam estragar as plantações e o trabalho do semeador principalmente quando estão no começo, pois que as plantas são mais tenras e vulneráveis. Enfim, é o bicho que tenta estragar a semente que já brota em solo fértil.
 
Na semana passada, a CNBB realizou o “Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium” (1), alinhadíssimo com a agenda daquela minoria de bispos simpatizantes do progressismo cafona latino americano, como se pode notar pela fóssil terminologia adotada para o evento, por exemplo: “a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos.” ou então, “em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.” O mau-gosto aqui não é o mais importante. Mas permite antever a proximidade dos setores progressistas, ou seja, daqueles setores que promovem sistemática e propositalmente a baderna litúrgica, com o tal seminário de liturgia.   
 

Andrea Grillo

 
 
 
 
Pois essa ala, como principal assessor do simpósio, convidou o professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo. Embora, na realidade, na Universidade Santo Anselmo esse professor tenha uma importância que, digamos, beira a irrelevância.  
 
Grillo é radicalmente contra o Motu Proprio Summorum Pontificum, contra as determinações do Universae Ecclesiae e evidentemente contra a Missa Antiga. Ele, ousadamente, defende que a benevolência e justiça do Papa Bento XVI para com a Igreja e a Missa Tridentina não passam de uma “pretensão de paralelismo ritual (…) o que – já à primeira vista – se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunhão eclesial.” (2) [destaques nossos, mas palavras absurdas dele].
 
Ou seja, como, num evento tão importante para a liturgia promovido pela CNBB, o principal assessor é um obstinado opositor do trabalho de restauração litúrgica do Papa? Como se dá tal destaque a um professor que emite opiniões públicas veementemente contrárias à vontade do Papa? Que combate os Cardeais – como o Cardeal Cañizares – que trabalham diligentemente para estabelecer a ordem litúrgica, solapada pela rebeldia inexplicável daqueles padres que deveriam proteger a pureza do culto?
 
Essa é uma atitude curiosa, visto que imprime certo desconforto para a Conferência dos Bispos.
 
O grilo, diferente do gafanhoto, não é tão intempestivo. Faz seu trabalho de forma mais sutil e sua presença só se nota, muitas vezes, pelos seus estalidos irritantes. O Professor Grillo faz seu trabalho usando de linguagem cheia dos rebuscamentos acadêmicos, para distrair dos argumentos. Por exemplo, é difícil compreender o que ele quer dizer quando afirma: “O Concílio promove uma Reforma para que todos possam sentir o ritual como linguagem ‘própria’(2). Se meditarmos brevemente sobre isso, o sentido mais plausível da insinuação do “prestigioso” Grillo é que todos, e cada um, devem passar a se sentir donos e proprietários do ritual. Isso explica porque cada um faz o que bem entender nas missas, desde o padre até a gerente da igreja, onde o céu é o limite da criatividade. Exatamente o que a Instrução Repentionis Sacramentum condena: “[18.] Os fiéis têm direito a que a autoridade eclesiástica regule a sagrada Liturgia de forma plena e eficaz, para que nunca seja considerada a liturgia como «propriedade privada, nem do celebrante, nem da comunidade em que se celebram os Mistérios».”
 
Grillo estrila contra a volta do Rito Tridentino também com o argumento da “tradição”: “o rito que brotou da Reforma Litúrgica é “mais antigo” do que o tridentino, porque tenta se encaminhar para a superação do individualismo – tanto clerical quanto laical – que caracteriza tão fortemente aquela versão moderna do rito romano que é o rito tridentino. . Não apresenta provas de que o Novus Ordotenha características da forma de celebração da Igreja primitiva, mesmo porque hoje em dia se sabe que essas provas não existem. Mas com isso cai no arqueologismo litúrgico, moda anos quarenta e cinquenta, o qual, para que se saiba, foi condenado na Mediator Dei de Pio XII. Com seu furor em demolir tudo o havia sido construído em séculos de sabedoria de História da Igreja, este arqueologismo que foi um dos grandes condutores para a crise litúrgica que vivemos.
 
