Igreja

Neocatecumenato e confissão
Orlando Fedeli


A publicação do Motu Próprio "Misericordia Dei" de João Paulo II, restabelecendo a Confissão como sempre fora praticada na Igreja, veio tornar ainda mais patentes os erros difundidos na Igreja após o Concílio Vaticano II sobre a chamada confissão comunitária, que foi largamente praticada nas paróquias do mundo inteiro, e protestantemente defendida pelo neocatecumenato.

Convém, antes de tudo, salientar alguns pontos mais importantes do recente Motu Próprio "Misericordia Dei" do Papa João Paulo II, que publicamos integralmente no site Montfort, e do qual oportunamente faremos um comentário mais longo e específico

Já no início do Motu Próprio, o Papa João Paulo II salienta que o sacramento da Penitência ou Confissão foi "incessante praxe da Igreja ao longo da história", e que embora "A celebração do sacramento da Penitência conheceu, ao longo dos séculos, uma evolução com diversas formas expressivas", ela sempre conservou "a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, além da participação do ministro — só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo —, os atos do penitente: a contrição, a confissão e a satisfação".

A seguir, o Papa nota que, atualmente, se registram abusos com relação a esse sacramento, mormente pela adoção generalizada da chamada confissão comunitária, que fez cair em abandono a confissão particular dos pecados.

Afirma o Papa:

"Isto revela-se especialmente necessário quando se observa em certas regiões a tendência ao abandono da confissão pessoal, juntamente a um recurso abusivo à «absolvição geral» ou «coletiva», de modo que esta deixa de ser vista como meio extraordinário em situações totalmente excepcionais. Partindo de um alargamento arbitrário do requisito da grave necessidade, perde-se de vista praticamente a fidelidade à configuração divina do sacramento, e concretamente a necessidade da confissão individual, com graves danos para a vida espiritual dos fiéis e para a santidade da Igreja".

O Papa diz, então, que é dever dos Bispos lembrarem que:

a) «A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou moral o escusa desta forma de confissão, podendo neste caso obter-se a reconciliação também por outros meios». 

3. Visto que «o fiel tem obrigação de confessar, na sua espécie e número, todos os pecados graves de que se lembrar após diligente exame de consciência, cometidos depois do batismo e ainda não diretamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja nem acusados em confissão individual», seja reprovado qualquer costume que limite a confissão a uma acusação genérica ou somente de um ou mais pecados considerados significativos. Por outro lado, levando-se em conta a chamada de todos os fiéis à santidade, recomenda-se-lhes que confessem também os pecados veniais. 

Finalmente o Papa estabelece claramente que a absolvição coletiva só pode ser dada em circunstâncias realmente excepcionais:

1.o) Por motivo próximo de morte coletiva, não havendo realmente tempo de se ouvirem as confissões individualmente, mas permanecendo, em caso de sobrevivência, a obrigação de confessar posteriormente os pecados, em confissão pessoal.

"2.o) haja grave necessidade, isto é, quando, dado o número de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados da graça sacramental e da sagrada comunhão".

O Papa salienta que "não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder nalguma grande festividade ou peregrinação». 

Quanto à segunda condição, o Papa salienta ainda que "se desvirtua o sentido da impossibilidade física ou moral como no caso, por exemplo, de considerar que um período inferior a um mês implicaria permanecer «durante muito tempo» em tal privação". 

Conhecendo bem a atual miséria e pouca boa vontade de muitos clérigos e fiéis, o Papa lembra que:

"Não é admissível criar ou permitir que se criem situações de aparente grave necessidade, derivadas da omissão da administração ordinária do sacramento pelo não cumprimento das normas acima indicadas e, muito menos, da opção dos penitentes pela absolvição geral, como se se tratasse de uma possibilidade normal e equivalente às duas formas ordinárias descritas no Ritual". 

"Não constitui suficiente necessidade, a mera grande afluência de penitentes, não só em ocasiões de uma festa solene ou de uma peregrinação, mas nem mesmo por turismo ou outras razões semelhantes devidas à crescente mobilidade das pessoas". 

"5. Não cabe ao confessor julgar se se verificam as condições requeridas pelo cân. 961-§1, 2º, mas «ao Bispo diocesano, o qual, atendendo aos critérios fixados por acordo com os restantes membros da Conferência Episcopal, pode determinar os casos em que se verifique tal necessidade».

"Tudo o que estabeleci, com a presente Carta apostólica em forma de Motu proprio, ordeno que tenha valor pleno e estável e seja observado a partir deste dia, não obstante qualquer outra disposição em contrário. Aquela, por sua natureza, tem valor inclusive para as venerandas Igrejas Católicas Orientais, de acordo com os respectivos cânones que lhes são próprios.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 7 de Abril, Domingo da Oitava de Páscoa ou da Divina Misericórdia, no ano do Senhor de 2002, vigésimo quarto de Pontificado".

Nada mais oportuno do que esse Motu Próprio "Misericordia Dei", na hora atual.

E é à luz desse documento pontifício que analisaremos o que se ensina aos membros do neocatecumenato sobre o Sacramento da Penitência ou Confissão.

Para isso, nos fundaremos na Apostila de Kiko e Carmem intitulada "Orientações às Equipes de Catequistas para a Fase de Conversão" --- Anotações tiradas das gravações dos encontros realizados por Kiko e Carmem, para orientarem as equipes de Catequistas de Madrid, em fevereiro de 1972 -- Jundiaí SP -- janeiro de 1987 (quando citarmos esse documento produzido por Carmem Hernandes, daremos, entre parênteses, a página da citação feita).

No 9.o Dia desse encontro, a dirigente do neocatecumenato chamada Carmem fez uma exposição sobre o Sacramento da Penitência, na qual são abundantes graves erros doutrinários.

Dessa exposição é que faremos um resumo crítico.

