Igreja

Mais provas de que o Vaticano II é discutível e criticável
Em sequência ao artigo anterior de nosso colaborador Eder Silva, o presente texto insere-se no esforço pedido por Bento XVI de estudar de maneira mais aprofundada os textos do Concílio Vaticano II.

 

 Eder Silva

“Isso confirma que o Vaticano II não pode ser definido, em sentido estrito, como ‘dogmático’ e que as suas doutrinas, que não podem ser reduzidas a definições anteriores, não são infalíveis, nem imutáveis, e, por conseguinte, nem mesmo vinculantes...” (Mons. Brunero Gherardini. Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito. Brasília: Pinus, 2011, p.47)

No artigo anterior, consideramos o privilégio de “crítica construtiva”, concedido pelo Papa Bento XVI ao Instituo do Bom Pastor, como demonstração irrefutável de que o Vaticano II é um Concílio discutível e suscetível de contestação. Também aludimos à discussão doutrinária que decorreu entre Roma e a FSSPX sobre o conteúdo dos textos conciliares. Essa concessão do Papa de discussão dos textos do Concílio ratificou seu caráter falível, discutível e criticável.

Para corroborar essa “liberdade de crítica” oficialmente outorgada aos clérigos do IBP, resolvemos elencar as principais autoridades da cúria romana que também resolveram compor a vasta lista de críticos do Vaticano II e da Missa Nova. Desse modo, pretendemos não só ressaltar a modesta e contestável autoridade do Magistério Conciliar, como também confirmar que as oposições ao Concílio ultrapassam os limites tradicionais da FSSPX, chegando até mesmo nos “intramuros” da cúpula romana.

Por questão de honra, daremos início a esta lista de ‘inquisidores” anti-conciliares, apresentando o contestador discurso crítico do Papa Bento XVI, atual pontífice da Igreja Católica.

Antes de reproduzir esse importante discurso do Papa, colocaremos em destaque um trecho constante no decreto Ad Gentes, do Vaticano II, sobre as sementes do Verbo.

“A Igreja tem de estar presente a estes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a. eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os demais homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai (1) e compreendam, mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana. Para poderem dar frutuosamente este testemunho de Cristo, unam-se a esses homens com estima e caridade, considerem-se a si mesmos como membros dos agrupamentos humanos em que vivem, e participem na vida cultural e social através dos vários intercâmbios e problemas da vida humana; familiarizem-se com as suas tradições nacionais e religiosas; façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo nelas adormecidas” (Concílio Vaticano II, Decreto Ad Gentes, 11. Os destaques são nossos).

Com todas as letras, o Concílio Vaticano II, considerado incontestável por alguns, diz que nas tradições nacionais e religiosas dos pagãos existem sementes do Verbo adormecidas.

Contrapondo esse “erro” de um decreto conciliar, o Papa Bento XVI ensinou o extremo oposto, negando a existência dessas sementes nas falsas religiões. Eis a declaração do Pontífice em sua pregação sobre São Justino:

“Com efeito, com a religião pagã, os primeiros cristãos recusaram absolutamente qualquer compromisso. Eles consideravam que ela era uma idolatria, com o risco de serem acusados de «impiedade» e de «ateísmo». Justino, em particular, notadamente em sua primeira Apologia, conduziu uma crítica implacável com relação à religião pagã e a seus mitos, que ele considerava como «caminhos falsos» diabólicos no caminho da verdade” (Bento XVI, Discurso sobre São Justino na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007. Destaques nossos).

Disse ainda Bento XVI:

"Justino, e com ele os outros apologistas, marcaram a tomada de posição nítida da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a escolha pela verdade do ser, contra o mito do costume". (Bento XVI, Discurso sobre São Justino, na Audiência Geral, Roma, Quarta Feira, 21 de Março de 2007. Negrito Nosso).

Em seu Magistério“vivo”, Bento XVI afirmou que na tradição religiosa dos pagãos existe apenas mitos, idolatria, falsos deuses, caminhos falsos e diabólicos. Nada de Sementes do Verbo na religião idólatra do paganismo.

