Igreja

Nascimento semi-secreto do ecumenismo
Marcelo Fedeli

Cerimônia Ecumênica presidida por Paulo VI na Basílica de São Paulo-fora-dos-muros, Roma, no dia 04 de dezembro de 1965 
 
    Transcrevemos abaixo três relatos sobre a “estranha” cerimônia ecumênica, organizada um tanto secretamente por Paulo VI, e por ele presidida — segundo Jean Guitton, lá presente, — poucos dias antes do encerramento formal do Concílio Vaticano II, há exatos 41 anos.
     A tradução e os destaques são nossos.
 

 
1 - Descrição de Jean Guitton
 
“Journal de ma vie” – Ed. Desclée de Brouwer – Bar-le-Duc – 1976, pg. 525.
 
« Cerimônia Ecumênica na Basílica de S. Paulo”
 
É uma das minhas mais estranhas lembranças, a mais inconcebível. Isto aconteceu sábado passado, por volta das 5 horas da tarde. Guardara-se sobre ela um segredo absoluto. Eu tinha a impressão de que havíamos sido convidados, mas principalmente convidados a não comparecer. (...). Encontro-me numa Abadia quase vazia. Os bispos estão mais amontoados que reunidos nas banquetas verdes. Os cardeais se acham diante dos observadores, trajando batinas escuras e comuns. Seria uma cerimônia? Não. Seria um culto? 
“Paulo VI simples e solitário como na ONU, rodeado não de pompa, mas de vazio, como se estivesse entre peregrinos. As leituras são feitas por vozes não católicas, um cântico anglicano cantado por todos, as Bem-aventuranças pronunciadas em grego. Finalmente o Magnificat. Depois o discurso do Papa referindo-se à historieta de um filósofo distraído que passa ao lado da verdade sem reconhecê-la”.
“É uma cena da Ceia, sem consagração, oração em comum e quese ela não estivesse sendo presidida pelo Papa — ela teria sido condenada pelo Papa”.
Eu imagino a reação de um bispo, ou mesmo de um não crente, adormecido em 1958 e despertado em 1966: ele não acreditaria em seus olhos.” (JEAN GUITTON ,Journal de ma vie – Ed. Desclée de Brouwer – Bar-le-Duc – 1976, pg. 525). 
 


2 – Descrição de Yves Chiron 

“PAUL VI, Le Pape Écartelé”
– Ed. Perrain, Paris, 1993, p. 247 – 248.

No dia 4 de dezembro [ de 1965] realizou-se, na basílica São Paulo-fora–dos-Muros, uma cerimônia de despedida para os observadores não católicos. Para estes, da mesma forma que para a Igreja católica, o Concílio Vaticano II fora um acontecimento histórico. De fato, o Concílio foi, para a Igreja, «uma volta de 180º em direção ao ecumenismo», e as comunidades não católicas, que se diziam cristãs, foram reconhecidas como «Igrejas», ao mesmo tempo em que todos os textos do concílio mostravam-se atentos para não desprezar as suas posições.
“A cerimônia de São Paulo-fora-dos-Muros era, pois, uma despedida dos representantes das «Igrejas» que, em quatro anos havia-se aproximado muito. Paulo VI, em Jerusalém, já havia rezado com um ortodoxo, o patriarca Athenagoras. Desta vez, ele rezou com ortodoxos, anglicanos, protestantes e outros representantes de diversas comunidades. As orações se alteraram com cânticos, orações em francês, em inglês, em grego e em latim. Oração «comum» ou «simultânea» ? No seu discurso Paulo VI parecia deixar a escolha aos observadores que o rodeavam. Sua partida, disse ele também, vai « criar um vazio»; ele confessou que iria sentir «dolorosamente» essa separação. Ele apresentou um balanço positivo:
«Se algum caso importante não foi atingido em matéria ecumênica, não devemos subestimar o que foi feito durante o Concílio», confiando muito no porvir. Concluiu contando uma história de Soloviev relativa à unidade da Igreja: um homem procurou por toda uma noite, tateando pelo corredor de um convento, a porta da sua cela; e somente pela manhã ele percebeu que ela estava aberta. Da mesma forma para os «irmãos separados»: eles devem somente tocar na porta da Igreja para estar em suas casas”.
(YVES CHIRON,PAUL VI, Le Pape Écartelé– Ed. Perrain, Paris, 1993, p. 247 – 248).
 