Antes de tudo, convém salientar que a catequista-mor oficial do neocatecumenato, Carmem Hernandes, desde a sua primeira frase recomenda que não se conte a outros o que ela vai dizer:

"Não é para falarem às pessoas tudo o que eu direi, mas que fique como um pano de fundo, como base e possa servir-lhes para resolver os milhões de problemas que poderão se apresentar com as pessoas. Servirá para evitar complicações, porque o questionário sobre a Penitência se presta a muitas discussões com as pessoas" (p. 124).

É evidente, por essa frase inicial de Carmem, que os seus ouvintes se sentiram lisonjeados pela confiança neles demonstrada: sentem-se "da casa", iniciados nos segredos do neocatecumenato. Estão já separados e distinguidos da plebe vil, que não terá direito de saber tudo.

Dir-se-á que essa frase tem apenas uma finalidade didática, visando aconselhar futuros "mestres"-- os catequistas -- como operar melhor.

Mas ela é também uma garantia de manutenção de uma certa reserva, de uma certa discreção. Entra-se num "segredo". E quem é convidado a ouvir algo reservado, sente que é digno de confiança.

Em troca, tal ouvinte fica disposto a retribuir essa confiança particular, mantendo o "segredo".

Carmem, entretanto, deixa brumosa a razão do "segredo"...

Ao encerrar a sua exposição sobre o Sacramento da Penitência, ela reitera o pedido de reserva ou de segredo:

"Não digam nada às pessoas de todas estas coisas; simplesmente revalorizem o valor comunitário do pecado, sua índole social, o poder da Igreja, etc" (p.137. O negrito é meu).

O fato de, ao final de sua palestra, ela ter reforçado o tom de segredo fica patente, pois que ela diz que os seus ouvintes nada devem dizer do que ouviram. A conferência de Carmem devia ser mantida secreta.

Por que o segredo?

Porque ela tem consciência de que a doutrina que expõe é contrária a tudo o que a Igreja sempre ensinou, e que os católicos em geral conhecem. O segredo do neocatecumenato provém da consciência que seus dirigentes têm de que pregam uma doutrina que não é a católica.

Seria preciso mostrar o baixo nível de expressão de Carmem, que afirma ser necessário que seus ouvintes "revalorizarem (...) o valor comunitário do pecado"?

Revalorizar o valor ?

E por acaso o pecado tem um "valor comunitário"?

O pecado não tem nenhum valor.

O primeiro ponto doutrinário a ressaltar no discurso de Carmem é a sua concepção evolutiva da Fé e dos Sacramentos. Diz ela:

"A concepção do Sacramento da Penitência evoluirá de acordo com o que as pessoas vão vendo nele" (p. 124).

A concepção que a Igreja tem dos Sacramentos é objetiva, e todos os católicos são obrigados a aceitá-la.

A noção que Carmem expõe nessa frase peca por evolucionismo e por subjetivismo. Por ela se creria que a noção de Sacramento varia ao sabor da evolução da concepção que o ‘público" tem dele.

Alguém poderia tentar socorrer Carmem dizendo que no Motu Próprio Misericordia Dei o Papa João Paulo II fala também em evolução do sacramento.

Para facilitar o cotejo, repetimos a citação do Papa, já feita:

"A celebração do sacramento da Penitência conheceu, ao longo dos séculos, uma evolução com diversas formas expressivas", ela sempre conservou "a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, além da participação do ministro — só um Bispo ou um presbítero, que julga e absolve, cura e sara em nome de Cristo —, os atos do penitente: a contrição, a confissão e a satisfação".

Note-se que o Papa afirma que houve uma evolução nas formas expressivas da celebração do sacramento, mas que a Igreja "conservou a mesma estrutura fundamental do sacramento", que compreende:

1.o) a ação de um ministro que julga e absolve;

2.o) a ação do penitente que inclui a contrição, a confissão e a satisfação.

Nessa estrutura nada pode mudar e a Igreja sempre a conservou assim, diz o Papa.

Para Carmem, o que evolui conforme "o que as pessoas vão vendo" no Sacramento da Penitência é a "concepção" dele. O que é bem diferente do que disse o Papa.

É essa concepção evolutiva da fé, dos dogmas e dos sacramentos que faz do neocatecumenato um movimento herético modernista.

Toda exposição de Carmem vai ser guiada por essa compreensão evolutiva da Fé, da Igreja e dos Sacramentos.

A conferencista, ao expor a idéia que a Igreja primitiva possuía do Sacramento da Penitência, num primeiro momento, se aproxima do que disse o Papa no Motu Próprio citado, omitindo, porém, um ponto capital que o Papa manteve: a confissão dos pecados.

"E assim dizemos que a Igreja primitiva não teve a confissão como a temos hoje, mas que houve a essência do Sacramento da Penitência que é a conversão, o perdão dos pecados" (p. 126).

Kiko vai debochar das pessoas simples, dizendo:

"(..) as pessoas pensam que mesmo o confessionário foi inventado por Jesus Cristo" (p. 143).

Mais adiante, todavia, a expositora afirma algo que contraria frontalmente o que o Papa afirmou em seu último Motu Próprio:

"A igreja primitiva considerava os pecados de morte -- [o pecado mortal?] -- quase que unicamente a apostasia, ou seja, a negação do caminho ou a saída dele, porque o homem durante o Caminho é fraco e cai, mas sem sair do Caminho"(...) Por isso, a Igreja primitiva não pôs o exame de consciência no final do dia, como foi mais tarde introduzido pelos jesuítas, e sim, de manhã, ao levantar-se, porque converter-se é se colocar diante de deus quando se começa a caminhar" (p. 128).

