Igreja

A reforma da reforma
Orlando Fedeli

Anunciada há vários anos, parece que agora vai afinal ser decretada a reforma da Missa Nova de Paulo VI. É a chamda “reforma da reforma”. Mais exatamente — conforme me sugeriu um velho e fiel  sacerdote franciscano a “Reforma da Deforma”.
 
O jogo de palavras é bem feito e, melhor ainda, bem aplicado. Pois o que fez Monsenhor Bugnini ao fabricar a Nova Missa de Paulo VI foi uma completa deformação, e até demolição, da Missa de sempre. E Mons.Bugnini deu só o primeiro passo, pois como se admitiu que o celebrante poderia exercer sua “criatividade”, inventando orações e gestos “litúrgicos”, a Missa acabou sendo diferente em cada paróquia, inventando-se inovações selvagens e barbaramente ecumênicas.
 
No pós Concílio a Sagrada Liturgia católica foi roqueiramente destruída, tornado-se irreconhecível. Virou Missa-show e até espetáculo circense. (O Cardeal Lehman botou nariz de palhaço numa celebração. Nos Estados Unidos um Padre vestiu-se de ursinho e permitiu que uma mulher vestida como um diabo, distribuisse a comunhão).
 
Contra esses crimes, sempre se manifestou o Cardeal Ratzinger. Eleito Papa, ele deu sinais claros de que ia acabar lentamente, e por etapas, esses abusos e essa destruição.
Claro que, conhecendo a situação lamentável do clero em todo o mundo, sabendo da ignorância imensa causada pela destruição dos estudos nos seminários, vendo a amplíssima infiltração do modernismo no clero pós conciliar, Bento XVI compreendeu que se faria – e se fará -- enorme resistência à correção dos abusos e da demolição da Sagrada Liturgia.
 
O retorno completo à plena ordem litúrgica levará muitos anos.
O primeiro garnde passo dado pelo Pàpa Bento XVI foi a liberação da Missa de sempre, através do Motu Proprio Summorum pontificum, tão pouco acatado, tão obstaculizado pelos Bispos modernistas.
                                                  
Se a celebração da Missa de sempre permitida a qualquer sacerdote, sem precisar permissão do Bispo, está sendo tão combatida, como não será combatido o Papa, quando obrigar os Bsipos e Padres modernistas aplicarem a reforma da deforma que agora se anuncia para logo mais?
 
Porque as mudanças, embora paulatinas, serão profundas. Ver-se-á que grau e que extensão terão as mudanças, quando for conhecido o decreto papal da Reforma da Deforma. Mas já se fala da adoção do latim! Em Missais bilingues!
 
Imagine-se Padres Marcelo Rossi, Joãozinho, Zezinho e Fãbio de Melo tendo que razr a Missa em latim! E sem rock e sem cancõnetas ridículas!
Como ficarão os Bispos que proibiram a Missa de sempre com a escusa de que os fieis deveriam saber latim?
 
Consta que o cânon da Missa em forma “ordinária“ terá que ser em latim, o sacerdote falando baixo, mantendo-se silêncio completo na Igreja, com proibição de qualquer canto. O rock será banido.
VIVA!!!
Adeus shows-missas!
 
Fala-se até da possibilidade de que o padre terá que celebrar, pelo menos uma parte da Missa, de costas para o povo.
 
Que ranger de dentes será ouvido em muitas sacristias!
 
Sem dúvida , haverá choro e ranger de dentes. Porque, quando os lobos choram, eles rangem os dentes.
E mordem.
 
O serviço “meteorológico” prevê tempestades eclesiásticas e até “tremores” de terra...
 
Pois é claro que todos compreendem que, isso que agora é anunciado, é só a primeira etapa.
 
Todos compreendem?
Todos é exagero.
 
Os sede vacantistas não compreendem. Acharão que o Papa está traindo a Missa de sempre, porque, aliás, ele nem seria Papa.
 
O próprio Papa Bento XVI—quando era Cardeal- escreveu ao Padre Heins-Lothar Barth, em carta agora publicada, que a reforma seria em etapas, mas que o ponto final seria alcançado quando houvesse de novo um só rito romano. E na forma antiga da Missa!
 
Antes seria preciso “limpar a Capela de Capri”, como foi escrito no livro- entrevista do Cardeal Ratzinger ao jornalista Peter Seewald, Voici quel est notre Dieu (Eis como é nosso Deus).
 
