Igreja

Firmeza e respeito na diplomacia de Dom Fellay
Orlando Fedeli

 
     A Montfort tem o prazer de publicar a tradução da última entrevista de Dom Fellay, tratando das próximas negociações com a Santa Sé, de importância imensa para a glória de Deus e a para o bem da Santa Igreja Católica. Esse prazer é redobrado pela habilidade com que Dom Fellay responde a perguntas delicadas com firmeza e respeito, ao mesmo tempo.
     Rezemos pelo Papa Bento XVI e por Dom Fellay.        
 
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Sexta Feira,  31 de julho de 2009
 
As conversações doutrinárias, o Bispo Williamson, e outras
 
Entrevista concedida pelo Bispo Monsenhor Bernard  Fellay à agência APCOM.
 
[APCOM:] O Papa se encontra não Vale de Aosta para passar um período de férias.
 V Excia.. está a dois passos dele. V, Excia, teve algum contato, ou soube de algum tipo de contato entre os colaboradores dele e V. Excia?
 
[Mons. Fellay:] Não, absolutamente não. Não houve nenhum contato. Durante as férias devemos deixar o Papa em paz. A coisa prosseguirá no Vaticano, com as pessoas encarregadas dos diálogos. Porém não perturbamos o Papa. São suas férias.
 
[APCOM:] Mons. Fellay, está prevista proximamente uma viagem sua a Roma? Foi marcada a data de início dos diálogos? E sua comissão, já foi pensado por quem será composta? Quantas pessoas a formam?
 
[Mons. Fellay:] Não há agora uma data para o início do diálogo, porém podemos presumir que será no outono. Será em Roma por aquele período, porém até agora não há nada preciso. A comissão já está formada por 3 ou 4 pessoas, porém não podemos, por ora, dizer os seus nomes, também para evitar qualquer pressão.
 
[APCOM:]  V. Excia acredita que no Vaticano haja uma sensibilidade excessiva a respeito das expectativas do mundo judaico, sobre o ‘caso Williamson’, assim como sobre a oração da Sexta Feira Santa?
 
[Mons. Fellay:] Sim,  creio. Eu mesmo estou embaraçado — depois do que aconteceu com o caso de Monsenhor Williamson — quando vejo os judeus que se ocupam de assuntos da Igreja Católica. Não é sua religião. Deixem-nos em paz. São assuntos concernentes à Igreja Católica. Se queremos rezar pelos judeus, oremos pelos Judeus, na forma em que queiramos. Não sei se eles rezam por nós, porém direi que é um problema deles.
 
[APCOM:] Então, o Papa e o Vaticano recebem pressôes do mundo judaico?
 
[Mons. Fellay:] Certamente. É um tema extremamente delicado e quente, e creio que deveríamos sair deste clima que não é bom. Houve uma infeliz concomitância de acontecimentos que não devem acontecer de novo. Nesse contexto, pode-se entender a ira dos judeus, eu a entendo, e deploro o que aconteceu.
 
[APCOM:] No Motu Proprio ‘Unitatem ecclesiam’ [SIC. Exactamente é “Ecclesiæ Unitatem”. N. de T. para o castelhano] o Papa afirma que ‘as questões doutrinárias, obviamente, permanecem, e até que não sejam esclarecidas, a Fraternidade não tem um estatuto canônico na Igreja, e seus ministros não podem exercer de forma legítima nenhum ministério’.
Que pensa disso V. Excia?
 
