Igreja

Anotações
Marcelo Fedeli


 “Para mim há uma só Encarnação, mas houve duas Anunciações
(J. Guitton)

"(Maria) se casa com um homem, José, com o qual não tem relações,
mas do qual tem um menino, coisa bem estranha

(J. Guitton)

A íntima e longa amizade entre Mons. Montini e Jean Guitton se iniciou em 1950, quando o então Santo Ofício, na pessoa de Mons. Parente, analisando a obra "La Vierge Marie", publicada no ano anterior pelo famoso filósofo francês, estava prestes a condená-la como herética, colocando-a no "Índice dos Livros Proibidos (INDEX)". Isto porque, contrariamente ao que narra o Evangelho e o que a Igreja sempre ensinou, Guitton afirmou:

"no momento da Encarnação, a Virgem não conhecia a divindade de Cristo".

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 202-203; J. Guitton con Francesca Pini, L’infinito in fondo al cuore, Ed. Mondadori, Milão, 1998, p. 36).

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 202-203; J. Guitton com Francesca Pini, L’infinito in fondo al cuore, Ed. Mondadori, Milão, 1998, p. 36. A tradução é nossa).

Guitton, ao tomar ciência daquela grave intenção do Santo Ofício, recorreu ao Núncio Apostólico em Paris, Mons. Angelo G. Roncalli, futuro Papa João XXIII, para saber como evitar a condenação do seu livro. Incontinente, Mons. Roncalli recomendou-lhe que procurasse, em Roma, Mons. Montini, então substituto na Secretaria de Estado do Vaticano, para Assuntos Internos da Igreja.

Montini, mesmo antes de conhecer pessoalmente o famoso escritor francês, já lera muitos dos seus livros, inclusive a obra em questão, "La Vierge Marie", que lhe "agradou muito", chegando a dizer a Guitton, quando daquele primeiro encontro:

«Gostei muito do seu livro sobre a Virgem. (...) Depois das páginas de Newman, na sua famosa carta ao Dr. Pusey, penso jamais ter lido páginas sobre a Virgem que me tenham agradado tanto. É preciso ser, ao mesmo tempo, antigo e moderno, falar conforme a tradição e também conforme a nossa sensibilidade»

(J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, Ed. Fayard, Paris, 1967, p.21; e Yves Chiron, Paul VI, le pape écartelé, Ed. Perrin, Paris, 1993, p. 139. A tradução é nossa).

Assim, Mons. Montini, além de manifestar seu elevado apreço àquela obra herética de Guitton, lhe apresenta, como fundamento, uma tese do Modernismo condenada por S. Pio X: não basta "falar conforme a tradição (da Igreja), mas também deve-se falar de modo "moderno" e "conforme a nossa sensibilidade".

Seria o caso de perguntar ao então Mons. Montini — na eventual hipótese de incompatibilidade entre aquelas duas formas de interpretação, por ele recomendada, qual delas um católico deveria seguir: a da "tradição" da Igreja (não "antiga" porque de sempre), ou a "moderna", seguindo sua própria "sensibilidade". Nesse sentido, Guitton, como Lutero, seguiu somente a segunda forma de interpretação: a "moderna", fundamentada exclusivamente na sua "sensibilidade".

Veremos, mais adiante, qual foi a interpretação "moderna" que Jean Guitton fez da Anunciação, seguindo a sua própria "sensibilidade", contrariando o Evangelho, a "tradição" e o Magistério infalível da Igreja, que "tanto agradou" a Mons. Montini, e que tanto desagradou ao Santo Ofício, incumbido da defesa do Depositum Fidei!...

A audiência de Guitton com Mons. Montini realizou-se no dia 8 de setembro de 1950, data que ficaria na história de ambos, pois, a partir dela, Montini exigiu que Guitton o visitasse todos os anos, onde quer que ele estivesse, sempre naquele dia. E assim foi feito, até a morte de Paulo VI.

Entretanto, a apreensão de Guitton, quanto à possível condenação da sua obra, logo se dissipou nos primeiros minutos daquele encontro, pois, "Montini já havia tomado todas as providências para evitar a condenação do livro" (cfr. Yves Chiron, Op. cit. p. 139), como o próprio Mons. Montini dirá a Guitton em 1952, inclusive criticando pessoalmente (não doutrináriamente) Mons. Parente:

"Quanto a Mons. Parente que escreveu contra você, ele é um espírito muito impetuoso. Com uma caneta na mão, ele não pára. Ele não percebeu as incidências morais, pessoais, até políticas do artigo que escreveu contra você. Nós (quem?) vamos reparar tudo isto"

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 254. A tradução é nossa).

