Igreja

O Inferno aggiornato de Andres Torres Queiruga e Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados-MS

Eder Silva

Se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado

 (Gálatas 1, 9).

Introdução

 

No epílogo de sua Primeira Epístola a Timóteo, Bispo de Éfeso, escreveu São Paulo: “Ó Timóteo, guarda o depósito (da fé), evitando as novidades profanas de palavras, e as contradições duma ciência de falso nome, professando a qual alguns se desviaram da fé” (1 Tim VI, 20-21).

Esse preceito do Apóstolo sintetiza o dever sobrenatural dos Ministros de Deus.

Guardiões das almas e da ortodoxia devem professar a única fé verdadeira repelindo as opiniões contrárias; não se afastar de modo algum dos sentidos proclamados pelos santos predecessores; abraçar com firmeza as definições sempre aceitas pelos Bispos e mestres da Igreja. Eis o que é verdadeiramente e propriamente católico, recorda São Vicente de Lerins em seu insigne Comonitório (nº. II).

Contudo, nem sempre os pastores da Igreja guardaram zelosamente essas santas diretrizes. Atraídos por simulacros de sabedoria, muitos terminaram por renunciar a verdade universal e imutável para seguirem doutrinas duvidosas ou notoriamente heréticas.

 

Adão, primeiro sacerdote, abandonou o dogma da verdade pela novidade da serpente. E por causa desta infidelidade original, toda a humanidade se perdeu.

 

Nos livros dos profetas, encontramos severas censuras contra os sacerdotes traidores. A propósito, as palavras do profeta Jeremias soam perfeitamente para o nosso tempo: “Os profetas profetizaram a mentira, e os sacerdotes aplaudiram com suas mãos” (Jeremias V, 30).

 

Quando Nosso Senhor veio ao mundo, a situação do clero judaico não era diferente. A verdadeira tradição tinha sido abandonada por novidades secretas. É o que se deduz da denúncia direcionada às autoridades do Templo: “E assim, por causa de vossa tradição, tornastes nulo o mandamento de Deus” (São Mateus XV, 6).

 

Essa corrupção dos sacerdotes se repete na história com maior ou menor intensidade. Atualmente, vivemos uma crise profunda iniciada pela cúpula da Igreja, conforme predito no terceiro segredo de Fátima. Dos efeitos desastrosos causados pelo Concílio Vaticano II, a ignorância e o desvio doutrinário das autoridades religiosas revelam-se os mais acentuados.

 

Nos sermões e na escrita, dificilmente ensinam sobre as coisas do Céu. Estão quase sempre preocupados e ocupados com o homem e as coisas deste mundo. E quando resolvem tratar das questões espirituais, ou o fazem para negá-las, ou para distorcê-las segundo o próprio talante.

 

Repetindo as fábulas do modernismo, vociferam abertamente contra as verdades fundamentais da Fé Católica. Tratam-nas como se fossem fórmulas humanas, suscetíveis de alterações. Seguindo os passos do velho Adão, sacrificam o fruto perene da verdade para saborear e difundir o fruto mutável e proibido da heresia.

 

Na ocasião deste artigo, referimo-nos à infeliz dissertação de Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados, sobre o dogma do inferno. Na elaboração da “nova visão”, baseada nas considerações modernistas de um sacerdote espanhol – Andrés Torres Queiruga – o Bispo questionou verdades infalivelmente definidas e universalmente cridas pela tradição da Igreja.

 

Contestado em seu primeiro escrito, elaborou a resposta de defesa procurando reparar possíveis “mal entendidos”. Não satisfeito, lançou um terceiro, buscando conciliar sua posição com o ensino do Papa Bento XVI.

 

Como demonstraremos neste artigo, tanto Dom Redovino quanto o Padre Queiruga procuram negar a realidade do inferno enquanto fogo eterno para os condenados. E no fim da exposição, induzem seus leitores à idéia herética da “salvação universal”, expressamente condenada pelo Magistério da Igreja.

 

 

Uma proposta modernista: atualizar a Revelação

 

No livro “O que queremos dizer quando dizemos inferno” Andrés Torres Queiruga pretende justificar sua análise especulativa apresentando uma concepção tipicamente modernista da Revelação Divina.

 

Adepto incondicional do conceito experimental, interno e evolutivo das verdades reveladas – formalmente condenado pelo Papa São Pio X – o teólogo espanhol constrói suas conjecturas insinuando liberdade para discutir questões infalivelmente definidas e a necessidade de adaptá-las à realidade do homem moderno.

 

É exatamente sobre esse ponto que Dom Redovino projeta sua defesa, quando interrogado por um leigo justamente inconformado. Preocupado com a reputação e as hipóteses de seu guia em assuntos escatológicos, argumentou com a escusa de que “estamos no terreno da conjectura”, sendo assim, permitido formular interpretações alternativas.

 

Para chancelar a veracidade de sua orientação, o epíscopo acreditou ser suficiente reproduzir o parecer conclusivo de seu professor modernista:

Estamos no terreno da conjetura. Falamos do que, por definição, ultrapassa nossa capacidade de certeza e que, portanto, só nos é lícito propor com a modéstia de uma proposta de diálogo” (QUEIRUGA, 1996, p. 88).

 

Na opinião de Queiruga, tudo o que se disse a respeito do inferno não passou de especulações e metáforas, formando, no máximo, um conjunto de opiniões particulares deformadoras de um mistério incognoscível.

 

Partindo desse embuste, o teólogo elabora o capítulo que trata da Revelação, segundo ele, sempre sujeita a contínuas modificações por causa dos diferentes contextos variáveis na história.

 

Para ele, o crente não deve simplesmente assentir ao que a Igreja propõe como dogma de fé. Na condição de intérprete da Revelação, deve buscar por sua própria conta e esforço descobrir a verdade do que lhe foi revelado. (QUEIRUGA, 1996, p. 54-55, grifo nosso). A Igreja não seria a única autorizada a transmitir o legítimo sentido das verdades da fé. Pela prática do livre-exame, qualquer indivíduo poderia aventar novas explicações, possibilitando, no dizer modernista, “outros meios de compreensão” (QUEIRUGA, 1996, p. 11).

