Igreja


           Como seu predecessor João Paulo II, Bento XVI esteve presente em todas as quatro sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Enquanto Karol Wojtyla participou como Bispo, o jovem Joseph Ratzinger o fez como perito teológico. Durante e depois do Concílio, ele lecionou sucessivamente nas universidades de Bonn (1959-1963), Münster (1963-1966), Tübingen (1966-1969) e Regensburg, até ser nomeado Arcebispo de Munich, em 1977. Em 1981, ele tornou-se prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que deteve até a morte de João Paulo II, em abril de 2005.
 
Em suas muitas publicações, Ratzinger continuou a debater as questões que emergiram durante o Concílio e, em alguns casos, ele expressou insatisfação com os documentos do Concílio. Nesse aspecto, ele difere do Papa João Paulo II, que consistentemente louvou o Concílio e nunca (até onde eu sei) o criticou.O material pode ser dividido convenientemente em três fases: a participação dele no Concílio, seus primeiros comentários aos documentos do Concílio e suas reflexões mais recentes acerca da recepção do Concílio. E há também a reação dele, que mudou, às quatro grandes constituições: sobre a liturgia (Sacrosanctum Concilium), sobre a revelação (Dei Verbum), sobre a Igreja (Lumen Gentium) e sobre a Igreja no mundo moderno (Gaudium et Spes).
 
 No Concílio, Ratzinger foi muito requisitado como um astro teológico em ascenção. Ele trabalhou muito próximo de jesuítas experientes, incluindo Karl Rahner, Alois Grillmeier e Otto Semmelroth, todos os quais mantidos em comunicação contínua com os bispos alemães. Os cardeais alemães Josef Frings, de Colônia, e Julius Döpfner, de Munich e Freising, fortemente apoiados por bispos-teólogos como o futuro Cardeal Hermann Volk, exerceram uma influência poderosa, geralmente opondo-se aos esquemas elaborados pela comissão preparatória dirigida pelo Cardeal Alfredo Ottaviani e pelo Padre Sebastian Tromp, S.J.
 
Com a primeira sessão perto do fim, Ratzinger foi nomeado consultor teológico do Cardeal Frings, posição que ele deteve até o fim do Concílio. Muitos de seus biógrafos suspeitam que ele tenha redigido o esboço do discurso de 8 de novembro de 1963 de Frings, no qual este atacou com veemência os procedimentos do Santo Ofício. Em combinação com outros eventos, esse discurso indubitavelmente influenciou Paulo VI a reestruturar o Santo Ofício e lhe dar um novo nome: a Congregação para a Doutrina da Fé.
 
Durante a primeira sessão, vários esquemas oficiais foram distribuídos pela comissão preparatória, com a expectativa de que os padres conciliares os aceitassem, pelo menos, em forma revisada. O contingente alemão estava em geral contente com o documento proposto sobre a liturgia, mas reagiu contrariamente aos documentos sobre a revelação e sobre a Igreja, buscando substituí-los.
 
Quanto à revelação, Ratzinger concordou que o esquema preliminar era inaceitável e deveria ser retirado. A pedido do Cardeal Frings, ele escreveu um texto alternativo, o qual mais tarde foi reelaborado com a ajuda de Rahner. Para desgosto de Ottaviani, três mil cópias desse texto foram distribuídas privadamente entre os padres e peritos conciliares. Yves Congar, embora no geral favorável, julgou o estudo de Rahner-Ratzinger excessivamente pessoal para ter qualquer chance de ser adotado e criticou-o por quase não levar em consideração o bom trabalho feito nos esquemas preparatórios. Gerald Fogarty considerou-o uma síntese minimamente mitigada da teologia sistemática de Rahner.
 
            Apesar da rejeição do esquema dos dois, Rahner e Ratzinger tiveram alguma influência no novo texto preparado pela comissão mista nomeada pelo Papa João XXIII. Ambos foram designados consultores da subcomissão revisora do novo texto. Rahner advogou fortemente sua posição particular quanto à relação entre Escritura e Tradição. Ratzinger colaborou na resposta às emendas apresentadas ao capítulo sobre a Tradição; ele também teve a oportunidade de introduzir modificações no capítulo sobre a autoridade e interpretação da Escritura.
           