Os cristãos da Igreja primitiva corriam o risco de morrer na arena, caso não apostatassem. Era natural então que essa fosse a sua grande prova, a sua grande tentação: a de apostatar. Isso lhes era um risco maior do que qualquer outro pecado, daí ressaltarem a importância desse problema. Mas isso não significa que os cristãos das catacumbas considerassem o adultério, por exemplo, um pecado leve.

Carmem sustenta que a Igreja primitiva tinha uma noção de pecado totalmente diversa da atual, e por isso sua concepção do Sacramento da penitência tinha que ser necessariamente diversa.

"A Igreja primitiva considerava os pecados que não significavam sair do caminho -- [todos os pecados, fora a apostasia] -- como frutos da fraqueza humana, como próprios de um homem que está a caminho para a plenitude que não tem ainda, mas pela qual já se sente atraído, porque tem a certeza dela, porque é testemunha da santidade de Deus, que é absoluta. Na Igreja primitiva, com este conceito de pecado, era muito difícil que os batizados entrassem novamente em pecado; por isso a Igreja primitiva não tem nenhuma explicitação do Sacramento da Penitência que não seja o Batismo" (p. 128).

A líder neocatecumenal começou afirmando que a Igreja primitiva tinha "a essência do Sacramento da Penitência que é a conversão, o perdão dos pecados". Agora, ela nega que houvesse sequer a explicitação do Sacramento da penitência na Igreja primitiva.

Mais ainda: ela afirma que a moral da Igreja primitiva era diversa da moral posteriormente ensinada e exigida pela Igreja. A Igreja primitiva teria outra noção de pecado mortal. Para ela, pecado mortal era só a apostasia.

Influenciada pelas doutrinas anticonstantinianas e modernistas do padre Louis Bouyer, e fiel a seu conceito historicista e evolucionista, Carmem vai repetir os ataques à Igreja institucionalizada, que teria surgido com a libertação da Igreja pelo Imperador Constantino.

"Vocês devem explicar um pouco como com Constantino entraram na Igreja as massas, perdendo-se nela um pouco o sentido a comunidade. Não se vê mais uma comunidade que caminha em constante conversão pelos impulsos do Espírito Santo. Vemos, sim, pessoas que pecam individualmente, que são absolvidas individualmente, e, em seguida, vão comungar... Mas toda uma comunidade em conversão, que se reconhece pecadora, não a vemos" (p. 145).

"Depois, com coisas muito graves como o homicídio e, o adultério público, que eram considerados de morte -- [pecados mortais] -- quando a Igreja se institucionaliza um pouco, aparece a instituição penitencial" (p. 128-129).

Carmem opõe duas igrejas: uma igreja sacramental e uma igreja jurídica. Para ela, a Igreja primitiva era sacramental, não jurídica, carismática. Com Constantino, a Igreja se institucionalizou e se tornou jurídica. Daí a noção de culpa teria se tornado legalista e moralista. Pecado seria, desde então, uma violação da lei, exigindo uma punição legal.

"Na igreja primitiva, a primeira explicitação daquilo eu podemos chamar de Sacramento da Penitência para os batizados que, depois de terem seguido o Caminho o abandonam, é a excomunhão, porque a Igreja não é uma coisa jurídica, mas sacramental. Não se pode compreender a Penitência sem uma noção sacramental da Igreja. Se passarmos para uma visão jurídica da Igreja, como acontecerá depois, a penitência adquirirá, também ela uma dimensão jurídica" (p. 129).

Toda essa concepção é absolutamente gratuita, sem ter qualquer correspondência com a realidade. Por exemplo, Deus, no Sinai, deu uma lei. Impôs os dez mandamentos ao povo eleito. Seria essa uma noção carismática ou legalista e jurídica?

E Carmem – que dá absoluta importância à noção da Páscoa judaica, dizendo que é ela que subjaz à Eucaristia católica –, Carmem não poderá deixar de reconhecer que esta é uma noção jurídica.

Por que ela prefere, na Penitência, uma noção não jurídica? Por que essa diferença entre a Eucaristia e Penitência em sua relação com o judaísmo?

Mistério...

Dirá Carmem que o Cristianismo não é o judaísmo -- e nisso terá razão --e que Cristo teria transformado a religião jurídica e legalista dos fariseus numa religião de amor, toda ela não jurídica, mas apenas sacramental, não institucional.

Ela deveria então explicar como Cristo asseverou:

"Não julgueis que eu vim abolir a lei, ou os profetas; não os vim destruir, mas sim para os cumprir. Na verdade vos digo que antes passarão o céu e a terra que passe um só jota da lei" (Mt V, 17-18).

Carmem fala da apostasia como o único pecado na Igreja primitiva, e isso é falso. São Paulo na carta aos Coríntios condena um incestuoso, e ele dá uma lista de pecados que impedem de entrar no Céu. Portanto, na Igreja primitiva, havia noção de outros pecados, dos quais se exigia penitência.

Também Cristo, no Apocalípse, louva os cristãos primitivos por não terem tolerado o Nicolaísmo, que Cristo diz abominar (Apoc II, 6)

Ora, segundo informam os comentadores, o pecado de Nicolau era a prática do amor livre.

Por esses poucos argumentos fica patente a gratuidade das afirmações de Carmem sobre a moral da Igreja primitiva.

A visão evolucionista da Igreja obriga Carmem a historicizar a Igreja no tempo. A Igreja seria moldada pelos homens e não instituída com natureza imutável por Deus.

Ela vai atribuir ao surgimento do monacato uma mudança na natureza do sacramento da Penitência ou Confissão (Carmem nega e abomina a identidade desses sinônimos, que o catecismo adota).

