Igreja

Antes do Último Conclave: “Que Disse Eu ao Futuro Papa”
Sandro Magister


O Cardeal Giacomo Biffi consigna suas memórias em um livro. Eis uma antecipação dele: o discurso pronunciado por ele na reunião a portas fechadas com os Cardeais. E em seguida os seus julgamentos críticos sobre João XXIII, sobre o Concílio, os "mea culpa" de João Paulo II.

Na véspera de seus oitenta anos, o Cardeal Giacomo Biffi manda publicar um imponente volume autobiográfico, com o título: "Memórias e digressões de um italiano Cardeal".

Biffi é lembrado sobretudo como Arcebispo de Bolonha, desde 1984 até 2003. Mas no livro ele torna a percorrer toda a sua vida, do nascimento na Milão operária até quando se tornou sacerdote, depois professor de teologia, pároco, Bispo e, enfim, Cardeal.

No prólogo, Biffi cita estas palavras de Santo Ambrósio, grande Bispo de Milão, no IV século, seu amado "pai e mestre":

"Para um Bispo não há nada tão arriscado diante de Deus e tanto vergonhoso diante dos homens, quanto o não proclamar livremente o próprio pensamento".

E pontualmente, nas 640 páginas do volume, o pensamento de Biffi prorrompe em plena liberdade, pungente, irônico, anti-conformista.

Não há passagem crucial da vida da Igreja que não caia sob seu juízo agudo e freqüentemente surpreendente.

É uma surpresa, por exemplo, que ele indique que "o maior Papa do século XX" tenha sido Pio XI, que talvez seja, hoje, o Papa menos em vista e esquecido.

É uma surpresa  descobrir que, quando ele era Arcebispo de Bolonha, ele, tão criticado per ter declarado preferir acolher na Itália imigrantes cristãos em vez de imigrantes muçulmanos, hospedou durante muitas noites em uma igreja um numeroso grupo de marroquinos sem casa, nas semanas mais rígidas do inverno.

Também os silêncios são eloqüentes. A Joseph Ratzinger o livro dedica apenas raras alusões. Mas o leitor compreende por meio de muitos indícios que Biffi tem uma altíssima estima pelo Papa atual. Uma estima retribuída pelo convite que lhe foi feito por Bento XVI para pregar, no Vaticano os exercícios espirituais da Quaresma de 2007.

Vice versa, o quase total silêncio sobre o Cardeal Carlo Maria Martini – do qual Biffi foi Bispo auxiliar por quatro anos em Milão – faz transparecer um juízo inexoravelmente crítico. Imediatamente antes de liquidar em poucas linhas a nomeação do célebre jesuíta como Arcebispo de Milão, no final de 1979, Biffi coloca claramente que a época luminosa dos grandes Bispos de Milão do século XX  – genuínos herdeiros de Santo Ambrósio e de São Carlos Borromeu – de todo modo foi concluída com o predecessor de Martini, Giovanni Colombo.

E de um outro silêncio – aquele que no livro envolve o sucessor de Martini, o Cardeal Dionísio Tettamanzi – se  compreende que nem mesmo com o atual Arcebispo de Milão a série dos grandes pastores "ambrosianos" e "borromeanos" dá sinais de retomada.

O por quê disso é bem explicado. Para Biffi um Bispo é grande quando governa a Igreja "com o calor e a certeza da fé, a solidez das iniciativas e das obras, a capacidade de responder às interpelações dos tempos não com concessões e mimetismos, que  atingem o patrimônio inalienável da verdade". Evidentemente, na opinião de Biffi, nem Martini, nem Tettamanzi correspondem a este perfil.

Uma outra personalidade que Biffi submete a crítica severa é Dom Giuseppe Dossetti, na juventude importante homem político – admirado naqueles anos pelo mesmo Biffi – e que depois se tornou sacerdote e monge, ativíssimo consultor do Cardeal Giacomo Lercaro no Concílio Vaticano II, e líder  da "Escola de Bolonha" e da interpretação do Concílio como ruptura com o passado e novo início.

Biffi escreve que Dossetti manteve até o fim "uma obsessão primária e permanente pela política, que alterava a sua perspectiva geral". Além disso, lhe atribuía uma "insuficiente fundamentação teológica".

Dossetti foi o homem que no último meio século mais influiu nas orientações da elite intelectual da Igreja italiana.

Em oposição a isso, o líder espiritual que, na opinião de Biffi intuiu com mais lucidez a missão e os perigos da Igreja no mundo de hoje foi Dom Divo Barsotti, várias vezes recordado com admiração no livro de Biffi.