Eis a parábola que aparece nesse livro:
 
Peter Seewald.-- O escritor Martin Mosebach conta uma pequena história a respeito de uma missa. Isso aconteceu, há muito tempo, na ilha de Capri. Um dia, desembarca um padre inglês, que se fez reconhecer como padre por suas roupas, o que tinha se tornado raro, mesmo na Itália do sul. Quando se tornou claro que o homem de batina queria seriamente celebrar uma missa, todos os dias, se lhe atribuiu, depois de muitas hesitações, uma capela situada num promontório rochoso em precipício sobre o mar, o monte Tibério, sobre o qual estava situado outrora a vila Jovis, uma das numerosas residências do Imperador Tibério. Esta capela era aberta apenas uma vez por ano, no dia 8 de setembro, para a festa da Natividade da Virgem Maria. No resto do ano, ela ficava abandonada aos ratos que cavavam buracos no fundo das gavetas da sacristia.
O Padre inglês, um homem prático, e que não era um grande teólogo, se pôs a caminho. Ele subiu a ladeira ríspida e se deliciou com a bela vista sobre o golfo. Ele teve alguma dificuldade para fazer funcionar a fechadura enferrujada da capela. Ele entrou nesse lugar que cheirava a mofo, acompanhado por um belo raio de sol. A porta metálica do tabernáculo estava aberta, as velas estavam inteiramente consumidos, as cadeiras reviradas, e a sacristia tinha o aspeto de lugar abandonado às pressas. Vasos sujos, uma capa de altar apodrecida, um cálice estilo kitch, toalhas de linho de altar tinha colado umas às outras, um missal caindo aos pedaços. Sim, até mesmo o crucifixo estava torcido.
O padre olhou atentamente tudo isso e refletiu longo tempo. Ele abriu a janela, pegou uma vassoura de palha, que estava caída num canto, e se pôs a varrer toda a capela. Ele pegou o crucifixo, beijou-o e o posou sobre o armário da sacristia. Ele limpou o cálice e reergueu os candelabros. Quando ele descobriu a corda do sino, trepou numa escada no exterior da capela e amarrou a corda a um sino. O encanto estava agora rompido.
Ele colocou uma estola roxa acetinada toda manchada. Derramou um pouco de água que tinha trazido numa garrafa plástica num pequeno pote e se pôs a rezar; ele acrescentou um pouco de sal, fez os gestos de bênção e colocou a água em pequenas pias de água benta em forma de concha ao lado da entrada; poder-se-ia imaginar ouvir a pedra gemer como se ela despertasse de novo. E quando ele badalou o sino com a ajuda da corda, aproximaram-se vindos de longe os primeiros fiéis, mulheres e crianças, e logo a capela ficou cheia.
A missa podia começar. O sacerdote se inclinou diante do altar e começou pelas palavras: Introibo ad altare Dei.
Enquanto o homem de batina purificava o lugar, enquanto ele acendia as velas e benzia a água, quando ele tirava a poeira e expulsava para um canto as ratoeiras, um observador atento, devia ter a impressão que alguma coisa especial se passava. Tal como Abel ou Noé, ele tinha construído um altar antes de sacrificar. E como Moisés, ele delimitou o espaço para o tabernáculo. Era a preparação e a delimitação do espaço sagrado.
Cardeal Ratzinger. – “Esse texto de Mosebach naturalmente é muito poético, mas, no total, a situação em Capri não era tão desesperadora quanto parecia. Mas é verdade que a preparação exterior e interior vão juntas. A missão de São Francisco começou da mesma maneira. Ele ouviu as célebres palavras de Cristo: "É preciso que reconstruas a minha Igreja". Ele as aplicou inicialmente a essa igreja arruinada, à Porciúncula, que ele restaurou e reconstruiu. Ele notou, em seguida, que ele precisava fazer muito mais: reconstruir a Igreja viva.
Mas este trabalho manual inicial faz parte dessa reconstrução. Ele é muito importante vigiar para que o espaço, a Igreja, seja sempre preparado de novo, que sua santidade interior como a exterior seja sempre perceptível e reconhecível. É verdade que nós temos em todo o mundo, graças a Deus, igrejas maravilhosas cujo caráter sagrado seria necessário reaprender a amar. A chama acesa diante do Santíssimo Sacramento permite-nos perceber uma presença silenciosa permanente. Muitas igrejas, hoje, parecem teatros, dos quais se admira a beleza do passado mais do que como meio de nossas próprias atividades; constata-se então uma perda interior do sentido do sagrado.
“Reencontrar este sentido e preparar este espaço e exterior, não pode ser feito senão sob a condição de entrar na celebração de modo a encontrar o sagrado efetivamente nela”. (Cardeal Joseph Ratzinger, Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2.001. Pp. 288 a 294. Tradução do francês de O. Fedeli.
 
