Igreja

Perigo do Anticristo! O cardeal Biffi dá o alarme à Igreja
Sandro Magister

ROMA, 3 de junho de 2005 – O cardeal Giacomo Biffi, 77 anos, arcebispo de Bologna de 1984 a 2003, teólogo e grande estudioso de santo Ambrósio, reuniu num volume publicado nestes dias por Cantagalli alguns dos seus escritos não especificamente teológicos.
 
Título do volume: “Pinocchio, Peppone, o Anticristo e outras divagações” 
O Anticristo, a que se refere o título, é aquele descrito pelo filósofo e teólogo russo Vladimir Sergeevic Soloviev no seu último livro escrito pouco antes da sua morte, em 1900: “Os três diálogos e a narrativa do Anticristo”.
Por que o cardeal Biffi quer repropô-lo hoje à atenção de todos? Porque – escreve ele – “Soloviev preanunciou com lúcida previsão a grande crise que atingiu o cristianismo nas últimas décadas do século XX”.
Na figura do Anticristo descrito por Soloviev, de fato, Biffi reconhece o “o “símbolo da religiosidade confusa e ambígua do tempo em que hoje vivemos”. Vê descritos e criticados o “cristianismo dos valores”, a enfatização das “aberturas”, a obsessão do “diálogo” a qualquer custo, “onde parece que pouco resta da pessoa única e inconfrontável do Filho de Deus crucificado por nós, ressuscitado, hoje vivo. É a situação que dom Divo Barsotti denunciou com tremenda frase e tremendamente verdadeira quando disse que nos nossos dias no mundo católico Jesus Cristo muito freqüentemente é só uma desculpa solo para falar do outro”.
Na narrativa de Soloviev, o Anticristo primeiramente é eleito Presidente dos Estados Unidos da Europa, depois aclamado imperador em Roma, se apossa do mundo todo, e no fim se impõe também à vida e à organização das Igrejas. Mas não é tanto sobre esses fatos que o cardeal Biffi chama a atenção, mas quanto às características da personagem. Eis que, repentinamente – em algumas passagens do seu trabalho que, no entanto, exige ser lido na sua íntegra – como o cardeal o resume e como tira deste uma lição para a Igreja de hoje: 
 
 
Virão dias, ou melhor, já vieram...
por Giacomo Biffi
 
 
O Anticristo era – diz Soloviev – “um espiritualista convicto”. Acreditava no bem e até em Deus. Era um asceta, um estudioso, um filantropo. Dava “altíssimas demonstrações de moderação, de desinteresse e de ativa beneficência”.
Na sua primeira juventude se destacara como douto e arguto exegeta: uma sua volumosa obra de crítica bíblica lhe havia propiciado um diploma de honra na universidade de Tubinga.
Mas o livro que lhe dera fama e consenso universal leva o título: O caminho aberto para a paz e a prosperidade universal”, onde “se unem o nobre respeito às tradições e símbolos antigos com um vasto e audaz radicalismo de exigências e diretivas sociais e políticas, uma liberdade sem limites de pensamento com a mais profunda compreensão de tudo aquilo que é místico, o absoluto individualismo com uma ardente dedicação ao bem comum, o mais elevado idealismo com princípios e diretivas com a precisão completa e a vitalidade das soluções práticas”.
É verdade que alguns homens de fé se perguntavam por que nenhuma vez fora pronunciado o nome de Cristo; mas os outros replicavam: “Uma vez que o conteúdo do livro se encontra permeado do verdadeiro espírito cristão, do amor ativo e da boa disposição universal, o que vocês querem mais?”.
Por outro lado, ele “não tinha por Cristo uma hostilidade de princípio”. Pelo contrário, reconhecia a reta intenção e o elevadíssimo ensinamento.
Porém, três coisas de Jesus lhe eram inaceitáveis.
Antes de tudo as suas preocupações morais. “Cristo – afirmava ele – com o seu moralismo dividiu os homens segundo o bem e o mal, enquanto eu os unirei com os benefícios que são igualmente necessários aos bons e aos ruins”.
Depois não aceitava “a sua absoluta unicidade”. Ele é um dos tantos; ou melhor, dizia, foi o meu precursor, porque o salvador perfeito e definitivo sou eu, que purifiquei a sua mensagem daquilo que é inaceitável ao homem de hoje. 
Finalmente, e principalmente, não podia suportar o fato que Cristo estivesse vivo, tanto que histericamente repetia: “Ele não está entre os vivos e nunca estará. Não ressuscitou, não ressuscitou, não ressuscitou. Ele apodreceu, apodreceu no sepúlcro...”.
Mas onde a exposição Soloviev se mostra mais especialmente original e surpreendente – e merece a mais profunda reflexão é atribuir ao Anticristo os qualificados de pacifista, de ecologista, de ecumenista. [...]
 
