Igreja

Obediência seletiva - Concílio Vaticano II e nova missa
Orlando Fedeli


     Há pessoas que se dizem ferrenhas defensoras do Concílio Vaticano II, que jamais estudaram os documentos desse Concílio pastoral, que muitas vezes nem mesmo os leram, mas que, entretanto, os defendem, seguindo apenas a moda, e pretendendo, dizem,  “obedecer ao Papa”. 
     Na realidade, são comodistas que têm como primeiro objetivo “seguir a onda”, não entrar em conflito com ninguém, principalmente com ninguém que tenha alguma autoridade, quer seja o senhor Bispo, o senhor vigário, ou até mesmo com Dona Maricota, a “gerente da Igreja”. Porque, particularmente depois do Vaticano II, em cada paróquia, pode se encontrar a beata de plantão, que exerce o “cargo” de gerente da paróquia, de factotum do vigário.

     Foi uma conseqüência... pastoral da colegialidade...
     Depois do Vaticano II, ficou de moda os eclesiásticos terem secretárias.
     Outros há, -- teólogos de praia --, que nem à Missa de preceito vão, preferindo “curtir um sol na areia ou surfar”, mas que se apresentam como teólogos piedosos, e fervorosos defensores de uma onírica “infalibilidade” do Concílio Vaticano II, e da legitimidade da Missa Nova.
     Geralmente, os padres que se mostram ferozes inimigos da Missa de sempre, que se colocam como teólogos solícitos da defesa da Fé pastoral do Vaticano II e da Nova Missa de Paulo VI – sempre dizendo-se obedientes ao Papa – são os que nem ligam ao que o Papa ensina ou manda.
     Por exemplo: o Papa mandou restabelecer os confessionários nas igrejas, -- e confessionários com grades entre o penitente e o confessor –, e praticamente ninguém obedeceu a essa ordem.
     Ainda recentemente, estive numa igreja de uma grande cidade paulista.
     A igreja tinha esplêndidos confessionários de madeira trabalhada, e com grades. As confissões, porém, são realizadas, nessa igreja, não nesses confessionários, mas numa saleta em cuja porta se lia uma placa; “Sala de confissões”.
     Claro fica que o padre prefere um local para se dar ares de psicanalista amador do que de sacerdote de Cristo. Daí, ele preferir atender os fiéis em saletas que mais parecem gabinetes de atendimento psicológico. E esses padres detestam que o fiel se ajoelhe para confessar-se. Até parece que isso lhes faz doer a consciência...
     E depois clamam que se deve obedecer ao Papa. Que eles pacificamente desobedecem.
     Querem outra prova dessa contradição?
     João Paulo II e o Cardeal Ratzinger ensinaram que na Missa deve haver cantos gregorianos, e escreveu Ratzinger que o Rock é um anti culto.
     Apesar disso, pode-se ir a qualquer paróquia, hoje, que é bem fácil encontrar, na missa dominical, um conjunto de rock mais preocupado em freneticamente exibir-se como em uma boate, e “devotamente” ensurdecendo os fiéis com baterias tonitruantes até mesmo na hora da comunhão. Sob o olhar cego do Bispo, ou nos ouvidos surdos do sacerdote.
     E se alguém perguntar ao vigário como ele permite tais coisas, ele dirá que o Concílio Vaticano II mandou fazer tudo isso para que houvesse maior participação do povo na Missa... Ou então — sei de um padre que me disse isso — “quem manda na Igreja não é o Papa. É a CNBB”.
     Ainda na semana passada, um aluno meu, conversando com um sacerdote de uma grande catedral paulista – não paulistana – perguntou-lhe sobre as medidas que foram anunciadas pelo Papa para acabar com os abusos na Missa.
     O Padre ficou furioso e respondeu que jurara obediência ao Bispo, não ao Papa. E que só obedecia ao Bispo.
     Desse modo, qual Deodoro sem cavalo, esse padre proclamava a democracia na Igreja. Claro que em nome do Vaticano II, que pastoralmente ensinou a colegialidade.
     Por isso também, as determinações da Encíclica Ecclesia de Eucharistia e da Declaração Redemptionis Sacramentum de João Paulo II são pacifica e cinicamente desobedecidas, por aqueles mesmos que falam em obediência ao Papa.
     Domingo, chegou-me às mãos um artigo, distribuído numa paróquia do ABC, intitulado Missa- Memória...Missa-Homenagem, assinado por Frei José Ariovaldo da Silva O.F.M.
     Nesse artigo, Frei José Ariovaldo inicialmente critica que se rezem missas pela alma de um falecido, em homenagem a alguém, ou pelo aniversário de alguém.
     Diz Frei José que possui inúmeros exemplos -- que ele tem arquivados --, comprovando que o linguajar da imprensa tem causado muita confusão a respeito das intenções com que se reza a Missa.
     Sem dúvida, a imprensa comete muitos erros palmares, quando jornalistas formados em Faculdades proliferadas como shoppings do saber, escrevem sobre o que não conhecem.
     Mas, é preciso reconhecer que o clero atual tem muita responsabilidade nisso. Frei José lembra, em seu artigo, atos religiosos realizados por Roberto Marinho... Mas não lembra que uma alta autoridade religiosa do país, por ocasião da morte do dono da Globo, teve a ousadia de dizer que Roberto Marinho foi um defensor dos valores da família brasileira! Quem sabe essa defesa tenha sido feita através das puríssimas e castíssimas novelas da TV Globo...
     É de poucos dias atrás a notícia do terceiro “casamento” do ex Presidente Collor, realizado numa catedral, simulando-se a cerimônia “nupcial” com vestido de noiva, véu e grinalda, por um Bispo, em Alagoas...
     O clero, sim, é que tem culpa, na confusão religiosa existente na cabeça dos jornalistas e do povo.
     Mas Frei José Ariovaldo joga a culpa de toda essa confusão atual a respeito da Missa á “alta Idade Média” !
     Assim fica fácil: mete-se uma paulada na Idade das Trevas, e se joga a culpa para bem longe.
     Pois escreveu Frei José Ariovaldo plácida e franciscanamente:

