Igreja

Para que se revelem os pensamentos de muitos corações...
um padre da periferia do mundo

 
Não é necessário ser um grande pensador, nem mesmo alguém versado nos fatos históricos do passado e em suas projeções hipotéticas no futuro, para entender que estamos vivendo tempos difíceis. Tempos que começaram há muito tempo, que remetem a acontecimentos e personagens ilustrados indelevelmente na História e que continuam a desembocar em novos desafios para aqueles que vivem aqui e agora.
 
Por que escrevo isto? Donde me vem esta afirmação?
 
 
Vem da constatação dolorosa de que a confusão que impera no mundo e na Igreja dos nossos dias tem uma razão e um sentido. Falo da Providência de Deus, falo de seu amor imenso por cada um de seus filhos, falo de seu amor pelo que é, pela verdade do ser, pela veracidade das pessoas.
 
Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma” (Lc II,34s). Como são atuais estas palavras ditas por Simeão acerca do menino Deus, como são perenes e nos servem de apoio para analisarmos os acontecimentos atuais do ponto de vista sobrenatural, que é o único ponto de vista fundamentalmente real.
 
 Deus realiza, neste momento, um juízo sobre o mundo e sobre a Igreja. Realiza um juízo de verdade, de separação, de clareza. “O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal” (Mt XIII,41). Através de sua providência, a sabedoria divina, nesta aparente confusão, conduz todos os homens a uma posição, a uma escolha: por Ele ou contra Ele.
 
Nunca vivemos um tempo em que a diferença real entre aqueles que querem o Reino de Cristo e os seus opositores tenha sido sublinhada de modo tão evidente. A virtude dos bons e a virilidade dos maus adquirem, agora, dimensões imprevistas, relevos desconhecidos. Evidentemente, a maldade dos homens, tão indiferente quanto obstinada, parece sufocar a semente da graça. Como dissera Nosso Senhor no Evangelho, em seu discurso escatológico, “ante o progresso crescente da iniqüidade, a caridade de muitos esfriará. Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt XXIV,12s).
 
Esta é a razão pela qual, diante das inequívocas palavras e atitudes do sucessor de Pedro, do Santo Padre, o Papa Bento XVI, as multidões reagem em atitudes antagônicas. De um lado, o bom cristão, o católico fiel, reconhece em sua voz a voz do Divino Pastor, que ressoa pelos séculos, ultrapassando os limites dos poderes humanos e a extensão dos impérios; de outro, as multidões incrédulas, endurecidas soberbamente em seu pecado ou na cumplicidade com o espírito deste mundo tenebroso (cf. Ef VI,12), aliados com os detentores das maiores riquezas humanas que, ante à maravilha Celeste, não passam de vaidade sem-graça, de palha seca levada pelo vento, rejeitam-no.
 
É a atitude firme e serena, elevada e humana, imersa numa retidão de intenção admirável, bem como na paciência que nasce da fé, potencializada pela própria força do Sangue do Cordeiro, que faz das palavras do Romano Pontífice a tenaz que incomoda a adormecida consciência de muitos e o orgulho insensato de quem prefere-se a si mesmo, escolhendo-se como critério último.
 
Estes, permanecem confusos, levados pelos ventos agitados das paixões humanas e de suas falácias, experimentando dia-após-dia a amargura de uma solidão desnecessária, de um abandono que os deixa à mercê das modas e dos bons-mocismos.
 
O cristão fiel, espera, confia, e mantém-se seguro. “Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha” (Mt VII,24), sobre a Pedra.
 
Sim... é sobre a Pedra que se edifica a Casa. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt XVI,18). Non praevalebunt! Não prevalecerão! Esta é a promessa do Divino Redentor; mas, em todo caso, promessa ancorada na Rocha, firmada em Pedro e em sua Cátedra!
 
Se outrora a voz de Pedro não se ouvia com grande clareza, e os inimigos da Igreja encontravam nela um escoro agradável para suas falsidades, o que era dolorosamente evidente para todos os católicos fiéis, agora é claríssima a sua firmeza e, nela, podemos repousar tranqüilos. Como ele mesmo dizia, quando ainda Cardeal, na abertura do Conclave que o elegeu, “quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios(...)  Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades. Ao contrário, nós, temos outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. (..) Adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo” (Card. Joseph Ratzinger, Homilia na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, 18.IV.2005).
 
 Infelizmente, muitos cristãos, aparentemente adultos e maduros, preferem puerilmente “colocar a medida em seu próprio eu”, e assinalar o magistério de Bento XVI com uma interrogação impertinente ou com uma exclamação raivosa e, assim, unem-se ao coro daqueles que o desprezam. Em muitos, parece que o desejo de restauração é ofuscado pela vontade de que tudo permaneça como está, escolhendo a própria perspectiva como critério avaliativo de todo este amplo cenário eclesial.
 
No entanto, o que queremos é permanecer firmes, unidos ao Papa, cerrando fileiras em torno dele, defendendo-o e honrando-o, como filhos piedosos, apoiando-o nestes seus esforços, visando àquela grande continuidade de toda a tradição da Igreja, nunca interrupta, mas apenas sufocada por um momentâneo afobamento adolescente pós-conciliar, que será, por sua vez, controlado pelos braços firmes dAquele que nos conduz.
 
Que faremos nós? Permaneceremos tristes porque muitos se posicionam? Mas, Nosso Rei foi chamado “a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações”...
 
Deus está julgando o mundo e a Igreja, as posições a cada dia ficam mais claras, aqueles que a mantinham ocultas na alma, agora a apresentam à luz do dia, e assim o farão doravante...
 
Que posição teremos cada um de nós? A decisão cabe a cada um! E, nesta posição, cada um é o único substituto de si mesmo!
 
De um padre da periferia do mundo.

    Para citar este texto:
"Para que se revelem os pensamentos de muitos corações..."
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/pensamentos-revelados/
Online, 23/08/2017 às 14:39:02h