Nesta descrição do Anticristo Soloviev teve algum objetivo concreto? É inegável que ele alude ao “novo cristianismo” do qual naqueles anos Lev Tolstoj tornou-se eficiente divulgador. [...] 
No seu “Evangelho” Tolstoj reduz todo o cristianismo a cinco regras de comportamento que ele deduz do Sermão da Montanha:
 
1. Não só se deve não matar, mas nem mesmo se deve zangar-se com o irmão..
2. Não se deve ceder à sensualidade, de tal modo que não se deve desejar nem mesmo a própria esposa.
3. Nunca se deve vincular-se a juramento.
4. Não se deve resistir ao mal, mas sim aplicar até o extremo e sempre o princípio da não-violência.
5. Ame, ajude e sirva o teu inimigo.
 
Estes preceitos, segundo Tolstoj, de fato vem de Cristo, mas para permanecerem válidos, de fato, não têm necessidade da existência atual do Filho de Deus vivo. [...]
Evidentemente, Soloviev não identifica materialmente o grande romancista com a figura do Anticristo. Mas intuiu com extraordinária clarividência que justamente o próprio tolstoismo, ao longo do século XX, seria o veículo do esvaziamento substancial da mensagem evangélica, sob a formal exaltação de uma ética e de um amor para a humanidade que se apresenta como “valores cristãos”. [...]
 
Virão dias, nos diz Soloviev – ou melhor, já vieram, dizemos nós – quando na cristandade se tenderá a dissolver o fato salvífico, que só pode ser aceito por ato difícil, corajoso concreto e racional da fé, numa série de “valores” facilmente trocados nos mercados mundanos.
  
Deste perigo – nos alerta o maior filósofo russo – nós devemos nos precaver. Ainda que um cristianismo tolstoiano nos tornasse infinitamente mais aceitáveis nos ambientes, nas agregações sociais e políticas, nas transmissões televisivas, não podemos e não devemos renunciar o cristianismo de Jesus Cristo, o cristianismo que tem no seu centro o escândalo da cruz e a realidade perturbadora da ressurreição de Nosso Senhor.
Jesus Cristo, o Filho de Deus crucificado e ressuscitado, único salvador do homem, não é traduzível numa série de bons e de boas inspirações, homologáveis com a mentalidade mundana dominante. Jesus Cristo é uma “pedra”, come ele mesmo disse de si. Sobre esta “pedra” ou se constrói (confiando-se) ou se abandona (contrapondo-se): “Quem cair sobre esta pedra será estraçalhado; e se ela cair sobre alguém, o aniquilará” (Mt 21, 44). [...] 
 
Portanto, o ensinamento de Soloviev foi um profético e ao mesmo tempo um ensinamento amplamente não ouvido. Nós, porém, queremos tornar a propô-lo, com a esperança de que a cristandade finalmente se sinta interpelada e nele preste mais atenção.
 
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O Sermão da Montanha segundo Martini e segundo Ratzinger
 
O trabalho do Cardeal Giacomo Biffi acima citado – redigido primeiramente em 1991 e revisado em 2005 – surge exatamente quando na Itália uma homilia do Cardeal Carlo Maria Martini acendeu uma discussão de algum modo atinente a este tema.  
De Martini, arcebispo de Milão de 1980 a 2002, hoje voltado para os seus estudos bíblicos em Jerusalém, Biffi foi bispo auxiliar, antes de se tornar arcebispo de Bolonha.
A homilia tornada objeto de discussão foi aquela pronunciada por Martini no dia 8 de maio último, no Duomo de Milão, por ocasião do XXV aniversário da sua ordenação episcopal.
Nesta, comentando a ordem de Jesus:,: "Ensinai a todas as nações", Martini explicou que isto significa “ensinar a observar tudo aquilo que o Senhor ordenou.. E tudo o que mandou, em Mateus, é o Sermão da Montanha, ou ainda Mateus 25: ‘Tudo o que fizeres ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fareis’”.
Depois, assim prosseguiu Martini:
 
