Igreja

Quando um herege diz a verdade: Confissões do modernista dominicano Jean Cardonnel
Orlando Fedeli

A anunciada promulgação do Motu Proprio de Bento XVI, liberando universalmente a Missa de sempre tem provocado a ira descontrolada dos hereges modernistas de todos os naipes.
O site modernista Golias tem sido o porta voz dos mais furibundos ataques dos sectários, defensores extremados do Vaticano II e da Missa que dele nasceu: a missa protestantizante de Paulo VI fabricada por Monsenhor Anibale Bugnini, com ajudas de seis pastores protestantes.
Essa ira descontrolada tem a vantagem de forçá-los vomitar o que realmente pensam. Durante décadas , esses modernistas afirmavam que a grande diferença da Missa de sempre e da Missa nova era apenas a de língua, o latim para a Missa que chamavam de velha, a língua do povo, para a Missa fabricada por Paulo VI em 1969.
Agora a ira pela anunciada liberação da Missa de sempre a ser decretada por Bento XVI os fez perder o controle e os forçou a dizer a verdade.
É no site Golias --furibundamente modernista—que essas confissões da verdade têm sido publicadas.
É raro hereges dizerem a verdade. Aproveitemos, então, dessa ocasião.
E que confessam agora esses hereges?
Agora, e só agora, eles confessam que não é o latim a diferença entre a Missa antiga e a Nova. A diferença é de visão teológica. O que diferencia as duas Missas é uma Fé diversa.
 A Missa de sempre é a renovação do Sacrifício do Calvário realizado por Cristo, na cruz, para perdão de nossos pecados, sendo a Missa então um sacrifício propiciatório, oferecendo Deus Pai os méritos infinitos do sacrifício de Cristo.
             A Missa Nova modernista e protestantizante seria uma ceia festiva, para celebrar a salvação universal de todos os homens.
A Missa de sempre é para Deus, por isso é dita voltada para Deus.
A Missa nova é para o homem e voltada para o homem, para o povo.
A Missa de sempre –a Missa católica—é um sacrifício feita sobre um altar, onde devem ser postas relíquias de santos mortos por Cristo.
A Missa nova é um banquete festivo feita sobre uma mesa.
Uma impele á contrição.
Outra impele à comemoração com rock, guitarras esganiçadas, baterias frenéticas, ou com samba, cuíca e reco-reco.
Uma é santificadora.
Outra é blasfemadora.
 
Tudo isso agora é confessado claramente, mostrando que durante 40 anos se enganou o povo católico sobre o que de fato é a Missa nascida do Vaticano II. E com razão dizem os modernista que liberar a Missa antiga significa , no fundo, condenar o Vaticano II. Já Paulo VI havia dito isso. E agora os modernistas desesperados repetem essa verdade.
Interrogado por seu amigo Jean Guitton, por que ele, Paulo VI não permitia que se rezasse a missa de sempre—chamada de Missa de São Pio V, que foi celebrada durante quase dois mim anos pela Igreja , Paulo VI respondeu irritado:
Isso jamais! Desde que se trata de uma disputa má, pois que o cânon de São Pio V eu o conservei na nova liturgia, onde ele é colocado em primeiro lugar”.
(...) Mas essa missa dita de São Pio V, como se a vê em Ecône, se torna o símbolo da condenação do Concílio. Ora, jamais aceitaremos, em nenhuma circunstância, que se condene o Concílio por meio de um símbolo”. “Se fosse acolhida essa exceção, o Concílio inteiro arriscaria de vacilar. E conseqüentemente a autoridade apostólica do Concílio”.(Jean Guitton, Paulo VI Secreto, editora San Paolo, Milano, 4 a edição, 2.002, versão integral do francês aos cuidados de David M. Turoldo e Francesco M. Geremia, pp. 143-144-145 – Título original Paul VI Secret, Desclée de Brouwer, Paris. O destaque é nosso).
 
Nestes dias, o site Golias publicou um artigo do padre dominicano Jean Cardonnel, atacando a Missa de sempre e seu defensor autorizado por decreto Papal, o Abbé Philippe Laguérie.
O artigo se intitula “A fraude de Laguérie”.
O autor do artigo, Padre Jean Cardonnel O.P., é conhecido defensor das heresias comunistas da Teologia da Libertação. Padre Cardonnel que já viveu e fez agitação comunista no Brasil é autor de dois livros com títulos bem elucidativos de seu pensamento herético: “Eu Acuso a Igreja” e “Judas, o inocente”.
Portanto , esse herege é acusador da Igreja e defensor de Judas. Esses são os “títulos de apresentação” do homem que agora ataca o Padre Laguérie, superior do Instituto do Bom Pastor e a Missa de sempre.
Vejamos sucintamente o que diz Padre Jean Cardonnel no artigo citado que reproduzimos na íntegra no final de nosso comentário.
 