 

Estamos diante de um protestantismo declarado, contra o qual Dom Redovino deveria ter se posicionado, reafirmando a inalterada doutrina do Supremo Magistério da Igreja. No entanto, sob a superficial análise do Bispo, a heresia escapou ilesa. Nem sequer uma vaga referência.

 

Não obstante essa “acidental” omissão, a teologia modernista de Queiruga não resiste aos anátemas da Igreja, sobretudo aos infalíveis ensinos do Concílio de Trento e do Concílio Vaticano I. O tridentino diz solenemente que compete à Igreja julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras (Sessão IV, nº. 786). O Vaticano I, reafirmando a doutrina precedente, ensinou de modo similar:

 

 “... a doutrina da fé, que Deus revelou, não foi proposta ao engenho humano como uma descoberta filosófica a ser por ele aperfeiçoada, mas foi entregue à Esposa de Cristo como um depósito divino, para ser por ela finalmente guardada e infalivelmente ensinada” (Sessão III, Cap. IV, nº. 1800, grifo nosso).

 

Conforme declara o soberano Concílio, o depósito divino foi confiado à Igreja para, somente ela, guardá-lo e ensiná-lo com autoridade infalível. Por essa razão, não compete aos teólogos, e muito menos aos simples leigos, descobrir a verdade revelada por sua própria conta e esforço, principalmente naquelas questões já definidas pela irrevogável sentença da Igreja.

 

Essa ideia modernista de que, por si mesmo, cada um é livre e capaz de alcançar por livre interpretação a verdade divina, é igualmente fulminada pelo seguinte Cânone:

 

“Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus guindado a um conhecimento e perfeição que excedam o natural, mas que [o homem] deve por si mesmo, progredindo sempre, chegar finalmente a possessão de toda a verdade e de todo o bem – seja excomungado” (1808. Cân. 3, grifo nosso).

 

A proposição excomungada identifica-se precisamente com a sentença constante no livro de Queiruga:

 

 “... não só podemos como devemos descobrir por nós mesmos a verdade do que foi revelado...” (QUEIRUGA, 1996, p. 54, grifo nosso).

 

A heresia da tese “queiruguiana” pode ser também confirmada por outro ensino da Santa Sé:

 

“O Divino Redentor não incumbiu que a autêntica interpretação deste depósito seja feita por cada um dos fiéis, e nem pelos próprios teólogos, mas somente pelo magistério da Igreja” (DENZINGER, nº. 2314, grifo nosso).

 

Repelindo o assentimento meramente passivo às verdades divinamente reveladas e interpretadas pela Igreja, Queiruga reduz o Depositum Fidei a uma simples realização do esforço humano que desperta e traduz sua própria Revelação:

 

 “Graças à crítica bíblica, temos podido compreender que a revelação não é um ditado caído do céu sobre o espírito de determinados profetas ou hagiógrafos e que os demais tenhamos de aceitar, sem mais, porque assim eles o manifestam a nós: porque eles nos dizem que Deus é quem o disse. A revelação é, pelo contrário, algo que nasce de dentro: um dar-se conta do que Deus está procurando dar-nos a conhecer a través da realidade” (QUEIRUGA, 1996, p.18, grifo nosso).

 

Sem qualquer possibilidade de ressalvas, todo o texto desemboca na tese modernista condenada pelo Decreto Lamentabili do Papa São Pio X:

 

“Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades caídas do Céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos que a inteligência humana logrou alcançar à custa de laboriosos esforços” (nº 20, grifo nosso).

 

Para cada página do livro, um novo anátema correspondente.

 

Quando o teólogo diz que a Revelação é o que Deus está sempre procurando manifestar, não por meios externos, mas a partir de dentro do homem (QUEIRUGA, 1996, p. 54), incorre em mais duas condenações.

 

Contra a afirmação de que a Revelação é uma manifestação interna, diz o Concílio Vaticano I:

 

Se alguém disser que a divina revelação não pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser movidos à fé senão exclusivamente pela interna experiência ou inspiração privada, seja anátema” (1812. Cân. 3, grifo nosso).

 

Dizendo que Deus “está sempre se manifestando”, Queiruga sugere que a Revelação não finalizou com o último Apóstolo. Sendo assim, ele repete a tese condenada pelo Decreto Lamentabili de São Pio X:

 

 “A revelação, que constitui o objeto da fé católica, não se completou com os Apóstolos” (nº. 21, grifo nosso).

 

Enquanto Queiruga insiste em sua afronta cismática, dizendo que a Revelação “nasce de dentro” do homem, a Igreja, com autoridade suprema, proclama o extremo oposto, afirmando que a Revelação consiste de verdades transcendentes e extrínsecas à natureza humana. Não brotam de dentro. Pelo contrário, são recebidas externamente pelo Magistério dos Papas.

 

Assim reza o Juramento Anti-modernista, decretado pelo Papa São Pio X:

 

“Quinto: eu mantenho com certeza e confesso sinceramente que a fé não é um sentimento cego da religião que se levanta do profundo do subconsciente por impulso do coração e pela moção da vontade acostumada á moralidade, mas um genuíno assentimento da inteligência à Verdade recebida oralmente de uma fonte externa” (grifo nosso).

 

Toda a sequência de erros modernistas do padre origina-se da seguinte premissa: “Deus se revela no interior e na realidade de cada homem”.

 

Sobre os pilares desse falso princípio, Queiruga lança sua proposta de atualização da Revelação. Alegando as profundas modificações da civilização moderna, o teólogo espanhol propõe a necessidade de reforma dos antigos preceitos da fé, de modo a adaptá-los ou exprimi-los em conformidade com a realidade do homem moderno.