É isto que devemos ensinar a observar e é muito importante tal sermão hoje. Eu o constatei vivendo num lugar de especial sofrimento, onde chegam ao pente os nós da humanidade, em Jerusalém, no Oriente Médio. Todos temos uma imensa necessidade de aprender a viver juntos como diferentes, respeitando-nos, não nos destruindo, não nos fechando nos ghetos, não nos desprezando e nem mesmo somente nos tolerando, porque seria muito pouca a tolerância. Mas nem mesmo – diria – tentando logo a conversão, porque esta palavra em certas situações e povos levanta muros intransponíveis. Preferivelmente é melhor ‘fermentando-nos’ de tal modo que cada um seja levado a encontrar mais profundamente a própria identidade, a própria autenticidade, a própria verdade diante do mistério de Deus.
Para esta finalidade não há meios mais concretos, mais acessíveis, do que as palavras de Jesus no Sermão da Montanha.  
Palavras que ninguém pode refutar porque nos falam de alegria, de beatitude, nos falam de perdão. De lealdade, de recusa à ambição, nos falam de moderação do desejo de ganho, nos falam de coerência no nosso agir (‘seja o vosso falar sim, sim, não, não’), nos falam de sinceridade. Estas palavras, ditas com a força de Jesus, tocam todos os corações, todas as religiões, todas as crenças. Ninguém pode dizer: ‘Não são palavras para mim: a sinceridade não é para mim, a lealdade não é para mim, a luta contra a prevaricação sobre os bens deste mundo não é para mim…’. É um sermão para todos, que atinge a todos, que conclama a todos às próprias e profundas autenticidades, e é aquele sermão que nos permitirá viver juntos entre diferentes respeitando-nos, não nos fechando nos guetos, não nos destruindo, nem mesmo mantendo as dividas distancias, mas nos ‘fermentando’ juntos..
Então, se assim fizermos, todos os homens se reconhecerão em tais valores, se sentirão mais próximos, mais companheiros e companheiras de caminho, sentirão ter em comum realidades profundas e verdadeiras, realidades que talvez não teriam sabido descobrir sem as palavras de Jesus. Então, além, das diferenças étnicas, sociais, e mesmo religiosas e confessionais, a humanidade encontrará sua capacidade de viver unida, de crescer na paz, de vencer a violência e o terrorismo, de superar as diferenças recíprocas. Estará  então plenamente manifestada a mensagem da graça de Deus”.
 
Esta homilia do cardeal Martini foi relançada na manhã de 9 maio, na primeira página do principal quotidiano italiano, o “Corriere della Sera”, como um “manifesto” alternativo à linha “neo conservadora” personalizada no Papa Joseph Ratzinger.
 
E, de fato, que entre Ratzinger e Martini os tons sejam diferentes, está fora de dúvida.
 
Domingo 29 de maio, na homilia da Missa de Corpus Christi, em Bari, Bento XVI assim comentou as palavras de Jesus "Na verdade, e em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis em vós a vida " (Jo 6,53), palavras que haviam causado desconcerto entre os discípulos:
 
“Diante dos murmúrios de dúvidas, Jesus teria podido retomar com palavras mais seguras: ‘Amigos – teria podido dizer – não vos preocupais! Falei de carne, mas se trata somente de um símbolo, o que eu pretendo é somente uma profunda comunhão de sentimentos’. Mas não, Jesus não usou de recurso algum apara tais suavizações. Manteve firme a mesma afirmação, com todo o seu realismo, também diante da dúvida de muitos dos seus discípulos (Jo 6,66). Ou melhor, ele se mostrou, até disposto a aceitar a falta de entendimento dos seus próprios apóstolos, e não mudar em nada a realidade das suas palavras: ‘Talvez também vós quereis ir embora?’ (Jo 6,67), perguntou. Graças a Deus, Pedro deu uma resposta que também para nós, hoje, com total acordo a fazemos nossa: ‘Senhor a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna (Jo6,68)”.
 