De fato, bem antes daquele encontro, Mons. Montini já havia preparado e apresentado ao Papa Pio XII, um texto exaltando aquela obra que o Sumo Pontífice assinou, impedindo, dessa forma, a condenação do Santo Ofício (cfr. Y. Chiron, Paul VI, le Pape écartelé, op. cit. p. 139), que só em maio do ano seguinte, e brandamente, pediu a Guitton para eliminar um determinado capítulo nas futuras edições do livro La Vierge Marie. Guitton obedeceu, e, com uma nota explicativa, publicou a segunda edição em 1953, eliminando a parte condenada; porém, a edição seguinte, de1986, retoma o texto original.

A descrição que Guitton fez posteriormente daquela audiência, nos dá uma imagem bem real do clima extremamente cortês e afável em que ela se desenrolou. (Guitton começa comparando Mons. Montini ao "anjo de Reims"... cfr. Dialogues avec Paul VI, op. cit. p. 22). Pareceu mais um reencontro de dois velhos e conhecidos amigos, após longa distância, trocando informações e opiniões sobre assuntos diversos, do que uma audiência entre um Monsenhor, substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, e o autor de uma obra considerada herética pelo Santo Ofício.

Assim, falaram sobre o Ecumenismo, sobre Lord Halifax e Pouget; comentaram a encíclica Humani Generis e a inteligência dos franceses; trataram do excomungado Modernista Loisy e da carta elogiosa de Montini ao filósofo, também Modernista, Maurice Blondel; divagaram sobre o tomismo, sobre o Pe. de Lubac, sobre o Pastor Max Thurian. Trataram de tudo!... Porém, pouco, ou quase nada, do livro La Vierge Marie, finalidade primordial daquele encontro.

Na realidade, quanto àquela obra, herética para o Santo Ofício, Mons. Montini mostrou-se interessado somente em saber qual havia sido a reação dos protestantes franceses a ela, especialmente a do pastor Boegner, não demonstrando qualquer preocupação quanto à heresia nela apontada pelo Santo Ofício. Quando Guitton lhe confirmou que o livro havia agradado tanto aos protestantes franceses, em geral, como ao pastor Boegner, em particular, Mons. Montini conduziu a conversa para outros temas (cfr. J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, op. cit. p. 19 -32).

Iniciava-se, assim, a longa e íntima amizade entre Mons. Montini e o Modernista Jean Guitton, salvo pelo próprio Mons. Montini "das garras do Santo Ofício", conforme ele mesmo dirá ao filósofo francês, em novembro de 1963 (J. Guitton, Paolo VI segreto, Ed. San Paolo, Milano,1985, p.58).

Como, infelizmente, não dispomos da versão original do livro La Vierge Marie, que “tanto agradou a Mons. Montini e ao pastor protestante Boegner”, veremos, em seguida, o que o próprio Guitton dele diz, em 1994, à jornalista italiana Francesca Pini, na citada obra “L’infinito in fondo al cuore”, páginas 36 a 40 (Tradução e negrito nossos).

Perguntou-lhe a jornalista F. Pini:

"É verdade que, por causa de um seu livro, a censura do Vaticano o considerou quase um herege?

Jean Guitton: «O que você me pergunta se refere a um livro que escrevi sobre a Virgem, e que muito agradou a Giovanni Battista Montini (depois Papa Paulo VI), o qual o considerou como o mais lindo texto jamais escrito sobre a Virgem. Além disso, Montini sempre me disse que sua amizade comigo deveu-se justamente a este livro».

F. Pini: "Qual era o seu conteúdo?"

JG: «Escrevi que, no momento da Encarnação, a Virgem não conhecia a divindade de Cristo. Então, o censor, talvez o Cardeal Parente, decidira colocar o meu livro no Index. Montini, porém, fez todos os esforços para salvá-lo, falando com seu "chefe", Pio XII, para impedir a sua condenação».

F. Pini: "Isso quer dizer que a Virgem não sabia da divindade de Cristo no momento da Encarnação?"

JG: «Para mim (?), há uma só Encarnação, mas houve duas (?) Anunciações. Esta é uma idéia toda minha, não de outros teólogos ou exegetas. Duas foram, conforme meu parecer, as Anunciações: aquela que está relatada no Evangelho, quando Maria recebe a visita de um anjo que lhe diz «Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, benedicta tu in mulieribus et benedictus...»