***
Padre Cardonnel, inicia seu artigo -- “A FRAUDE DE LAGUÉRIE”—colocando a alternativa fundamental que ele julga dever ser feita hoje: “a necessidade da escolha crucial – Deus Grande Inquisidor ou Deus Libertador”.(Jean Cardonnel O.P., La fraude de Laguérie, 16 de dezembro de 2006 http://www.golias.ouvaton.org/spip.php?article1218).
 
            Para esse frade herege, a Igreja, durante séculos, teria errado pregando um Deus inquisitorial, tirânico e desapiedado. Cardonnel tem outro deus: o deus libertador.
Se for o libertador da lei, da moral dos deveres esse deus de Cardonnel tem um nome: Lúcifer.
Não se espantem meus leitores por essa conclusão. Além de ser lógica, ela me foi inspirada pelo próprio Cardonnel que chama o Deus criador do Céu e da terra para glória de quem sempre se rezou a Missa de “Deus longínquo, o Soberano, o Príncipe deste mundo mundano, o Grande Inquisidor, o flagelo cósmico, o Poder, o Demônio, o Diabo”. ”.(Jean Cardonnel O.P., La fraude de Laguérie, 16 de dezembro de 2006 http://www.golias.ouvaton.org/spip.php?article1218).
Depois de taxar Deus altíssimo de “Grande Inquisidor”, Padre Cardonnel faz um breve histórico da Missa , dizendo que foi Constantino o causador de uma visão monarquista de Deus e da Igreja, que teria criado uma concepção herética do cristianismo fazendo um deus à imagem do Imperador Romano , criando apara esse |deus monarca uma Corte— o Papa e os príncipes da Igreja—assim como um ritual de corte,a Missa de sempre.
A seguir, Padre Cardonnel critica o Papa Bento XVI por autorizar dois ritos opostos, a Missa de sempre e a Missa Nova. Mas afirma que ainda pior foi ter criado o Instituto do Bom Pastor, por ter dado “garantias dadas a um inimigo declarado, oficial, anti-concílio Vaticano II, da abertura da Igreja ao mundo”.
Esse inimigo declarado do Vaticano II seria o padre Phillipe Laguérie, Superior Geral do Instituto do Bom Pastor.
Padre Carbonnel vê bem o que Padre Laguérie pretende fazer e com permissão oficial de Bento XVI: “Porque o Padre Laguérie e suas tropas não vão ficar nisso. Seu objetivo público se torna cada vez mais a recusa até a eliminação completa da Missa [ A Missa nova de Paulo VI]”.
Para Padre Cardonnel, o Padre Laguérie, por ter recebido do Papa Bento XVI a missão de criticar construtivamente o Vaticano II, seria um missionário do anti Evangelho, significaria renegar a Cristo:
“(...) abençoar ou simplesmente suportar Laguérie, é re-negar Jesus Cristo. Porque, não esqueçamos, Laguérie recebeu do papa o direito a uma crítica construtiva, o que quer dizer negacionista, do Concílio Vaticano II, cujo crime continua sendo, segundo os nostálgicos das Cruzadas ou da Santa Inquisição, de ter querido, como dizia João XXIII, que a Igreja Católica se olhasse no espelho do Evangelho e não no retrovisor do Césaro-papismo. Recusando, apesar do Papa, o contra-Evangelho de Laguérie (...)”[ Os destaques são nossos].
E Padre Cardonnel dá suas razões porque considera o padre Laguérie um verdadeiro missionário do Anticristo e um defensor do diabo:
É claro que deixar agir Laguérie re-nega Jesus Cristo. Porque, aquele que diz que é preciso virar as costas a seu próximo para celebrar o mistério divino, caricatura a liturgia - Ato do Povo - tornando-a cerimonial, etiqueta, precedências, protocolo da corte do Rei Sol e portanto Ato de Deus longínquo, o Soberano, o Príncipe deste mundo mundano, o Grande Inquisidor, o flagelo cósmico, o Poder, o Demônio, o Diabo”.
 