Antes do monacato e da institucionalização da Igreja, diz Carmem, "a Penitência era tão rigorosa porque respondia a uma conversão e a um Batismo como aquele da Igreja primitiva; mas com a igreja de massa, com pessoas pouco convertidas --idéia do modernista Bouyer que Carmem repete -- com o aparecimento dos monges, surgiu também uma forma nova de penitência. Os monges desejavam levar a conversão, de qualquer maneira, a essas pessoas (porque como as pessoas pecavam mutíssimo, havia necessidade de perdoar-lhes de qualquer maneira; algo mais fácil de fazer) Nessa época entrou também a mentalidade do direito germânico, e o pecado começou a ser uma coisa legalista, uma falta a uma série de preceitos. Assim, agora o perdão dos pecados não acontecia mais através de um caminho de conversão, mas por uma expiação. Começaram a aparecer listas de pecados com as expiações correspondentes" (p. 131).

A imprecisão dessa suposta explanação histórica é notável.

O monacato apareceu ainda durante o império romano, graças a Santo Antão e São Bento, especialmente, e, nesse tempo, o direito dominante era o Direito Romano e não o germânico. Carmem mistura o monacato original com o monacato medieval.

E com que direito, baseada em que, ela afirma que os monges queriam levar as pessoas a "se converterem de qualquer maneira", e que desejavam "perdoá-los de qualquer maneira"? É claro que os monges não pertenciam ao neocatecumenato, onde Carmem recomenda que não se procure convencer ninguém (p 147), e não se exija nada de ninguém (p. 147)...

Como explicaria Carmem que o próprio Cristo, no sermão da montanha, enumerou faltas e fez corresponder a elas punições variadas?

"Ouvistes o que foi dito aos antigos: "Não matarás".(...) Mas eu vos digo: aquele que chamar de racca a seu irmão será réu no Conselho... (Mt. V, 21-22).

Segundo Carmem, foi só no século VI que "apareceu a confissão".

Diz ela: "O primeiro penitencial (o mais antigo) é do século VI. Nessa época, começou a ser necessário dizer os pecados: apareceu a confissão dos pecados. Naquele tempo, porém, a confissão dos pecados não era ainda o essencial, era somente um meio para a expiação porque, se não falassem os pecados ao monge, este não saberia qual a expiação que deveria ser aplicada. O essencial era a expiação (...) Aquilo que interessava era a salvação pessoal, e, para obtê-la, devia-se expiar muito" (p. 132 O sublinhado é da autora).

Essas afirmações de Carmem vão contra a doutrina católica, reafirmada ainda agora por João Paulo II:

"A celebração do sacramento da Penitência (...) sempre conservou "a mesma estrutura fundamental que compreende necessariamente, (...) os atos do penitente: a contrição, a confissão e a satisfação" (João Paulo II, Motu Próprio Misericordia Dei, cfr. supra. O sublinhado é meu).

Portanto, o Papa reafirma que a confissão sempre pertenceu e sempre foi conservada no Sacramento da Penitência como parte essencial dela, do mesmo modo que a satisfação ou expiação.

No mesmo sentido as palavras do Cardeal Ratzinger na apresentação do Motu Proprio Misericordia Dei:

"Esse caráter fortemente personalista do sacramento da Penitência tinha sido colocado um pouco à sombra durante as últimas décadas, por causa do recurso sempre mais freqüente à absolvição coletiva, que era considerada cada vez mais como uma forma normal do sacramento da penitência – um abuso que contribuiu para o desaparecimento progressivo desse sacramento em certas partes da Igreja.

"Como o Papa hoje fecha novamente as fronteiras dessa possibilidade, uma objeção poderia surgir, nota o cardeal: mas o sacramento da penitência entretanto sofreu transformações no curso da história; então, por que não esta? A respeito disso, convém dizer que a forma do sacramento apresenta, de fato, no curso da história, variações notáveis, mas o componente personalista lhe foi sempre essencial" (Zenit.org, ZF02050202).

No final da citação de Carmem, a absurda frase, gritantemente antievangélica: "Aquilo que interessava era a salvação pessoal". Pois não disse Cristo, no Evangelho: "Que adianta ao homem conquistar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?" (Luc IX, 25).

Não podemos deixar de citar uma frase de Carmem contrária à Missa como sacrifício propiciatório, erro muito difundido em nossa época:

"Da mesma maneira, começaram as missas particulares dos monges, ao descobrir-se o grande poder expiatório da Missa. A missa se transformando num meio valiosíssimo para expiar. Aos poucos o abuso aumentou tanto, que um rico podia pagar a própria salvação pessoal mandando dizer missas em expiação dos próprios pecados " (p.132).

A Missa é a renovação do sacrifício do Calvário, de valor infinito. Na missa há um sacrifício de adoração, de louvor, de impetração e de propiciação ou satisfação. Isso não foi descoberto na Idade Média. Sempre foi assim.

Carmem vai além, pois chega a falar em "degeneração" da expiação penitencial:

"Aos poucos a expiação perdeu o seu caráter essencial, porque apareceram uma série de abusos, podendo ser compensada com esmolas, com missas e jejuns. A expiação degenerou e perdeu o seu valor. Apareceu então, como expiação maior, o fato de confessar os pecados. A confissão dos pecados, pela humilhação que comporta e pela vergonha que se experimenta ao fazê-la, começou a tomar um sentido de expiação. Assim entramos num período em que a confissão dos pecados era o centro da Penitência" (p. 133).

Será que essa pessoa jamais leu a passagem da Escritura que diz que "a esmola livra de todo o pecado e da morte e não deixará a alma cair nas trevas" (Tob. IV, 11 )?

Depois de acusar o monacato de ter começado a deturpar o Sacramento da Penitência, Carmem acusa as ordens mendicantes medievais de terem cometido pecado igual.

"Os franciscanos e os dominicanos propagaram, em todo o lugar, a confissão particular como uma devoção. Apareceu a confissão muito freqüente, ao contrário da Igreja primitiva" (p. 133).