 

Nesse ponto suas palavras são elucidativas:

 

“Tudo isso mostra não só a legitimidade, mas também a necessidade de uma atualização de nossa parte. O que se disse então com as palavras, as imagens e os símbolos que eles tinham a seu alcance no momento de seus problemas e de suas expectativas, temos de dizê-las hoje com nossos meios e a partir de nossa situação” (QUEIRUGA, 1996, p. 22, grifo nosso).

 

Subjacente a essa idéia de “atualização”, encontra-se a tese modernista de que Cristo não ensinara um corpo de preceitos aplicáveis a todos os tempos. A verdade, nesse caso, seria mutável como o homem, evoluindo com ele, por ele e para ele.

 

Essa proposição é condenada em forma de dois erros, pelo já citado Decreto de São Pio X:

 

A verdade não é mais imutável que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele” (nº 58).

 

Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares” (nº 59).

 

Toda essa estrutura de pensamento será o substrato de Queiruga em sua nova proposta de inferno. Sem literalismos! Sem dogmas! Apenas conjecturas baseadas na “possibilidade e legitimidade de uma nova interpretação” (Queiruga, 1996, p. 13). Em síntese, um inferno meticulosamente apropriado às condições sentimentais e culturais do homem modernizado.

 

Descoberta a doutrina modernista do teólogo, podemos repelir a defesa de Dom Redovino que, para esfriar os ânimos, alegou aos seus fiéis perplexos um equívoco resultante de má interpretação.

 

As provas conferem: Queiruga é evidentemente discípulo do modernismo. Seu alicerce hermenêutico está essencialmente cravado na heresia.

 

A seguir, veremos em que consiste propriamente o “inferno diferente”, proposto por Queiruga e pastoralmente sancionado pelo episcopado brasileiro.

 

A eternidade do inferno: dogma ou especulação?

Em virtude de seu primeiro artigo, Dom Redovino suscitou protestos inflamados. Dos leitores consternados pela novidade “proposta”, um deles deduziu acertadamente que Torres Queiruga discordara da doutrina tradicional da Igreja ao negar a eternidade das penas do inferno.

 

Para desqualificar a inferência do leitor, o Bispo replicou dizendo tratar-se de “leitura apressada” do texto que, em hipótese alguma, permite a referida conclusão. Em todo caso, o Bispo acalmou as consciências perturbadas recordando que, segundo a própria confissão do teólogo, o inferno situa-se no “terreno da conjectura”, portanto suscetível de discussão.

 

O fogo e a eternidade das penas do inferno não seriam mais que frágeis hipóteses elaboradas ao longo dos séculos, passíveis de contestação ou completa reprovação dos espíritos insatisfeitos.

 

Antes de demonstrar a fragilidade desse sofisma, daremos especial enfoque nas considerações que Queiruga direcionou ao ensino dos santos padres sobre a matéria.

 

Ao expor com muita má vontade a argumentação de Santo Tomás relativa ao tema, o padre atrevidamente a descreve como assustadora, inconcebível e discrepante com o Deus do Evangelho (QUEIRUGA, 1996, p. 38).

 

A audácia do modernista vai muito longe. Depois de apresentar, segundo a sua opinião, a “fundamentalista e extremamente prejudicial” explicação do Aquinate, entre outros grandes doutores da Igreja, Queiruga formula sua conclusão:

 

 “Uma lógica má – uma autêntica lógica infernal – distorceu as evidências evangélicas mais elementares [...] uma teologia que não soube manter a lógica do amor acabou construindo a máquina de triturar fiéis mais implacável” (QUEIRUGA, 1996, p.40).

 

Denunciando essa maledicência sem limites contra o ensino dos padres da Igreja, São Vicente de Lerins observa a grave conseqüência dessa soberba:

 

“Qualquer que se atreva a depreciar estes homens postos por Deus em sua Igrejasegundo os lugares e os tempos, e que estão de acordo na interpretação do dogma católico, não desprezará um homem, senão a Deus mesmo” (nº. XXVIII, grifo nosso).

 

Insultando a doutrina e a honra dos santos doutores, Queiruga despreza o próprio Deus e torna-se réu da sentença de Nosso Senhor: “Quem vos despreza a Mim despreza” (S. Lucas, X, 16).

 

Que não é permitido afastar-se um milímetro sequer da doutrina tradicional, certifica-se facilmente pelo ensino dos santos, Papas e Concílios da Igreja.

 

Em seu terceiro livro dedicado ao imperador Graciano, Santo Ambrósio deplora as novidades discordantes do ensino antigo: “Guardemos fielmente os preceitos de nossos Padres e não rompamos com insolente temeridade o selo da herança” (apud São Vicente de Lerins, nº. IV).

 

Ao compilar suas preciosas regras para conhecer a fé verdadeira, São Vicente de Lerins declarou a ilicitude de romper com a pregação dos padres precedentes: “Por conseguinte, anunciar aos cristãos alguma coisa diferente da doutrina tradicional não era, não é, não será nunca lícito” (nº. IX, grifo nosso).

 

Por ocasião da heresia de Nestório, o Santo Papa Sixto III enviou uma carta ao Bispo de Antioquia, exprimindo sua exortação: “Nada é lícito à novidade, porque nada é lícito acrescentar à antiguidade” (apud São Vicente de Lerins, nº. XXXII, grifo nosso).

As condenações prosseguem no terreno conciliar.

 

Versando sobre a interpretação das verdades bíblicas, decretou o Concílio de Trento em sua IV Sessão:

 

“Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja [...] ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas” (nº. 786, grifo nosso).

 

Recordando esse salutar decreto do Concílio Tridentino, reforçou a mesma sentença o Vaticano I: “... a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada Escritura contrariamente a este sentido ou também contra o consenso unânime dos Santos Padres” (nº. 1788, grifo nosso).

Na sequência, apresentaremos a posição dos padres antigos em relação às penas do inferno.