[Mons. Fellay:] Penso que não é grande a mudança. O que mudou é que essa nova disposição se concentrará em nossas relações sobre questões doutrinárias. Porém não há mudança, é um processo que prossegue adiante e que havíamos pedido em 2000; o caminho continua. O que escreve o Papa está na linha do discurso habitual de Roma, desde 1976, assim ele não é novo. Nós temos uma posição clara que levamos adiante desde esse tempo, e que mantemos, ainda que estejamos em contraste com essa lei, porque há razões sérias que justificam o fato de  exercer legitimamente esse ministério. São as circunstâncias nas quais se encontra a Igreja, que nós chamamos ‘estado de necessidade’. Por exemplo, quando uma grande catástrofe ocorre num país, a estrutura ordinária fica fora, fica em crise o sistema, e então todos os que podem ajudar, ajudam. E assim, não é por nossa própria vontade pessoal , mas a necessidade dos fiéis que necessita de ajuda de todos os que possam ajudar. E esse estado de necessidade é bastante generalizado na Igreja —há certamente algunas exceções— para poder assegurar, conscientemente, o exercício legítimo do apostolado.
 
[APCOM:] Que status jurídico deseja V. Excia para a Fraternidade São Pío X? Uma prelatura, uma sociedade de vida apostólica, ou que outra coisa?
 
[Mons. Fellay:] Dependerá de Roma, obviamente, que é a autoridade que decide essa estrutura.. Sua perspectiva é a vontade de respeitar ao máximo a realidade concreta que representamos. Minha esperança é que sejamos suficientemente protegidos no exercício do apostolado para poder fazê-lo bem, sem ser sempre impedidos de atuar por razões jurídicas. A esperança é de uma prelatura, ainda que eu não tenha uma preferência. Pelo momento, não posso dizê-lo, tudo depende de Roma.
 
[APCOM:] Para Monsenhor Wiliamson o Concílio Vaticano II é uma ‘torta envenenada’ que deve se jogar no “lixo”, para Monsenhor Tissier de Mallerais o Concílio deve ser ‘cancelado’, e para Monsenhor Alfonso De Galarreta não há ‘muito que salvar’ do Concílio: Há uma divisão no interior da Fraternidade São Pío X?. Como V. Excia pensa em resolvê-la?. O Vaticano sustenta que no interior da Fraternidade há divisões.
 
[Mons. Fellay:] Permito-me dizer que não vejo união nem mesmo no Vaticano. O problema na Igreja de hoje não somos nós. Nós chegamos a ser problema só porque dizemos que há um problema. Ademais, ainda que possamos ter a impressão de declarações opostas, ou, inclusive, contraditórias, não há fraturas em nosso interior. Por exemplo, sobre o Concílio, poderíamos dizer que quase tudo deve ser repelido. Porém,  pode-se de outro lado dizer também que poderia se tentar salvar o que seja possível. Porém já não podemos dizer todos a mesma coisa. O Concílio é uma mistura: de bem e de mal. Também o Papa quando sustenta que se deseja uma hermenêutica da continuidade, que não se quer uma ruptura, contradiz o Concílio interpretado como ruptura.
 
[APCOM:] Monsenhor Williamson é um problema?
 
[Mons. Fellay:] É um problema totalmente marginal. O que ele disse não tem nada que ver com a crise da Igreja, com o problema de fundo que tratamos, há 30 años, depois do Concílio, é uma questão histórica. A questão de saber quantos e como morreram os Judeus não é uma questão de fé, nem sequer é uma questão religiosa, é uma questão histórica. Obviamente estamos convencidos que ele não tratou esse tema como deveria, e colocamos distância entre nós e ele. Porém sobre as posições religiosas da Fraternidade a respeito do Concílio não vejo nenhum problema com Monsenhor Williamson.
 
[APCOM:] Monsenhor Williamson diz que o Concílio é uma ‘torta envenenada’ para ser jogada no ‘lixo’. Não lhe parece uma frase um pouco forte?. V Excia. está de acordo?
 
[Mons. Fellay:] É uma frase polêmica, porém não a condeno. Muitas declarações hoje se fazem em clave polêmica, é uma provocação para tentar que as pessoas reflitam. Vou dizer o conceito de outro modo, direi que devemos superar o Concílio, para retornar àquilo que a Igreja sempre ensinou, e do qual a Igreja não pode se  separar, e num certo momento devemos superar o Concílio que quis ser pastoral e não doutrinário. Que quis se ocupar da situação contingente da Igreja. Porém, a coisa mudou, e muitas coisas no Concílio já estão superadas.
 