Esta compreensão -- [errada ou equivocada da imprensa] -- da Missa vem da alta Idade Média, do século 8 para cá, arrastando-se depois por todo o segundo milênio. Vem da época em que foi introduzido, em comunidades eclesiais da Europa, o costume de mandar celebrar missa por algum falecido, que, eventualmente, havia morrido com débitos perante Deus e a Igreja, isto é, sem ter feito penitência pelos seus pecados”.
 
     Inacreditável! Para esse frade franciscano, que se coloca como conhecedor de liturgia e de História, rezar Missa pela alma dos fiéis defuntos foi um erro nascido na alta Idade Média, e erro que é criticável.
     Será que esse padre não sabe que na Missa se reza o memento dos mortos? Que Missa reza esse frade?
     E culpando a alta idade Média pela origem desse mau entendimento da Missa, -- au entendimento que durou por todo segundo milênio da História -- , Frei José Ariovaldo, sem perceber, acusa a Igreja e o clero de terem errado na orientação dos fiéis e no ensinamento sobre a Missa, durante 1200 anos.
     Como pôde a Igreja errar por tanto tempo, deixando os fiéis equivocados sobre o cerne do culto a Deus, que é a Missa ?
     E quem teria consertado esse erro milenar da Igreja, erro de tantos Papas, de tantos Concílios – inclusive o de Trento, que foi infalível – erros de tantos santos, e de tantos piedosos sacerdotes?
     Claro...quem consertou tudo foi o Concílio Vaticano II.
     Foi Monsenhor Anibale Bugnini — (que teve fama de ser maçon) --- que, com a ajuda de seis pastores protestantes e elaborou a Nova Missa de Paulo VI — consertou tudo, recolocando a Igreja e a Fé nos eixos que havia perdido.
     Pois Frei José Ariovaldo da Silva O.F.M. se atreve a escrever:

“Há 40 anos o Concílio Vaticano II recuperou o verdadeiro sentido da Missa que, de certa maneira, por muito tempo havíamos perdido”
.
 
     Esse frade ousa então declarar – sem medo -- um erro tão escandaloso contra a Fé: que a Igreja Católica perdera “o verdadeiro sentido da Missa”.
     Essa afirmação escandalosa de Frei José Ariovaldo é que é erro gravíssimo contra a infalibilidade e a indefectibilidade da Igreja.
     Para os defensores do pastoral Vaticano II, dever-se-ia dar mais crença a um Concílio pastoral, que recusou pronunciar-se infalivelmente, como o reconheceu o próprio Paulo VI, do que a todos os Concílios, Cânones, Bulas e Decretos anteriores ao Vaticano II, ainda que declaradamente infalíveis.
     Cesse tudo quanto a Igreja ensinou, antes do Vaticano II, porque um valor mais alto se levantou: a pastoralidade do Vaticano II. Pastoralidade que tem arruinado a Igreja e a Fé. Mas que tem um paladino em Frei José Ariovaldo da Silva!
     E, para encerrar seu artigo péssimo e nada ortodoxo, Frei José Ariovaldo afirma:

Pelo visto, há que se empreender ainda um imenso trabalho de reevangelização da nossa cultura religiosa (Sic!), que esqueceu o sentido da missa como memória da Páscoa salvadora do Senhor, homenagem exclusiva a Deus Pai todo poderoso, e compromisso com a Boa nova do Reino”. (Os destaques são meus).