As memórias del Cardeal Biffi são uma leitura obrigatória, para quem queira observar a situação atual da Igreja com uma visualização fora dos esquemas, e ao mesmo tempo autorizada. Mas é também uma leitura cativante, que se afirma desde as primeiras páginas pela ardência da escrita, sempre sóbria e essencial.

Essas páginas são o relato de uma vida integralmente dedicada à Igreja. Aqui, em seguida, são citados alguns trechos sobre João XXIII, sobre o Concílio Vaticano II e as suas recaídas, sobre os "mea culpa" de João Paolo II, e, enfim, sobre o último conclave, com o discurso integral – até ontem secreto – dirigido pelo  Cardeal Biffi ao futuro Papa.

Um Papa – Bento XVI – naquela data ainda a ser eleito. Entretanto já assim parecido às expectativas deste seu grande eleitor.

João XXIII: Papa bom, mau mestre
(pp.177-179)

“Papa Roncalli morreu na festa de Pentecostes, em 3 de Junho de 1963. Também eu lamentava a sua morte, porque tinha uma invencível simpatia por ele. Encantavam-me os seus gestos “não rituais”, e eu me alegrava com suas palavras freqüentemente surpreendentes e com suas saídas extemporâneas

Apenas a consideração de algumas de suas frases me deixava hesitante. E eram exatamente aquelas que mais fácil que outras conquistavam os espíritos, porque pareciam conformes às instintivas aspirações dos homens.

Havia, por exemplo, o juízo de reprovação contra os "profetas de desgraças".

A expressão se tornou popularíssima e é natural: as pessoas  não gostam dos “estraga festas” ; prefere quem promete tempos felizes a quem prevê temores reservas. E também eu admirava quem tinha a coragem e o impulso, nos últimos anos de sua vida, deste “giovane” [“jovem”] sucessor de Pedro.

Mas recordo que uma perplexidade me tomou porém quase que imediatamente. Na história da Revelação, anunciadores também de castigos e calamidades foram costumeiramente os verdadeiros profetas, os quais a exemplo de Isaías (capitulo 24), Jeremias (capitulo 4), Ezequiel (capítulos 4-11).

Jesus mesmo, ao ler o capítulo 24 do Evangelho de São Mateus teria que ser incluído entre os “profetas de desgraças”: as notícias dos futuros acontecimentos e de próximas alegrias não se referem, normalmente, à existência daqui na terra, mas bem sim à “vida eterna” e ao “Reino dos Céus”.

Quem proclama costumeiramente a iminência de horas tranqüilas e asseguradoras, na Bíblia são antes os falsos (veja-se o capítulo XIII do Livro di Ezequiel).

A frase de João XXIII explica-se pelo seu estado de ânimo do momento, mas não deve ser absolutilisada. Pelo contrário, seria bom ouvir também aqueles que têm alguma razão para colocar em alerta os irmãos, preparando-os para possíveis provações, assim como aqueles que consideram oportunos os convites à prudência  e à vigilância.

"É preciso olhar mais para aquilo que nos une do que para aquilo que nos divide”. Também esta sentença – hoje muito repetida e apreciada, quase como a regra de ouro do “dialogo” – nos vem da época de João XXIII e nos transmite a sua atmosfera.

É um princípio comportamental de evidente bom senso, que deve ser mantido presente, quando se trata de simples convivência e de decisões a tomar na vida miúda de cada dia.

Mas ele se torna absurdo e desastroso nas suas conseqüências, caso se o aplique aos grandes temas da existência e particularmente na problemática religiosa.

É oportuno, por exemplo, que se use deste aforisma para salvaguardar as relações de boa vizinhança em um condomínio, ou a rápida eficiência de um conselho comunal.

Mas, desgraçados de nós se nos deixamos inspirar por ele no testemunho evangélico frente ao mundo, em nosso empenho ecumênico, nas discussões com não crentes. Em virtude deste princípio, Cristo poderia se tornar a primeira e mais ilustre vítima do diálogo com as religiões não cristãs. O Senhor Jesus disse de Si, mas é uma das suas palavras que somos inclinados a censurar: "Eu vim trazer a divisão" (Luca XII,51).

Nas questões que contam a regra não pode ser senão esta: nós devemos olhar, sobretudo ao que é decisivo, substancial , verdadeiro, quer nos divida , quer não nos divida.

"É preciso distinguir entre o erro e aquele que erra". É uma outra máxima que faz parte da herança moral de João XXIII, e essa também influenciou o catolicismo sucessivo.

