Igreja

Anotações "esquecidas" V: Jean Guitton, amigo de Paulo VI, não era católico
Marcelo Fedeli


Todos conhecemos, pelo menos pela fama dispensada há anos por quase toda a mídia mundial, aquele que foi considerado o maior filósofo católico do século XX: o francês Jean Guitton. Essa fama de filósofo-católico foi ainda mais acentuada pela reconhecida e declarada amizade nutrida entre ele e Mons. Montini, depois Paulo VI, a partir do dia 8 de setembro de 1950.

Essa data foi um verdadeiro marco na vida de ambos. Mons. Montini, naquele dia, exigiu que Guitton fosse visitá-lo todos os dias 8 de setembro, onde o então Substituto estivesse. Religiosamente, o assim chamado filósofo-católico cumpriu a promessa até o ano anterior ao da morte de Paulo VI, ocorrida a 3 de agosto de 1978.

Na ocasião do primeiro encontro, Guitton, aconselhado pelo então Núncio de Paris, Mons. Angelo Roncalli, futuro João XXIII, fora ao Vaticano conversar com Mons. Montini, para tentar evitar a condenação do seu livro, La Vierge Marie, pelo temido Santo Ofício, que estava prestes a colocar essa obra no Index, devido a erros doutrinários. Nesse livro, Guitton sustenta que, no momento da Visitação, a Virgem Maria não sabia que iria gerar o Filho de Deus!...

Porém, naquele célebre 8 de setembro de 1950, chegando ao Vaticano, Guitton ficou surpreso ao saber o quanto Montini já havia feito em sua defesa (cfr. Yves Chiron, "Paul VI, Lê Pape Écartelé", Ed. Perrin, Paris - 1993, p. 139 -140). Pela descrição de Guitton, o primeiro encontro entre ambos foi um acontecimento singular. Da obra em questão, pouco se falou. Montini, que já a aprovara, estava mais interessado na reação dos protestantes franceses diante dela, perguntando a Guitton como eles a haviam acolhido. Resposta de Guitton: "Eu ouvi dizer que o pastor Boegner gostou muito dela" (J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, Ed. Fayard, Paris, 1967, p. 25).

Montini conseguiu adiar a condenação do livro para o ano seguinte. Guitton foi obrigado a eliminar certas passagens, o que ocorreu somente na edição imediata àquela condenação. A edição posterior de 1986, porém, manteve a versão condenada, sem abalar a relação de Guitton com a Igreja. (Trataremos dessa obra de Guitton, e do seu primeiro encontro com Montini, em comentário específico, oportunamente).

O pensamento de Guitton, exposto naquela obra, contentando a um famoso pastor protestante, e desagradando ao Vaticano a ponto de condená-lo, é apenas um exemplo de como a sua concepção religiosa não seguia plenamente os ensinamentos da Igreja. É exatamente essa concepção não católica de Guittton, destilada em mais de cem obras, que tentaremos demonstrar nestes nossos comentários, baseados somente em algumas delas. Isto porque, já em agosto de 1958 – quando Guitton escrevera em torno de 40 livros – seu amigo Jacques Chardonne lhe dissera: "Você vai precisar viver muito para que se veja a unidade da sua obra. (...) Poucos vão ler tudo o que você escreveu. Muito menos, ainda, os que dela vão conseguir extrair a unidade". Guitton concordou, acrescentando: "Eu acho que, após ter apresentado um leque divergente, será preciso fechá-lo, ou talvez tender a uma unidade de acabamento ( ...)" ( J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée, Bar-le-Duc, 1976, p. 394).

De fato, Guitton viveu muito mais, e escreveu mais 60 obras ainda, sem, contudo, apresentar uma "unidade de acabamento". Dessa forma, por enquanto, nos basearemos principalmente nos seguintes documentos:

1 – Journal de ma vie – Ed. Desclée de Brouwer – Bar le Duc, 1976 ;

2 – Dialogues avec Paul VI –Ed. Fayard – Paris. 1967 ;

3 - Entrevista extraída da obra Dieu et la science (com Y. e G. Bogdanov), Ed.Grasset- 1991: http://www.plenitude.com.br/jornal/acervo_plenitude/col_curiosidades/0002.htm

4 – Entrevista La fede concedida a Marino Parodi, em 1999, meses antes de falecer, site:
http://www.liberalfondazione.it/archivio/speciali/Terzo_Millennio/Guitton.htm

Nesses documentos, notamos doutrinas por ele professadas totalmente contrárias à católica, diluídas aqui e acolá, mais ou menos camufladas, além de contradições sobre assuntos diversos, até de menor importância, ou mesmo explicações nebulosas sobre temas simples, que ficam mal na pena, ou na boca, de alguém considerado como o maior filósofo católico, do século XX.

Esta breve análise levará em conta somente alguns dos principais fundamentos da doutrina e ensinamentos da Igreja católica, relacionados, por exemplo, a Deus, a Nossa Senhora, ao Ecumenismo, Protestantismo, Espiritismo, Evolucionismo, deixando para outra oportunidade uma análise mais profunda da heresia modernista professada por Guitton, conforme definida e condenada na Encíclica Pascendi Dominici gregis, de S. Pio X, em 1907.

Marcelo Fedeli
Abril-Junho 2002


    Para citar este texto:
"Anotações "esquecidas" V: Jean Guitton, amigo de Paulo VI, não era católico"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/jeanguitton2/
Online, 23/04/2017 às 09:04:04h