Igreja

Anotações
Marcelo Fedeli


Como domingo chovia, e esfriara, resolvi arrumar novamente aquela "velha" gaveta, entulhada de velhos recortes de jornais e anotações de todo o tipo.

À superfície da primeira camada daquele "entulho" de papeis, algumas amareladas folhas de caderno, dobradas, aguçaram minha curiosidade. Abri-as com cuidado, para não rasgá-las no surrado vinco, e lá jaziam citações de Martinho Lutero, aquele ex monge que, rebelando-se contra o Papa e contra a Tradição milenar da Santa Igreja, fundou uma nova religião, de cunho pastoral, sem dogmas, sem Nossa Senhora, sem santos, sem purgatório, com o livre exame e a Bíblia, por ele devidamente revisada, com nova missa, etc: o Protestantismo.

Parei a arrumação e passei a ler as afirmações do antigo apóstata Lutero. Ei-las:

  • Sobre a Missa:

"Quando a missa for revirada, acho que nós teremos revirado o papado! Porque é sobre a missa, como sobre uma rocha, que o papado se apoia totalmente, com seus mosteiros, seus bispados, seus colégios, seus altares, seus ministérios e sua doutrina...Tudo isto desabará quando desabar sua missa sacrílega e abominável" (Lutero).

(Père Barrielle, Avant de mourir, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne - 1983 - http://amdg.free.fr/lexorand.htm).

  • Sobre o Ofertório:

"Segue toda esta abominação à qual se submete tudo aquilo que precede. É o que denominamos de Ofertório, e tudo, nele, exprime a oblação" (Lutero).

(Henri Charlier, La messe ancienne et la nouvelle D.M.M., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne - 1983).

  • Sobre o Canon:

"Este abominável cânon, que é uma coletânea de lacunas lodosas; ... fez-se, da Missa, um sacrifício; acrescentaram-se os ofertórios. A Missa não é um sacrifício ou a ação de um sacrificador. Olhemo-la como sacramento ou como testamento. Chamemo-la de benção, eucaristia, ou mesa do Senhor, ou Ceia do Senhor ou Memória do Senhor" (Lutero).

(Luther, Sermon du 1er dimanche de l'Avent, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne - 1983).

  • Sobre a tática a seguir, para a implantação da sua nova missa:

"Para chegar segura e felizmente ao objetivo, é preciso conservar algumas cerimônias da antiga missa, para os fracos, que poderiam se escandalizar com mudanças demasiadamente bruscas" (Lutero).

(Père Barrielle, La messe catholique est-elle encore permise?, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

"O padre pode, muito bem, atuar de tal modo que o homem do povo ignore sempre a mudança realizada e possa assistir a missa, sem encontrar com o que se escandalizar" (Lutero).

(Jacques Maritain, Trois Réformateurs, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre o sacerdócio:

"Que loucura querer monopilizá-lo para alguns" (Lutero).
(Para ele o sacerdócio não era restrito aos padres, mas compartilhado por todos os fiéis).

(Léon Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre seu comportamento:

"Eu estou, da manhã à noite, desocupado e bêbado. Você me pergunta por que eu bebo tanto, por que eu falo tão galhardamente e por que eu como tão freqüentemente? É para pregar uma peça ao diabo que se pôs a me atormentar". É bebendo, comendo, rindo, nessa situação, e cada vez mais, e até mesmo cometendo algum pecado, à guisa de desafio e desprezo por Satanás, procurando tirar os pensamentos sugeridos pelo diabo com o auxílio de outros pensamentos, como, por exemplo, pensando numa linda moça, na avareza ou na embriaguês, caso contrário ficarei muito raivoso." (Lutero).

(Marie Carré, J'ai choisi l'unité - D.P.F., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

"Eu tive até três esposas ao mesmo tempo." (Lutero).
(Dois meses após ter dito isto, Lutero se casa com uma quarta mulher, uma freira).

(Guy Le Rumeur, La révolte des hommes et l'heure de Marie 1981, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre a Igreja:

"Se nós condenamos os ladrões à fôrca, os assaltantes ao cadafalso, os hereges à fogueira, por que não recorremos, com todas as nossas armas, contra esses doutores da perdição, esses cardeais, esses papas, toda essa seqüela da Sodoma romana, que não para de corromper a Igreja de Deus? Por que não lavamos nossas mãos no seu sangue?" (Lutero).

(Hartmann Grisar, Martin Luther - La vie et son oeuvre - 2ª ed. - Ed. P . Lethielleuz - Paris -1931).

  • Sobre Deus:

"Certamente Deus é grande e poderoso, e bom e misericordioso, e tudo quanto se pode imaginar nesse sentido, mas é estúpido" (Lutero).

(Id. Propos de Tables - no. 963, ed. De Weimar, I , 487).

  • Sobre Nosso Senhor Jesus Cristo:

"Pensais, sem dúvida que o beberrão Cristo, tendo bebido demais na última Ceia, aturdiu os discípulos com vã tagarelice?" (Lutero).

