Igreja

Fides et Ratio
Orlando Fedeli


O Papa João Paulo II acaba de publicar mais uma de suas encíclicas. Como é costume dele, o documento é muito longo. Tão extenso, que é quase impossível resumi-lo adequadamente num curto artigo de jornal. Por essa razão, limitar-nos-emos a fazer um comentário sobre alguns aspectos da encíclica.

O tema do documento é bastante complexo, e o Papa o aborda prosseguindo na mesma linha adotada por ele na encíclica Veritatis Splendor.

Como ponto positivo inicial, queremos salientar que o Sumo Pontífice repete em várias passagens que a verdade existe, que ela é objetiva (ns. 44, 66 e 69), e que ela é una e universal: "De per si, toda verdade, inclusive parcial, se é realmente verdade, se apresenta como universal. O que é verdade deve ser verdade para todos e sempre"(n. 27), não sofrendo mudanças nem no tempo, nem no espaço.

No número 82 da encíclica, João Paulo II chega mesmo a repetir a famosa definição de verdade proveniente da Idade Média:

"... verificar a capacidade do homem de chegar ao conhecimento da verdade; um conhecimento, ademais, que alcance a verdade objetiva, mediante aquela adaequatio rei et intellectus à qual se referem os doutores da Escolástica"(n. 82).

Dessa forma, ele mais uma vez condena o subjetivismo do mundo moderno, assim como o relativismo, ambos decorrentes quer do Idealismo alemão, quer do liberalismo da Revolução Francesa, que foi uma aplicação política e social do Idealismo.

A defesa da verdade objetiva condena indiretamente também o marxismo e o evolucionismo filosófico, que nada admitem de estável e de absoluto.

Diz o Papa: "A legítima pluralidade de posições abriu passo para um pluralismo indiferenciado, baseado na convicção de que todas as posições são igualmente válidas" (n. 5). Daí se chega "a negar à verdade seu caráter exclusivo, partindo do pressuposto de que ela se manifesta de igual modo em diversas doutrinas, inclusive contraditórias entre si. Nesta perspectiva, tudo se reduz a opinião" (n. 5).

Em conseqüência, o Papa condena também o subjetivismo e o relativismo na moral, hoje dominantes, que são efeitos diretos do subjetivismo criteriológico.

João Paulo II mostra como depois de São Tomás, com a decadência da filosofia, os homens acabaram caindo em dois erros fundamentais:

1) o racionalismo, que pretende tudo compreender sem a fé;

2) o fideísmo, típico do falso misticismo, que pretende ter a fé sem a razão.

É pena, entretanto, que o Papa apresente seu documento apenas como uma exposição de "algumas reflexões" filosóficas (n. 6), porque teria força maior a encíclica se apresentada como documento magisterial pontifício.

A maneira como foi redigido o documento dará azo aos modernistas de argumentar que nele não está implicada a autoridade do Papa, enquanto Pastor Supremo da Igreja. Dirão os modernistas e liberais que esse documento não obriga os fiéis, porque reduz-se a uma forma de palestra de um professor de filosofia. Nele se apresentam os vários sistemas filosóficos como um professor os exporia numa aula, e não como o faria Mestre dos mestres, corrigindo, aprovando e condenando.

Até mesmo quando fala da filosofia da Índia, João Paulo II a cita sem condenar a gnose e o panteísmo que viciam completamente o pensamento indiano. Chega ele até a colocar o gnóstico Buda entre os sábios que, no passado, buscavam responder às perguntas fundamentais do homem. Exatamente como faria um professor dando um curso de filosofia absolutamente neutro.

Ora, se a neutralidade não cabe nem num curso de filosofia, por ser viciada pelo relativismo, quanto mais num documento pontifício!

É pena que Karol Wojtyla, como se estivesse ainda dando aulas em Cracóvia numa Faculdade leiga controlada pelo PC, chegue a escrever que "A Igreja não é alheia, e nem pode ser alheia, a este caminho de busca [da verdade]" (Fides et Ratio, n. 2). Como se a Igreja ainda buscasse a verdade. Só se busca o que não se tem, ou não se tem plenamente. Ora, a Igreja tem a posse da Verdade, que é Cristo Deus.

