Igreja

O Quarto Segredo de Fátima
John Vennari

Em 22 de novembro de 2006, o livro de Antonio Socci Il Quarto Segreto di Fatima (O Quarto Segredo de Fátima), chegou às livrarias da Itália. Após muita investigação, o autor chega a conclusão que o Vaticano não revelou formalmente o Terceiro Segredo em sua totalidade.
     Não se está superestimando a importância desse livro. O Sr.. Socci é, na Itália, um autor da atualidade e âncora da TV, não associado com qualquer grupo “tradicionalista”. Na realidade, ele iniciou o projeto na firme crença de que o Vaticano tinha revelado inteiramente o Segredo em 26 de junho de 2000. Todavia, quanto mais investigava, mais se convencia que o Segredo no seu todo não tinha sido revelado.
 
O desafio de Paolini
 
Na Introdução do livro, Socci escreve que ficou intrigado por um artigo publicado pelo jornalista italiano Vittorio Messori, por época do falecimento de Irmã Lúcia: “O Segredo de Fátima, a Cela da Irmã Lúcia foi lacrada”. Neste artigo, Messori fala dos muitos escritos e “Cartas aos Papas” que a Irmã Lúcia teria deixado em sua cela. Messori então menciona a revelação do segredo feita pelo Vaticano em 26 de junho de 2000 “o qual, ao invés de solucionar o mistério, abriu outros sobre sua interpretação, seus conteúdo e sobre a integralidade do texto revelado.”.
Isso gerou um sem-número de perguntas em Socci.  Porque Messori “um grande jornalista, extremamente preciso... o mais traduzido colunista católico no mundo” lançaria tal suspeita sobre o Vaticano? Como poderia uma pessoa como Messori, tão próximo ao ambiente vaticano, ser persuadido que a versão oficial do Terceiro Segredo de Fátima não era convincente?
Isso era especialmente intrigante, pois cinco anos antes, com o comunicado acerca da Visão do Segredo, Messori não expressou qualquer reserva sobre o que o Vaticano publicara. Agora ele parece ter dúvidas, parece ter perguntas.
Socci respondeu enganjando-se em uma cortês discussão jornalística com Messori, na qual Socci defendia a posição do Vaticano, mas então ele diz que “Fui surpreendido por um artigo escrito por um jovem escritor católico, Solideo Paoloni”, que apareceu em uma revista tradicionalista, entrando no debate entre Socci e Messori..
Socci diz que Paoloni “listou uma série de argumentos contra a versão oficial do Vaticano (que também eram as minhas naquela ocasião).”. Paoloni argumentava que o Vaticano ainda retém a revelação da parte principal do Terceiro Segredo “devido ao seu conteúdo explosivo”. O Sr. Paoloni pesquisou profundamente o assunto sobre Fátima e escreveu um livro sobre o Terceiro Segredo, Fatima, Don’t Despise Prophecies/Fátima, Não Desprezem as Profecias, que foi publicado na Itália. Para sua própria surpresa, Socci considerou os argumentos de Paoloni dignos de consideração.
O Sr. Socci expressa seu ponto de vista, defendendo ser um erro da Cúria e da mídia católica ignorar a objeção dos católicos tradicionais que argumentam que o Terceiro Segredo não foi inteiramente revelado. “Por exemplo”, escreve ele, “no livro editado pelo Pe. Paul Kramer [The Devil’s Final Battle/A Batalha Final do Demônio] que reuniu os trabalhos e artigos de vários autores, há a denúncia da omissão pelo Vaticano em atender aos pedidos de Nossa Senhora de Fátima e assegurou que “o preço da indecisão do Vaticano poderia ser extremamente bem alto e será pago pela humanidade.”.
Em suma, Socci reconheceu que existem muitas perguntas deixadas sem respostas, muitos pontos enigmáticos sobre o Segredo.
As apreensões de Socci só se intensificaram quando ele buscou respostas da hierarquia do Vaticano, especialmente do Cardeal Bertone, que foi co-autor com Cardeal Ratzinger do documento de 26 de junho de 2000 sobre o Segredo, “The Message of Fátima” / “A Mensagem de Fátima”.
Socci escreve, “Eu busquei muitas autoridades influentes de dentro da Cúria, como o Cardeal Bertone, hoje Secretário de Estado no Vaticano, que foi central na publicação do Segredo em 2000... O Cardeal, que na verdade me favoreceu com sua consideração pessoal, tendo me solicitado para conduzir conferências na sua ex-diocese de Genova, não julgou necessário responder ao meu pedido de uma entrevista. Estava dentro de seu direito de fazer esta escolha, claro, mas isso apenas aumenta preocupação acerca da existência de questões embaraçosas e, acima de tudo, que há algo (extremamente importante) que necessita permanecer escondido.”.
Ele termina sua Introdução dizendo que não esperava encontrar um “Enigma colossal” acerca do Terceiro Segredo. Embora ele possa não apoiar todas as teorias sobre este assunto contidas na literatura tradicional, “no final eu tenho que me render”, diz ele, à conclusão de que existem dois textos do Segredo, um dos quais ainda a ser revelado ao mundo.
 