Do segundo século da era cristã, selecionamos o inconfundível testemunho de São Justino de Roma:

 

 “De modo semelhante, Platão também disse que Minos e Radamante castigarão os iníquos que se apresentam diante deles. Nós afirmamos que acontecerá, mas através de Cristo, e que o castigo que receberão em seus corpos unidos às suas almas será eterno, e não só por um período de mil anos, como ele disse” (Apologia I, nº. 8).

 

No mesmo século, contamos com o testemunho de São Policarpo de Esmirna, contemporâneo a São João Evangelista, do qual recebeu a excelência episcopal.

Relatam os fragmentos que, momentos antes de sofrer seu glorioso martírio, São Policarpo proferiu uma valente resposta às ameaças do procônsul romano, que insistia em transformá-lo num herege traidor da Fé. Em sua réplica, além de provar sua bravura e fidelidade a Cristo, o santo mártir recordou a verdade da pena eterna:

“Tu me ameaças com um fogo que queima por um momento, e pouco depois se apaga, porque ignoras o fogo do julgamento futuro e do suplício eterno, reservado aos ímpios. Mas por que tardar? Vai, e faze o que queres” (nº. 11, grifo nosso).

Nos escritos de Santo Inácio de Antioquia, discípulo direto de São Pedro e São Paulo, também aparece muito nítida a doutrina da perdição eterna para os condenados:

“Aqueles que corrompem uma família não herdarão o Reino de Deus. Com efeito, se morrem aqueles que fazem isso segundo a carne, quanto mais aqueles que, por sua má doutrina, corrompesse a fé em Deus, pela qual Jesus foi crucificado! Essa pessoa, tornada impura, irá para o fogo inextinguível” (nº. 16, grifo nosso).

 

Entre o quarto e o quinto século, os testemunhos são igualmente abundantes.

São João Crisóstomo diz:

“Um só consolo existe: não cair no fogo inextinguível. Para os que ali caem não há consolo” (In Ef. Hom., IV, 2, 10, grifo nosso).

Comentando o Evangelho de São Mateus, capítulo X, versículo 28, São Jerônimo explica:

 

“Com este nome (inferno) são designados os futuros suplícios e as penas eternas dos pecadores” (apud Santo Tomás, grifo nosso).

 

Tratando do assunto com distinta erudição, o ilustre Bispo de Hipona também integrou o coro apostólico em defesa da eternidade das penas do inferno:

"Alguns enganam a si mesmos dizendo que esse fogo eterno não é a pena eterna: prevendo isso o Senhor, concluiu sua sentença dizendo assim: E irão estes para o suplício eterno e os justos para a vida eterna" (Santo Agostinho apud Santo Tomás, grifo nosso).

Por fim, a voz pontifícia de São Gregório Magno:

“Assim como os injustos não podem passar a gozar junto aos bons porque (aqueles) foram condenados a sofrer eternamente, assim os justos não podem passar para onde estão os réprobos, porque exaltados já pela justiça do juízo divino, não podem sentir por eles nenhuma compaixão" (apud Santo Tomás, grifo nosso).

 

A concordância entre os teólogos é insofismável! Contemplamos a mesma doutrina em todos os tempos, exceto na teologia cismática do Padre Queiruga.

O consenso dos grandes doutores, atinente à eternidade das penas, desautoriza qualquer especulação divergente. Não estamos no terreno da conjectura, como acreditam o Bispo e seu teólogo ultramodernista. O inferno não é absolutamente desconhecido. Existem alguns pontos muito bem esclarecidos e definidos pela Igreja, entre os quais, o sofrimento dos réprobos num fogo eterno.

 

Além da expressão comum dos doutores, podemos recorrer à autoridade dos Papas, também defensores da pena eterna. Encontramo-la, por exemplo, na carta que o Papa Inocêncio III encaminhou ao Arcebispo de Arles em 1201:

 

“A pena do pecado original é a privação da visão de Deus; a pena do pecado atual é o tormento do inferno eterno...” (DENZINGER nº. 410, grifo nosso).

No decurso do primeiro Concílio de Lyon, a doutrina é similarmente reafirmada pelo Papa Inocêncio IV:

“Mas se alguém morre em pecado mortal sem penitência, sem gênero de dúvida é perpetuamente atormentado pelos suplícios do inferno eterno” (DENZINGER nº. 457, grifo nosso).

Encerrando a questão, reproduzimos um cânon que define a imutável posição da Igreja, punindo com anátema os especuladores e pregadores da temporalidade do inferno para os condenados:

"Se alguém diz ou sente que o castigo dos demônios ou dos homens ímpios é temporário e que em algum momento terá fim, ou que se dará a reintegração dos demônios ou dos homens ímpios, seja anátema" (DENZINGER nº. 211).

 

 

As testemunhas “favoráveis”: Orígenes e Santo Ambrósio

Agindo de falsa prudência, Queiruga astuciosamente dissimulou sua inovação teológica com a película de uma aparente tradição.

 

Evocando a autoridade de Orígenes e Santo Ambrósio, asseverou o teólogo que a Igreja sempre contou com santos e teólogos partidários de sua tese.

A artimanha não é inédita, embora tenha convencido uma conferência de Bispos.

 

São Vicente de Lerins descreve essa manobra como típica dos hereges:

“Com frequência se apropriavam de passagens complicadas e pouco claras de algum autor antigo, as quais, pela sua mesma obscuridade, pareciam concordar com suas teorias; assim simulavam não serem os primeiros nem os únicos a pensar daquela maneira” (nº. VII, grifo nosso).

 

Quando atacados, protestam: “Está na tradição! Não é novidade!” E assim enganam as ovelhas e até mesmo o pastor.

 

Examinemos, pois, as fontes tradicionais do professor manobrista.

 

Sobre Orígenes, é verídico que se posicionou contra a eternidade do inferno, afirmando que até mesmo os demônios alcançariam a felicidade eterna, depois de padecerem penas transitórias.