 
3 – Descrição de Peter Hebblethwaite
 
“Paul VI – The First Modern Pope” -   Ed. Paulist Press – Mahwah, New Jersey, 1993, p. 449 a 452.
 
“(...) Mas ele (Paulo VI) disse adeus aos observadores ecumênicos no sábado, 4 de dezembro (1965) na basílica S. Paulo-fora-dos-Muros. Paulo VI concebeu este encontro como a maior proeza no final do Concílio anunciado por João XXIII. Se a catedral de S. Pedro representa ordem e estabilidade para o rebanho, a de S. Paulo indica a missão ampliada e a expansão da catolicidade. Portanto, a basílica de S. Paulo era o lugar certo”.
Até então, Papa algum havia participado de qualquer serviço ecumênico. O Papa João XXIII pode tê-lo desejado, mas não o fez, porque o decreto sobre o Ecumenismo, que possibilitou aquele encontro, não existia. Paulo VI experimentou o início de orações, salmos, leituras da Escritura, intercessões e hinos que se tornaram lugar comum nas igrejas pelo mundo afora. Os leitores representavam as três principais tradições Cristãs: o Pe. Pierre Michalon, sulpiciano, sucessor do Pe. Paul Couturier, que deve ter sonhado com este dia; Dr. Albert Outler, Metodista Americano, e o Arquimandrita de Roma
[superior da Igreja Grega – Ortodoxa] Maximos Aghiogorgoussis, que leram as Bem-aventuranças em grego, conforme o Evangelho de S. Mateus”.
“Tudo isto era muito tocante. Mas, velhos costumes morrem com muito dificuldade e naquele dia dominava ainda excessiva papolatria. Quando Tom Stransky e John Long da Secretaria para a União dos Cristãos chegaram na basílica de S. Paulo para verificar os preparativos, notaram que os monges haviam erguido um trono papal com tanta magnificiência medieval que ele teria isolado Paulo VI de todos. O abade não ficou persuadido de que aquilo era o contrário dos desejos de Paulo VI. Relutante, ele colocou uma cadeira de espaldar alto, moderadamente ornamentada, no nivel do chão”.
“Surgiram outros problemas, não devido a mal entendidos, mas à má vontade de Mons. Felici. O anúncio do encontro foi feito no último instante; (...); não havia tempo para preparar um livreto como a tradição pedia. O resto foi um abençoado disfarce: ao invés de um livro com as armas papais em relevo, Paulo VI levou um simples panfleto
que o mundo inteiro logo depois começou a usar.
“Paulo VI pretendia usar da ocasião para anunciar a anulação dos anátemas à Constantinopla. Mas, no último instante, ele resolveu esperar mais três dias, até o dia 7 de dezembro. Assim, no seu discurso antes da oração final ele apresentou somente um balanço muito positivo do ecumenismo”.
“Nós gostaríamos de ter sempre vocês conosco”, disse Paulo VI, e bem convincente prosseguiu:
     “Primeiramente, nós podemos notar um progresso no enfoque da questão ecumênica, uma questão que nos interessa e nos obriga a todos. Nós podemos acrescentar outro fruto ainda mais precioso: a esperança de que a questão — evidentemente não hoje, mas amanhã — poderá ser solucionada lentamente, gradualmente, honesta e generosamente. E isto é um grande feito!”
“Isto nos mostra que outros frutos também já amadureceram. Nós começamos a conhecê-los um pouco melhor... Através de vocês nós entramos em contato com comunidades Cristãs que vivem, rezam e agem em nome de Cristo, com sistemas doutrinários e mentalidades religiosas — e dizemos isto sem temor— com
tesouros Cristãos de grande valor...” 