Padre Cardonnel é brutal. Será que aqueles que reclamam da falta de caridade do site Montfort vão protestar contra a linguagem do Padre modernista Carbonnel?
Vejamos, agora, como Padre Carbonnel expõe as teologias opostas da Missa de sempre e da Missa Nova de Paulo VI, Missa que refletiria de tal modo visão teológica do Vaticano II que condenar a Missa Nova equivale a condenar o Vaticano II, aliás como reconheceu Paulo VI.
Eis porque as oposições, no domínio da liturgia, ultrapassam ao infinito a questão litúrgica. Elas expressam ou a pior das restaurações do Deus Grande Inquisidor ou então a universal ressurreição do homem. Deus em ação, na elevação dos vivos e dos mortos. Digamos, na verdade, de modo mais cru: estamos realmente ameaçados de uma reedição, de uma reconstituição do passado imperial da Igreja romana, em substituição ao movimento do Povo dos res-suscitados de uma combatividade insurrecional”
 
Diz mais Padre Cardonnel: a Missa Nova de Paulo VI é democratizante tendo um sentido político-telógico oposto ao da Missa que a Igreja sempre rezou:
 
“É à glorificação do Deus-Poder que quer nos conduzir a liturgia Laguérie em língua morta do Império romano defunto que pede apenas para ser reanimada no Instituto do Bom Pastor sagrado Imperador.
Está na hora de bradar o sentido político-teológico do retorno à missa tridentina (Concílio de Trento) do rito de São Pio V, infelizmente um dominicano, cuja façanha histórica foi Lepanto, a vitória militar dos papistas sobre os turcos”.
“O que se avalia ainda mal é o significado político da atitude de um clero eucaristicamente conservador, literalista, imutável, o celebrante da Missa deve, como antigamente, se voltar para Deus e portanto dar as costas ao povo”.
 
Padre Cardonnel justamente considera que a visão de Deus da Missa de sempre é a de um Deus transcendente ao universo, Senhor dos céus e da terra, a quem o homem deve servir.
 A visão de Deus da Missa Nova é a de um deus imanente – o “deus do universo”, o deus que o clero modernista obrigou o povo a proclamar falsamente que “está no meio de nós”, aquele do qual se “aguarda a vinda” como se Ele já não estivesse realmente presente na Hóstia Consagrada.
Por isso afirma com razão Padre Cardonnel que é impossível conciliar uma Missa rezada de costas para o povo, Missa rezada para Deus transcendente, com uma missa nova rezada de frente para o povo, em glória para o homem:
o terrível preconceito subsiste: Deus será tanto mais Deus, quanto o homem for menos homem, menos humano, menos da humanidade. Portanto, liturgicamente, impossível estar ao mesmo tempo face a Deus e face ao povo”. (Os destaques são nossos].
 
Padre Carbonnel, adorador do deus imanente, negando o Evangelho, se revolta contra a noção de sacrifício, essencial para a Missa como Cristo a instituiu. Para Padre Cardonnel falar em Santo Sacrifício da Missa é tornar pestífera, envenenada, a Missa:
“Santo Sacrifício da missa. Eis a palavra empesteada, o horrendo travesti do verbo, que não fez jamais inflação verbal e nunca disse o ignóbil “Eu me sacrifico”.
 
São essas heresias que levaram Padre Cardonnel à conclusão absurda, blasfema e herética de que a Missa de sempre, defendida por ordem pontifícia por Padre Laguérie e pelo Instituto do Bom Pastor, é a Missa do diabo.
Sem duvida, Padre Carbonnel tem razão ao dizer que o deus cultuado na Missa de sempre é o Deus transcendente e que o deus da missa nova é o deus imanente no universo e no homem.
 Resta saber qual é o deus verdadeiro e quem é o diabo.
A Igreja sempre ensinou que Deus é o Criador dos céus e da terra e que o diabo é o Príncipe deste mundo.
 
Qual é o deus adorado por Padre Cardonnel?
Ele mesmo o disse: “há uma única verdade que eu não ponho jamais, jamais em questão: é o questionamento universal de absolutamente tudo. Simplificando, eu chamo a isso Deus”.
 Aquele que Padre Carbonnel chama de seu deus é aquele que tudo questiona e tudo contesta, isto é, Lúcifer, o grande contestador.
A fraude de Padre Carbonnel é a de apresentar o diabo, o pai da mentira como o deus verdadeiro.