Quanto à Igreja, Ratzinger juntou-se aos bispos alemães e a seus colegas peritos no esforço de fazer com que a idéia da Igreja como sacramento fosse inscrita profundamente na constituição – uma preocupação defendida por Frings na aula conciliar. Tanto Ratzinger quanto Rahner serviram na subcomissão que revisou as formulações sobre a colegialidade nos artigos 22 e 23. Ratzinger também foi designado a uma equipe para reescrever o esquema sobre a atividade missionária da Igreja para a última sessão do Concílio. Ele trabalhou em proximidade com Congar na definição do fundamento teológico das missões, tema sobre o qual os dois facilmente entraram em acordo. Congar, em seu diário, caracteriza Ratzinger como ‘razoável, modesto, desinteressado e muito prestativo’. Ele atribui a Ratzinger a elaboração da definição de atividade missionária que foi aceita e também a proposta de inclusão da seção sobre o ecumenismo no documento. Outros creditam a ele a elaboração de uma nota de rodapé que permitiu que a América Latina fosse incluída como região missionária muito embora seu povo já tenha sido evangelizado previamente. Nas discussões sobre a Gaudium et Spes, em setembro de 1965, Ratzinger manifestou muitas das críticas que mais tarde apareceriam em seus livros e artigos: o esquema era excessivamente naturalista e a-histórico, não levava suficientemente em conta o pecado e suas conseqüências, sendo ainda exageradamente otimista com relação ao progresso humano.
 
Em suma, podemos dizer que Ratzinger pertencia ao círculo íntimo de teólogos cujo pensamento prevalesceu no Vaticano II. Com apenas trinta e poucos anos, ele não possuía a notoriedade de Congar, Rahner e Gérard Philips. Nas primeiras sessões ele colaborou muito proximamente a Rahner e aos jesuítas alemães, em oposição à linha romana, embora ele falasse com moderação. Com o decorrer do Concílio, Ratzinger tornou-se mais independente. Ele fez uma contribuição original e importante ao documento sobre as missões e lançou uma crítica altamente pessoal à constituição pastoral sobre a Igreja no mundo moderno, refletindo sua preferência por Agostinho com relação a Tomás de Aquino e sua sensibilidade às preocupações luteranas.
 
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Durante o Concílio e os primeiros anos depois de sua conclusão, Ratzinger escreveu vários comentários aos documentos conciliares. Embora fazendo certas críticas, expressam sua concordância com as diretrizes gerais do Vaticano II e sua aceitação dos três objetivos nomeados por João XXIII: renovação da Igreja, unidade entre os cristãos e diálogo com o mundo de hoje. Ele acolheu bem a rejeição de alguns dos esquemas preparatórios, principalmente por estarem formulados em termos escolásticos abstratos e por não lograrem falar pastoralmente ao mundo moderno. Ele ficou contente com a liberdade que o Concílio teve da dominação romana e a abertura e candidez de suas discussões.
 
Como membro da ala progressista no Concílio, Ratzinger lecionou em Tübingen com Hans Küng e ingressou no corpo editorial da revista progressista Concilium, editada na Holanda. Em 1969, depois das revoltas estudantis em Tübingen, ele passou para a mais tradicional faculdade de Regensburg. Então, em 1972, ele se tornou um dos fundadores da revista Communio, uma alternativa [counterpart] mais conservadora à Concilium. A orientação teológica dele parecia estar mudando.
 
Em 1975, Ratzinger escreveu um artigo, no décimo aniversário do encerramento do Vaticano II, em que ele divergia dos progressistas que queriam ir além do Concílio e dos conservadores que queriam recuar até antes do Concílio. O único rumo viável, sustentava ele, era interpretar o Vaticano II na mais estrita continuidade com Concílios anteriores como Trento e o Vaticano I, visto que todos os três Concílios são sustentados pela mesma autoridade: a do Papa e do colégio dos Bispos em união com ele.
 