 

No entanto, quem analisa o artigo de Dom Redovino ou o livro de Queiruga, desconhecendo o ensino da Igreja, facilmente entra na arapuca modernista.

 

Sem qualquer ressalva, Orígenes é apresentado como fonte válida para convencer do inferno passageiro. E assim realmente seria se não fosse por duas razões omitidas: a condenação da Igreja e o repúdio da tradição.

 

Que os erros de Orígenes foram definitivamente reprovados sob pena de excomunhão, fizemos a devida demonstração no tópico precedente. Que os teólogos e padres apostólicos acompanharam a decisão da Igreja, demonstraremos a seguir.

 

Santo Agostinho, que se dedicou profundamente ao assunto, escreveu em “A Cidade de Deus”:

 

Orígenes, que acreditou que o próprio Diabo e os seus anjos, após suplícios mais graves e mais prolongados, conforme as suas culpas, devem ser tirados dos seus tormentos e associados aos santos anjos. Mas, não sem razão, a Igreja condenou-o por causa disso e por causa de outros casos... (2011, p. 2185-2186, grifo nosso).

 

Outras autoridades também atacaram a tese universalista de Orígenes.

 

Falando da drástica queda desse teólogo, São Vicente de Lerins observou que:

“A tentação que esta grande personalidade, este doutor e profeta insigne provocou foi de tal envergadura, como o demonstra o resultado final, que desviou a muitíssimos da integridade da fé” (nº. XVII, grifo nosso).

 

Comentando o trecho da Escritura que afirma a impossibilidade de perdão aos que blasfemarem contra o Espírito Santo, Teofilato considera-o prova irrefutável contra os defensores de um inferno temporal para os condenados:

 

Nisto há um argumento contra os sectários de Orígenes, que dizem que as penas terão término e que chegará um dia em que os pecadores poderão unir-se aos justos e com Deus” (apud Santo Tomás, grifo nosso).

 

São Beda, que também comentou o trecho referido, manifestou semelhante oposição:

 

"Porque é um erro o de Novaciano, que nega poder ser perdoado o que não sai vencedor do martírio, como também o de Orígenes, que afirma que todos os pecadores depois do juízo universal e de inumeráveis evoluções dos séculos, alcançarão o perdão de seus pecados: erro que as seguintes palavras do Senhor combatem: ‘Mas o que blasfemar contra o Espírito Santo não terá jamais perdão’" (op. cit., grifo nosso).

Sobre o mesmo trecho, concluiu Rábano:

“A autoridade desta passagem destrói o erro de Orígenes, que sustentava que todos os pecadores alcançariam depois de muitos séculos o perdão de seus pecados” (op. cit., grifo nosso).

No caso de Santo Ambrósio, também referenciado como fonte pró-modernista, verificamos a flagrante manipulação.

Inspirado nos escritos modernistas de Von Balthasar e Karl Rahner, Queiruga convence Dom Redovino de que, dentro de todo homem, existem duas realidades distintas e opostas, sendo uma boa e outra má (QUEIRUGA, 1996, p. 73).

Decorrente desse dualismo interior, dizem as fontes modernistas que todos os pecadores serão ao mesmo tempo absolvidos e condenados no último juízo.

 

Ao término das sentenças, imediatamente dar-se-á a separação das realidades, culminando na absurda conclusão de que o bem que está em cada um será salvo, enquanto o mal será terminantemente aniquilado.

Esse “bem” redentor e imanente, chamado pelos modernistas de “vida divina”, permanecerá indestrutível no homem, apesar de seus graves pecados. Com efeito, Deus encontrará essa realidade em todos, garantindo ao mais perverso dos pecadores a entrada no paraíso eterno.

Qualquer seita gnóstica aceitaria esse sistema afirmativo de uma realidade divina e redentora no interior de todo homem. Ademais, por consequência dessa doutrina, teríamos a completa inutilidade da Missa, dos Sacramentos e da própria religião, visto que a salvação seria resultado inevitável da onipotente e misteriosa “vida divina” no homem.

Diversamente, a Igreja sempre ensinou que a vida divina, presente na alma por efeito do batismo, se perde por ocasião de pecado grave. Também sempre disse que cada alma será salva ou condenada pelo bem ou mal que praticou.

Santo Ambrósio, equivocadamente aclamado como favorável ao modernismo, sempre defendeu a fidelidade aos preceitos tradicionais da Igreja. Quem examina seus escritos percebe que suas prédicas são evidentemente inconciliáveis com a proposta “gnóstico-modernista”.

Nos sermões desse magno doutor, encontramos a doutrina da completa exclusão dos condenados, privados eternamente da felicidade eterna.

Falando sobre a ilusão das alegrias do mundo, o sábio de Milão presenteou-nos com a seguinte preciosidade:

 

“As alegrias do mundo são falsas, não apontam para o alto, e sim, somente para baixo, para a lama do mundo, e nessa lama, os seus amantes, vão aos poucos se escorregando para o inferno, eterna tristeza” (Santo Ambrósio apud LOPES, 2003, grifo nosso).

 

Mais adiante, outra pérola ambrosiana:

 

“Será que alguém pode dar aquilo que não possui? O mundo não possui a verdadeira alegria, ele oferece somente a falsa felicidade que conduz as almas à eterna tristeza, e milhares seguem esse terrível carrasco” (Op. cit., grifo nosso).

 

Nos dois fragmentos se diz que os amantes do mundo padecerão eternamente.

Na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, Nosso Senhor descreve claramente que, enquanto aquele padece nos tormentos do inferno, este desfruta de consolo no seio de Abraão.

 

Comentando esse trecho da Escritura, explica Santo Ambrósio que existe um grande abismo entre o rico e o pobre, porque depois da morte não podem mudar-se os méritos (apud Santo Tomás).

 

Colocar o Bispo de Milão entre os defensores da redenção gnóstica, tal como sugerido pelos discípulos do modernismo, é distorcer o verdadeiro sentido de seus belíssimos sermões, que nada possuem de favorável ao esoterismo.