São Paulo, 19 de Dezembro de 2.006.
Orlando Fedeli
 
 
A FRAUDE DE LAGUÉRIE
 
Jean Cardonnel
 
16 de dezembro de 2006 http://www.golias.ouvaton.org/spip.php?article1218
 
Na época em que eu lançava meu grito de alarme sobre a necessidade da escolha crucial – Deus Grande Inquisidor ou Deus Libertador, eu acreditava ainda ingenuamente que, com o novo Papa, seria preciso suportar algumas medidas desajeitadas, tomadas por um Pontífice mais doutrinário que pastoral e político.
Ora, Bento XVI é intelectualmente, conceitualmente, muito coerente, de uma lógica perfeita. Sua ação se desdobra, em primeiro lugar, em um domínio visto muito freqüentemente, sem razão, como secundário: a liturgia, que tem por elemento central a Eucaristia, que se tornou em linguagem comum, a Missa.
Bastou um tempo relativamente curto – do início do que se convencionou chamar nossa era aos anos 313-320 D.C. – para que a Igreja deixasse de ser a assembléia da transgressão universal pela Palavra encarnada, crucificada, res-suscitada – das fronteiras do espaço e mesmo do tempo. Se a Igreja operou progressivamente esta mutação, foi a fim de copiar, plagiar seu protetor o qual, por via de troca de métodos diretivos, a consagra como monarquia pontifical. É assim que, no decorrer dos séculos, mesmo durante a passagem histórica do Império Romano à multiplicidade dos reinos bárbaros, o regime preferido da Igreja católica romana foi a monarquia absoluta de direito divino. Quem poderia melhor que o visível rei terrestre representar o Invisível senhor do céu e da terra?
Partindo à descoberta de minhas lembranças cristãs e católicas, minha memória não tem necessidade de subir muito alto e longe, no passado, para encontrar, antes do Concílio do Vaticano II, sob Pio XII, meus primeiros ensaios de compreensão crítica da fé monarquizada. Junto com o Padre Liégé, igualmente dominicano, nós difundíamos por toda a parte nossa idéia-mestra: não, Deus não pode ser Luís XIV nos céus. E, no entanto, eu não podia deixar de ver a romanização, a monarquização, não somente da Igreja mas também de Deus, como Senhor dos Senhores, Rei dos Reis. De tal modo que Igreja, catolicismo, cristianismo, fé, Deus, estavam organizados definitivamente na esfera, na zona de influência do poder.
 
             “Deus é o único Ser que, para reinar, não teve necessidade de existir”
 
Eu tenho sempre presente ao espírito a definição de Deus por Baudelaire: “Deus é o único Ser que, para reinar, não teve necessidade de existir”. Do ponto de vista do mundo deísta e, na cúpula, monoteísta, acima da existência, há o Reino. A existência, a própria vida, são plebéias, vulgares, comuns. O reino lhe é superior, elegante, transcendente, excepcional. O Ato do Príncipe! [N.doTr.: Ato do soberano usando de seu poder, empregado atualmente no sentido de ato arbitrário]
Exatamente como a um rei, é preciso uma corte, ao Ser supremo todo poderoso, é preciso um culto, cuja execução minuciosa e regulamentada será o rito. O ritual, o protocolo.
Que o Papa Bento XVI autorize para a celebração da missa uma coexistência pacífica dos dois ritos, um elaborado no Concílio Vaticano II, de Paulo VI, em língua vernácula, quer dizer, viva; outro em língua latina, morta entretanto dominadora, ainda que a título solenemente póstumo, já causa um problema.
 