O princípio é justíssimo e deriva sua força do próprio ensinamento evangélico: o erro só pode ser criticado, odiado, combatido pelos discípulos daquele  que é Verdade; enquanto aquele que erra – na sua inalienável humanidade – é sempre uma imagem viva, ainda que incoativa, do Filho de Deus encarnado; e portanto deve ser respeitado, amado, ajudado no que é possível.

Eu não podia esquecer, ao refletir sobre essa sentença, que a histórica sabedoria da Igreja jamais reduziu a condenação do erro a uma pura e ineficaz abstração. 

O povo cristão deve ser posto em guarda e defendido daquele que, de fato, semeia o erro, sem que por isso se cesse de buscar o seu verdadeiro bem e mesmo sem julgar a responsabilidade subjetiva de ninguém, que é conhecida somente por Deus.

Jesus, a este propósito, deu aos chefes da Igreja uma diretiva precisa: aquele que escandaliza por seu comportamento e por sua doutrina, e não se deixa persuadir nem por advertências pessoais, nem pela mais solene reprovação da Igreja, seja para ti como um pagão e um publicano (cfr. Mateus, XVIII,17); prevendo e prescrevendo assim a instituição da excomunhão.


Os enganos do Vaticano II: "aggiornamento" e "pastoralidade"
(pp. 183-184) 

Papa Roncalli tinha assinalado ao Concílio, como incumbência e como objetivo, a “renovação interna da Igreja”; expressão mais pertinente do vocábulo “aggiornamento” (esse também “giovanneo”), que porém teve uma imerecida fortuna.

Não era certamente a intenção do Sumo Pontífice, mas “aggiornamento” incluía a idéia que a “nação santa” se propusesse procurar a sua melhor conformidade  não ao plano eterno do Pai e à sua vontade de salvação (como tinha sempre acreditado dever fazer em suas tentativas de justa “reforma”), mas ao dia (à história  temporal e mundana); e assim se dava l’impressão de ser indulgente à “cronolatrìa”, para usar o termo de censura cunhado por Maritain.

João XXIII sonhava um Concílio que obtivesse a renovação da Igreja não com condenações, mas com o “remédio da misericórdia”. Abstendo-se de reprovar os erros, o Concílio por isso mesmo teria evitado formular ensinamentos definitivos, vinculantes para todos. E de fato ele se ateve sempre a essa indicação de partida.

A razão- fonte e sintética desses endereços era o propósito declarado de visar  realizar um “Concílio pastoral”. Todos, dentro e fora da sala vaticana, mostravam-se contentes e comprazidos por tale qualificação.

Eu porém, no meu cantinho periférico, sentia nascer em mim, meu malgrado, algumas dificuldades. O conceito me parecia ambíguo, e um pouco suspeita a ênfase com a qual a “pastoralidade” era atribuída ao Concílio em ato: desejava-se talvez dizer implicitamente que os precedentes Concílios não pretendiam ser “pastorais” ou não o tinham sido suficientemente?

Não tinha relevância pastoral o por em claro que Jesus de Nazaré era Deus e consubstancial ao Pai como fora definido em Nicéia? Não tinha relevância pastoral precisar o realismo da presença eucarística e a natureza sacrifical da Missa, como tinha acontecido em Trento? Não tinha relevância pastoral apresentar em todo os eu valor e em todas as suas implicações o primado de Pedro, como tinha ensinado o Concílio Vaticano I?

Entende-se que a intenção declarada era a de colocar como tema particularmente o estudo dos modos melhores e dos meios mais eficazes de alcançar o coração do homem, sem por isso diminuir a positiva consideração pelo tradicional magistério da Igreja.

Mas havia o perigo de não lembrar mais que a primeira e insubstituível “misericórdia” para a humanidade perdida é, segundo o ensinamento claro da Revelação, a “misericórdia da verdade”; misericórdia que não pode ser exercitada sem a condenação explícita, firme, constante de todo adulteração e de cada alteração do “depósito” da fé que deve ser guardado.

Alguém poderia com certeza incautamente pensar que o resgate dos filhos de Adão dependesse mais das nossas artes de adulação e de persuasão, que não da estratégia soteriológica pré ordenada pelo Pai antes de todos os séculos, toda centrada no evento pascoal e no seu anúncio; um anúncio “sem discursos persuasivos de sabedoria humana” (cfr. 1 Cor. II,4). Nó após Concílio não houve apenas um perigo.