 

Curioso que os Bispos modernos, sobretudo os da CNBB, dificilmente recorrem à tradição da Igreja. Quando decidem retroceder ao pensamento antigo, quase sempre é para denegrir ou para distorcer o pensamento dos santos predecessores, e assim socorrer as novidades de uma religião cada vez mais aggiornata.

 

 

O fogo inextinguível: real ou metafórico?

Na versão atualizada do inferno, as chamas de tormento fatalmente desapareceriam. Para a evangélica “lógica do amor” de Queiruga e Dom Redovino seria preciso extinguir os horrores infernais.

 

A existência de um fogo real supõe uma finalidade punitiva incompatível com a imagem de um Deus que não inflinge castigos e está sempre disposto a perdoar sem prévias exigências.

 

Fundamentado nessa fabulação sentimentalista, Dom Redovino assegurou a certeza de sua conclusão: “Uma coisa é certa: não se pode falar do inferno como castigo de Deus e, menos ainda, como vingança” (2011, grifo nosso).

 

Fogo, castigo e vingança descartados pelas metáforas modernistas.

Para coibir abusos como esse, a Igreja estabeleceu critérios que regulam a aplicação do sentido metafórico.

 

Na Encíclica Divino Afflante Spiritu, sobre os estudos bíblicos, o Papa Pio XII adverte quanto ao emprego do sentido figurado. Diz o Pontífice que, devido ao seu caráter extrínseco e adicional, deve ser utilizado com moderação e sobriedade (nº 16).

 

A exegese católica estabelece que, somente quando o contexto ou outras passagens mais claras excluem o sentido literal ou contra ele se levanta alguma impossibilidade, pode-se recorrer ao sentido figurado da palavra.

 

Quanto ao fogo do inferno e sua finalidade vingativa, nenhuma dessas condições emergem.

 

Que Deus recompensa os bons e castiga os maus, verifica-se por toda a Sagrada Escritura.

"A Mim pertence a vingança" (Deuteronômio XXXII, 35), anuncia a justiça divina. E o salmista profetiza: “O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles” (Salmo LVII, 11).

 

Explica Santo Tomás que a vingança é lícita e virtuosa à medida que se ordena à repressão dos maus (II-II, q. 108, art. 3). Ora, o inferno é castigo de Deus contra os ímpios: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?” (São Mateus XXIII, 33). Portanto, Deus é um soberano vingador.

 

A certeza de Dom Redovino é categoricamente contestada pela Escritura.

Pelas palavras de Cristo, o inferno deve sim ser entendido como castigo de Deus que se manifesta em duas penas reais e eternas: a exclusão da visão beatífica e o tormento pelo fogo.

 

Todo o contexto do Livro Sagrado exige uma interpretação realista dessas punições. Assim como o castigo da privação eterna de Deus, o fogo não pode ser interpretado como uma metáfora.

 

Para entender o justo motivo desse tormento, também chamado de “pena dos sentidos”, basta-nos a sabedoria do Aquinate.

Na explanação de Santo Tomás, a pena aflitiva pelo fogo ou pena dos sentidos justifica-se pela seguinte razão: ao incorrer em pecado mortal, o homem manifesta uma aversão ao Bem infinito, que é Deus, ao mesmo tempo em que se volta de modo desordenado para uma criatura transitória e finita. Desse duplo efeito, merece o pecador impenitente uma dupla pena, que consiste na privação eterna de Deus e no tormento que deriva da criatura (I, II, q.87, a.4).

 

A conclusão teológica é sapientíssima.

 

Doutrina comum dos padres e teólogos, o fogo literal tem ao seu favor a Escritura divina, a tradição apostólica, a sabedoria angélica, a autoridade dos Papas e dos Concílios.

 

São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, ratifica a existência e atuação física do fogo do inferno:

“Se manifesta de uma maneira admirável o fogo do inferno. Com efeito, nosso fogo material se alimenta por meio de lenhas amontoadas, e não subsiste se não é alimentado; o do inferno, pelo contrário, ainda que seja matéria enquanto queima fisicamente aos réprobos lançados nele, não se alimenta com lenhas, mas que uma vez aceso nunca se apaga” (apud Santo Tomás, grifo nosso).

O Sínodo de Arles, realizado sob o pontificado do Papa Simplício, ensina com idêntica convicção:

 

“Professo também que os fogos eternos e as chamas infernais estão preparadas para os atos capitais, porque, com razão, a divina sentença segue as culpas humanas persistentes; sentença em que incorrem os que não creem de todo coração estas coisas” (DENZINGER nº. 338).

 

Pela autoridade e perpetuidade do ensino, nota-se a inconsistência das conjecturas modernistas que desprezam uma verdade certíssima.

 

Apesar da incredulidade dos que deveriam ser os arautos da verdade, o fogo existe, é eterno, e queima sem consumir. É o que nos foi revelado por Deus e ensinado como artigo de fé pela sua Igreja. É o que devemos sempre professar, mesmo que Bispos cometam a terrível impiedade de abandonar a antiga verdade católica, para seguir a novidade de um indivíduo.

 

Os horrores do inferno e seus benefícios

Em seu excelente opúsculo sobre a realidade do inferno, o padre francês Louis Gastón, Monsenhor de Segur, sabiamente escreveu: “O grande missionário do Céu é o inferno” (p.127).

 

Quantas almas convertidas, graças às terríveis lembranças do inferno! Quantos pecados evitados pela salutar recordação do trágico destino das almas impenitentes! A história é testemunha dos excelentes efeitos produzidos pelo temor do castigo eterno. É a sabedoria divina quem proclama sua sobrenatural utilidade: “Pelo temor do Senhor evita-se o mal” (Provérbios XVI, 6).

 

Com frequência Nosso Senhor pregava sobre os horrores infernais. Nas Epístolas os Apóstolos não poucas vezes fizeram memória ao trágico fim dos pecadores. Essa prudente recordação repercutiu no zelo dos padres da Igreja.