Bento XVI simplesmente afrontou e contestou o decreto Ad Gentes. Corrigiuem seu Magistério o erro relativista do Magistério escrito e falível do Vaticano II. A própria cabeça visível da Igreja confirmou, portanto, a existência de erros em um decreto conciliar, provando, com isso, que a ruptura com a tradição está, não somente na interpretação, mas também na letra do Concílio.

 Na condição de eminentíssimo Cardeal e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o então Joseph Ratzinger apontou graves rupturas nos documentos pastorais do Vaticano II. Suas acusação mais grave diz respeito ao documento Gaudium et Spes, classificado por ele de Anti-Syllabus. Vejamos no texto a seguir:

“Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto [da Gaudium et Spes] poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus” (Cardeal Joseph Ratzinger. Teoria dos Princípios Teológicos. Barcelona: Editorial Herder, 1985, pág. 457. Negrito nosso).

E o Cardeal disse ainda:

“Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um Anti Syllabus, e, em conseqüência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja coma nova época estabelecida a partir do ano de 1789“ (Cardeal Ratzinger. Teoria dos Princípios Teológicos. Barcelona: Editorial Herder, 1985, p. 458).

Sem rodeios, essa digníssima autoridade do Vaticano acusou o documento Gaudium et Spes – do Vaticano II – de desempenhar um papel de Anti Syllabus. Enquanto o Syllabus é caracterizado por sua oposição aos princípios do mundo moderno, o documento do Vaticano II expressa a intenção de reconciliação oficial da Igreja com a civilização moderna, nascida a partir da Revolução Francesa. Portanto, segundo o Cardeal Ratzinger, o Vaticano II ensinou o contrário do Magistério precedente, mais especificamente, contra o Syllabus do Papa Pio IX.

Concernente ao Novus Ordo Missae, promulgado sob o pontificado do Papa Paulo VI, o referido Cardeal também se manifestou criticamente. No prefácio do livro de Monsenhor Klaus Gamber, reconhecida autoridade em matéria litúrgica, Ratzinger qualificou a liturgia reformada de “falsificação e produto banal de um instante” (In Monsenhor Klaus Gamber. A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p.8). E, em seu próprio livro, também atacou o novo rito, dizendo tratar-se de uma “... ruptura e uma decadência na história da liturgia” (Cardeal Joseph Ratzinger. Lembranças da Minha Vida. São Paulo: Paulinas, 2006, pp.128-131).

Conforme supramencionado, um grande especialista em liturgia - senão o maior – escreveu uma obra denunciando a Missa fabricada do Vaticano II. Essa autoridade em matéria litúrgica, Monsenhor Klaus Gamber, cuja obra foi prefaciada pelo Cardeal Ratzinger, afirmou, sem moderações, que a Missa Nova contém o câncer modernista:

“Onde estão os bispos que tenham o valor de fazer desaparecer este tumor canceroso, que é a teologia modernista, implantada no tecido da celebração dos santos mistérios, antes que se prolifere mais e mais?” (A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p. 43).

Esse perito em liturgia, na época Diretor do Instituto Litúrgico de Ratisbona, nem sequer sofreu qualquer advertência pelas suas graves acusações. Ao contrário, foi imensamente louvado por importantes prelados da cúpula romana, dentre os quais, o Cardeal Ratzinger.

E que houve, de fato, uma ruptura doutrinária na Missa Nova, declarou com notável força o liturgista Klaus Gamber:

“A ruptura com a tradição está consumada: pela introdução de uma nova forma de celebração da missa e os novos livros litúrgicos” (A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p. 13).

E que a oposição entre as duas Missas é teológica, também garantiu esse aplaudido perito:

“Porém a meta dos reformadores não era obter a mencionada maior participação ativa dos fieis, mas fabricar um rito que interpretasse sua nova teologia” (A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p. 19).

Caso não houvesse liberdade para criticar o Vaticano II e a sua fabricação litúrgica, no mínimo o citado monsenhor deveria ter sofrido uma advertência pública, o que não aconteceu.