"Como tudo isso era insustentável, voltou-se às confissões privadas e se fez da confissão uma devoção para a santificação pessoal, e sito durou assim até nossos dias" (p. 133).

Para o neocatecumenato, então, é algo negativo buscar a "santificação pessoal"?

Cristo nos exorta a santificar-nos pessoalmente quando nos diz: "Sede perfeitos como o vosso Pai do céu é perfeito".

Carmem é obcecada pela "salvação comunitária". Tudo o que é pessoal lhe parece anticristão.

"Assim, a confissão se transformou em algo de tão privado que não se via a comunidade de lado nenhum. O sacramento não era mais a expressão da comunidade eclesial, mas uma devoção privada, pessoal. Todas as degenerações nasceram com a perda do sentido comunitário da Igreja como Sacramento. Então a Igreja ficou somente como um centro jurídico, onde as pessoas se salvam. A Penitência, uma vez perdida a coluna da comunidade, transformou-se em confissão individual" (p. 134. O negrito e o sublinhado são meus).

Que dirá Carmem do recente Motu Próprio Misericordia Dei de João Paulo II, que restaurou a confissão privada -- "devocional" -- e proibiu a confissão comunitária como um abuso?

Será que Carmem terá a petulância de afirmar que João Paulo II, com esse Motu Próprio, cooperou para a degeneração do sacramento da Penitência?

Essa líder do neocatecumenato afirma que se ri da doutrina da Igreja que distingue a contrição da atrição (Cfr. p. 134).

Não é de espantar que, vistos estes pressupostos doutrinários da Grã-catequista do neocatecumenato, ela tenha admiração e concordância com Lutero:

"Agora vocês compreendem que muita coisa que dizia Lutero tinha um fundamento"  (p. 135. Negrito e sublinhado são meus).

Essa defesa de Lutero comprova que o neocatecumenato é uma escola de protestantização. É um neocatecumenato para o protestantismo.

Carmem, que é devota do Concílio Vaticano II, se posiciona francamente contra o Concílio de Trento, que é infalível:

"Assim, chegamos ao Concílio de Trento. Com este Concílio, do século XVI até o século XX tudo permanece bloqueado. Aparecem os confessionários; as "casinhas" são bem recentes. A Necessidade do confessionário nasceu quando se começou a generalizar a forma da confissão privada, medicinal e de devoção, trazida pelos monges. Não riam, porque a vivemos nós também. A confissão como meio de santificação pessoal, assim como a direção espiritual, tudo faz parte do caminho da perfeição. Quem colocou confessionários em todo o lugar foi São Carlos Borromeu. Com detalhes que se referem até à rede..." (p. 134).

Quando se vê uma pessoa que se atreve a rir-se do que a Igreja fez, e a ironizar até mesmo um Santo como São Carlos Borromeu, vem à mente o que disse São Paulo de certas mulherzinhas ávidas de aprender e que jamais alcançam o conhecimento da verdade (Cfr. II Tim., III, 7)

Para Lutero, elogios; para São Carlos Borromeu, críticas. Esse é o espírito dessa seita que se chama neocatecumenato e é, de fato, um neoprotestantismo.

E prossegue essa admiradora dos fundamentos de Lutero a criticar o Concílio de Trento:

"Mas, em Trento, viu-se tudo à luz das essências, da eficácia e se perdeu de vista o valor sacramental do sinal. Por isso, tanto faz que a comunhão seja com o pão ou com a hóstia, que não parece mais pão e, sim, papel; que o vinho o beba um só ou que bebam todos, porque o sacramento se realiza do mesmo modo. Encarou-se, portanto, muito a eficácia do Sacramento da Penitência para perdoar os pecados, e a absolvição se torna um absoluto. A confissão, assim, adquiriu um sentido mágico, e que a absolvição por si mesma é suficiente para perdoar os pecados. A absolvição perdoa os pecados e você fica tranqüilo" (p. 135. O sublinhado é da autora).

Evidentemente Dona Carmem é apenas a repetidora de uma lição que ela aprendeu de um mau teólogo. A missão dela e a de Kiko é a de divulgadores de um sistema teológico que os dois espalham de modo pouco sistemático. Daí as lacunas no sistema doutrinário que eles divulgam de modo atrevido.

Atrevido, sim, porque, se se atrevem a dizer que, após Trento, "a confissão, assim, adquiriu um sentido mágico", é porque sabem ter as "costas quentes", já que esse atrevimento é demais para permanecer, além de sem castigo, com aplausos.

Finda a exposição histórica sobre o Sacramento da Penitência, Carmem expõe a concepção que tem do pecado, que ela inculca no neocatecumenato.

Para ela, a visão jurídica ou legalista do pecado seria errada . Pecado não é uma violação da lei. Além disso, ela condena a idéia de que, pelo pecado, se possa tirar algo de Deus.

Seguindo Bouyer e Zundel, ela afirma que de Deus nada absolutamente pode ser tirado, entendendo que nada pode afetar a essência divina nem afetá-la de qualquer modo que seja. O que, evidentemente é certo. Mas ela vai além.

Carmem afirma rotundamente que nem a glória extrínseca de Deus pode ser afetada pelos pecados dos homens, esquecendo que essa glória extrínseca de Deus pode sim ser diminuída pelos pecados das criaturas.

Nesse sentido, diz ela:

"As pessoas se perguntam se é possível ofender unicamente a Deus. A pergunta é colocada assim, porque nós temos uma concepção vertical do pecado, individualista: que somos nós que ofendemos, de maneira particular a Deus, como se o pecado fosse uma ofensa a Deus, no sentido de roubar a Deus a sua glória. Nós acreditamos que podemos causar dano a Deus.
"A primeira coisa que devemos pensar é que não se pode causar danos a Deus. Deus não pode ser ofendido no sentido de tirar-se - Lhe a glória, porque então Deus seria vulnerável e não seria mais Deus.
(p. 140. O negrito é meu).