Dois anos depois, Ratzinger tornou-se Arcebispo e Cardeal, e então, em 1981, Cardeal Prefeito da Congregação da Fé. Numa entrevista publicada em 1985, ele negou que o Vaticano II tivesse sido responsável por ter causado [sic] a confusão do período pós-conciliar. O estrago, disse ele, foi devido ao desencadeamento de forças centrífugas e polêmicas dentro da Igreja e a predominância, fora da Igreja, de uma ideologia liberal-radical de cunho individualista, racionalista e hedonista. Ele renovou sua convocação à fidelidade para com o verdadeiro ensinamento do Concílio, sem reservas que o truncassem nem elaborações que o deformassem.
 
As falsas interpretações, de acordo como Ratzinger, devem ser superadas antes que uma recepção autêntica possa começar. Os tradicionalistas e os progressistas, disse ele, caíram no mesmo erro. Eles não conseguiram enxergar que o Vaticano II permaneceu em continuidade fundamental com o passado. Ao rejeitarem alguns dos primeiros documentos esboçados, os padres conciliares não estavam repudiando a doutrina daqueles esquemas, que era solidamente tradicional, mas somente seu estilo, que eles julgaram escolástico demais e insuficientemente pastoral. Particularmente danosa foi a tendência dos progressistas de contrapor a letra dos textos do Concílio ao espírito. O espírito deve ser encontrado na própria letra.
 
Alguns consideram que a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo moderno, composta na fase final, deveria ser vista como o clímax do Concílio, para o qual as outras constituições são preparatórias. Ratzinger adota a visão oposta. A constituição pastoral está subordinada às duas constituições dogmáticas – sobre a revelação e sobre a Igreja – que orientam o intérprete rumo à fonte e ao centro da vida cristã. A constituição sobre a liturgia, embora não estritamente dogmática, foi a mais bem-sucedida das quatro constituições; a constituição pastoral Gaudium et Spes foi um esforço provisório[a tentative effort] de aplicar a doutrina Católica à relação contemporânea da Igreja para com o mundo.
 
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O primeiro documento debatido na sessão de 1962 foi o documento sobre a liturgia. Em seus primeiros comentários, Ratzinger louva-o enormemente. Ele aplaude seus esforços por superar o isolamento do sacerdote celebrante e incentivar a participação ativa da congregação. Ele concorda com a constituição quanto à necessidade de dar mais importância à palavra de Deus na Escritura e na proclamação. Ele fica contente com a provisão da constituição para que a Sagrada Comunhão seja distribuída em duas espécies e seu encorajamento de adaptações regionais reguladas pelas conferências episcopais, incluindo o uso do vernáculo. ‘A muralha da latinidade’, escreveu ele, ‘tinha de ser derrubada[breached], para a liturgia poder funcionar novamente seja como proclamação ou como convite à oração’. Ele também aprovou a chamada do Concílio à recuperação da simplicidade das liturgias primitivas e à remoção de acréscimos medievais supérfluos.
 
Em escritos subseqüentes, já como Cardeal, Ratzinger busca dissipar as falsas interpretações atuais. Os padres conciliares, insiste ele, não tinham intenção de iniciar uma revolução litúrgica. Eles pretendiam introduzir uma utilização moderada do vernáculo ao lado do latim, mas não imaginavam eliminar o latim, que permanecia a língua oficial do rito latino. Ao convocar à participação ativa, o Concílio não se referia à incessante comoção de falar, cantar, ler e dar as mãos; pelo contrário, o silêncio orante poderia ser um modo especialmente profundo de participação pessoal. Ele lamenta particularmente o desaparecimento da música sacra tradicional, desaparecimento este contrário à intenção do Concílio. Nem tampouco quis o Concílio iniciar um período de experimentação e criatividade litúrgicas febris. O Concílio proibiu estritamente que tanto sacerdotes como leigos alterassem as rubricas por autoridade própria.
 
Ratzinger em diversos locais lamenta o modo abrupto como o Missal de Paulo VI foi imposto após o Concílio, com sua supressão sumária da assim chamada Missa Tridentina. Essa ação contribuiu para passar a impressão, amplamente difundida, de que o Concílio foi uma ruptura[breach] ao invés de um novo estágio num processo contínuo de desenvolvimento. De sua parte, Ratzinger dá mostras de não ter nada contra a celebração da Missa segundo o missal que estava em uso antes do Concílio.
 