Mas o ato pontifical de bendizer, de acolher o Padre Laguérie, dissidente radical do corpo do exército integrista, representa um passo à frente, quer dizer, de fato, um passo atrás, nas garantias dadas a um inimigo declarado, oficial, anti-concílio Vaticano II, da abertura da Igreja ao mundo.
Porque o Padre Laguérie e suas tropas não vão ficar nisso. Seu objetivo público se torna cada vez mais a recusa até a eliminação completa da Missa, que havia enfim se tornado um pouco compreensível, atraente, eloqüente, significativa da Páscoa, passagem de todos os humilhados, da servidão, da escravidão à libertação; do estado pior que a morte, da vida mortal à vida res-suscitada, portanto eterna.
Eis porque as oposições, no domínio da liturgia, ultrapassam ao infinito a questão litúrgica. Elas expressam ou a pior das restaurações do Deus Grande Inquisidor ou então a universal ressurreição do homem. Deus em ação, na elevação dos vivos e dos mortos. Digamos, na verdade, de modo mais cru: estamos realmente ameaçados de uma reedição, de uma reconstituição do passado imperial da Igreja romana, em substituição ao movimento do Povo dos res-suscitados de uma combatividade insurrecional. Eu me lembro vivamente de um velho senhor, menos velho que eu hoje em dia, que – furioso com a radicalidade de meus questionamentos das verdades mais bem estabelecidas – me interrompeu bruscamente: “Mas enfim, Padre, há verdades que não admitem a discussão, o debate. Há Deus Pai, Filho, Espírito Santo. Há a Virgem Maria, há a Igreja, há o Santo Padre o Papa”. Caro Senhor, respondi-lhe, como diria San Antonio, o senhor vai logo mais me entender: há uma única verdade que eu não ponho jamais, jamais em questão: é o questionamento universal de absolutamente tudo. Simplificando, eu chamo a isso Deus. Se Deus é o princípio de autoridade, a caução dos poderes constituídos ou se ele é o criador contagiante de um criativo questionamento, nós dizemos a mesma palavra mas carregada de sentidos radicalmente opostos. A alternativa é cada vez mais forte, e qualquer organismo individual ou institucional tem a capacidade de ver isso: ou a gente se questiona ou a gente questiona os outros – isso é o que faz a Inquisição. Bem! É à glorificação do Deus-Poder que quer nos conduzir a liturgia Laguérie em língua morta do Império romano defunto que pede apenas para ser reanimada no Instituto do Bom Pastor sagrado Imperador.
Está na hora de bradar o sentido político-teológico do retorno à missa tridentina (Concílio de Trento) do rito de São Pio V, infelizmente um dominicano, cuja façanha histórica foi Lepanto, a vitória militar dos papistas sobre os turcos.
O que se avalia ainda mal é o significado político da atitude de um clero eucaristicamente conservador, literalista, imutável, o celebrante da Missa deve, como antigamente, se voltar para Deus e portanto dar as costas ao povo – mas esse último cheira ainda demais ao popular, com seu odor suspeito de revolta, de barricada. É melhor então falar de fiéis sem ligação entre eles. Mas em meios cristãos bem longe dos blocos integristas, o terrível preconceito subsiste: Deus será tanto mais Deus, quanto o homem for menos homem, menos humano, menos da humanidade.Portanto, liturgicamente, impossível estar ao mesmo tempo face a Deus e face ao povo. Conforme uma opinião muito habitual, é na estrita medida em que eu arrumo o falso semblante, a falsa perspectiva do povo piedosamente amontoado em “magro rebanho carola”, como dizia Bernanos, que eu, padre, simplesmente canal indigno de uma transcendente graça divina, eu posso com todo o meu poder sacerdotal, fazer descer meu Deus Cristo Sacerdote Eterno – sobre o altar, não mesa comum; a hóstia, não pão da partilha – do Santo Sacrifício da missa. Eis a palavra empesteada, o horrendo travesti do verbo, que não fez jamais inflação verbal e nunca disse o ignóbil “Eu me sacrifico”, já que sua Palavra, impossível de ser aproveitada e irredutível à sacralização, é: minha vida, ninguém ma toma, eu a dou. O dom se adianta à tomada.
Mas é preciso reconhecer que nós vimos de longe, de muito longe, do passado mais passadista das trevas clericais pré-históricas anteriores religiosamente do ato bárbaro sacrificial à história do Verbo de Deus, portanto à Criação. Nós observamos, levado ao paroxismo em Laguérie, o guerreiro católico-romano do Deus monárquico, ao mesmo tempo aquilo que envenena, que gangrena nas zonas de ortodoxia pontifical, e aquilo que o preparou no coração da piedade tradicional.