Veja-se, nessa afirmação estapafúrdia de Carmem, o nível do curso de Teologia feito por ela. É o mal da multiplicação de cursos de Teologia tipo Mobral, ou em nível "Supletivo". Dá nisso! "Teólogas" presunçosas "marca barbante".

Prossegue Carmem seu discurso "teologal":

"Deus é invulnerável. Você não pode tirar-lhe a glória de jeito nenhum. Isso diz também um Salmo: ‘estes que levantam o seu arco contra o céu, será que acreditam poderem alcançar a Mim? Não sabem que as flechas que lançam contra Mim vão recair sobre eles? " Isto surpreende muitíssimo as pessoas, porque desde pequenos nos disseram que os pecados faz sofrer (sic) o Menino Jesus, se formos maus e indóceis. E as pessoas têm uns conceitos muito sentimentais: pensam que o pecado faz sofrer que o pecado faz sofrer muito a Jesus Cristo" (p. 140 E desta vez o sublinhado é da autora)..

A "teóloga" Carmem deveria explicar então porque os anjos cantaram, no Natal de Cristo: "Glória a Deus nas alturas". E por que a Igreja sempre rezou "Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo"?

Essa pobre "teóloga" não sabe que distingue-se a glória intrínseca de Deus -- invulnerável, infinita e imutável -- a glória extrínseca de Deus, glória essa que pode ser maior ou menor, e que é diminuída pelos pecados dos homens. Por isso Santo Inácio deu à Companhia de Jesus o lema "Ad majorem gloriam Dei", afirmando que ela deveria lutar pela "Maior glória de Deus".

Para Carmem e para o neocatecumenato -- como para os hereges modernistas -- o pecado é sempre "comunitário", é algo que prejudica a "comunidade", que vai contra "amor".

Carmem, fiel ao seu radical evolucionismo modernista, dirá... Perdão. Carmem não diz, como todo o mundo faz. Ela não diz. Ela "querematiza". E perdoe-nos o leitor o usar o neologismo pedante que ela emprega.

Carmem então "querematizou":

"A prática da confissão atravessa, hoje, uma crise absoluta, e, por isso, desejo dar-lhes algumas idéias antes de querematizar -- [não é horrível esse pretensioso neologismo?] -- sobre a conversão, porque o sentido do pecado que a sociedade tem hoje - sociedade que não é mais individualista, mas aberta ao sentido comunitário -- faz com que as formas e as maneiras com que hoje explicamos este sacramento da confissão não respondam mais às necessidades atuais. E como não respondem a estas necessidades, os jovens encontram a confissão sem sentido no eu respeita à sua situação de pecado, porque a confissão, assim como é hoje, responde a uma idéia idealista de pecado, não a uma idéia existencial [Sic!] como hoje a psiquiatria está introduzindo no mundo. Quer dizer: responde a uma idéia muito individual de pecado, enquanto que hoje se estão descobrindo os valores comunitários. Hoje, o sentido de pecado na justiça social, na honestidade profissional, nas relações com os outros está muito em moda, ao passo que ao aspecto sexual passou a um segundo plano. Esta mudança faz com que a explicitação que hoje se faz do Sacramento da Penitência, isto é, da confissão, não responde sacramentalmente ao sentido que a humanidade tem do pecado e da conversão. Por isso, a prática da confissão está em crise total. Mais ainda: veremos logo porque a confissão se transformou em prática de devoção" (p. 125. O sublinhado e o negrito são meus).

Está "querematizado" por escrito: Carmem e o neocatecumenato seguem a noção de pecado que "está muito em moda".

Ela não segue o que ensina a Igreja, segue a moda introduzida pela psiquiatria moderna, admite a noção "existencial" do pecado.

Não fica bonito o adjetivo "existencial" agregado à noção de pecado? Fica chic! Parece um discurso "intelectual".

Dá um ar filosófico moderno ao texto, fazendo-o parecer profundo, quando de fato é apenas brumoso e pretensioso. Há pessoas que, para simularem profundidade, fazem as explicações serem turvas, porque pensam que toda água turva é profunda. O que é uma ilusão: há muita água turva que é rasa.

Se estivesse ouvindo esse charabiá herético de Carmem, perguntar-lhe-ia o que quer dizer uma noção "existencial de pecado", e muito provavelmente, como dizem os estudantes de uma professor que não sabe a matéria, ela teria que querigmaticamente "enrolar" a explicação.

Ela garante que a noção comunitária de pecado é que está na moda, daí a confissão dever ser também comunitária e não individual.

João Paulo II, com o Motu Próprio Misericordia Dei,. acabou com essa "moda" abusiva da confissão "comunitária", que não passou de pretexto para acabar com a confissão individual, como sempre a Igreja a ensinou e praticou.

E é um escândalo e uma vergonha Carmem afirmar que os pecados de cunho sexual passaram para um segundo plano, quando a sociedade está encharcada de sexualismo freudiano "existencial".

Para Carmem e para a heresia modernista que ela propaga ou "querimatiza" o pecado não é uma ofensa a Deus inatingível, e sim uma ofensa ou dano à comunidade. Para ela, pecado não é um ato violador de uma lista de dez preceitos legais, mas sim uma ruptura do indivíduo com relação à comunidade. Por isso, o pecado seria sempre uma ofensa à comunidade, o pecado seria comunitário e teria que se pedir perdão à comunidade e não a Deus. Daí a confissão tem que ser comunitária e não individual. E como o indivíduo seria inseparável, ou deveria ser inseparável da comunidade eclesial, o pecado não é, no fundo, o de uma pessoa individual. Todo pecado seria da comunidade, isto é, da própria Igreja. Por isso, Carmem, como os modernistas, concebe a Igreja como santa e pecadora, como comunidade em contínua necessidade de conversão.