“Eu Acho que Tem Mais”
 
Os leitores se recordarão que em 13 de maio de 2000, durante a beatificação pelo Papa de Jacinta e Francisco, em Fátima, o Cardeal Ângelo Sodano, então Secretário de Estado do Vaticano, anunciou que o Terceiro Segredo seria revelado, e divulgou o que ele alegou ser parte disto. Sodano anunciou que o Segredo fala de “um bispo vestido de branco” que, enquanto abria seu caminho entre os cadáveres de mártires, “cai ao solo, aparentemente morto, sob o tiro de uma arma de fogo.”.
Cardeal Sodano então indicou que esta era uma previsão da tentativa de assassinato de João Paulo II em 1981.
Embora a maioria da multidão aplaudisse o discurso de Sodano, alguns foram imediatamente céticos. Em 13 de maio de 2000, o número da Associated Press citou Julio Esteleo, 33, um vendedor de carros português: “Tudo o que eles disseram aconteceu no passado. Isso não é uma predição. É desapontador, eu acho que tem mais.”.
De fato, muitos católicos disseram, “Eu acho que tem mais.”.
Então, em 26 de junho de 2000, quando a Visão do Segredo foi finalmente publicado, soubemos que o Cardeal Sodano não tinha dito a verdade. O Segredo não diz que o Papa cai “aparentemente morto”, mas diz que ele é morto.
Até mesmo o Washington Post, em sua matéria de 1o. de Julho, notou a discrepância: “O Terceiro Segredo Incita Mais Perguntas: A Interpretação de Fátima diverge da Visão”.
“Em 13 de maio, o Cardeal Ângelo Sodano, um alto funcionário do Vaticano, anunciou a iminente divulgação do texto cuidadosamente guardado. O Cardeal disse que o Terceiro Segredo de Fátima prenunciou não o fim do mundo, como alguns especulavam, mas o disparo feito contra o Papa João Paulo II, na Praça de São Pedro, em 13 de maio de 1981. Sodano disse que o manuscrito… fala de um ‘bispo vestido de branco’ que, enquanto fazia seu caminho entre cadáveres e mártires, cai ao solo, aparentemente morto, sob o disparo de uma arma de fogo. Mas o texto divulgado na segunda-feira (26 de junho) não deixa qualquer dúvida acerca da sorte do bispo, dizendo que ele ‘era morto por um grupo de soldados que o balearam e flecharam. ’. Todos os que estavam com o bispo também morrem: bispos, sacerdotes, monges, freiras e leigos. João Paulo sobreviveu ao tiro que acertou suas mãos de um único atirador, Mehmet Ali Agca, e ninguém na multidão foi ferido no ataque.”
Este jornal secular não pode conter seu olhar recriminador com relação o Cardeal Sodano, uma vez que está claro que o referido Cardeal deu uma visão falseada do Terceiro Segredo ao forçá-la se encaixar em uma interpretação enganosa.
Os católicos preocupados imediatamente contrastaram o que o Vaticano revelou como o completo Terceiro Segredo com o que o Cardeal Ratzinger disse a este respeito em 1984. Em sua famosa entrevista para Vittorio Messori, o Cardeal Ratzinger disse que o Segredo relaciona-se com “os perigos que ameaçam a fé e a vida dos cristãos, e, portanto do mundo, bem como a importância dos últimos tempos (novisssimos).”. O Cardeal explicou ainda que “as coisas contidas no Terceiro Segredo correspondem ao que está anunciado na Escritura e confirmado por muitas outras aparições marianas... “. Muito embora a visão de um Papa sendo morto por soldados não reflita necessariamente “perigos que ameacem a fé”, nem necessariamente correspondam aos “últimos tempos”. Ademais, qualquer um pode pesquisar em vão “outras aparições marianas” que não vai encontrar qualquer referência sobre a profecia de um papa sendo baleado por um grupo de soldados. Nem há qualquer referência a este tipo de evento nas Escrituras.
As especulações foram construídas baseadas em renomados pesquisadores sobre Fátima - dentre eles, Pe. Alonso e Frei Michel da Santíssima Trindade. Esses estudiosos deduziram, após exaustivo estudo do que tinha anteriormente sido dito sobre o Terceiro Segredo, que o conteúdo do Terceiro Segredo concernia à profecia de uma grande crise de Fé na Igreja Católica.
 