Outro ponto ao qual se aferrarrão os progressistas de todos os naipes e matizes é que o Papa fala colegialmente aos Bispos, dizendo que "Testemunhar a verdade é uma tarefa confiada a nós Bispos" (n. 6), sem entretanto salientar que esse dever cabe antes de tudo ao Papa, que deve confirmar seus irmãos na Fé e pode definir verdades de modo infalível. Essa circunstância coloca seu ensinamento na encíclica, ao menos implicitamente, no mesmo nível de autoridade do ensinamento de qualquer outro bispo, ainda que de conteúdo oposto.

Literariamente, o fato de que o Papa se exprima sempre na primeira pessoa do singular, e não no plural majestático, tira do documento toda solenidade, acentuando o tom coloquial de professor de filosofia fazendo uma palestra.

Vistos estes pontos à guisa de preâmbulo, gostaríamos de examinar os principais erros filosóficos denunciados pelo Papa como correntes em nosso tempo.

I Ecleticismo

O Papa assim conceitua o erro do Ecleticismo:

"...ecleticismo, termo que designa a atitude de quem, na investigação, no ensino e na argumentação, inclusive teológica, costuma adotar idéias derivadas de diferentes filosofias, sem fixar-se em sua coerência ou conexão sistemática, nem em seu contexto histórico" (n. 86).

O Papa mostra a seguir que o ecleticismo, agindo dessa forma, não distingue a parte que pode haver de verdade do que tem de errado um sistema.

Todo erro possui uma certa parcela de verdade, já que um erro absoluto não tem possibilidade de existência. Um erro é tanto mais perigoso quanto maior parte de verdade ele possui, pois é a verdade contida num sistema errado que serve para camuflar e enganar os menos sagazes. Foi exatamente por essa razão que Cristo atacou mais os fariseus do que quaisquer outros. Defendendo mais verdades, os fariseus mais ocultavam seus erros e mais enganavam.

O Papa critica também os teólogos que utilizam termos filosóficos de modo abusivo, mostrando que este modo de agir "não ajuda na busca da verdade e não educa a razão"(n. 86).

Hoje, há teólogos que não só abusam de termos filosóficos, mas ainda utilizam terminologias de sistemas filosóficos condenados. Ora, a aceitação de uma terminologia permite que pouco a pouco se insinue, numa filosofia correta, um idéia falsa. Um "ecleticismo terminológico" se constitui, na realidade, numa aceitação dissimulada de uma falsa filosofia.

Cremos também que o ecleticismo teológico é ainda mais condenável do que o filosófico.

E o que seria esse ecleticismo teológico senão "a atitude de quem, na investigação, no ensino e na argumentação, inclusive teológica, costuma adotar idéias derivadas de diferentes" religiões e de teologias confessionais diversas, sem levar em conta sua coerência e suas contradições com a Fé católica?

O ecleticismo que João Paulo II condena na filosofia, é o que na teologia se chama hoje de ecumenismo.

II Historicismo

Mostra o Papa que "a tese fundamental do Historicismo consiste em estabelecer a verdade de uma filosofia sobre a base de sua adequação a um determinado período e a um determinado objetivo histórico. Deste modo, se nega a validade perene da verdade. O que era verdade numa época, sustenta o historicista, pode não sê-lo mais já em outra". (n. 87).

Esse suposto caráter evolutivo da verdade — o que seria verdade num tempo, já não o seria mais hoje — é um erro muito difundido em nossa época, mesmo no clero.

Com efeito, é muito comum encontrar sacerdotes que recusam os documentos de Pio IX , de São Pio X, e de todos os Papas anteriores ao Vaticano II, dizendo que o que eles ensinaram, aprovaram ou condenaram, já não vale mais para os nossos dias. Para hoje, só valeria o que foi determinado pelo Vaticano II.