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Em seus primeiros comentários à constituição sobre a revelação divina, o jovem Ratzinger falou positivamente. Já a primeira sentença lhe agradava, pois punha a Igreja numa postura de escuta reverente da Palavra de Deus. Ele também gostou do esforço conciliar por superar o antimodernismo neurótico dos neo-escolásticos e adotar a linguagem da Escritura e do uso contemporâneo. Ele ficou contente com o reconhecimento conciliar do processo pelo qual a Escritura emerge da história religiosa do povo de Deus. Nos capítulos sobre a Dei Verbum que ele escreveu para o “Comentário Vorgrimler”, Ratzinger novamente elogiou o prefácio como uma abertura da Igreja para o alto, para a Palavra de Deus, e por enfatizar o valor da proclamação. Embora continuasse a notar o sucesso de sua ênfase à revelação através da história, ele reprova o apanhado que o primeiro capítulo da Dei Verbum faz da história do Antigo Testamento por ter um otimismo excessivo e por ignorar a predominância do pecado. Alguma atenção ao tema luterano da lei e do Evangelho, observa ele, teria enriquecido o texto. A teologia da fé na constituição, segundo a estimativa dele, é consoante com a do Vaticano I, embora seja ainda mais rica. A discussão que Ratzinger faz da Tradição no capítulo 2 mostra uma apreciação aguda das dificuldades apresentadas pelos comentadores protestantes. Ele interpreta esse capítulo como dando uma certa prioridade à Escritura em detrimento da Tradição, e o elogia por subordinar o ofício magisterial da Igreja à Palavra de Deus. Mas ele repreende esse segundo capítulo por não ter reconhecido a Escritura como norma para identificar tradições inautênticas que distorcem o Evangelho.
 
O Ratzinger amadurecido fala de uma perspectiva diferente, mais confessionalmente Católica. Embora ainda considere a constituição sobre a divina revelação como um dos textos mais salientes do Concílio, ele sustenta que ela ainda está para ser verdadeiramente recebida. Nas interpretações predominantes ele detecta dois defeitos principais. Em primeiro lugar, a constituição foi lida erroneamente como ensinando que toda revelação está contida na Escritura. Ratzinger agora assinala que a revelação, como realidade viva, é incapaz de ser encapsulada num texto. A Tradição é ‘aquela parte da revelação que passa acima e além da Escritura e não pode ser abrangida dentro de um código de fórmulas’.
 
O abandono da Tradição viva, segundo o Cardeal prefeito, foi um dos mais graves erros da exegese pós-conciliar. Outro foi a redução da exegese ao método histórico-crítico.Num artigo sobre a interpretação bíblica contemporânea, ele comenta o aparente impasse entre exegetas e teólogos dogmáticos. Oferecendo uma saída ao dilema, o Concílio ensina que o método histórico-crítico é somente o primeiro estágio da exegese. Esse método ajuda a iluminar o texto em nível humano e histórico, mas para encontrar a palavra de Deus o exegeta precisa ir além, recorrendo à Bíblia como um todo, à Tradição e ao sistema inteiro do dogma católico. ‘Estou pessoalmente convencido’, escreve ele, ‘de que uma leitura cuidadosa do texto integral da Dei Verbum pode fornecer os elementos essenciais de uma síntese entre o método histórico e a hermenêutica teológica’. Infelizmente, porém, a recepção pós-conciliar praticamente descartou a parte teológica da declaração conciliar como sendo uma concessão ao passado, permitindo assim que a exegese católica se tornasse quase indiscernível da protestante.
 
Juntamente com o quase absoluto monopólio da exegese histórico-crítica, o abandono da Tradição leva muitos cristãos a pensar que nada pode ser ensinado pela Igreja sem antes passar pelo filtro do método histórico-crítico. Na prática, isso significou que as hipóteses cambiantes dos exegetas tornaram-se a mais alta autoridade doutrinária da Igreja.
 
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Ao longo dos anos, Ratzinger teve muita coisa a dizer sobre a constituição dogmática sobre a Igreja. Em suas primeiras observações, ele defende que ela fez bem de subordinar a imagem do Corpo Místico à imagem do Povo de Deus. O paradigma do Corpo Místico, que encontrou muito favor sob Pio XII, torna praticamente impossível atribuir qualquer status eclesial aos não-católicos e leva a uma falsa identificação da Igreja com Cristo seu Senhor. A imagem de Povo de Deus, ele argumenta, é mais bíblica; ela dá espaço ao reconhecimento dos pecados da Igreja e indica que a Igreja ainda está em peregrinação sob o signo da esperança. Por razões similares, ele defende o tema da Igreja como sacramento. Como um sinal e instrumento, a Igreja está orientada a um objetivo que está além dela mesma.
 