Os Peritos Falam
 
Sobre o Terceiro Segredo de Fátima, Cardeal Oddi observou que “Ele não tem nada a ver com Gorbachev. A Virgem Abençoada nos alertou contra a apostasia na Igreja.”
O já falecido Padre Joaquin Alonso (+1981), que por dezesseis anos foi o arquivista oficial em Fátima, o qual entrevistou Irmã Lúcia por diversas vezes, nos dá o seguinte testemunho:
 “É portanto completamente provável que o texto faça referências concretas à crise de fé dentro da Igreja e à negligência dos próprios pastores [e as] brigas internas no seio mesmo da Igreja e de grave negligência pastoral da alta hierarquia...
"No período precedente ao grande triunfo do Imaculado Coração de Maria, coisas terríveis estão previstas para acontecer. Essas coisas formam o conteúdo da Terceira parte do Segredo. O que são elas? Se ‘em Portugal o dogma da Fé sempre será preservado, ’… pode-se claramente deduzir daí que em outras partes da Igreja esses dogmas tornar-se-ão obscuros ou se perderão totalmente...
"O texto não publicado menciona circunstâncias concretas? É bem possível que mencione não apenas uma crise real da fé na Igreja durante este interstício, mas, por exemplo, à semelhança do segredo de La Sallete, haja mais referências concretas às brigas internas de Católicos ou à queda de sacerdotes e religiosos. Talvez o texto faça até referência aos erros da alta hierarquia da Igreja. Por esta razão, nenhuma delas é externa a outras comunicações que Irmã Lúcia teve sobre o assunto.
Bispo Amaral, o terceiro Bispo de Fátima, disse o seguinte sobre o Segredo em uma palestra em Viena, Áustria, em 10 de setembro de 1984:
“Seu conteúdo diz respeito apenas a nossa fé. Identificar o [Terceiro] Segredo com anúncio de catástrofes ou com um holocausto nuclear é deformar o significado da mensagem. A perda da fé por um continente é pior do que a aniquilação de uma nação; é fato de que a fé está diminuindo na Europa.”
Há ainda a famosa citação do Cardeal Luigi Ciappi, teólogo pessoal de quatro Papas, incluindo o Papa João Paulo II:
“No Terceiro Segredo é predito, dentre outras coisas, que a grande apostasia na Igreja começa no topo.”
Os Católicos têm bons motivos para acreditar que haveria ainda uma parte do Segredo – um segundo texto ainda a ser revelado – de “conteúdo explosivo” referente à apostasia massiva na Igreja.
 