[APCOM:] O Bispo Williamson havia prometido permanecer em silêncio e continua falando: Será ele punido por isso?. Se ele continua sustentando que não é possível um compromisso com Roma sobre o Concílio, ele será expulso?
 
[Mons. Fellay:] Não é certo que Monsenhor Wiliamson fale a miúde. É raríssimo... Uma vez disse uma coisa... e depois não lhe pedimos silêncio sobre todas as coisas. O campo sobre o qual lhe havíamos pedido silêncio era muito limitado. Sua remoção foi momentânea. Eu a  minimalizo ao máximo... não é para exagerar... Pelo momento não vejo nenhuma razão de expulsão. Depende dele, da situação na qual ele se colocou. No momento está em curso um processo, ele denigriu seriamente a reputação, não imagino nada mais que a situação na qual ele já está. Dependerá do que ele diga. Já foi castigado suficientemente, posto à margem, sem nenhum cargo.
 
[APCOM:] E sobre o Concílio, [de] aceitar o compromisso com Roma?
 
[Mons. Fellay:] Não faremos nenhum compromisso sobre o Concílio. Não tenho intenção de fazer um compromisso. A verdade não suporta compromissos. Não queremos um compromisso, queremos clareza sobre o Concílio.
 
[APCOM:] As recentes ordenações de sacerdotes foram vistas como uma provocação: Não era melhor evitá-las, neste momento delicado?
 
[Mons. Fellay:] Não foram uma provocação. Alguns Bispos aproveitaram a ocasião para chamá-las de provocação. Porém, nem para Roma, nem para nós foram  uma provocação. É como eliminar a respiração de uma pessoa. Nós somos uma sociedade sacerdotal cujo objetivo é formar sacerdotes. E então, impedir o ato último de formação, que é a ordenação, é como impedir a alguém de respirar. Por outra lado, sempre se previu e sempre soubemos que a remoção da excomunhão criou uma situação nova que é melhor que a precedente. Porém não é perfeita. Para nós, é normal continuar ir adiante com nossa atividade, e assim também com as ordenações.
 
[APCOM:] L'Osservatore Romano falou de Calvino, de Michael Jackson, de Harry Potter, de Oscar Wilde. Que pensa V. Excia disso?
 
[Mons. Fellay:] Pegunto-me: É esse o papel do Osservatore Romano preocupar-se com essas coisas?. Essa é uma primeira pergunta. E a segunda pergunta é: O que se diz dessas pessoas é verdadeiramente o correto?. Tenho antes um olhar crítico sobre essas apresentações.
 
[APCOM:] Crê V. Excia que o Papa possa finalmente chegar a uma conclusão na questão dos lefebvrianos?
 
[Mons. Fellay:] Creio que certamente há uma boa esperança. Penso que devemos rezar muito, são assuntos delicados. São 40 anos que estamos nessa condição e não por questões pessoais, mas verdadeiramente por coisas sérias que tocam à fe e o futuro da Igreja. Vemos certamente no Papa uma autêntica vontade de chegar ao fundo do problema e isso acolhemos com muita satisfação.Rezamos e esperamos que com a graça do bom Deus chegaremos a algo bom para a Igreja e para nós.
 
[APCOM:] Que pensa V. Excia de Bento XVI?
 
[Mons. Fellay:] É uma pessoa íntegra, que considera a situação da vida da Igreja muito seriamente.
 
 
Fonte: SECRETUM MEUM MIHI

    Para citar este texto:
"Firmeza e respeito na diplomacia de Dom Fellay"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/firmeza-dom-fellay/
Online, 29/04/2017 às 06:20:29h