Veja-se isso expresso "querigmaticamente" pela própria Carmem:

"A Igreja é uma comunidade penitencial; uma comunidade penitencial que não se converte de uma vez para sempre (...) A Igreja, reconhecendo os próprios pecados e as próprias fraquezas, mostrará a força de Deus, eu se comunica através dela". "Esta conclusão se refere ao fato de que a Igreja é uma comunidade em contínua metanóia, em conversão, em marcha" (p. 146).

"Por que a Igreja deve se apresentar como uma comunidade em conversão, assim como era a Igreja primitiva, onde as pessoas não se acreditavam já chegadas ou perfeitas, isso nasce do legalismo, com uma maneira diferente de ver o padre e a Igreja".

(...).

"Em segundo lugar, recupera a Assembléia, a Igreja que se confessa pecadora. Em terceiro, recuperar o sentido do Presbítero, como chefe desta Igreja. Enfim, a importância da paz: uma pessoa se sente perdoada no seu profundo, quando se sente em comunhão com os irmãos. Por isso é importante o abraço da paz. Por isso verão que quando não estiverem em paz, é porque o seu pecado, mesmo bem escondido, não os faz sentirem-se em comunhão com os irmãos, porque o pecado é comunitário. Recuperar a comunhão com os irmãos é o sinal maior do perdão, do fato que, verdadeiramente, você encontrou a reconciliação." (p. 136. O negrito é meu. Os sublinhados são do texto da autora).

Carmem estabelece uma relação direta entre a comunidade e a confissão comunitária ou coletiva, agora condenada pelo Papa.

"Aparecendo a comunidade eclesial, aparecerá também a Penitência comunitária. A coisa fundamental é criar a comunidade, e para obter isso é preciso o processo catecumenal" (p. 137).

Daí se compreende porque a insistência na confissão comunitária, a obsessão pelo abraço da paz, a ojeriza contra a confissão individual e contra a absolvição pessoal.

Ora, o Cardeal Ratzinger, explicando o Motu Próprio Misericordia Dei e com base nesse documento de João Paulo II, ensinou uma doutrina totalmente oposta à de Carmen e do neocatecumenato.

Disse Ratzinger:

"O Motu próprio, sublinha antes de tudo, o caráter personalista do Sacramento da Penitência: como o pecado, a despeito de todos os nossos laços com a comunidade humana, é afinal alguma coisa totalmente pessoal, da mesma forma que a sua cura o perdão deve ser totalmente pessoal" (Cardeal Joseph Ratzinger, Exposição do Motu Proprio Misericordia Dei).

E ainda:

"Deus não nos trata como uma parte de um todo coletivo. Ele conhece cada indivíduo por seu nome, e Ele o salva se ele caiu no pecado. Mesmo sem todos os sacramentos o Senhor se dirige diretamente a cada um, o caráter personalista do fato de ser cristão se manifesta particularmente claro no sacramento da Penitência. Isto significa que fazem parte do Sacramento de modo constitutivo: a confissão pessoal e o perdão dirigido a essa pessoa" (Cardeal Ratzinger, idem).

Dona Carmem deveria repensar a sua herética doutrina sobre o Sacramento da penitência.

E não adianta afirmar que o Papa teceu elogios a esse movimento. O que vale são os documentos oficiais da Igreja, e não meros elogios formais, genéricos, circunstanciais e incidentais a um movimento. Se estes elogios são desmentidos pela condenação papal da doutrina exposta no movimento, os elogios perdem toda a sua importância. O que vale é a doutrina.

Sendo o pecado contra a comunidade, e não, como se pensava, uma violação da lei de Deus, um ato contra Deus, o perdão deve ser pedido à comunidade e não a Deus. E quem dá o perdão, em nome da comunidade, é o presbítero que a "preside".

Para Kiko e para o neocatecumenato, o Padre, o Presbítero, representa a Comunidade e não Deus:

Kiko coloca esta pergunta: "Até que ponto, para você, o Presbítero que o absolve representa a comunidade?"

"As pessoas dizem que nunca tinham pensado nisso. Acreditam que o Presbítero representa a Jesus Cristo e a Deus somente. Mas, a comunidade? ... Qual comunidade?" (p. 143).

E mais adiante Kiko explicita seu pensamento:

"Vejam como o presbítero não representa somente Jesus Cristo, porque Jesus Cristo é representado por todo o corpo que é a Igreja. O bispo e o presbítero representam não só a Jesus Cristo, e sim, a Igreja toda, a comunidade. Por isso, é o Bispo quem, em nome de da Igreja acolhe quem entra. Isso não se vê muito como sinal hoje" (p.145).

Se isso fosse verdade, o Padre, ao dar a absolvição, deveria dizer: "Eu absolvo os teus pecados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e em nome da comunidade, ou em nome do povo. Amém".

Mas jamais foi dito assim. O Padre fala e absolve em nome de Deus e não em nome do povo ou da misteriosa "comunidade".

Conseqüência fatal desses raciocínios e afirmações seria a confissão pública dos pecados à comunidade, como se tornou moda em certos círculos carismáticos, e, ao que se diz, no neocatecumenato. Pois se o pecado não é contra Deus, mas contra a comunidade, é a ela que se deve fazer a confissão e dela receber o perdão pelo abraço da paz.

Convém muito assinalar ainda a idéia -- que pusemos em negrito no texto de Carmem — de que o perdão é sentido. Que "uma pessoa se sente perdoada no seu profundo, quando se sente em comunhão com os irmãos". Isso gera um subjetivismo moral e sacramental absurdamente relativista.