(Funk Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi - 1956 - pg. 135)

"Cristo cometeu adultério pela primeira vez, com a mulher da fonte, de que nos fala S. João. Não se murmurava em torno dele: «Que fêz, então com ela?» Depois com Madalena, depois com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer" (Lutero).

(Funk Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi - 1956 - R.J.- Propos de Tables - no. 1472, ed. De Weimar II.107).

 

[Com profunda dor na alma, trancrevo essas afirmações tão sacrílegas, tão ultrajantes, inomináveis, feitas à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Incarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele, Nosso Senhor, sabe quem o ofendeu mais: se Lutero, que fez tais declarações, ou quem, posteriormente, o elogiou.]

Haveria outras, mas...fiquemos por aqui!...

Talvez alguém pergunte, da mesma forma como eu me perguntei naquela fria manhã de domingo: por que teria eu guardado toda essa lama de escárnio a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo, à sua Santa Igreja, tudo isso largamente sabido há 500 anos desse infeliz ex-monge?

A resposta a essa pergunta se encontrava na quinta e última folha: um deslavado elogio a Lutero feito, não por um ferrenho luterano, ou por protestante de qualquer seita, mas...pasmem!... por um sacerdote!!!...Sim!... Por um sacerdote!

E mais: não de um sacerdote qualquer, mas de um famoso, ...famosíssimo teólogo!... conhecido de Monsenhor Montini desde 21 de maio de 1946, quando este último o orientou devidamente para evitar sérios problemas com Pio XII, após crítica que esse teólogo e o Pe. Féret publicaram na revista la Maison-Dieu, contra a nova versão latina do saltério, orientada pelo Papa de então, Pio XII.

Posteriormente, foi consultor e influente personagem do Concílio Vaticano II: o Pe. Yves Congar!

Eis o que disse de Lutero, o Pe. Congar:

"Lutero é um dos maiores gênios religiosos de toda a história. Eu o coloco, sob este aspecto, no mesmo nível de Sto. Agostinho, de S. Tomás de Aquino ou de Pascal. De certa forma, ele é ainda maior" (Pe. Y. Congar).

(Le Monde, 29-3-75, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi - Daniel Raffard de Brienne 1983).

Deixei, de momento, Pascal de lado — não sei por que ele o juntou aos dois doutores da Igreja — e considerei somente a referência a Sto. Agostinho e a S. Tomás de Aquino.

Será que o teólogo Pe. Congar, consultor do Vaticano II, desconhecia aquelas declarações de Lutero? Será que ele desconhecia o que aquele herege pregou?

Em que teria se baseado o teólogo Pe. Congar para fazer tão absurda comparação e chegar àquela tão inconcebível conclusão: Lutero, gênio religioso... superior a S. Agostinho e S. Tomás!!!

Ele que, como sacerdote e teólogo, devia conhecer perfeitamente toda a virulência da doutrina luterana, bem como da sua devastadora ação nas almas e no organismo da Igreja, como pode fazer tal afirmação?

Se Lutero é realmente "superior" em genialidade religiosa a Sto. Agostinho e a S. Tomás, e sendo sua doutrina oposta à doutrina destes dois santos, a quem o Pe. Congar, pela sua afirmação, sugeriu aos católicos seguir? E os luteranos, depois de ouvir o Pe. Congar, acaso iriam analisar Sto. Agostinho e S. Tomás? Será que um teólogo e pastor luterano, ou de qualquer outra seita protestante, um dia poderá, por ventura, mesmo em prol do decantado ecumenismo, fazer afirmação inversa à do teólogo católico Pe. Congar? Como reagiriam suas ovelhinhas?

Se ele, o teólogo Pe. Congar, acreditava de pés juntos no que afirmou, por que ele, então, não seguiu o exemplo do seu "superior gênio religioso", o ex monge Lutero, abandonando a "Sodoma romana", como seu "gênio" denomina a Igreja, da qual ele, como sacerdote, representava, tornando-se pastor e teólogo Luterano? Por que o Pe. Congar, apesar de reconhecer e alardear a superior "genialidade religiosa" de Lutero, expressa em sua doutrina reformista, fez questão de continuar atuando como sacerdote no seio da Igreja católica?

Desolado, assim pensava, quando me chamaram para o almoço. E, enquanto recolocava as terríveis anotações na "velha" gaveta, desta, furtivamente, um papel caiu ao chão. Pensei se tratar de um daqueles que lera...mas não!... Não tinha nada a ver com Lutero, nem com o Pe. Congar: tratava-se de um estudo de medicina, de um dos meus filhos, sobre os vírus e sua devastadora ação quando instalados num organismo vivo.

Realmente, reina muita confusão na ... "velha" gaveta!... Mas apreendi, no recorte de medicina, que os vírus mais perigosos são aqueles que estão no organismo vivo e não aqueles que já foram expurgados, ou excomungados.

Fui almoçar.

Marcelo Fedeli
Junho 2001


    Para citar este texto:
"Anotações"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/padrecongar/
Online, 18/08/2017 às 20:48:09h