Ele a Segurou Contra a Luz
 
Os Católicos teriam também bons motivos para suspeitar da existência de um segundo texto por causa da evidência advinda do Bispo de Fátima, Dom Venâncio.
Em 1957, quando o Cardeal do Santo Ofício, Cardeal Ottaviani, solicitou ao Bispo de Fátima o envio do Segredo ao Vaticano, o Bispo de Fátima, Dom Silva, confiou à tarefa ao seu Bispo Auxiliar, Dom Venâncio.
Em determinada hora, quando o Bispo Venâncio estava sozinho com o Segredo, ele levantou o envelope contra a luz. Ele pode perceber dentro do grande envelope do bispo, um menor, o da Irmã Lúcia. Dentro desse envelope estava uma folha de papel comum com margens, de cada lado, de ¾ de centímetro. Frei Michel observa que o Bispo Venâncio “teve o cuidado de anotar o tamanho de tudo”. É por meio do Bispo Venâncio que tomamos conhecimento que o Segredo final estava escrito em uma pequena folha de papel contendo cerca de 25 a 30 linhas.
Entretanto, o Terceiro Segrêdo de 26 de junho foi escrito pela Irmã Lúcia em quatro folhas de papel e continha 62 linhas. Aqui, novamente, encontramos evidência de dois textos do Segredo. Essa evidência foi confirmada de maneira notável no verão passado.
 
“Mesmo Que Eu Soubesse Mais A Respeito”
 