Em seus primeiros comentários, Ratzinger mostra especial interesse pela colegialidade episcopal. Os apóstolos, acredita ele, constituíram um grupo estável sob Pedro como seu chefe, assim como o fizeram os bispos das gerações posteriores sob o primado do sucessor de Pedro. A colegialidade, na visão dele, favorece a comunicação horizontal entre os bispos. Por trás da colegialidade está uma visão da Igreja como formada por comunidades relativamente autônomas sob seus respectivos bispos. A redescoberta da igreja local torna claro que a multiplicidade pertence à estrutura da Igreja. De acordo com o Novo Testamento, observa Ratzinger, a Igreja é uma comunhão de igrejas locais, mutuamente unidas [mutually joined together] através do Corpo e da Palavra do Senhor, especialmente quando reunidas na Eucaristia. Os bispos, como chefes das igrejas particulares, devem colaborar uns com os outros num ministério que é essencialmente comunitário [communional]. Nem toda iniciativa deve caber somente ao Papa; ele pode simplesmente aceitar o que o corpo de bispos ou alguma porção deles decreta.
 
Ratzinger foi menos abalado que alguns de seus colegas teólogos pela “Nota Prévia de Explicação” anexada ao terceiro capítulo da Lumen Gentium para esclarecer a doutrina da colegialidade. Essa nota forneceu muitas elucidações necessárias, ainda que fazendo a balança pender de certo modo em favor do primado papal. Sua importância não deve ser exagerada, pois não é nem um documento conciliar nem um documento assinado pelo Papa. Embora o Papa evidentemente o tenha aprovado, foi assinado somente pelo secretário geral do Concílio.
 
Ratzinger nesse estágio de sua carreira defendeu que o sínodo de bispos estabelecido por Paulo VI em setembro de 1965 é, sob alguns aspectos, colegial. A maioria dos membros é eleita pelos bispos, e é chamado de sínodo, um termo que evoca estruturas da Igreja antiga. O sínodo, disse ele, é ‘um Concílio permanente em miniatura’. Na mesma linha, ele caracterizou as conferências episcopais como agências intermediárias quase-sinodais entre os bispos individuais e o Papa, possuindo poderes legislativos próprios. Escrevendo para a Concilium em 1965, ele chamou as conferências de realizações parciais da colegialidade e afirmou que elas têm uma base teológica genuína.
 
No Vaticano II houve uma divisão sobre se a Mariologia deveria ou não ser tratada num documento separado. Junto com o geral do corpo de teólogos alemães, Ratzinger apoiou a inclusão de Maria na constituição sobre a Igreja, como acabou acontecendo. Diferentemente do Bispo Wojtyla, ele era apreensivo quanto ao maximalismo mariano e aparentemente avesso a novos títulos como o de “Mãe da Igreja”. Movido parcialmente por considerações ecumênicas, ele aplaudiu o comedimento do Concílio nas referências deste a Maria como Mediadora e Co-Redentora.
 
Ratzinger, nesses primeiros comentários, louvou a constituição sobre a Igreja por sua sensibilidade ecumênica. Ela supera a impressão de que os cristãos não-católicos estão conectados à Igreja somente por algum tipo de desejo implícito, como Pio XII aparentemente ensinara. Lida em conjunto com o decreto sobre o ecumenismo, a Lumen Gentium atribui um status eclesial positivo às comunidades ortodoxas e protestantes. Para Ratzinger, a Igreja é Católica, mas é possível que comunidades eclesiásticas ou igrejas particulares existam irregularmente fora das fronteiras d’Ela. Algumas, como as comunidades ortodoxas orientais, merecem ser chamadas de igrejas no sentido teológico da palavra.
 
