Igreja

A propósito da reeleição de Monsenhor Fellay
Padre Philippe Laguérie

(Editorial Do Jornal Mascaret n°281 de juillet - août 2006)
  
O futuro da Fraternidade São Pio X, há meses, estava em suspenso por causa do Capítulo Geral e a este fato: a reeleição do Superior Geral e a de seus assistentes. Na Terça Feira, dia 11 de Julho de 2006, Monsenhor Bernard Fellay foi reeleito para um segundo mandato de doze anos, de acordo com os estatutos. O Padre Nicklaus Pfluger foi eleito Primeiro Assistente, substituindo o padre Schmidberger, e o  Padre Alain-Marc Nély foi eleito Segundo Assistente, substituindo Monsenhor de Galaretta. O Primeiro, Suíço-alemão, era o Superior do Distrito da Alemanha, o Segundo, francês, superior da Itália. Ambos terão que deixar seus postos atuais para não acumular funções, a fim de se consagrar apenas ao dever de assistentes, residindo junto ao Superior, e dividindo entre si o papel de Visitadores na Fraternidade.
Deve-se notar que o recurso formulado pelo Padre Aulagnier (o mais antigo dos Padres da Fraternidade, e, portanto, membro do Capítulo) não foi examinado. Simplesmente fizeram-lhe saber que ele não fazia parte do capítulo.
Qualquer que seja a feliz escolha dos dois Assistentes, dois padres que têm a mão na massa (de terrain), abertos e calorosos (dos quais, enfim, um é francês), e pelo que é preciso agradecer à Divina Providência, o Capítulo escolheu manter, custe o que custar, a continuidade. Escolha humanamente compreensível, que não poderia ocultar a questão capital dos problemas concernentes a Roma, a Tradição e a sobrevivência da Fraternidade. Colocada entre dois riscos, o medo e a auto-suficiência, tentada pelo recuo protecionista que poderia conduzi-la ao enfraquecimento e até mesmo ao cisma, e ferida pelo mal-estar interno nascido de uma equivalência não evidente, imposta aos padres e aos fiéis, entre apostolado e disciplina comunitária, a Fraternidade encontrará a força para assegurar sua missão e seu futuro no seio da Igreja Romana?
Certamente, ninguém, por ora, poderia dizer qualquer coisa da posição de Monsenhor Fellay sobre a questão decisiva de Roma, cujas sucessivas variações resultaram na interrupção (pelo menos oficialmente) das negociações com o Papa Bento XVI, conversações entabuladas a 29 de Agosto de 2005. A legitimidade do Superior estando hoje renovada e reforçada, alguns já falam de um novo Capítulo Geral que afinal poderia ser convocado por ele, na hora oportuna, para aprovar suas decisões sobre o projeto de um acordo com Roma.
Com efeito, Valeurs Actuelles (21 de Julho de 2006) cita o quotidiano italiano Il Giornale, o qual revela « que um  projeto de acordo já teria sido transmitido, há várias semanas, pelo Vaticano aos lefrevistas. Esta informação se harmoniza com uma declaração do Cardeal Ricard, feita, em 31 de Maio de 2.006, a um jornal italianoele mesmoanunciando (este fato é que é novo!)o próximo levantamento da excomunhão assim como a restituição de seu direito ao rito de São Pio V.
            Se tais medidas forem tomadas no outono, elas obrigarão Monsenhor Fellayque só poderá se alegrar delas como uma vitória. O governo de Bento XVI, se não move as montanhas, pelo menos muda os homens e o tom: a nomeação do CardealBertone (Arcebispo de Genova) para a Secretaria de Estado (substituindo o Cardeal Sodano) e de Monsenhor Ranjith como Secretário da Congregação dos Ritos, imprimem uma nova direção que torna possíveis estas medidas benevolentes em favor da Tradição.
            Resta a questão dos problemas doutrinários. Aí também, o discurso de Bento XVI de 22 de Dezembro de 2005 modificou sensivelmente os dados, autorizando a crítica séria e em regrado « espírito do Concílio ». Sabe-se que este discurso que não foi bem recebido pela Fraternidade São Pio X que acreditou haver nele uma cilada. Sabe-se também que quando do Consistório de Março de 2.006, os Cardeais alinhados ao cardeal Lustiger fizeram ver a fraqueza teológica do livro O Problema da Reforma Litúrgica (Clovis, 2001) prefaciado por Monsenhor Fellay, quepretende defender a Missa tradicional, mas com maus argumentos. O Superior Geral reconduzido às suas funções não poderá continuar a exigir do Papa um acordo doutrinário prévio a qualquer negociação, sem trazer novos argumentos com relação à Missa e ao Concílio, argumentos mais sérios, menos dialéticos e mais respeitosos da tradição tomista em seus matizes.
           Além das querelas intestinas não pacificadas, na hora em que em que alguns na FSSPX acusam abertamente o Papa de heresia e acariciam a tese apocalíptica da invalidade do Episcopado no novo rito do pontifical de 1968última muralha furiosa daquilo que não é mais o sede vacantismo e sim do eclesio-vacantismo–, Monsenhor Fellay poderá impor uma linha clara, coerente, sábia e doutrinariamente fundamentada? A tarefa é esmagadora. Nós o ajudaremos sinceramente com nossas orações e com nossos trabalhos, como nós o fizemos sempre, que ele o saiba.

* Cf. Monsenhor Lefebvre, sermão das Sagrções de 30 de Junho de 1988: «a operação sobrevivência da Tradição».

    Para citar este texto:
"A propósito da reeleição de Monsenhor Fellay"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/reeleicao_fellay/
Online, 26/04/2017 às 10:58:09h