Igreja

Anotações "esquecidas" IV: Jean Guitton, amigo de Mons. Montini (Paulo VI)
Marcelo Fedeli


Remexendo novamente aquela "velha" gaveta repleta de antigas anotações, deparei-me com uma série delas sobre Jean Guitton, considerado o maior filósofo católico francês do século passado, e amicíssimo de Paulo VI.

Tendo em vista a influência de Jean Guitton na história da Igreja do século findo, em especial no Concílio Vaticano II, do qual ele foi o único leigo a tomar parte na 1ª fase, participando com outros também das demais fases, bem como seus constantes contatos com representantes do clero em todos os níveis, incluindo muitos modernistas, resolvemos transcrever, pouco a pouco, algumas daquelas anotações, há anos adormecidas, na "velha" gaveta.


"Amigos são os que querem, e não querem, as mesmas coisas"
Sto. Tomás

Iniciamos, assim, uma série de comentários sobre a personalidade e o pensamento de Jean Guitton, em especial relacionados à profunda amizade que o uniu a Mons. Montini, iniciada em1950, quando este era Substituto na Secretaria de Estado do Vaticano, prolongando-se e estreitando-se continuamente até a morte de Paulo VI, em 1978.

Estes comentários se baseiam principalmente no livro "Journal de ma Vie", publicado em 1976, pela Editora Desclée de Brouwer, Bar le Duc, França, no qual Guitton narra acontecimentos, descreve personalidades do seu círculo íntimo de amizades, apresentando conceitos religiosos, filosóficos, políticos e artísticos dos seus interlocutores, mesclados aos seus, abrangendo um longo período de sua vida, de 1912 a 1971.

Pela própria natureza da obra (Diário) não há, evidentemente, uma seqüência lógica de temas. Assim, a classificação e agrupamento dos assuntos aqui comentados, são da nossa autoria, de ordem puramente didática, na expectativa de condensar e apresentar o modo com que Guitton concebia temas fundamentais relativos à religião e à filosofia, em especial.

Como estes comentários pretendem relacionar o pensamento de Guitton à profunda amizade desfrutada com Mons. Montini, julgamos oportuno estabelecer, antes, o conceito de amizade que orienta nossa análise. Para isso, a definição apresentada por S. Tomás nos parece a ideal, quer pela sua profundidade, quer pela importância dos personagens em questão.

Para S. Tómas, "Amigos são os que querem, e não querem, as mesmas coisas".

Definição clara e objetiva, que até brumosos filósofos modernos podem compreender; e não há como, por todos, não constatar a sua veracidade analisando a própria vida. Nós nos unimos, desde a mais tenra infância, aos que querem e não querem as mesmas coisas que nós. Assim, quanto mais profundos e elevados nossos desejos, mais profundas e elevadas serão as nossas amizades.

No caso de Guitton e Mons. Montini, por serem dois homens animados pelo mesmo pensamento, conseqüentemente eles pensavam (queriam) e não pensavam (não queriam), as mesmas coisas. E, o que eles queriam? O que pensavam? Seguindo S. Tómas, entre amigos, sabendo-se o pensamento de um, podemos conhecer muito provavelmente, e até certo ponto, o do outro. Dessa forma, poderíamos partir de Guitton para entender Montini.

Contudo, nestes comentários, não nos limitaremos a isso: em temas mais profundos, procuraremos apresentar também o pensamento de Montini, constatando a veracidade do conceito de São Tomás de Aquino.

Mais que isso, notaremos que as idéias de ambos, evidentemente, não lhes eram exclusivas; pelo contrário, eram comuns a pessoas das mais diversas – até contraditórias – correntes religiosas e filosóficas que, como disse um amigo, assemelham-se a regatos subterrâneos juntando-se, finalmente, num mesmo rio.

A questão é de se saber de que subterrâneas, secretas e distantes fontes surgiu um mesmo conjunto de idéias, que tão fácil e repentinamente unia pessoas de países, posição social, situação financeira, e até etária, tão distantes e diferentes, quando sabemos perfeitamente que, de forma natural, isso dificilmente, para não dizer quase nunca, ocorre.

Quem sabe um dia poderão vir à luz todos os documentos do período de, aproximadamente, 1850 a 2000, ainda secretos por razões diversas, revelando programas, ligações, palavras de ordem, compromissos, reuniões, tudo, em fim, que orientou o caminho do Modernismo, heresia condenada por S. Pio X em 1907, formada por inúmeros riachos aparentemente sem ligação, mas que, reunidos, desembocaram num mesmo lago nos anos 60.

Marcelo Fedeli
Maio 2002


    Para citar este texto:
"Anotações "esquecidas" IV: Jean Guitton, amigo de Mons. Montini (Paulo VI)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/jeanguitton/
Online, 24/09/2017 às 11:16:14h