Ao longo de sua carreira posterior, Ratzinger continuou a escrever extensivamente sobre as questões levantadas pela constituição do Vaticano II sobre a Igreja. Ele retorna freqüentemente ao tema da Igreja como Povo de Deus, que havia sido tema de sua dissertação. Ao chamar a Igreja com esse título, ele agora diz, o Concílio não estava usando o termo “povo” em sentido sociológico. De um ponto de vista empírico, os Cristãos não são um povo, como pode ser mostrar por qualquer análise sociológica. Mas o não-povo dos cristãos pode tornar-se o povo de Deus por meio da inclusão em Cristo, pela incorporação sacramental em Seu corpo cruficicado e ressuscitado. Noutras palavras, a Igreja é o Povo de Deus porque ela é, em Cristo, um sacramento. Aqui também precisamos notar uma séria falha de recepção: desde o Concílio, “a idéia da Igreja como sacramento quase não entrou na consciência das pessoas”.
 
Ratzinger não é contrário à eclesiologia da comunhão que veio ao primeiro plano no sínodo de 1985 sobre a interpretação do Vaticano II. Graças à Eucaristia, a Igreja está em comunhão com todo o Corpo de Cristo. Mas ele nota que “comunhão” tornou-se, em alguma medida, um slogan, e a palavra “comunhão” é freqüentemente distorcida por uma ênfase unilateral na dimensão horizontal em detrimento do divino. De fato, é também mal usada para promover uma espécie de igualitarismo dentro da Igreja.
 
O jovem Ratzinger atribuiu grande importância à recuperação que o Concílio fez da teologia da igreja local. Desde 1982, em contrapartida, ele defendeu que a Igreja universal tem prioridade histórica e ontológica sobre as igrejas particulares. Não era originalmente composta de igrejas locais ou regionais. Aqueles que falam da prioridade da igreja particular sobre a universal, diz ele, interpretam mal os documentos conciliares. Sobre a colegialidade, o Ratzinger maduro assinala que, de acordo com o Vaticano II, o Bispo é antes de tudo um membro do colégio, que por sua própria natureza é universal. O Bispo é um sucessor dos apóstolos, e cada um destes, com Pedro e sob Pedro, era co-responsável pela Igreja universal. Bispos designados a dioceses participam na direção da Igreja universal ao governarem bem suas próprias igrejas, mantendo-as em comunhão com a Igreja Católica. O sínodo dos bispos, na teologia posterior de Ratzinger, não é mais visto como um órgão colegial ou como um Concílio em miniatura; ele é consultivo do Papa à medida que este desempenha a tarefa dele. Precedendo assim, o sínodo torna a voz da Igreja universal mais claramente audível pelo mundo de nosso tempo.
 
Uma mudança similar é manifesta na visão de Ratzinger sobre as conferências episcopais, as quais ele antes caracterizara como órgãos colegiais com uma verdadeira base teológica. Mas em 1986 ele diz: “Não podemos nos esquecer de que as conferências episcopais não têm base teológica; elas não pertencem à estrutura da Igreja querida por Cristo, que não pode ser eliminada; elas possuem tão-somente uma função prática, concreta”. É difícil negar que, acerca das conferências episcopais e do sínodo dos bispos, o Cardeal retratou suas posições iniciais.
 
Uma das questões mais disputadas na interpretação da Lumen Gentium é o significado da afirmação de que a Igreja de Cristo “subsiste” na Igreja Católica. Alguns interpretaram isso como uma admissão de que a Igreja de Cristo é encontrada em diversas igrejas denominacionais, sendo que nenhuma delas pode alegar ser a verdadeira Igreja. Ratzinger defende o oposto. Para ele, “subsiste” implica na existência integral, como um sujeito completo e íntegro. Assim, a Igreja Católica verdadeiramente é a Igreja de Cristo. Mas o termo “subsiste” não é exclusivo; ele permite a possibilidade de entidades eclesiais que estão institucionalmente separadas da única Igreja. Essa divisão, porém, não é uma desejável complementaridade mútua de realizações incompletas, mas uma deficiência que pede por ser sanada.
 
Na esfera da Mariologia, Ratzinger lamenta o que ele enxerga como mais uma interpretação equivocada do Concílio. A inclusão do capítulo sobre Maria como o ápice da constituição sobre a Igreja, acredita ele, deveria ter suscitado uma nova pesquisa e não o abandono do mistério de Maria. Ele próprio superou certas reservas quanto a títulos marianos, reservas estas que ele havia expressado na época do Concílio. É sumamente necessário recorrer a Maria, ele crê, para aprender a verdade sobre Jesus Cristo que deve ser proclamada.
 