Quanto ao Sermão da Montanha, num seu livro publicado pela primeira vez em 1989, “Olhar Cristo. Exercício de fé, esperança e caridade”, Ratzinger escreve:
 
Para confirmar a verdadeira profundidade das Beatitudes devemos colocar à luz um aspecto que na exegese moderna é pouco considerado, mas que para mim parece decisivo para una interpretação realística do Sermão da Montanha no seu conjunto.
Penetro na dimensão cristológica deste texto. [...] O sujeito oculto do Sermão da Montanha é Jesus. O Sermão da Montanha não é um moralismo exagerado e irreal, que então perde toda a relação concreta com a nossa vida tornando-se no seu conjunto impraticável. E não é nem mesmo – como defende a hipótese oposta – simplesmente um espelho no qual se vê que todos são e continuam pecadores em tudo, e que possam alcançar a salvação somente por uma graça sem condição alguma. Com esta oposição de moralismo e de pura teoria da graça não se penetra no texto, mas o afastamos. Cristo é o centro que une as duas coisas, e somente a descoberta de Cristo no texto nô-Lo abre e O torna uma palavra de esperança. Se formos ao fundo das Bem Aventuranças, sempre aparece o sujeito oculto: Jesus. Ele é aquele em quem se vê aquilo que significa ‘ser pobres no Espírito Santo’. Ele é o aflito, o bondoso, aquele que tem fome e sede de justiça, o misericordioso. Ele tem o coração puro, é ele que traz a paz, o perseguido por causa da justiça. Todas as palavras do Sermão da Montanha são carne e sangue nele. O Sermão da Montanha é chamado a imitação de Jesus Cristo. Somente ele é ‘perfeito como é perfeito o nosso Pai que está nos céus’ (Mt 5, 48). Nós não podemos por nós mesmos ser ‘perfeitos com o Pai que está nos céus’, mas devemos procurar ser perfeitos, para corresponder ao cumprimento da nossa natureza. Nós não o podemos, mas podemos seguir Jesus e aderir a ele, ‘tornar-nos dele’. Se nós pertencemos a ele como seus membros, então nos tornamos por participação aquilo que ele é; a sua bondade se torna a nossa. As palavras do Pai na parábola do filho pródigo se realizam em nós tudo o que é meu é teu (Lc 15, 31). O moralismo do sermão, muito árduo para nós, acaba recolhido e transformado na comunhão com Jesus, em ser discípulos de Jesus, na amizade com ele, na confiança nele”.
 
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O novo livro do cardeal Giacomo Biffi do qual foi extraída a pasagem sobre o Anticristo:
 
Giacomo Biffi, “Pinocchio, Peppone, l’Anticristo e altre divagazioni”,  Cantagalli, Siena, 2005, pp. 256, euro 14,90.
 
No Novo Testamento o Anticristo é evocado em três passagens.
 
Primeira carta de S. João 4,3: "Todo o espírito que não reconhece Jesus não é de Deus. Este é o espírito do Anticristo que, como ouvistes, vem, ou melhor, já está no mundo".
 
Segunda carta de S. João 1, 7: "Muitos são os sedutores que apareceram no mundo, os quais não reconhecem Jesus vindo na carne. Eis o sedutor e o Anticristo!".
 
Segunda carta de S. Paulo aos Tessalonicenses 2, 3-5: "Que ninguém de modo algum vos engane! Primeiro, de fato, deverá vir a apostasia e o homem iníquo deverá ser revelado, o filho da perdição. Aquele que se contrapõe e se levanta acima de todo o ser que vem de Deus ou é objeto de culto, até sentar-se no templo de Deus, proclamando-se a si mesmo como Deus. Não lembrastes que quando ainda estava convosco, já vos dizia estas coisas?”
(tradução nossa - fonte: www.chiesa)

    Para citar este texto:
"Perigo do Anticristo! O cardeal Biffi dá o alarme à Igreja"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/perigo_anticristo/
Online, 25/11/2017 às 05:32:48h