 

Foi com o advento protestante que essa verdade perdeu importância. A certeza de salvação unicamente pela fé fez desaparecer o medo do inferno. E com a ausência do medo, o próprio inferno caiu no esquecimento.

 

Quinhentos anos depois, o mesmo sucederia na hierarquia católica. Animados pelo espírito ecumênico do Concílio Vaticano II, muitos padres e Bispos interditaram as portas do inferno e alargaram as portas do Céu. Os confessionários foram abolidos, as penitências esquecidas, e a Missa transformada em uma festiva ceia protestante.

 

O modernismo removeu o inferno da memória do povo, mandando-o para o asilo das doutrinas obsoletas.

 

Nesse ritmo progressista demolidor, Dom Redovino fez como Queiurga, subestimando a divina sabedoria da Igreja para seguir a duvidosa opinião popular. O Bispo que possui o múnus de ensinar quis ser discípulo do mundo, cada vez mais distante da Sabedoria Encarnada.

 

Também Caifás, Sumo Sacerdote, renunciou a sabedoria divina para seguir o conselho do povo. E por unanimidade popular, decidiu pela morte de Cristo.

 

Governada pela Sabedoria de Deus, ensina a Igreja que o medo do inferno favorece a conversão dos pecadores. É o que diz, por exemplo, o Papa Pio IX:

 

“Pregai muitas vezes as grandes verdades da salvação. Pregai sobretudo o inferno. Nada de moderação; dizei claramente e bem alto toda a verdade acerca do inferno. Não há coisa melhor para fazer refletir, e conduzir a Deus os pobres pecadores” (apud LACROIX, p. 224, grifo nosso).

Antes que Dom Redovino justifique as críticas de Queiruga, adiantamos que essa doutrina do temor do inferno está suficientemente protegida pela infalível sabedoria do Concílio de Trento:

 

“Quanto àquela contrição imperfeita [cân. 5], chamada atrição, porque nasce ordinariamente da consideração da torpeza do pecado ou do temor do inferno e dos castigos, se com a esperança do perdão excluir a vontade de pecar, [o santo Concílio] declara que ela não somente não faz o homem mais pecador e hipócrita, mas ainda que é dom de Deus e moção do Espírito Santo, que verdadeiramente ainda não habita no homem penitente, mas que somente o move; e ajudado por ele o penitente se dispõe a alcançar a amizade de Deus no sacramento da Penitência. Porquanto, abalados por este temor salutar, os ninivitas fizeram penitência na pregação de Jonas, cheia de terrores, e alcançaram a misericórdia do Senhor (cfr. Jon 3)” (nº. 898, grifo nosso).

 

A sapientíssima voz da Igreja deveria bastar para convencer da bondade e eficiência do temor do inferno. Entretanto, Bispo e padre apelam para o conselho do povo: “Que vos parece?”.

 

Então, responde a sabedoria popular: “Ele [o medo] é mau conselheiro e conduz necessariamente ao fracasso” (Queiruga, 1996, p. 5).

 

Como Caifás, Dom Redovino admite a soberania do povo. Coloca a opinião popular acima dos Papas e doutores da Igreja. E mal aconselhado, declara a perversidade do medo do inferno, aprovando e incentivando sua abolição nas consciências e pregações sacerdotais.

 

Para conhecer o verdadeiro juízo sobre o temor e assim evitar erros contra a fé, Dom Redovino deveria ter buscado orientação na sabedoria angélica de Santo Tomás.

Analisando a questão, o Sumo Doutor distingue três espécies de temores:

1)    Temor humano ou mundano

2)    Temor servil

3)    Temor filial

 

Ensina o Aquinate que o temor mundano é sempre mau, pois nele ocorre um afastamento de Deus e uma disposição para ofendê-lo, por receio do mal causado pelo mundo (II-II, q.19, art. 3). O temor servil, ao contrário, é substancialmente bom. Mas pode ser mau quando redunda no servilismo, isto é, quando o temor das penas divinas torna-se maior do que o próprio receio da perda de Deus, ou quando a resistência ao pecado se manifesta apenas para evitar os castigos (op. cit.).

 

Sobre esse ponto, elucida o Padre Garrigou Lagrange:

“Porém, quando não é servilmente servil, o temor servil dos castigos divinos revela-se útil, ajudando o pecador a aproximar-se de Deus [...] Não basta para a salvação, mas pode conduzir à virtude. No meio da tempestade, um marinheiro lembra-se de rezar e, mesmo que porventura se encontre em pecado mortal, solicita à sua maneira uma graça atual. Como a nenhuma pessoa se nega em casos semelhantes, tal graça não demora a ser-lhe concedida” (LAGRANGE, p. 165).

O terceiro temor, chamado filial, difere essencialmente dos temores mundano e servil. Trata-se de um filho que foge do pecado não pelo simples medo dos castigos, mas, sobretudo, porque ofende a Deus e o separa dEle.

Para o contexto do artigo, nos interessam somente as considerações sobre o temor servil, ocasionado pelo receio das penas eternas.

Afirmando a bondade desse temor, o Aquinate ensina que ele funciona como um princípio que dispõe para a sabedoria: “... pelo temor da pena se afasta do pecado, e isto habilita para o efeito da sabedoria...” (II-II, q.19, art.7). Também afirma que o próprio ato da penitência nasce desse temor das penas: “O ato da penitência tem sua origem no temor servil como um primeiro movimento afetivo que se orienta para ela, mas tem sua origem no temor filial como seu princípio próximo e imediato” (Parte II-II, q. 85, art. 5).

Mas a obrigatoriedade de aceitação da bondade e necessidade do temor deriva, especialmente, da infalível definição do Concílio de Trento:

“Se alguém disser que o medo do inferno — que nos leva a procurar refúgio na misericórdia divina, condoendo-nos dos pecados, e faz com que nos abstenhamos do pecado, — é pecado ou faz os pecadores piores — seja excomungado” (nº. 818. Cân. 9, grifo nosso).