     “Nós reconhecemos certas falhas e sentimentos comuns que não foram bons. Por estes nós pedimos perdão a Deus e a vocês. Nós descobrimos as raízes não cristãs deles e decidimos, da nossa parte, fazer o que podemos para transformá-los em sentimentos dignos da escola de Cristo. Propõem-se eliminar as polêmicas baseadas em insultantes preconceitos, e não permitir que o vão prestígio entre na disputa. Tenta-se ter em mente a exortação do Apóstolo, sobre cujo túmulo nós rezamos nesta tarde, para evitar «disputas, inveja, ódio, egoísmo, calúnias, mexericos, vaidade, e confusão”.
A despedida aos observadores finalizou com uma alegoria tomada de “um grande pensador dos tempos modernos”, Vladimir Soloviev.Trata-se de uma experiência pessoal, que não deixa dúvida porque Paulo VI lembrou-se dela.  
“Um intelectual Russo
(Paulo VI o chama de “filósofo”) se encontrava num mosteiro para receber orientação espiritual de um velho santo monge. A conversa espiritual estendeu-se até à noite e o filósofo, tateando as paredes do corredor, não encontrou a porta da sua cela. Para não incomodar nenhum monge, passou a noite no corredor, absorto em seu pensamento: 
“A noite foi longa e triste, mas, a final, ela terminou e com a primeira luz da aurora o cansado filósofo facilmente reconheceu a porta da sua própria cela, pela qual ele passara diversas vezes durante a noite. Ele concluiu: geralmente este é o caminho dos que procuram a verdade. Acordados, eles passam por ele sem notá-lo, até que um raio de luz da divina Sabedoria o revela tão facilmente como consolador”
“A verdade está próxima, amados irmãos. Que este raio da divina luz nos propicie a reconhecer a porta abençoada. Esta é a nossa esperança. E agora, rezemos juntos no túmulo de S. Paulo”.
Foi esplêndido. Alguns dos observadores, e muitos outros, estavam quase às lágrimas. Este discurso foi tão importante quanto o decreto Sobre o Ecumenismo para todo o movimento ecumênico. Porque ele representou um claro compromisso do Papa para implementá-lo totalmente sem restrições mentais. Ele envolveu um movimento da teologia para a ação”
“E realmente ele foi novo. Das cátedras de onde saíram muitas condenações e denúncias desde Hildebrando no século XI, vieram palavras de amor. No túmulo de S. Paulo, o cisma de 1054 e mesmo outros sérios conflitos trazidos com a Reforma, embora não esquecidos, ao menos foram relativizados.
“Novamente surgiram críticas. Paulo VI foi criticado por citar Soloviev que foi recebido na comunhão da Igreja católica pelo Fr. Nicholas Tolstoy em 1896, quatro anos antes da sua morte aos 47 anos. Mas, a conversão de Soloviev não envolveu seu repúdio à Igreja ortodoxa Russa. Tratava-se mais de uma visão de todas as Igrejas, sob pressão do anti-Cristo, sendo trazidas juntas pelo Papa....
“Mas, ninguém pode dizer que na parábola de Soloviev a “porta” era a Igreja Católica. Paulo VI colocou-se dentre os que estão à procura da verdade, e rogou para que “ a divina luz pudesse tornar-nos propicios para reconhecer a porta abençoada”. (PETER HEBBLETHWAITE, “Paul VI – The First Modern Pope” -   Ed. Paulist Press – Mahwah, New Jersey, 1993, p. 449 a 452).

    Para citar este texto:
"Nascimento semi-secreto do ecumenismo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/nascimento_ecumenismo/
Online, 20/11/2017 às 21:08:47h