Igreja

Vaticano : O `OPA` (Oferta Pública de Compra) dos tradis sobre a Cúria
Romain Libero


 Artigo-comentário do site modernista 'Golias'

Seria conhecer mal Joseph Ratzinger acreditar que ele governa a Igreja navegando às claras. Pelo contrário, ele pensa desenvolver uma muito bela coerência em sua estratégia de restauração com a marca da intransigência. Mais, mais do que alguns tê-lo-iam querido, Bento XVI ganhou tempo permitindo-se, no início de seu pontificado, um tempo de repouso e de observação. Mas tudo vem a calhar para quem sabe esperar.

Uma das reviravoltas das mais marcantes foi o retorno, ainda que parcial e em tom menor da antiga, liturgia através do Motu Proprio Summorum Pontificum  de Julho de 2007, que fez correr muita tinta, e fará correr ainda mais. Em Junho de 2008, o Papa lançou um movimento de reabilitação da comunhão nos lábios e de joelhos, evocando a urgente necessidade de "dar de novo a hóstia aos fiéis diretamente na boca». Quanto ao fundo, pouco a pouco, em um estilo claro e por vezes brilhante, ele formula uma visão conservadora do catolicismo. Recentemente, ele relativisou o progresso da exegese histórico-critica para sublinhar seus  limites em proveito de uma leitura tradicional da Bíblia.

A vontade perseverante (se bem que paciente) do Papa de impor à Igreja, como lhe é possível, sua linha retrógrada e intransigente, sem dúvida em nossa [site Golias] opinião altamente nociva, passa também pelas nomeaçôes de pessoas de sua linha às responsabilidades importantes, e à sua medida, à frente das dioceses pelo mundo afora.

Na França, basta ir ao site «cef» da Conferência dos Bispos da França para notar quanto os Bispos são agora de outro estilo, mais conservador, com variantes sem dúvida, mas numa mesma linha intransigente no essencial. Bispos da nova geração como Suas Excelências Nicolas Brouwet (Bispo Auxiliar de Nanterre), Raymond Centène (Bispo de Vannes), ou muito recentemente, Jean-Pierre Batut (Bispo Auxiliar de Lyon) tem fama de serem ardorosos defensores do Motu Proprio. Quanto ao novo Bispo de Bayonne, Monsenhor Marc Aillet, ele foi Vigário Geral de Toulon e pertence à Comunidade São Martinho. Ele usa batina e se inscreve numa linha ultra-conservadora muito dura.

Na Cúria, a bem recente nomeação do Cardeal Antonio Canizarès Llovera como Prefeito da Congregação para a Liturgia vai no mesmo sentido. Com 63 anos de idade, o atual Arcebispo de Toledo, certamente não é um liturgista mas um pastor de idéias nítidas, de sentido estritamente conservador. Na Espanha, sua intransigência em questões doutrinárias lhe valeu o apelido de «pequeno Ratzinger», e, em 2005, ele foi citado, por um certo tempo, como possível Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. De certo modo, Zapatero na Espanha por um tempo ficará aliviado pela partida desse Cardeal, que não perdia nenhuma ocasião para denunciar em termos muito violentos e muito duros a política do atual governo socialista. Mas o repouso de Zapatero poderia ser de curta duração, a Igreja aproveitando-se em outro contexto da atual crise econômica - que poderia desacreditar o governo socialista, para lançar uma ofensiva mais forte ainda. Fala-se justemente, para suceder  Monsenhor Canizarès, de dois Prelados espanhóis muito radicais na intransigência: Monsenhor Demetrio Fernandez, 58 anos, Bispo de Tarazona (muito próximo de Canizarès, a quem ele deve sua mitra) e de Monsenhor Vicente Juan Segura, 53 anos, Bispo de Ibiza (próximo do Cardeal de Valência e dos meios reacionários da Cúria). Outros nomes ainda permanecem viáveis, todos de Bispos muito conservadores e anti-Zapatero.

Em Roma, manobras e rumores quanto às futuras nomeações não param de se multiplicar já há alguns dias. Vários chefes de Dicastérios ultrapassaram a idade limite dos 75 anos e esperam a designação de seu substituto: o Cardeal Renato Raffaele Martino (Justiça e Paz), o Cardeal Walter Kasper (Unidade dos Cristãos), o Cardeal Javier Lozano Barragan (Pastoral da Saúde), o Cardeal Francis Stafford (Penitenciária Apostólica). Mais, a partir  de 30 de Janeiro de 2009, um Cardeal que não é  dos menores, o influentíssimo Giovanni Battista Re, Prefeito da Congregação dos Bispos deveria ele também se aposentar (no mesmo dia de seus 75 anos). Sabe-se que ele freia atualmente a política de nomeações ultra-conservadoras de Bento XVI, que não desejaria, pois, mantê-lo ainda por muito tempo em seu cargo.