Sobre o Comunismo tinha razão Papa Wojtyla: o Concílio não devia ter se calado
(pp. 184-186)

Do Comunismo: o Concílio não fala. Se se percorre com atenção o índice sistemático, a impressão se encontra com este categórico silêncio.

O comunismo foi, sem dúvida, o fenômeno histórico mais imponente, mais duradouro, mais transbordante do século XX; e o Concílio, que, entretanto, tinha proposto uma Constituição sobre a Igreja e o mundo contemporâneo, não fala dele

O comunismo, a partir de seu triunfo na Rússia em 1917, em meio século havia já conseguido a provocar muitas dezenas e montões de mortos, vítimas do terror de massa e da repressão mais desumana; e o Concílio não fala disso.

O comunismo (e era a primeira vez na história das insipiensas humanas) tinha praticamente imposto às populações sujeitadas o ateísmo, como uma espécie de filosofia oficial e de paradoxal “religião de Estado”; e o Concílio, que entretanto se espraia sobre o caso dos ateus, não fala dele.

Nos mesmos anos em que se desenvolvia a assembléia ecumênica, as prisões comunistas eram ainda lugares de indizíveis sofrimentos e de humilhações impostas a numerosos “testemunhos da Fé” (Bispos, presbíteros, leigos convictos crentes em Cristo); e o Concílio não fala disso.

E depois se fala dos supostos silêncios nos confrontos das criminosas aberrações do nazismo, que até alguns católicos (mesmo entre os ativos no Concílio) depois recriminaram a Pio XII!

Naqueles anos, mesmo percebendo a grande anomalia desta reserva  sobretudo por parte de uma assembléia que tinha falado quase de tudo, não me escandalizei de fato. Antes, devo dizer que entendia os aspetos positivos daquela linha. E não tanto pela possibilidade, que assim se delineava, de tratar com os regimes comunistas desejável participação no Concílio dos Bispos controlados por eles, quanto pela previsão de que uma tomada de posição qualquer,mesmo a mais branda e a mais vigiada, teria desencadeado um exasperação da perseguição, tal que aumentaria o peso da cruz daqueles nossos irmãos perseguidos.

No fundo, havia em todos, pelo menos inconscientemente, o convencimento que o comunismo fosse um fenômeno tão consistente que era já irreversível e: com ele era preciso, pois, por força das coisas habituar-se a fazer as contas com ele, e quem sabe por quanto tempo ainda.

Vendo bem, esta era, substancialmente, a justificação também da Ost politik (“política do diálogo e de acordos otimistas com os países do Leste ”) da Santa Sé de João XXIII e de Paulo VI; tal política nos parecia sadiamente realística e historicamente oportuna.

Quem jamais compartilhou desta perspectiva foi João Paulo II (como entendi por meio de uma conversa que tive em 1985). Ele tinha razão então.

De seus "mea culpa", João Paolo II se corrigiu, mas pouco demais
(p. 536). 

 No dia 7 de Julho de 1997 João Paulo II teve a amabilidade de convidar-me para jantar e estendeu o convite também ao cerimoniário Arcebispo, Dom Roberto Parisini, que me acompanhava e permaneceu, por isso, como preciosa testemunha do episódio.

À mesa, o Santo Padre, a um certo ponto, me disse: "O senhor viu que mudamos a frase da 'Tertio milennio adveniente'?".

O rascunho, fora enviado antecipadamente aos Cardeais, e trazia esta expressão: "A Igreja reconhece como próprios os pecados de seus filhos"; expressão que – observado com respeitosa fraternidade – era impossível propor. No texto definitivo, o raciocínio aparece assim mudado: “A Igreja reconhece sempre como próprios seus filhos pecadores". O Papa, naquele momento, fazia questão de recordar-me isso, sabendo que me daria prazer.

Respondi, dizendo-me muito grato e manifestando a minha plena satisfação sobre o perfil teológico. Porém, senti também que devia acrescentar uma  reserva de natureza pastoral: a iniciativa inédita de pedir perdão pelos erros e as incoerências dos séculos passados, a meu ver, escandalizaria os “pequenos”, os preferidos do Senhor Jesus (cfr. Mateus, XI, 25): porque o povo fiel, que não sabe fazer muitas distinções teológicas, daquelas auto acusações veria insidiata a sua serena adesão ao mistério eclesial, que (dizem-nos todas as Profissões de Fé) é essencialmente um mistério de santidade..

O Papa textualmente disse então: "Sim, isso é verdade. Será preciso pensar sobre isso ". Entretanto, ele não pensou suficientemente nisso.