Socci esteve em contato com o Sr. Salideo Paolini, o jovem jornalista que originalmente desafiou Socci sobre o Segredo. Paolini generosamente cedeu a Socci seus achados sobre o Terceiro Segredo que vieram com o ex-secretário do Papa João XXIII, Arcebispo Loris Francesco Capovilla.
Eu me manterei estritamente à cronologia dos eventos como eles aparecem no Livro de Socci.
Solideo Paolini visitou Capovilla em sua casa, em Sotto il Monta, em 5 de julho de 2006. Após conversas preliminares, Paolini disse que a razão de sua visita deriva-se de sua pesquisa jornalística sobre Fátima. “Uma vez que o senhor é uma fonte primária de informação” disse Paolini, “eu gostaria de fazer algumas perguntas”, particularmente sobre o Terceiro Segredo.
O Arcebispo Capovilla inicialmente respondeu: “Na verdade, não. Para evitar mal-entendidos, porque já foi oficialmente revelado, eu tenho o dever de me ater ao que foi dito. Mesmo se eu soubesse mais a respeito do assunto, nós temos o dever de nos manter obedientes ao que é dito nos documentos oficiais.”
Isso é uma admissão fascinante que dá uma idéia de como o Vaticano opera. O Vaticano apresentou sua “revelação oficial” sobre o assunto, e um prelado aposentado do Vaticano insiste que tem o dever de se manter obediente aos documentos oficiais, “mesmo se eu soubesse mais a respeito.” Isso mostra a Paolini como a política é normalmente obscurece tais matérias, e também levanta uma cortina. É uma pista do Arcebispo, “Sim, eu sei mais sobre o assunto!”
O Arcebispo sorriu nesta hora e disse, “Por favor, escreva-me suas perguntas e eu as responderei.” Disse que checaria em seus papéis, se ele ainda os tivesse, uma vez que ele já tinha doado praticamente tudo ao museu. Ele disse então a Paolini, “Eu lhe enviarei alguma coisa, talvez uma frase... apenas escreva e espere.”
Uma frase?, pensou Paolini, o que ele poderia dizer com “Eu lhe enviarei uma frase”?
Três dias depois, Paolini enviou ao Arcebispo Capovilla uma lista de perguntas. Em 18 de julho, Paolini recebeu um pacote do de Capovilla contendo suas respostas e alguns papéis de seus arquivos.
Paolini escreve, “Ao lado de minhas perguntas sobre a existência de um texto não publicado do Terceiro Segredo, o qual estaria ainda a ser revelado, cuja existência é altamente provável devido ao grande número de pistas, Msgr. Capovilla (que, como é sabido, leu o Terceiro Segredo), escreveu literalmente, “Eu não sei nada.”
Paolini ficou atordoado. O Arcebispo Capovilla tinha lido o Segredo, conhecia seu conteúdo, estava em posição de declarar de forma inequívoca, que todo o Terceiro Segredo foi comunicado no ano 2000 e que nada mais havia para ser revelado. No entanto ele disse, “Eu não sei nada!”
Essa expressão, opinou Paolini, estava “ironicamente escondendo uma certa ‘omertà siciliani’” … um tipo de lei de silêncio da máfia.
Isso não era o fim das surpresas.
O pacote enviado por Capovilla continha alguns papéis oficiais e um pequeno cartão autografado escrito:
“14 de julho de 2006
“Prezado Solideo Paolini,
“Estou lhe enviando alguns papéis do meu arquivo. Sugiro que adquira o livreto Message of Fatima [Mensagem de Fátima], publicado pela Congregação para Doutrina da Fé, ano 2000.”
“Muitas bençãos,
“Loris Capovilla”
Que sugestão estranha! Certamente o Arcebispo Capovilla estava ciente que Paolini tinha pesquisado o assunto do Terceiro Segredo extensivamente e já possuía o documento de 26 de junho. Estava claro para Paolini que se tratava ainda de uma outra pista do Arcebispo. Era como se Capovilla dissesse, “Leia o documento de 26 de junho novamente, mas desta vez, a luz dos documentos que estou lhe enviando agora!”
Realmente, Paolini encontrou uma bomba nos documentos.
“Ao comparar o livreto publicado pelo Vaticano com os documentos de arquivo que o secretário de João XXIII me enviou,” disse Paolini, “uma contradição aberrante imediatamente surgiu frente aos olhos do autor nas “notas reservadas”, com um selo de aprovação sobre ele [selo oficial]. Ele certificava que o Papa Paulo VI leu o Segredo na tarde de quinta-feira, em 27 de junho de 1963, enquanto que o documento oficial do Vaticano de 26 de junho 2000 afirma que, ‘Paulo VI leu o conteúdo, em 27 de março de 1965, e enviou o envelope para os arquivos do Sant’Uffizio, decidindo não publicar o texto.”
Então temos datas discrepantes. Os documentos oficiais do Vaticano de Capovilla dizem que Paulo VI leu o Segredo em 27 de Junho de 1963, enquanto o documento oficial do Vaticano de 26 de junho declara que o mesmo Papa leu o Segredo em 27 de Março de 1965.
Paolini imediatamente telefonou para o Arcebispo de Capovilla para procurar uma explicação sobre a contradição das datas. Capovilla foi um pouco evasivo em sua resposta, com declarações do tipo “não estamos falando sobre as Escrituras”. Paolini imediatamente respondeu, “Sim, Excelência, mas minha referência é sobre um texto oficial escrito (um documento do Vaticano oficial), que é claro e baseado sobre outros documentos de arquivo!” Msgr. Capovilla respondeu, “Bem, talvez o pacote de Bertone [o documento de 26 de junho] não seja o mesmo do pacote de Capovilla...”
Nessa altura, uma luz brilhou na mente de Paolini, e ele arriscou a pergunta chave: “Então ambas as datas estão corretas porque existem dois textos do Terceiro Segredo?”
Depois de uma pequena pausa, o Arcebispo Capovilla respondeu, “exatamente!”
Essa evidência quente, publicada pela primeira vez no livro de Socci, é a primeira vez que uma autoridade do Vaticano, embora aposentada, admitiu que sim, que existe. Nas palavras de Socci: “um Quarto Segredo, ou melhor, uma segunda parte do Terceiro Segredo (evidentemente a continuação das palavras de Nossa Senhora interrompidas por aquele “etc”), que ainda não foram divulgadas, e que tomou um caminho diferente dentro dos muros do Vaticano.”
Aqueles Católicos que nos últimos seis anos tiveram que suportar o ridículo e se contentar em insistir que o Vaticano não tinha divulgado todo o Segredo, que insistiram na existência de dois textos, estão vingados pelos achados publicados no livro de Socci Fourth Secret of Fátima [O Quarto Segredo de Fátima].
 