[A bem da verdade, a expressão "Benedicta tu in mulieribus et benedictus..." não foi dita pelo anjo, mas por Sta. Isabel, prima de Nossa Senhora, quando da visita que esta lhe fizera, cfr. Lc 1, 42].

Prossegue Guitton:

«Então, me perguntei: o que dizia o anjo à Virgem? Que ela seria mãe do Messias. Mas ser a mãe do Messias (ou seja, de uma pessoa muito importante, esperada pelos judeus) não é ser a mãe de Deus (?). Daí pensei, deduzi (?) que um dia a Virgem tivesse recebido uma outra diferente (?), Anunciação. Encontrava-se ela em Nazareth (provavelmente (?) Jesus tinha por volta de três anos), quando teve a visita de um anjo que a informava que o seu menino não era um homem (?), mas Deus. E esta é uma Anunciação infinitamente superior à primeira (?). A idéia das duas Anunciações, porém, pareceu (?) herética ao cardeal Parente que pretendeu me condenar por causa da minha tese. Recebi, então, uma carta do Vaticano, pedindo-me para retirar a página do livro em que havia feito aquela afirmação».

Assim, o "maior filósofo católico do século XX", Jean Guitton, desprezando os ensinamentos da Revelação e da Igreja, vai além do livre exame de Lutero. Baseando-se somente na sua exuberante e engenhosa imaginação, e seguindo o todo seu modo "moderno" e a sua "sensibilidade" de interpretar a Escritura, recomendada por Mons. Montini, chega àquela herética afirmação.

Curioso que ele, Guitton, também sempre afirmou que a fé, na Revelação, devia ser fundamentada no método histórico - crítico, o que ele mesmo não faz neste caso, baseando-se exclusivamente na "sua" própria imaginação e sensibilidade, nada científicas, entulhadas de puro subjetivismo, como demonstram as expressões por ele utilizadas: "Para mim", "idéia toda minha", "meu parecer", "me perguntei", "pensei, deduzi, provavelmente", etc... E, através dessa forma Modernista de interpretar a Escritura, Guitton chega à sua herética conclusão, que acha ser verdadeira, não merecendo, nem para ele, nem para Mons. Montini, ser objetada e muito menos condenada pelo Santo Ofício, que, para Guitton, não tinha o direito de achar diferentemente dele, conforme ele mesmo dirá a Mons. Montini em 1952, exigindo até condições intelectuais específicas para os censores do Santo Ofício, "sem nenhuma objeção do Monsenhor" (cfr. Journal de ma vie, op. cit. p. 254).

[En passant, na qualidade de simples fiéis e leigos, perguntamos aos teólogos e exegetas se, neste caso, caberiam a Guitton as palavras que Deus coloca na boca do profeta Jeremias, referindo-se aos falsos anunciadores da palavra:

«E o Senhor disse-me: "Esses profetas falsamente vaticinam em meu nome; não os enviei, nem lho mandei, nem lhes falei; tudo o que profetizam é uma visão mentirosa, um adivinhação, impostura, engano de seu coração(Jer 14, 14).

Ou ainda:

«Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres, não os tendo eu enviado, nem dado ordem alguma a esses homens, que nenhum bem tem feito a este povo, diz o Senhor" (Jer 23, 32)].

Sobre o pedido do Santo Ofício a Guitton, em 1951, de eliminar aquela página do seu livro, nas futuras edições, pergunta a jornalista Francesca Pini ao amigo de Mons. Montini:

F. Pini: "E o senhor fez isso?"

J. Guitton: «Sim. Como me foi pedido, fiz uma edição excluindo aquela página».

F. Pini: "Portanto, o senhor obedeceu..."

J. Guitton: «Sim, obedeci, mas como obedeço sempre: com a idéia de que era uma estupidez, mas que, entretanto, era preciso fazê-lo».

F. Pini: "Portanto, na primeira Anunciação, a Virgem não conhecia ainda a natureza do seu filho?"

Jean Guitton: «Não. O Messias, para os hebreus, era um homem, um hebreu inteligente como Salomão, David e também Moisés. Era um homem, não Deus».

F. Pini: "Mons. Montini nada mais fez, depois, para reinserir aquela página?"

J. Guitton: «Não, não fez nada, deu-me, porém, a sua amizade, mostrando assim uma grande misericórdia da sua parte. Como, repito, a sua amizade comigo fora devido ao meu livro, que ele apreciava muito. Além disso, me confidenciou que eu lhe havia revelado a Virgem Maria, naturalmente do ponto de vista filosófico, não do religioso».