Conclave 2005, que disse eu ao futuro Papa
(pp. 614-615)

Os dias mais cansativos para os Cardeais são aqueles que precedem imediatamente o Conclave. O Sacro Colégio se reúne diariamente das 9,30 hs. Até às 13 horas, numa assembléia, na qual cada um dos presentes é livre para dizer  tudo o que pensa.

Compreende-se porém, que não se possa tratar publicamente do assunto que mais interessa aos eleitores do futuro Bispo de Roma: Quem devemos escolher?

E assim acaba por acontecer que cada Cardeal é tentado a citar mais que outra coisa, os seus problemas e as suas desgraças, ou melhor, os problemas e as desgraças da sua cristandade, da sua nação, do seu continente, do mundo inteiro. É sem dúvida muito útil esta geral, espontânea, incondicionada resenha das informações e das opiniões. Mas, sem dúvida, o quadro que disso resulta não é encorajador.

Qual era então o meu estado de ânimo e qual era a minha reflexão prevalente emerge da intervenção que depois de muitas perplexidades me decidi a pronunciar na sexta feira 15 de Abril de 2005. Eis o seu texto:

"1. Depois de  ter ouvido todas as intervenções – justas, oportunas, apaixonadas – que aqui ressoaram, quereria exprimir ao futuro Papa (que me está ouvindo) toda a minha solidariedade, a minha simpatia, a mia compreensão, e também, um pouco, a minha fraterna compaixão. Mas quereria sugerir-lhe também que não se preocupe demais com tudo aquilo que ouviu e não se assuste demais. O Senhor Jesus não lhe pedirá resolver todos os problemas do mundo. Pedir-lhe-á que O ame com um amor extraordinário: 'Tu me amas mais do que estes?' (cfr. João XXI,15). Numa tira de figuras em quadrinhos que nos vinha da Argentina, a de Mafalda, achei, diversos anos atrás, uma frase que nestes dias me veio freqüentemente à memória: 'Compreendi; – dizia aquela terrível e aguda menina – o mundo está cheio de problemólogos, mas escasseiam os solucionólogos”

"2.Queria dizer ao futuro Papa que preste atenção a todos os problemas. Mas antes, e mais ainda, se dê conta do estado de confusão, de desorientação, de extravio que aflige nestes anos o povo de Deus, e sobretudo aflige os 'pequenos'.

"3. Alguns dias atrás, ouvi na Televisão uma velha freira devota que assim respondia ao entrevistador: 'Este Papa, que morreu, foi grande sobretudo porque nos ensinou que todas as religiões são iguais'. Não sei se João Paulo II teria gostado de um elogio como esse.

"4. Enfim, queria assinalar ao novo Papa a vicissitude incrível da 'Dominus Iesus': um documento explicitamente compartilhado e publicamente aprovado por João Paulo II; um documento do qual me agrada exprimir ao Cardeal Ratzinger a minha vibrante gratidão. Que Jesus seja o único necessário Salvador de todos é uma verdade que em vinte séculos – a partir do discurso de Pedro depois do Pentecostes – jamais se havia sentido a necessidade de relembrar. Esta verdade é, por assim dizer, o grau mínimo da fé; é a certeza primordial, é entre os crentes o dado simples e mais essencial. Em 2.000 anos, essa verdade jamais foi posta em dúvida, nem mesmo durante a crise ariana e nem mesmo por ocasião d descarrilamento da Reforma protestante.Ter sido preciso recordá-la em nosso dias   nos dá a medida da gravidade da situação hodierna. Entretanto, esse documento, que relembrou a certeza primordial, mais simples, mais essencial, foi contestado. Foi contestado em todos os níveis: em todos os níveis da ação pastoral, do ensinamento teológico, da hierarquia.

5. Foi-me contado por um bom católico que propôs a seu pároco fazer uma apresentação da 'Dominus Iesus' à comunidade paroquial. O pároco (um sacerdote, ademais, excelente e bem intencionado) lhe respondeu: 'Deixa para lá. Esse é um documento que divide'. 'Um documento que divide'.

Bela descoberta! Jesus mesmo disse: 'Eu vim trazer a divisão' (Luca 12,51). Mas muitas palavras  de Jesus, hoje, são censuradas pela cristandade, ao menos por sua parte mais loquaz".


    Para citar este texto:
"Antes do Último Conclave: “Que Disse Eu ao Futuro Papa”"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/magister_biffi/
Online, 26/05/2017 às 06:17:17h