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A constituição pastoral Gaudium et Spes, em sua forma definitiva, foi obra principalmente de teólogos franceses. O grupo alemão não controlou o texto. Naquele momento do Concílio, Ratzinger já notara muitas dificuldades, a começar pelo problema da linguagem. Ao optar pela linguagem da modernidade, o texto da Gaudium et Spes inevitavelmente coloca-se fora do universo da Bíblia, de modo que, como resultado, as citações bíblicas acabaram não sendo muito mais que enfeites. Por causa de sua declarada preferência pelo diálogo, a constituição Gaudium et Spes faz com que a fé apareça não como uma exigência urgente de dedicação total, mas como uma investigação conversacional de questões obscuras. Cristo é mencionado só no fim de cada sessão, quase como uma recordação extemporânea[an afterthought].
 
Ao invés de substituir pronunciamentos dogmáticos pelo diálogo, Ratzinger sustenta que teria sido melhor usar a linguagem da proclamação/anúncio, fazendo apelo à autoridade intrínseca da verdade de Deus. A constituição Gaudium et Spes, baseando-se no pensamento de Teilhard de Chardin, conecta, de modo excessivamente próximo, a esperança cristã com a idéia moderna de progresso. O progresso material é ambivalente, pois pode levar tanto à degradação quanto à verdadeira humanização. A Cruz nos ensina que o mundo não é redimido por avanços tecnológicos mas sim pelo amor sacrificial. Na seção sobre a unificação, a Gaudium et Spes aborda o mundo mais do prisma da funcionalidade e utilidade que do prisma da contemplação e da maravilha.
 
O comentário feito por Ratzinger ao primeiro capítulo da Gaudium et Spes contém ainda outras apreciações provocadoras. O tratamento da consciência no artigo 16, na visão dele, suscita muitas perguntas não resolvidas sobre como a consciência pode errar e sobre o direito de seguir uma consciência errada. O tratamento do livre arbítrio no artigo 17 é, no julgamento de Ratzinger, ‘totalmente pelagiano’[“downright Pelagian”]. Deixa de lado, protesta Ratzinger, todo o complexo de problemas de que Lutero tratou sob o termo ‘servum arbitrium’, ainda que a própria posição de Lutero não faça justiça ao Novo Testamento.
 
Ratzinger não é completamente negativo em seu julgamento. Ele louva a discussão sobre o ateísmo nos artigos 19-21 como ‘equilibrada e bem fundamentada’. Ele fica contente que o documento, embora ‘reprovando’ o ateísmo em todas as suas formas, não faz nenhuma menção específica ao comunismo marxista, como quiseram alguns ‘cold warriors’. Ele se entusiasma com a centralidade de Cristo e do Mistério Pascal no artigo 22, e ele encontra aí uma declaração sobre as possibilidades de salvação dos não-evangelizados muito superior que as expressões ‘extremamente insatisfatórias’ da Lumen Gentium 16, que pareciam sugerir que a salvação é uma conquista humana ao invés de um dom divino.
 
Quanto a essa constituição, o Ratzinger maduro não parece ter retratado suas objeções iniciais, a despeito das exortações dele de que seja aceito o ensinamento integral do Vaticano II. Mas ele julga que as ambigüidades da Gaudium et Spes foram ainda mais agravadas pelas interpretações secularizantes. O Concílio estava certo, sustenta Ratzinger, em seu desejo de uma revisão das relações entre a Igreja e o mundo. Há valores que, tendo sido originados fora da Igreja, podem encontrar lugar, ao menos em forma corrigida, dentro da Igreja. Mas a Igreja e o mundo nunca podem se encontrar sem conflito. As teologias mundanas assimilam com demasiada facilidade o Evangelho aos movimentos seculares.
 
Em referências esparsas aqui e ali em suas entrevistas, Ratzinger menciona pelo menos três desvios específicos nas interpretações.
 