A convicção de que o Vaticano II não ensinou infalivelmente e que, por isso, pode ser criticado – porque susceptível a prescrever erros – fez com que os pareceres contestadores se difundissem em Roma, com ataques cada vez mais diretos e enfáticos.

É possível notar essa certeza de liberdade para atacar os desvios do Concílio, nas considerações do Secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, à época D. Albert Malcolm Ranjith (hoje Cardeal Arcebispo de Colombo – Sri Lanka), o qual denunciou a intenção reformista de obscurecer a Fé na liturgia da Missa:

“Creio que nos crescentes pedidos para a liberalização da Missa de São Pio V, o Papa tenha visto sinais de um certo esvaziamento espiritual causado pelo modo com o qual os momentos litúrgicos, são até hoje celebrados na Igreja. Tal dificuldade nasce tanto de certas orientações da reforma litúrgica pós conciliar, que tendiam a reduzir, ou melhor ainda, a confundir aspetos essenciais da fé...” (Agencia Fides, 16/11/2007)

E disse mais:

“A reforma pós conciliar não é de todo negativa; antes, há nela muitos aspetos positivos naquilo que foi realizado. Mas há também mudanças introduzidas abusivamente que continuam a ser levadas avante não obstante seus efeitos nocivos à fé e sobre a vida litúrgica da Igreja” (Agencia Fides, 16/11/2007)

Segundo o então Secretário da Congregação para o Culto Divino, os reformistas introduziram na Missa Nova elementos nocivos que ameaçam e confundem aspectos essenciais da fé.

 Não podemos deixar de mencionar o Breve Exame Crítico dos Cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci, que após apurado exame do Ordo Missae, emitiram a aterrorizante conclusão:

“O seguinte Estudo Crítico é o trabalho de um grupo seleto de bispos, teólogos, liturgistas e pastores de almas. A despeito de sua brevidade, o estudo demonstra de forma bastante clara que a Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela implícitos ou são tomados como certos – representa, tanto em seu todo como nos detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal qual formulada na sessão 22 do Concílio de Trento” (Carta introdutória, nº 1).

Esses Cardeais não receberem nenhuma notificação escrita ou advertência verbal quanto à impossibilidade de críticas ao novo rito. Nem mesmo Paulo VI ousou lançar uma repreensão pública, porque sabia que sua reforma litúrgica não estava salvaguardada pelo carisma da infalibilidade, como o próprio pontífice declarou.

Mais recente é a crítica do Padre Nicola Bux, teólogo do Papa, que ridicularizou o antropocentrismo da Missa Nova, abandonando o tradicional sentido versus Deum do Sacerdote, para o humanista sentido versus populum.

“Nos ritos orientais, este é o pressuposto que leva os ministros a dirigirem-se sempre em direção ao altar do Senhor depois de se dirigirem ao povo nos diálogos. Também a liturgia romana era assim, depois alguém inventou que o orientar-se ao altar, ou seja, ao Senhor, era na verdade dar as costas ao povo. Estranho que, em tantos séculos, ninguém o tivesse percebido, até 1967” (Agenzia Fides – 26/04/2007).

De modo implícito, essas palavras do teólogo do Papa não deixam de ser uma censura a Missa Nova que é essencialmente voltada para o homem, expressando a intenção do Papa Paulo VI que, como declarou, era conduzir o Vaticano II em direção do antropocentrismo humanista:

Alguns acusam o Concílio [Vaticano II] ter se desviado para o antropocentrismo. Desviado, não. Dirigido, sim” (Papa Paulo VI).

Outro Cardeal, indócil com as medidas conciliares, escreveu um livro no qual acusou o Vaticano II de omissão diante da heresia comunista e dos crimes da seita marxista. Já é fato confirmado que o Papa João XXIII, para garantir a presença dos cismáticos russos no Concílio, efetivou o traidor Pacto de Metz, pelo qual garantiu que o Vaticano II não faria qualquer menção condenatória ao comunismo.