Assim, o estranho agrado de Mons. Montini por aquele livro, visto como herético pelo Santo Ofício, foi o fundamento da estreita e íntima amizade entre o modernista Guitton e o substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, que o defendeu e protegeu.

Aqui, outro aspecto do método do Modernismo atribuído por Guitton a Mons. Montini, ressaltado pelo Papa S. Pio X, ao condenar aquela doutrina herética através da encíclica Pascendi: os modernistas se ‘revestem' ora de filósofos, ora de teólogos, ora de cientistas, etc, para combater e destruir o Dogma da Igreja. E Mons. Montini, segundo as palavras de Guitton, curiosamente adota aquele método ao distinguir o "ponto de vista filosófico" do "religioso", como se a Revelação e o Magistério da Igreja, incluindo o Dogma, pudessem ser verdade sob um "ponto de vista", e falsidade sob outro. É a linguagem relativista e dúbia condenada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos ordenou: "Seja o vosso falar, sim, sim, não, não. O que vier a mais provém do maligno" (Mt 5, 37).

Prossegue a jornalista Francesca Pini:

F. Pini: "Esta amizade com Paulo VI é talvez o modo com qual o bom Deus quis recompensá-lo por ter escrito um livro verdadeiro (?)sobre a Virgem"

J. Guitton: «É exatamente isso que penso».

F. Pini: "Por que o senhor tratou Maria do ponto vista filosófico?"

J. Guitton: «Não posso explicá-lo agora, porque revelaria tudo o que será publicado depois da minha morte. Mas, como filósofo, estudar a Virgem Maria, para mim significa analisá-la como fiz com Platão, Cartesio, Heidegger e Bergson».

Guitton, protegendo-se agora sob o manto de "filósofo", reduz o estudo da Santíssima e Sempre Virgem Maria, em cujo seio o Verbo de Deus, Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, ao nível natural dos filósofos gnósticos.

F. Pini: "Foi o estado de perfeição da Virgem que lhe interessou de modo particular?".

J. Guitton: «Como filósofo, eu a estudo sob cada detalhe. Em primeiro lugar, aquele da jovem moça que se casa com quinze anos com um homem, José, com o qual não tem relações, mas do qual (?) tem um menino, coisa bem estranha (?) (...)».

Eis, aqui, o ponto fundamental da heresia que Guitton queria difundir!... Travestido de filósofo" proclama ele uma tese "teológica"... e herética... que, evidentemente só podia "tanto agradar ao Pastor Boegner e aos protestantes franceses", após toda aquela sua engenhosa e inventiva introdução, em si também herética, das "duas Anunciações e uma Encarnação". Guitton afirma que Jesus é filho de José ("do qual - Maria - tem um menino"), negando, dessa forma, a concepção de Nosso Senhor pela atuação direta do Espírito Santo, no seio de Nossa Senhora, portanto, negando a Virgindade da sempre Virgem Maria, Dogma dos mais odiados pelo protestantismo e pelo Pastor Boegner, negando sua maternidade divina, e injetando ‘serpentinamente’ nas almas católicas, o veneno da dúvida, através do seu comentário final: "coisa bem estranha"...

E Montini, o futuro Paulo VI apreciou essas heresias.

Dessa forma, entendemos perfeitamente porque a tese herética de Guitton tenha "agradado aos protestantes franceses e ao Pastor Boegner". Só não entendemos como ela "tanto agradou a Mons. Montini"!... "Coisa bem estranha"...

Assim, perguntamos aos teólogos dos nossos tempos:

1 – A tese de Guitton acima, declarada por ele, é herética?...

Sim, ou não?

2 – Se não é herética, por que a Igreja não a assume como verdadeira, revisando o Evangelho de S. Lucas e nele inserindo a guittoniana "segunda Anunciação" , sem se esquecer — claro — de pedir perdão ao mundo pelo "erro" mantido durante 1950 anos, até que o amigo de Montini, Guitton, ex-catedra, a desvendasse à enganada humanidade?

3 – Se herética, como foi possível que ela tenha "tanto agradado a Mons. Montini", a ponto de salvá-la da condenação do Santo Ofício e, através dela, selar uma amizade íntima e duradoura com o seu engenhoso e inventivo criador? ...

"Coisa bem estranha"! ...

Com a palavra, os teólogos dos nossos tempos.

Marcelo Fedeli
Julho de 2003


    Para citar este texto:
"Anotações"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/jeanguitton8/
Online, 25/09/2017 às 08:51:09h