Em primeiro lugar, a Gaudium et Spes fez referência aos sinais dos tempos, mas afirmou que estes precisam ser discernidos e julgados à luz do Evangelho. Os intérpretes contemporâneos tratam os sinais dos tempos como um novo método que encontra a verdade evangélica nos eventos atuais e torna-os normativos para julgar o testemunho da Escritura e da Tradição.
 
Em segundo lugar, a constituição pastoral pode ter errado na direção do otimismo, mas ela fala abertamente do pecado e do mal. Em nada menos que cinco locais Satanás é mencionado explicitamente. Os intérpretes pós-conciliares, contudo, são inclinados a descartar Satanás como um mito primitivo.
 
Finalmente, a Gaudium et Spes faz constante referência ao Reino de Deus. Leitores entusiásticos preferem falar simplesmente do reino (sem fazer referência a nenhum rei) ou, de modo ainda mais vago, aos ‘valores’ do reino: paz, justiça e conservação. Poderá esse trio de valores, pergunta Ratzinger, tomar o lugar de Deus? Valores, responde ele, não podem substituir a verdade, nem podem substituir Deus, pois são apenas um reflexo d’Ele. Sem Deus, os valores tornam-se distorcidos pelas ideologias humanas, como foi visto nas várias formas de marxismo.
 
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Inegavelmente, houve algumas mudanças na avaliação que Ratzinger faz do Vaticano II. Quando ainda estava encontrando seu próprio caminho teológico, ele foi nos primeiros anos do Concílio impropriamente dependente de Karl Rahner como mentor. Só gradualmente ele chegou a ver que ele e Rahner viviam, falando teologicamente, em planetas opostos. Enquanto Rahner encontrava a revelação e a salvação primariamente nos movimentos interiorizantes do espírito humano, Ratzinger encontra-as nos eventos históricos atestados pela Escritura e pelos primeiros Padres da Igreja.
 
A carreira de Ratzinger parece ter afetado sua teologia. Como arcebispo e Cardeal, ele teve de assumir cada vez mais responsabilidade pela vida pública da Igreja e adquiriu uma percepção mais profunda da necessidade de estruturas sacramentais universais para salvaguardar a unidade da Igreja e a fidelidade dela ao Evangelho. Ele também teve de lidar com interpretações do Vaticano II que ele e os Padres conciliares nunca haviam previsto. As primeiras esperanças dele acerca de novos mecanismos como conferências episcopais foram atenuadas com o transcorrer dos acontecimentos.
 
Não obstante as mudanças, Bento XVI mostrou uma consistência fundamental. Como personalista em filosofia e como um teólogo na Tradição agostiniana, ele espera que a Igreja mantenha uma postura de oração e adoração. Ele suspeita da tecnologia, do ativismo social e das alegações humanas de se estar construindo o Reino de Deus. Por essa razão, ele aprecia mais os documentos conciliares sobre a liturgia e a revelação e tem reservas quanto à constituição sobre a Igreja no mundo moderno, ao mesmo tempo que dá crédito a ela por algumas conquistas sólidas.
 
O contraste entre o Papa Bento e seu predecessor é impressionante. João Paulo II foi um moralista social, ansioso por envolver a Igreja na elaboração de uma ordem mundial de paz, justiça e amor fraterno. Entre os documentos do Vaticano II, o favorito de João Paulo era certamente a constituição pastoral Gaudium et Spes. Bento XVI, que enxerga a Gaudium et Spes como a mais fraca das quatro constituições, mostra uma clara preferências pelas outras três.
 
Embora o filósofo polonês e o teólogo alemão tenham perspectivas diferentes, eles concordam que o Concílio foi seriamente mal interpretado. O Vaticano II precisa ser entendido em conformidade com o ensinamento constante da Igreja. O verdadeiro espírito do Concílio deve ser encontrado na letra e não fora dela.
 
O Cardeal Avery Dulles, S.J., detém a Cátedra Laurence J. McGinley de Religião e Sociedade na Universidade de Fordham.

(First Things
, n.º 160, fevereiro de 2006, pp. 24-29. Negritos e colorido nossos, itálicos do original. Fonte: http://firstthings.com/ftissues/ft0602/articles/dulles.html)

    Para citar este texto:
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MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/ratzinger_bento/
Online, 21/08/2019 às 12:59:45h