O Cardeal em questão é o Giacomo Biffi, ex-Arcebispo de Bolonha, autor do livro “Memórias e digressões de um italiano Cardeal”. Nessa obra de 640 páginas, o Cardeal acusa o Vaticano II de omissão, porque diante do monstro comunista, devastador sanguinário do século XX, não emitiu em seus textos nenhuma condenação. Calou-se enquanto “rios de sangue” eram derramados por uma ideologia criminosa, sempre denunciada pelos Papas de outrora.

O Vaticano errou de dois modos: falando pastoralmente, e deixando de falar infalivelmente contra os erros modernos.

Mais recente ainda é a crítica de Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da Basílica Vaticana de São Pedro, homem de grande respeito na hierarquia da Igreja. Em seu livro “Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito”, essa personalidade do clero romano desmitifica a idéia de um Super Concílio intocável e incriticável. E ciente da pastoralidade e falibilidade do Vaticano II, Gherardini não economizou criticas severas, tanto nos documentos, quanto na nova liturgia conciliar.

Sobre a liturgia, escreveu o ilustre personagem:

“A responsabilidade recai sobre aqueles que ‘no lugar de uma liturgia’ entendida como participatio actuosa, preferiram colocar ‘uma Liturgia fabricada’, saída das mãos de professores e não de confessores, como já em 1985 o então cardeal Ratzinger havia lamentado. A Liturgia – digo – da teatralidade coletiva, da liberdade criativa, da comunhão na mão, das canções tolas e a até mesmo semi-heréticas, do ostracismo em relação à posição ‘versus Domino’, à sacralidade do rito, ao seu significado latrêutico, à funcionalidade insubstituível do gregoriano, á solenidade dos gestos e dos paramentos, ao ajoelhar, agora incomparável com o orgulho do altivo estar de pé, de igual para igual, diante do Senhor do céu e da terra” (Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito. Brasília: Pinus, 2011, p. 143).

As acusações seguem ainda mais acirradas.

Em outro trecho de seu livro, Brunero Gherardini acusa a reforma litúrgica de introduzir na Nova Missa uma perspectiva antropocêntrica em função do homem, rebaixando o rito sagrado ao nível deste (Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito. Brasília: Pinus, 2011, p. 139).

Com relação aos documentos do Vaticano II, o autor diz claramente que existem neles elementos modernistas em franca ruptura com a Tradição da Igreja (Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito. Rio de Janeiro: Pinus, 2011, p. 70-71).

Pelo que sabemos, até o momento Gherardini não sofreu qualquer represália ou mesmo notificação por seus violentos ataques ao Vaticano II.

Cabe lembrar que consta no próprio site do Vaticano, na parte reserva à Congregação do Clero, um dossiê intitulado Babel Litúrgica, no qual se mostra que o principal elaborador na Missa Nova, Monsenhor Anibale Bugnini, descatolicizou a Missa antiga, e que, a oposição entre os dois ritos é teológica.

Ora, se o próprio site do Vaticano admite uma denúncia pública contra a Missa Nova, é porque a liberdade de crítica realmente existe.

Por todos esses fatos, percebe-se, portanto, que criticar ou denunciar erros no Vaticano II é algo unanimemente aceito no Vaticano. Até hoje nenhuma dessas autoridades recebeu qualquer notificação, repreensão, advertência, ou qualquer coisa do tipo, por terem acusado os textos do Concílio de prescreverem erros contrários a Fé.

Sendo assim, prosseguiremos também, juntamente com esses notáveis prelados, sobretudo unidos ao Papa Bento XVI, com nosso ativo apostolado de denúncia e crítica a um Concílio declaradamente pastoral e falível, cuja autoridade democrática e dialogante, não obrigou adesão de Fé e nem sequer um silencio obsequioso.

Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós!

In Corde Jesu, semper

Eder Silva


    Para citar este texto:
"Mais provas de que o Vaticano II é discutível e criticável"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/mais-provas-de-que-o-vaticano-ii-e-discutivel-e-criticavel/
Online, 23/07/2017 às 21:49:29h