No ano que vem, os Cardeais Cláudio Hummes (transitório Prefeito brasileiro da Congregação do Clero, que irritou Bento XVI por seu apoio, entretanto prudente, à idéia de um clero casado) e Franc Rodé (Prefeito eslovaco dos Religiosos, cujo caráter rompante exaspera cada vez mais muita gente) deixarão, sem dúvida, igualmente seus cargos. Cita-se igualmente como certa a saída do Cardeal William Levada, 72 anos, Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, ao mesmo tempo por razões reais de saúde, e porque ele decepcionou Bento XVI.

Evidentemente essa próxima onda de nomeações deveria ser decisiva para consolidar o front ultra-conservador da Cúria. A saída de prelados como Hummes, Kasper e Re, que tentam dobrar em um sentido mais moderado as escolhas do Papa atual, poderia ser acompanhada por uma mudança de rumo ainda mais reacionária com a designação no lugar deles  de ratzingerianos puros e duros, como é, aliás, Canizarès. É preciso saber, de outro lado, que um dos nomes citados para a Congregação dos Bispos é o do ultra conservador Cardeal George Pell de Sidney. Mais do que um símbolo.

Os conservadores da Cúria esperam com impaciência a saída por aposentadoria dos Cardeais de Westminster, Cormac Murphy O’Connor e de Bruxelas, Godfreed Danneels, os quais encarnam, mesmo se de modo menos nítido que Carlo Maria Martini, uma linha alternativa com relação à do pontificado atual. O Cardeal inglês deveria ir embora nos primeiros meses de 2009. Parece excluído que seja designado para substitui-lo um « liberal » como  o ex Mestre Geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, 63 anos, Bispo de Nottingham, ou Malcolm McMahon, 59 anos, também ele dominicano, e que é favorável a um clero católico casado, ou ainda o Arcebispo Michael Fitzgerald, Padre Branco de 71 anos, atual Núncio no Egito, e muito engajado no diálogo inter religioso. Citam-se antes conservadores moderados como Monsenhor Vincent Nichols, 63 anos, Arcebispo de Birmingham, ou Monsenhor Peter Smith, 65 anos, Arcebispo de Cardiff, mas não está excluído que Roma escolha em definitivo um outsider, talvez mesmo um simple padre em quem o Papa atual tenha verdadeiramente confiança. Recorda-se que, em 1976, Paulo VI designou para o cargo um Abade beneditino de 53 anos, George Basil Hume, de fato, uma bem grande figura da Igreja. Em Bruxelas, o Vaticano parece ter renunciado a impor o Bispo de Namur, ultra-conservador e de caráter firme, Monsenhor André Mutien Léonard, 68 anos, por temor de um protesto geral. Mas o Papa se opõe definitivamente à designação de um liberal como Josef de Kesel, 61 anos, auxiliar e herdeiro de Danneels. Uma das possibilidades seria a designação do Bispo de Tournai, Monsenhor Guy Harpigny, 60 anos, muito conservador, ou a, mais hábil e consensual, do recém nomeado Bispo de Antuérpia Monsenhor Johan Bonny, 53 anos, conservador «diplomata» que evitaria um choque e uma fratura. Ele ficaria apenas dois ou três anos em Antuérpia, antes de se tornar Primaz da Bélgica: o que aconteceu justamente há uns trinta anos atrás com o jovem e promissor Godfreed Danneels, em Antuérpia de 1977 à 1979, antes de substituir o Cardeal Suenens.

Vários Núncios  famosos esperam uma responsabilidade de chefe de Dicastério, como os italianos Fortunato Baldelli, 73 anos (França), Pietro Sambi 70 anos (Estados Unidos), Lorenzo Baldisseri, 68 anos (Brasil), Adriano Bernardini, 66 anos (Argentina), Luigi Ventura, 64 anos (Canadá) e Celestino Migliore, 56 anos (ONU citado para a Justiça e Paz), o suiço Jean-Claude Périsset, 69 anos, (Alemanha, citado para a Unidade dos Cristãos), ou o português Manuel Monteiro de Castro, 70 anos (Espanha, citado para a Penitenciária Apostólica), mas eles são numerosos demais para todos se tornarem Cardeais, e um ou outro não será promovido. Em Roma, fala-se de uma possível promoção cardinalícia de Monsenhor James Harvey, 59 anos, prefeito da casa pontifícia, e de Monsenhor Brian Farrell, 64 anos, Bispo de Cúria que veio dos ...Legionários de Cristo !

Em todo caso, o Papa não deixará mais passar nenhuma nomeação que não lhe convenha. Ele pretende trancar tudo, inclusive colocando nos postos chaves homens que o sigam em sua escolha intransigente. Quanto a um futuro mais longínquo, sabe-se  que os servidores da Igreja são por vezes versáteis !
 
(Tradução de OF, original em http://www.golias.fr/spip.php?article2581)

    Para citar este texto:
"Vaticano : O `OPA` (Oferta Pública de Compra) dos tradis sobre a Cúria"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/opa-tradis-roma/
Online, 23/06/2017 às 12:36:55h