Eu tomo cuidado de não esquecer meu encantamento quando, jovem frade pregador orador do Verbo feito carne, eu fazia minha, pessoal, a descoberta da Igreja do caráter pascal da liturgia, da Missa. Eu proclamava inebriado, louco de alegria: nós celebramos como um festival de uma refeição de forma universalmente convivial, a atualização do grande acontecimento, a Páscoa. Não, não é uma refeição, não é uma festa, é um sacrifício, a imolação do Cristo Sacrificador e Vítima, rugiam nossas velhas bestas dogmáticas da ordem da Santa Inquisição, às quais se reuniram hoje os últimos jovens recrutas dominicanos.
A casta sacerdotal banalizou a Missa
Eu falo alto e forte: mesmo se conseguirmos banir a fraude Laguérie em sua forma mais grosseira, será preciso um trabalho exaustivo e gaudioso de inumeráveis prometeus do Verbo subversivo para desempoeirar, desterrar o contra-Evangelho de Laguérie.
Então, amigos dispersos, irmãos espalhados, no feminino e no masculino da humanidade traída, desperdiçada, negada, re-negada, unamo-nos em um front comum sem precedentes, e rápido, o quanto antes, já que amanhã será tarde demais. Nós não iremos mais do aborrecimento com Laguérie, seguido do retorno clássico do mesmo aborrecimento com ou sem Laguérie pela seguinte razão infantil: abençoar ou simplesmente suportar Laguérie, é re-negar Jesus Cristo. Porque, não esqueçamos, Laguérie recebeu do papa o direito a uma crítica construtiva, o que quer dizer negacionista, do Concílio Vaticano II, cujo crime continua sendo, segundo os nostálgicos das Cruzadas ou da Santa Inquisição, de ter querido, como dizia João XXIII, que a Igreja Católica se olhasse no espelho do Evangelho e não no retrovisor do Césaro-papismo. Recusando, apesar do Papa, o contra-Evangelho de Laguérie, nós iremos das gargalhadas às lágrimas, de onde escorrerá a palavra imortal que não vale só para Lagardère: Se você não vai à Laguérie, cuja Lei é a Única, Laguérie irá a você. É claro que deixar agir Laguérie re-nega Jesus Cristo. Porque, aquele que diz que é preciso virar as costas a seu próximo para celebrar o mistério divino, caricatura a liturgia - Ato do Povo - tornando-a cerimonial, etiqueta, precedências, protocolo da corte do Rei Sol e portanto Ato de Deus longínquo, o Soberano, o Príncipe deste mundo mundano, o Grande Inquisidor, o flagelo cósmico, o Poder, o Demônio, o Diabo.
Mas bruscamente, no meio das trevas e não das palhaçadas de inextrincáveis histórias policiais mal feitas que fazem a trama das nossas sociedades globalizadas, ou seja, anônimas, privatizadas no sistema de Mercado, brilha, fulgura uma Luz. Insólita. Em 2006-2007 mais atual que nunca. Ela banaliza, seniliza todas as pseudo-notícias até a última de um falso Ano-Novo: a eleição de um Presidente monarca da República, coroado segundo uma retomada do rito de Vichy, chefe de Estado francês. Contra essas incorrigíveis velharias, ressoa, vibra o clamor de nossos peitos e corações reunidos: eu vos anuncio uma novidade fantástica que será imensa, inesgotável alegria para todo o povo. Vocês não estão escutando “Meia noite cristã é a hora solene onde o Menino Deus desce entre nós” como um Para-quedista divino, para apagar a mancha original... Não, nada disso. Mas a Feliz infinitamente Boa Nova que tem por destinatário todo o povo, toda a humanidade, todo o universo: um Salvador, um Libertador, sua Salvação Pública, a cordialização da vida pública nasceu para vós. E eu vos direi o sinal pelo qual vós o reconhecereis: De modo algum o Rei, o Imperador em sua carruagem, em seu trono, de modo algum o Presidente Diretor Geral em seu escritório, a encarnação do Poder Executivo na grande poltrona do Eliseu...
Não. Mas a palavra que nasce feita carne, porque ela está farta, ela não pode mais suportar ser tomada por uma palavra no ar. Sim, o inesperado, o imprevisto absoluto, o único sinal pelo qual é reconhecido Deus inteiramente nu, a primeira de suas inesgotáveis piadas: o pequenino, o garotinho, o bebê, o moleque, o Kid, um recém-nascido enfaixado, em uma mangedoura de animais. Então transformemo-nos nele, o Recém-nascido, o Filho do Homem nascido da Mulher, a humanidade, este belo nome feminino singular do homem, o Filho da Libertação, da Criação. E chutemos fora, a pontapés no traseiro, sua caricatura, o antigo Papai Noel mercantilmente fabricado, o Velho do Consumo!
 
Jean Cardonnel  
 (Tradução de responsabilidade do site Montfort).
 

    Para citar este texto:
"Quando um herege diz a verdade: Confissões do modernista dominicano Jean Cardonnel"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/jean_cardonnel/
Online, 24/03/2017 às 21:04:41h