No campo teológico não remanescem dúvidas sobre a natureza e os efeitos causados pelo medo do inferno. No entanto, Queiruga também forjou um suposto “argumento histórico”, dizendo que a própria história demonstra o fracasso produzido pela “pastoral do medo”. Historicamente, a pregação dos horrores infernais teria aterrorizado e afastado as almas de Deus.

 

Em contrapartida, o esquecimento do inferno pela certeza de salvação, proposta por Queiruga e anuída por Dom Redovino, seria a solução para o ateísmo do mundo moderno.

 

Por ocasião da reforma protestante, o mundo experimentou os efeitos dessa antiga proposta. Recusando as boas obras e o livre arbítrio, Lutero promulgou o regime otimista da salvação somente pela fé, expulsando da memória popular as temíveis lembranças do inferno.

 

O lema “evangélico” do revolucionário Martinho era deveras tentador: “Aceite Jesus e peque à vontade”. O homem não é livre, dizia ele, e por isso não pode ser responsável por suas ações.

 

Lutero tranqüilizou as consciências, livrando-as do dever de caridade e penitência, insuflando a presunçosa certeza de salvação.

 

Cinco séculos antes Lutero aplicava a proposta de Queiruga.

 

Pouco tempo depois, Martinho descrevia a deplorável situação dos “salvos somente pela fé”:

 

“Os evangélicos são 7 vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio [o papado] e vieram sete piores. Príncipes, senhores, nobres, burgueses e agricultores perderam de todo o temor de Deus” (FRANCA, 1928, p. 440, grifo nosso).

Evidentemente não se poderia esperar qualquer esforço de santidade daqueles que, por influência de uma doutrina depravada, estavam absolutamente convictos de sua salvação, ainda que cometessem os piores horrores contra a Lei de Deus.

Livres para pecar, quem se lembraria do castigo eterno?

A situação na Alemanha piorou gradativamente. Os piores pecados se alastravam entre os “libertos pela fé”. Quem no-lo revela? Novamente Lutero:

“É tanto o desprezo pela palavra de Deus, tão desmesurado o crescer dos vícios, da avareza, da usura, da licença, dos ódios, das perfídias, das invejas, da soberba, da impiedade e das blasfêmias que não é provável que Deus use ainda de misericórdia com a Alemanha” (De WETTE apud FRANCA, 1928, p. 441).

Corrupção ao invés de conversão! Imoralidade ao invés de santidade!

Quanto mais o crente se persuadia de que estava definitivamente salvo pela fé em Cristo, maior era o seu desprezo pelo Evangelho, e com mais facilidade se entregava às torpezas do pecado.

 

A certeza suprimiu o temor, que por sua vez levou à ruína da sociedade. A “pastoral otimista” de Lutero, inimiga do inferno e de seu santo temor, provou seu patente fracasso.

 

Conclusão

Escrevendo ao Bispo de Florença, Santa Catarina de Sena deplorava a negligência dos maus pastores para com o rebanho de Cristo:

 

“Digo-o chorando: hoje os pastores não se preocupam com as impurezas e o comércio das graças do Espírito Santo. Como ladrões, roubam a glória divina para si. Ai! Não procuram corrigir. Enxergam o lobo infernal levando as ovelhas e fecham os olhos. Por isso não veem, não corrigem” (Carta LXXXVIII, 4, grifo nosso).

 

A descrição parece-nos atualíssima.

 

Os pastores negligenciam a salvação das ovelhas. Entregam-nas covardemente ao banquete dos lobos. Aprovam falsas doutrinas. Exaltam os pregadores de mentiras enquanto perseguem os defensores da verdade.

Essa é a realidade depois do Concílio Vaticano II.

 

Mas, para nosso consolo, Deus nunca deixa de suscitar bons pastores. E para nossa alegria, ao aproximar-nos do encerramento do presente artigo, recebemos providencialmente uma excelente notícia. Em nota recentemente publicada (30/03/2012), a Conferência Episcopal Espanhola condenou firmemente a teologia protestante do padre Andrés Torres Queiruga.

Reproduzimos a conclusão dessa notificação:

 

 “Com a presente Notificação, a Comissão para a Doutrina da Fé quer salvaguardar aspectos essenciais da doutrina da Igreja para evitar a confusão do Povo de Deus e contribuir com o fortalecimento de sua vida cristã; espera igualmente que o Prof. A. Torres Queiruga siga clarificando seu pensamento e o ponha em plena consonância com a tradição da fé autorizadamente ensinada pelo Magistério da Igreja”.

 

Que os Bispos do Brasil, em especial Dom Redovino, adotem esse virtuoso exemplo dos Bispos da Espanha, proclamando a verdadeira Fé e combatendo diligentemente os lobos que dilaceram o aprisco de Nosso Senhor.

 

Para finalizar, faço minhas as palavras de Santa Catarina de Sena ao Bispo de Florença, dirigindo-as ao Exmo. Bispo Dom Redovino Rizzardo:

 

“Muitos inimigos nos assediam. Apressemo-nos a procurar refúgio naquela fortaleza (da caridade), pelo caminho da verdade e dos Santos Pastores antigos. Não esperemos o amanhã. Por amor de Cristo crucificado vos peço que vos lembreis de que o tempo é breve. Não sabeis se vivereis o dia de amanhã. Um dia morrereis e não sabeis quando. Nada mais acrescento, pai, a não ser que perdoeis a mim, mísero miserável” (Carta LXXXVIII, 5).

 

Campo Grande, 22 de Abril de 2012, na festa de Santo Anselmo, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja.

In Corde Jesu, semper Eder Silva

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    Para citar este texto:
"O Inferno aggiornato de Andres Torres Queiruga e Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados-MS"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/o-inferno-aggiornato-de-andres-torres-queiruga-e-dom-redovino-rizzardo-bispo-de-dourados-ms/
Online, 21/09/2017 às 20:06:09h