Igreja

Anotações "esquecidas" VIII: Dogmas da nova religião: a "Basic Religion"
Marcelo Fedeli


Dentre os papeis daquela "velha" gaveta, encontrei parte de um texto de Guitton que me intrigou. Só parte de um texto, pois, o resto, deve ter-se extraviado sabe-se lá onde, o que me causou, depois, enorme trabalho de procura.

No texto que dispunha, alguém, em julho de 1964, dizia a Jean Guitton:

"(...) a solução, de fato admitida pelo clero, é de criar, a partir do ateísmo e do cristianismo, um tipo de "basic religion", que seria comum ao ateísmo e ao cristianismo, para a qual se converteria o cristianismo por etapas, e cujos dogmas seriam:

  • o homem é o centro da história;
  • há um progresso humano contínuo;
  • a moral se resume na solidariedade, no amor, e na fé no homem;

Os dogmas religiosos seriam mantidos, mas reconduzidos a um sentido experimental. Seria preciso eliminar do cristianismo tudo o que fosse mistério incompreensível.

Nós caminhamos para uma espécie de simbiose de uma tendência cristã, para tornar o dogma mais científico, como o fez o Pe. Teilhard de Chardin, e de uma tendência não-cristã, para tornar o ateísmo mais humano, como fazem os comunistas."

O que imediatamente me intrigou foi uma natural curiosidade sobre o autor das afirmações citadas por Guitton. Quem teria sido seu interlocutor? Quem seria esse "profeta" da "nova religião" das últimas décadas do século XX, e início do III Milênio, que dita novos dogmas, diferentes dos anteriores, sempre ensinados pela Igreja?

Como alguém, em julho de 1964, exatamente na metade do Concílio, preveria o que Paulo VI diria sobre a religião e o homem, no discurso de encerramento do Vaticano II, bem como em outras suas inúmeras alocuções? Teria sido o próprio Papa Montini, pela exatidão das afirmações?

Se não, vejamos algumas afirmações de Montini, quanto ao culto do homem, à nova religião, ao progresso evolutivo, e ao novo humanismo simbiótico:

A – Extratos do discurso de Paulo VI no encerramento do Concílio Vaticano II:

(7 de dezembro de 1965, Ed. Fides 1966, p.635-636)

"A Igreja, nesses quatro anos, se ocupou muito do homem, do homem tal como ele se apresenta na realidade em nossa época, o homem vivo. O homem todo inteiro ocupado consigo mesmo, o homem que se faz não somente o centro de tudo o que lhe interessa, mas que ousa pretender ser o princípio e a razão última de toda a realidade [...]".

" A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião, porque ela é tal, do homem que se faz Deus".

"Uma simpatia imensa invadiu totalmente a Igreja. A descoberta das necessidades humanas – e elas são tão maiores à medida que o filho da terra se torna maior – absorveu a atenção deste Sínodo".

"A Igreja quase que se fez serva da humanidade".

"Sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, nós, mais que quem quer que seja, nós temos o culto do homem".

B – Encíclica "Populorum progressio", parágrafo 15:

"Pelo simples esforço da sua inteligência e da sua vontade, cada homem pode crescer em humanidade, valer mais, ser maior".

(Porém, diz S. João: "Sem mim, nada podeis" Jo, XV, 5).

C – Angelus, de 07 de fevereiro de 1971, quando da primeira alunissagem:

(Documentation Catholique – 1971, p. 156).

"Honra ao homem, rei da terra, e hoje, Príncipe do Céu".

D – Discurso na ONU, 04 de outubro de 1965 (Site Vaticano).

"Nós devemos nos habituar a pensar no homem, de uma nova maneira, como também de nova maneira devemos ver a vida em comum dos homens, os caminhos da história e os destinos do mundo".

E – Alocução de 28 de setembro de 1971

"A Igreja entrou no movimento da história que evolui e muda".

Com todas essas afirmações de Montini em mente, e muitas outras, ainda, semelhantes em espírito às do interlocutor de Guitton, comecei a vasculhar a fonte do documento do filósofo francês, até que, após exaustiva procura, a encontrei: está no "Journal de ma Vie", Ed. Desclée de Brouwier, Bar-le-Duc, 1976, p. 489-490.

Confesso que errei redondamente na minha suposição: o "profeta", interlocutor de Guitton, não era, absolutamente Paulo VI, nem qualquer outro representante do clero, mas sim um tal de Christoflour. Embora Guitton não mencione, parece tratar-se de Raymond Christoflour, poeta.

O texto original e completo não é muito mais longo do que eu dispunha. Porém, e este é outro fato intrigante, Christoflour, pelo relato de Guitton, lhe dá verdadeiras ordens de atuação na linha do seu pensamento, como se fosse um superior a quem Guitton deveria obedecer, enquanto lhe apresentava o programa a seguir, para a preparação e implantação da simbiótica religião do homem, a que ele chamava de "basic religion". Assim, por exemplo, diz Christoflour ao amigo de Montini:

(...) "Sua tarefa [em francês: "Votre tache à vous"] é de evitar o quanto possível que esta simbiose seja atingida por valores inferiores, pela quantidade, e de preparar uma simbiose orgânica, pela qualidade, principalmente associando a revelação com a razão, e mostrando que, sem transcendência, todos os nossos esforços serão sem sentido(...). Este deve ser o seu esforço, me diz Christoflour. Este é o sentido da sua obra".

A quem será que Christoflour se referia com "nossos esforços"? "Nossos"... de quem?

E Guitton não lhe faz essa pergunta, parecendo, talvez, já saber de quem se tratava, nem contesta a afirmação de Christoflour, concluindo sobre o "sentido da obra" do amigo de Paulo VI.

Bem! Como disse, errei totalmente na minha suposição quanto à pessoa que antecipara a Guitton os dogmas da futura religião! Mas, o tal de Christoflour, acertou plenamente quanto à nova religião do homem a ser implantada, a "basic religion", com seus dogmas, espinha dorsal da nova e simbiótica religião, reavivando velhos erros da doutrina modernista, condenada por S. Pio X, no longínquo 1907.

Estudando a biografia de Jean Guitton, se é levado a concluir que ele seguiu, direitinho, as ordens do misterioso Christoflour. E, pela história pós-conciliar da Igreja, vemos que Christoflour acertou plenamente em sua "profecia".

No capítulo anterior, vimos que Guitton apresentara ao papa João XXIII suas diretrizes para o Concílio Vaticano II. Agora vemos Guitton recebendo diretrizes do enigmático Christoflour! ... a quem ele, Guitton, em nada contesta!... Teria sido o próprio, e misterioso, Christroflour também o inspirador das diretrizes anteriores de Guitton ao Papa João XXIII, relativas ao Concílio Vaticano II?

Quem seria, afinal, o tal de Christoflour, além de mensageiro dos enigmáticos "nossos"? Faria ele parte dos chamados "homens de boa vontade", ou do "livre espírito"? Porque, católico apostólico romano, absolutamente, Christoflour não era!

Marcelo Fedeli
Outubro 2002


    Para citar este texto:
"Anotações "esquecidas" VIII: Dogmas da nova religião: a "Basic Religion""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/jeanguitton5/
Online, 18/12/2017 às 04:58:01h