Bento XVI vai começar a limpar a Capela de Capri.
 
Que farão os ratos quando a vassoura começar a ser usada. Porque os ratos da Capela de Capri, na verdade, são lobos que atacarão o Pastor supremo.
Rezemos pelo Papa Bento XVI ajudêmo-lo, o quanto pudermos na limpeza, ordenação e decoração da Capela de Capri.
 
Na restauração da Missa de sempre!
São Paulo, 24 de Agosto de 2009, festa de São Bartolomeu.
 
Orlando Fedeli
 

 
Ratzinger reforma a Missa. Basta com a Hóstia na mão
de Andrea Tornielli
 
Roma -- O documento foi entregue nas mãos de Bento XVI na manhã de 4 de Abril passado pelo Cardeal espanhol Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. Foi o resultado de uma votação reservada, ocorrida em 12 de Março, no curso da reunião «plenária» do Dicastério que se ocupa de liturgia, e representa o primeiro passo concreto em direção daquela «reforma da reforma» várias vezes expressada pelo Papa Ratzinger. Quase por unanimidade os Cardeais e Bispos membros da Congregação votaram a favor de uma maior sacralidade do rito, de uma recuperação do sentido da adoração eucarística, de uma recuperação da língua latina na celebração e do refazer das partes introdutórias do Missal para por um freio aos abusos, experiências selvagens e inoportunas criatividades.
 
Eles se disseram favoráveis também a confirmar que o modo usual de receber a comunhão segundo as normas não é na mão, mas na boca. É verdade que existe um indulto que permite, que, sob pedido dos episcopados, se distribua a Hóstia também na palma da mão, mas isso deve permanecer um fato extraordinário. O «ministro da liturgia» de Papa Ratzinger, Cañizares, está fazendo estudar também a possibilidade de recuperar a orientação para o oriente do celebrante, pelo menos no momento da consagração eucarística, como era de praxe antes da reforma, quando tanto os fiéis quanto o Padre celebrante olhavam para a cruz e, portanto, o sacerdote dava as costas  à assembléia.
 
Quem conhece o Cardeal Cañizares, apelidado «o pequeno Ratzinger» antes de sua transferência a Roma, sabe que ele tem a intenção de  levar avante com decisião o projeto, justamente a partir do que estabeleceu o Concílio Vaticano II na constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium, que na realidade foi ultrapassada pela reforma pós-conciliar que entrou em vigor no final dos anos Sessenta. O purpurado, entrevistado pelo mensário 30 Giorni, nos meses passados, havia dito a esse propósito: «Por vezes se mudou pelo simples gosto de mudar a respeito de um passado percebido como totalmente negativo e superado. Por vezes, concebeu-se a reforma como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da Tradição».
 
Porisso, as «proposições» votadas pelos Cardeais e Bispos na reunião plenária de Março prevêem um retorno ao sentido do sagrado e à adoração, mas também uma recuperação das celebrações em latim nas dioceses, pelo menos durante as principais solenidades, assim como a publicação de missais bilingues – um pedido feito a seu tempo por Paulo VI - com o texto latino à frente.
 
As propostas da Congregação que Cañizares levou ao Papa, obtendo a sua aprovação, estão perfeitamente na linha com a idéia várias vezes expressas por Jopseph Ratzinger quando ainda era Cardeal, como o comprovam os trechos inéditos sobre liturgia anticipados ontem pelo Il Giornale, que serão publicados no livro Diante do Protagonista (Cantagalli), apresentado com antecedência no Meeting de Rimini. Com um nota bem significativa: para a realização da «reforma da reforma» serão necessários muitos anos. O Papa está convencido de que não adianta nada dar passos apressados, nem simplesmente baixar diretivas do alto, com o risco que depois fiquem letra morta. O estilo de Ratzinger é o do confronto e sobretudo do exemplo. Como demonstra o fato que, há mais de um ano, todos os que vão comungar das mãos do Papa, devem se ajoelhar sobre o genuflexório propositalmente preparado pelos cerimoniários
 
[Tradução da notícita: Montort. texto original em italiano]

    Para citar este texto:
"A reforma da reforma"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/reforma-da-reforma/
Online, 25/11/2017 às 05:31:09h