     Destaquei três pontos nessa frase derradeira desse frade nada ortodoxo:
 
1o destaque: “Cultura religiosa”.
     O bom sentido da missa não pertence à “cultura religiosa”. Pertence à Fé.
     Se se perdeu algo da Fé, se perdeu a Fé inteira. Pois a Fé é uma virtude semelhante à virgindade: ou é íntegra e total, ou não existe.
     Conforme se deduz então do artigo em pauta, a Igreja Católica teria perdido a Fé.
     E esse farde se julga humildemente capaz de recuperar a Igreja.
     Ó santos e bem aventurados tempos que têm um Frei Jose Ariovaldo capaz de recuperara Igreja Católica.
     Ainda bem que Deus acordou e fez nascer Frei José Ariovaldo, o despertador da Fé.
 
2o destaque: “o sentido da missa como memória da Páscoa salvadora do Senhor”.
     Como já disse, esses defensores exacerbados do Vaticano II se gabam de serem grandes admiradores e seguidores do Papa João Paulo II. Exigem que se o obedeça e acate até a um discurso protocolar pontifício.
     Fidelidade a Roma antes de tudo.
     Desde que Roma não atrapalhe nossa comodidade, depois de tudo!
     Por isso, quando o Papa João Paulo II, diz repetidamente, por exemplo, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, que a Missa é a renovação do sacrifício do Calvário, isso eles fingem não ouvir e não ler, para não acatar e não obedecer.
     Para Frei José Ariovaldo a salvação veio da Ressurreição de Cristo, e não do sacrifício do Calvário. Ora foi a morte de Cristo na cruz que nos salvou. A Ressurreição provou a Redenção, não a causou.
     E é por isso que esse frade defende a Missa Nova, porque nela não se fala de sacrifício de propiciação. Daí, a admissão do rock na Missa, porque nela se comemoraria a salvação de todos. Todos os homens já estariam salvos. Por isso, fora os confessionários, e fora a penitência!
     Alegria!!! Com rock, cuíca, pandeiro e bateria!  Nada mais é pecado!  Acabou a tristeza!
     O Vaticano II recuperou o que a Igreja Católica perdera: a idéia que todos — todo o mundo -  já estamos todos salvos, mesmo.
     Daí, se pensar que todos são santos. Ou que, pelo menos, nunca houve tantos santos como depois do Vaticano II.
     Não repararam? Até diminuiu a criminalidade e a corrupção!
     Até para Judas se tem esperança de salvação...
     Todo o mundo virou santo. Menos eu.
     Pois, para esses padres e frades modernistas, o único pecado existente, depois do Vaticano II, é ser contra o Vaticano II.
O resto tudo ficou permitido.
     E não disse eu que esses defensores fanáticos do Vaticano II – fanáticos porque pretendem segui-lo, sem estudá-lo ou sem mesmo lê-lo — só obedecem quando lhes interessa?
     Pois o Vaticano II mandou conservar o latim na Missa, e eles odeiam o latim. Aí, o pastoralmente “infalível“ Vaticano II já não vale.
     E o Vaticano II declarou que ninguém pode ser coagido a pensar contra a sua consciência.
     Mas, se alguém, tendo consciência do que sempre ensinou a doutrina católica, critica o Vaticano II, esse é um réprobo.
     É o que dá estudar o Catecismo e ler as encíclicas: acaba-se querendo impor uma doutrina — eles dizem às vezes “ideologia” pois não sabem a diferença entre ideologia e doutrina – e impor é contra o Vaticano II.
     E querem impor o Vaticano II que proíbe impor
     A contradição é o sinal e o selo da mentira e do erro.
 
3o destaque: “compromisso com a Boa nova do Reino”
     Frei José Ariovaldo da Silva O.F.M. não disse nada sobre Teologia e “Libertação”...
     Mas, sendo ele confrade do ex-frei Boff, de Dom Arns, de dom Lorscheider, de Dom Cappio (o candidato a Gandhi de Cabrobó) – todos eles defensores da Teologia da Libertação -- que sempre falam do “compromisso com a Boa nova do Reino” como fórmula para se entender que há o compromisso coma revolução socialista e com utopia de implantar uma sociedade igualitária e comunista, fica-se com uma interrogação: seria Frei José Ariovaldo defensor da Teologia da Libertação?
     Finalmente, gostaria de perguntar a Frei José Ariovaldo: quando uma senhora qualquer encomenda a ele uma Missa pela alma de um falecido de sua família, ele a reza pela alma do falecido, ou engana a pobre senhora?
 
São Paulo, 28 de novembro de 2005
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Obediência seletiva - Concílio Vaticano II e nova missa"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/obed_sel/
Online, 25/03/2017 às 08:45:57h