Uma Outra Discrepância: “Expressões do Dialeto Português”
 
No mesmo capítulo, Socci levanta outros pontos que sugerem dois diferentes textos do Segredo. Um dos mais surpreendentes diz respeito ao relato das “expressões do dialeto português” que o Segredo contém.
Socci observa que o Cardeal Ottaviani tinha dito que quando João XXIII abriu o envelope [contendo o Segredo] e o leu, ele o compreendeu completamente mesmo tendo sido escrito em português. Entretanto Frei Michel da Santíssima Trindade, autor de The Whole Truth About Fatima [Toda a Verdade sobre Fátima], salienta que o Papa encarregou um certo Msgr. Tavares para ajudá-lo com certas expressões portuguesas. O Arcebispo Capovilla também confirma que uma vez o texto continha expressões dialéticas portuguesas, “um sacerdote denominado Msgr. Tavares foi chamado.”
Socci insiste que essa discrepância só pode ser entendida se houver dois textos do Segredo, um que João XXIII pode ler sem a assistência do Msgr. Tavares, e um outro que requereu sua ajuda.
Socci testou essa teoria consultando Mariagrazio Russo, um perito em língua portuguesa, que conduziu uma análise acurada da Visão do Segredo liberada pelo Vaticano em 2000. Não apenas Russo concluiu que existiam muitas imprecisões na tradução oficial do Vaticano do texto português de quatro páginas da Irmã Lúcia (o que é curioso em um documento do Vaticano desta importância), mas ele não encontrou quaisquer “expressões de dialeto”ou regionais para as quais ele solicitou um assistente português.
 
Como Isso Pode Acontecer?
 