Carmem vai insistir nesse ponto:

"Por isso a reforma -- [do Sacramento da Penitência] -- não consiste em voltar às formas da Igreja primitiva, e , sim, mantendo o espírito do sacramento, o seu núcleo e o seu centro, em adequar as expressões de maneira que estejam de acordo com momento presente, a fim de encontrar expressões que explicitem sacramentalmente o perdão dos pecados e o realize, ou seja, que as pessoas se sintam em paz. Tudo caminha em evolução. Assim, iremos evoluindo com o Sacramento da Penitência para começar, uma vez encontrado o centro do caminho catecumenal, a entrar verdadeiramente em conversão, num verdadeiro reconhecimento do pecado" (p. 137. O negrito é meu).

Está aí "queregmatizada" a heresia evolucionista radical.

Carmem afirma que primeiro se faria uma reforma do Sacramento da Penitência, para depois continuar a "evolução", isto é, a destruição da Igreja Católica.

Como prova dessa evolução Carmem cita o fato de que Pio XII permitiu, durante a Segunda Guerra Mundial, que se desse a absolvição coletiva aos combatentes:

"Muitos pensam que o ideal seria, como a confissão pessoal é antipática, que houvesse absolvições gerais. Muitos renovadores pensaram isso. E não acreditem que isso seria uma novidade, porque já Pio XII deu licença para absolvições gerais durante a guerra, para todos os soldados. Os grandes liturgicistas dizem que foi uma sorte que isso não se impôs, porque se teria destruído por completo a Penitência, tornando-a ainda mais mágica. Isso porque o valor do rito não consiste na absolvição, pois em Jesus Cristo já estamos perdoados, e sim consiste em tornar o homem capaz de receber o perdão, que é o que pretende processo catecumenal e o processo penitencial da Igreja primitiva" (p. 136. O negrito e sublinhado são meus).

Tratemos primeiramente do que é secundário nesse texto: o caso que a autora levanta de Pio XII.

O que Pio XII concedeu foi o que a Igreja sempre permitiu em caso de perigo de morte iminente, quando não há tempo de confessar cada pessoa que está com possibilidade de morrer pouco depois. Por exemplo, se um avião está caindo, havendo um padre a bordo, ele pode dar a absolvição coletiva, sem ouvir cada um em confissão, devido a iminência da morte de todos. Foi o que o permitiu Pio XII na Segunda Guerra mundial, e o que o Papa João Paulo II acaba de confirmar no Motu Próprio Misericordia Dei.

Isso sempre foi permitido pela Igreja, mas havendo sobrevivente, ele tem a obrigação de confessar-se pessoalmente, logo que puder.

Passemos agora analisar o que disse Carmem na frase acima sublinhada e posta em negrito:

"o valor do rito não consiste na absolvição, pois em Jesus Cristo já estamos perdoados".

A doutrina afirmada nessa frase é totalmente protestante: já estamos todos perdoados. Já estamos todos salvos. Não é pela fórmula da absolvição que o padre pronuncia que recebemos o perdão. O perdão, nós já o temos.

O neocatecumenato apenas prepara a alma para receber o perdão já dado.

Isso é puro luteranismo.

Por isso Kiko luteranamente "queregmatiza":

"Mais tarde, compreendi, que viver em graça é viver na gratuidade de Deus, com seu Amor; é acreditar nesse perdão e esse amor constante de Deus" (p. 147. O negrito e o sublinhado são de minha autoria).

Repito: isso é protestantismo e não catolicismo. Isso é luteranismo.

Tendo uma doutrina protestante, é óbvio que Kiko ensina o neocatecumenato a desprezar a doutrina dos santos.

Assim, Kiko critica e ridiculariza São Luís de Gonzaga - a quem respeitam os líderes do neocatecumenato? -- dizendo:

"Porque existe um tipo de cristianismo -- eu mesmo já pertenci a ele -- em que a pessoa se acredita cristão convertido, um São Luíz de Gonzaga para sempre. E então vem aquela atitude: "Antes morrer do que pecar..."E coisas deste tipo, que não são entendidas em seu justo sentido. É um tio de cristianismo em que o fundamental é estar na graça de Deus em sentido estático, e procurar não perder essa graça, perseverar. A graça se entende como uma coisa que não se sabe muito bem o que seja, mas que é algo que o sujeito tem dentro e que precisa morrer com ela, nunca mais perdê-la".

"Mas tarde, compreendi, que viver em graça é viver da gratuidade de Deus, com seu Amor, é acreditar nesse perdão e nesse amor constante de Deus" (p. 146-147).

Criticando uma mentalidade como a de São Luiz de Gonzaga, Kiko vai afirmar a defesa da crença luterana "pecar, mas tendo fé no perdão":

"Aquele tipo de cristianismo marca muito, porque nós nos apresentamos como perfeitos; o contrário do cristianismo, porque os cristãos não são perfeitos, e, sim, iluminados sobre a própria realidade profunda, sabem que são pecadores de verdade e experimentam, neste pecado, a misericórdia de Deus que perdoa e dá uma vida nova, fruto de sua graça" (p. 147. Sublinhado e negritos são meus).

Temos, então, nessa "querigmatização" do neocatecumenato, a comprovação das doutrinas geradoras da introdução dos abusos em matéria do Sacramento da Penitência ou Confissão.

Nessas doutrinas comunitárias, evolucionistas e luteranas expostas com ousadia, mas "discretamente", por Carmem e Kiko, temos o exemplo concreto do que João Paulo II condenou e proibiu em seu último Motu Próprio Misericordia Dei.

Como reagirá o neocatecumenato diante dessa condenação daquilo que defendiam?

Voltarão atrás?

Rezemos e esperemos que sim.

Será preciso que os catequistas neocatecumenais queimem o que adoravam, e adorem o que queimaram.

Orlando Fedeli


    Para citar este texto:
"Neocatecumenato e confissão"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/neocatecumenato_e_confissao/
Online, 27/05/2017 às 03:05:31h