Essa posição claramente historicista incide na condenação de João Paulo II na Fides et Ratio.

E, ademais, se vale para hoje apenas o que é ensinado hoje, por que continuaria a valer aquilo que o Concílio Vaticano II determinou há mais de trinta anos?

III Cientificismo

O papa aponta como um perigoso erro filosófico atual o cientificismo, que "não admite como válidas outras formas de conhecimento que não sejam as próprias das ciências positivas, relegando ao âmbito da mera imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e estético"(n. 88).

Mostra o Papa que esse cientificismo de sentido positivista caba por negar todo valor à metafísica. Valeriam apenas os fatos. Daí o domínio da técnica, com recusa a qualquer outro valor que não seja o útil e o prático.

Afirma então o Papa:

"Deve-se constatar lamentavelmente que o relativo à questão sobre o sentido da vida é considerado como algo que pertence ao campo do irracional ou do imaginário " (idem).

Conseqüência moral condenável desse cientificismo é que se admita "a idéia segundo a qual o que é tecnicamente realizável, chega a ser, por isso, moralmente admissível".

IV Pragmatismo

O pragmatismo é conceituado por João Paulo II como "a atitude mental própria de quem, ao fazer suas opções, exclui o recurso a reflexões teoréticas ou a valorizações baseadas em princípios éticos" ( n. 89).

O Papa afirma que esse pragmatismo deu base "a um conceito de democracia que não contempla a referência a fundamentos de ordem axiológica e, portanto, imutáveis. A admissibilidade ou não de um determinado comportamento se decide com o voto da maioria parlamentar"( idem).

Esse relativismo moral é próprio do liberalismo, para o qual a verdade e o certo dependem da opinião da maioria. É com base nisso que hoje se quer aprovar o aborto ou o "casamento" homossexual, como se não existisse uma lei natural imutável.

O pragmatismo leva a negar a existência de qualquer valor objetivo. Portanto, leva o homem a perder o sentido da vida e o significado da dor e da morte. Em suas últimas conseqüências, esse relativismo pragmático conduz ao desespero e ao nihilismo.

V Nihilismo

O Sumo Pontífice mostra então que todos esses erros levaram a humanidade a adotar filosofias que recusam o ser, ao nihilismo.

"Refiro-me à postura nihilista, que rechaça todo fundamento ao mesmo tempo que nega toda verdade objetiva. O Nihilismo, mesmo antes de estar em contraste com as exigências e os conteúdos da palavra de Deus, nega a humanidade do homem e sua própria identidade" (n. 90).

A negação do ser, da verdade objetiva e do bem levam a perder a noção da dignidade do homem. Essa recusa metafísica, dizemos nós, conduz diretamente à gnose, e, consequentemente, ao satanismo.

É esse conjunto de erros metafísicos e religiosos que fez o homem do século XX perder todas as certezas e a "viver numa perspectiva de carência total de sentido, caracterizada pelo provisório e pelo fugaz" (n. 91).

O nihilismo atual demonstra o fracasso da utopia prometida pelas filosofias e ideologias racionalistas, como o marxismo, levando o homem ao desespero ou à busca de soluções milenaristas no esoterismo e na magia.

* * *

Estes são os principais erros apontados pelo Papa João Paulo II em sua última encíclica Fides et Ratio.

Quais serão os frutos desses ensinamentos do Papa? Se os Bispos de todo o mundo aceitassem a doutrina de que há uma verdade objetiva, e que, portanto , há valores imutáveis, o subjetivismo que está na raiz do mundo moderno poderia estar destruído. Com ele, pereceria aquilo que se chama o mundo e a civilização moderna com os quais a Igreja não pode ter conciliação, como determinou o ensinamento de Pio IX no Syllabus .

Tememos, porém, que se diga que este é um ensinamento de outros tempos. Um ensinamento anterior ao Vaticano II...


    Para citar este texto:
"Fides et Ratio"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/fides/
Online, 27/05/2017 às 03:10:28h