Socci constrói um relato hipotético do que aconteceu em 2000 por trás dos muros do Vaticano. Socci acredita que quando João Paulo II decidiu revelar o Segredo, uma disputa de poder de toda sorte entrou em erupção no Vaticano. Ele postula que João Paulo II e o Cardeal Ratzinger queriam revelar o Segrêdo em sua totalidade, mas o Cardeal Sodano, então Secretário de Estado se opôs a idéia. E a oposição de um Secretário de Estado do Vaticano é formidável.
Um consenso foi alcançado que lamentavelmente revela a ausência de virtude heróica dos principais atores.
A visão do “Bispo vestido de branco”, que é as quatro páginas escritas pela Irmã Lúcia seria inicialmente revelada pelo Cardeal Sodano, juntamente com sua interpretação absurda que o Segredo é nada mais do que a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II em 1981.
Ao mesmo tempo, na cerimônia de beatificação de Jacinta e Francisco em 13 de maio de 2000, o Papa João Paulo II teria “revelado” obliquamente a outra parte – a mais “terrível parte” – do Segredo em seu sermão. Foi aí que João Paulo II falou do Apocalipse: “Um outro portento apareceu no Céu; olhe, um grande dragão vermelho”(Apoc. 12, 3). Essas palavras da primeira leitura da Missa nos fazem pensar que a grande batalha entre o bem e o mal, mostrando como o homem, quando coloca Deus de lado, não consegue alcançar a felicidade, mas termina por se destruir... A Mensagem de Fátima é um chamado a conversão, alertando a humanidade a não ter qualquer parte com o “dragão” cuja “cauda varreu um terço das estrelas do Céu, e as precipitou na Terra” (Apoc. 12:4).
Os Padres da Igreja sempre interpretaram as estrelas como sendo o clero, e as estrelas varridas pela cauda do dragão indica um grande número de clérigos que estariam sob a influência do demônio. Esse foi o jeito do Papa João Paulo II explicar que o Terceiro Segrêdo também prediz uma grande apostasia.
Foi uma revelação implícita do Segredo. Desse jeito, o Vaticano, e o próprio Papa, não poderiam ser acusados de mentir frente a perguntas frontais: “O Terceiro Segredo foi totalmente revelado?” Resposta: “Sim, ele foi totalmente revelado.”
Existem aqueles que podem achar essa hipótese difícil ser aceita dada a sua forma rebuscada. Pode ser objetado que pessoas normais não agem dessa forma. Eu, contudo, considero essa hipótese plausível.
Primeiro, temos a recente declaração do Bispo Williamson da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que relata que um sacerdote da Áustria, conhecido seu, disse a ele que o Cardeal Ratzinger confidenciou (aos padres austríacos) que tinha duas coisas pesando em sua consciência. Uma foi ter manejado mal a Mensagem de Fátima em 26 de junho, a outra foi a questão sobre o Arcebispo Lefebvre, em 1988. É relatado que o Cardeal Ratzinger teria dito que no caso do Arcebispo Lefebvre, “Eu falhei”, e no caso de Fátima, “minha mão foi forçada.” A hipótese de Socci apóia a alegada afirmação do Cardeal Ratzinger de terem forçado sua mão.
Segundo, qualquer um familiarizado com a Romanita vaticana, não deveria ter dificuldade em aceitar a plausibilidade de tal hipótese.
O Vaticano é uma burocracia romana estabelecida desde o tempo de Charlemagne. Pode ser a mais delicada e prudente, na melhor das hipóteses, ou a mais evasiva e dissimulada, na pior delas. Romanita é um tipo de poder que é mestre na atenuação de uma declaração. É perita em livrar-se de situações embaraçosas. Nem afirma e nem nega. Responde a perguntas, respondendo suas próprias perguntas. Evade-se, desarmando o inquiridor com charme.
Como agora vivemos num período em que “a fumaça de Satanás entrou na Igreja”, devemos admitir dolorosamente que o Vaticano pós-Conciliar, na maioria dos casos, há muito tempo abandonou a máxima evangélica “seja o seu sim, sim e seu não seja não” (Mat.5:37). Essa é uma das razões pelas quais a combativa publicação tradicionalista na Itália denominou-se Si Si No No: literalmente; Sim, Sim, Não, Não, tendo em vista que se conseguir um sim ou não direto atualmente das autoridades vaticanas – descobrir o que uma autoridade do Vaticano realmente pensa – pode se tornar uma tarefa impossível.
Dois exemplos podem ajudar a ilustrar.
O Papa João Paulo II conduziu sua “Apologia Papal”, em 12 de maio de 2000, como parte das celebrações do Millennium que tomou todo aquele ano. Ele pediu ao Cardeal Ratzinger para preparar uma defesa teológica do programa de Apologia a ser divulgada pela Sagrada Congregação para Doutrina da Fé.
Cardeal Ratzinger, que certamente é um progressista, entretanto não aprovou esse programa de apologias. Eis então como tratou sua incumbência. De acordo com o jornalista do Vaticano Sandro Magister, um dos mais pró-Ratzinger jornalistas em Roma, Cardeal Ratzinger construiu os argumentos contra o programa de Apologias com grande firmeza e precisão. Ele então construiu as respostas para esses argumentos de forma fraca e insípida. Esse era o jeito do Cardeal de afirmar, indiretamente, que o programa de Apologias Papais não podia ser defendido teologicamente.
Entretanto ele não ousou dizer isso abertamente. Nunca se saberia que essa era a sua intenção, a menos que se tivesse um dom especial de clarividência capaz de ler a mente do Cardeal. No final, entretanto, o que o católico teve em mãos foi “Memória e Reconciliação”, um dos documentos pós-conciliares mais ridículo e infundado doutrinariamente que o Vaticano já produziu – um delírio doentio. Entretanto, esse documento veio do homem cuja primeira obrigação era a de assegurar a integridade doutrinária.
Novamente, ninguém poderia aí acusar o Cardeal de virtude heróica, mas dá uma idéia de como o Vaticano opera. Em nome da obediência, ou ao menos por um certo compromisso com a obediência, o Cardeal Ratzinger publicou um documento sobre assunto doutrinal que confundiu milhões de fiéis católicos.
Há ainda um outro exemplo triste que inspira pouca admiração no Vaticano de hoje, um que eu mesmo experimentei.
 