A ousadia do professor Grillo é bem grande se comparada aos seus argumentos… Ele chega a qualificar, pública e sonoramente, os Atos do Papa com relação ao Vetus Ordo, como “monstruum”! (2) Imaginem os bispos e padres que tiveram estômago para participaram deste evento… em que contradição ficaram!
 
O que nos parece certo, é que a presença de Grillo como principal assessor neste evento da CNBB não é nada casual. Na verdade, foi chamado um progressista bem diplomado para tentar obnubilar as consciências do clero que, pela graça de Nosso Senhor, cada dia mais, consegue enxergar a crise litúrgica a doutrinal que, nestes últimos cinquenta anos, só fez diminuir as vocações, afastar o povo, ameaçando o catolicismo de desaparecimento em algumas regiões do globo.
 
Talvez seja o momento de o clero brasileiro perguntar qual tem sido atividade da CNBB, além de repetir o programa da ONU em suas campanhas da fraternidade. Pois, ela é suficientemente ágil em colocar obstáculos a tudo que é tradicional e piedoso, ao mesmo tempo em que é clara e categórica contra a reforma eclesial querida por Bento XVI. Por outro lado, recebe com diplomacia e bajulações inconvenientes, pessoas como a senadora Marta Suplicy publicamente favorável ao aborto, políticas de controle de natalidade e homossexualismo (3).
 
Evidentemente, Marta não foi à CNBB rezar o Angelus. Nem tão pouco, os bispos são ingênuos a ponto de não saber que qualquer acordo com essa gente é apenas uma armadilha para tiranizar a Igreja e a doutrina de Cristo. Então, o que Marta foi fazer lá? Segundo ela mesma: “- Eu disse para o Crivella: fizemos um acordo com a CNBB e vocês vão ficar do lado do Bolsonaro? – contou Marta…” (3). A divulgação da desastrosa recepção da militante “pró-cultura da morte”, afinal, foi motivo de uma nota “explicativa” (4) rocambolesca, por parte da CNBB, com o intuito de desmentir o acordo mas, além da nota não explicar nada, pior, não condena a PLC 122/2006 que legitimará a perseguição dos católicos brasileiros.
 
Muito desagradável para os bispos constatar, nesse episódio, o desrespeito ao ensinamento do Papa, que dissera aos bispos da Região Nordeste essas claríssimas palavras: “Caros Irmãos no episcopado,ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (Evangelium Vitae, 82) (5)
 
CNBB, doce com os inimigos da Cruz, áspera com os bispos que desejam viver na clareza doutrinal. Obstinada e clara contra a Missa Antiga e os católicos tradicionais, tolerante e cheia de mimos com os políticos anticatólicos.
 
Já não seria hora de os bispos diocesanos – que tem todo o direito e dever de interferir nesta instituição, a qual não tem natureza teológica (6), e, que, ao que tudo indica, está servindo a outros fins que não a Fé – agirem pelo direito de seguir pacificamente o Papa, sem serem incomodados por atrevidos cri-cris modernistas?
 
Utilizemos o inseticida da clareza doutrinal e cuidemos da plantação, para que se possam produzir frutos trinta por um, cinquenta por um.
 
Na festa de São Cirilo de Alexandria, bispo.
 
AMDG,
 
André Roncolato Siano
 
 
 

(1)   Começa o Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium


(2)    Andrea Grillo – Por uma Ecclesia verdadeiramente Universa (Unisinos, entrevista por Moisés Sbardelotto)


(3)  CNBB e Marta fazem acordo sobre projeto que criminaliza homofobia 


(4)  Nota de Esclarecimento

(5)   Discurso de Bento XVI aos Bispos da Região Nordeste V em 28.10.10.

 

(6)   Motu Proprio Apostolos Suos.

 

 

    Para citar este texto:
"O Semeador, o Plantio e os Grillos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/semeador_grillos/
Online, 26/03/2017 às 06:17:58h