Obedeça!
 
Anos atrás, eu estava com uma comunidade ligada ao Rito Tridentino que depois de 1988 vislumbrava a possibilidade de regularização. Em janeiro de 1994, dois de nós viajamos para o escritório da Ecclesia Dei, em Roma, para discutir a possibilidade. Para os fins da “regularização” a viagem foi uma perda de tempo; mas como uma lição dura de como o Vaticano de hoje opera foi valiosa.
Em determinado ponto de nosso encontro, Pe. Arthur B. Caulkins do escritório do Vaticano da Ecclesia Dei nos disse que era nosso dever obedecer! E se as ordens fossem ruins, a culpa não recai sobre nós, mas sobre os que nos comandam.
Pe. Caulkins falava sério.
Não podia acreditar no que escutava. Essa forma de obediência cega significa que o clero católico, religiosos – e mesmo funcionários do Vaticano – acatarão às ordens mesmo que sejam prejudiciais à Fé e às almas, dizendo o tempo todo que não incorrem em responsabilidade porque “Eu estava apenas seguindo ordens”; “É falta de meu superior, não minha!” A Missa Nova, meninas coroinhas, Comunhão na mão, Dia Mundial da Juventude à la Rock ‘n’roll, atividades pan-religiosas com religiões pagãs, todas essas afrontas à fé católica são servidas em nome da “obediência”, que não passa, na verdade, de covardia e servidão,
Se este é a o princípio que atualmente norteia a atuação política do Vaticano, que é uma perversão da piedade pessoal que o católico deve a seus superiores religiosos, então não nos surpreende que anomalias e malfeitorias oficiais estourem por todo o mundo católico. Também ajuda a explicar a hipótese de Socci acerca do comprometimento envolta da revelação do Terceiro Segredo.
 
Análises Atuais
 
O livro de Socci contém muitos outros pontos numerosos para detalhá-los aqui. Ele fala do disfarçado desprezo de João XXIII e Paulo VI pela Irmã Lúcia; o fato de que a parte escondida do Segrêdo prediga graves crises da Fé e provavelmente contenha avisos negativos sobre o Vaticano II; a absurda reunião a portas fechadas de 17 de novembro de 2001 com a Irmã Lúcia com o então Arcebispo Bertone que alegou que a Irmã Lúcia concordava com tudo no documento de 26 de junho, mesmo que o documento minasse Fátima tão severamente que o Los Angeles Times intitulou seu artigo sobre isso: “O Principal Teólogo do Vaticano Discretamente Desbanca o Culto em Fátima”.
Socci ainda diz que o texto não publicado do Segredo muito provavelmente contenha avisos de desastres naturais imensos.
No que tange a Consagração da Rússia, Socci conclui que ainda está por ser feita. Tal se evidencia simplesmente se olhando para a decadência do estado Russo. Apenas podemos parabenizar o bom senso de Socci. Só mesmo observadores os mais irreligiosos e desligados podem insistir que a Rússia de hoje - tomada na atualidade pelo divórcio, aborto, cultos e homossexualidade – testemunha a promessa do Triunfo do Imaculado Coração. 
(destaques nossos)

    Para citar este texto:
"O Quarto Segredo de Fátima"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/quarto_segredo/
Online, 27/06/2017 às 07:17:47h