Igreja

Comentário do livro "Encontro" de Pe. Inácio Larrañaga, fundador da "Oficina de Oração e Vida"
Orlando Fedeli

Nota: Alguns membros da Oficina de Oração e Vida reclamaram de nossas críticas à algumas idéias expressas pelo Pe. Inácio Larrañaga sem termos lido suas obras. Atendemos seu pedido, lendo uma primeira obra desse sacerdote. Ela só veio confirmar o juízo negativo que fizeramos das idéias místicas e anti intelectuais desse autor. Apresentamos, por ora, um comentário do livro Encontro de Pe. Larrañaga. Logo mais examinaremos outras obras dele. Mantemos nossa posição de que, se erramos em algo, retrataremos nosso julgamento. Mas se encontramos nas obras dele confirmação de nosso parecer inicial, nós o reafirmaremos, com o intuito de buscar apenas a verdade.



     O primeiro encontro desta história foi com um rapaz que me visitou pedindo-me conselho. Ele estava em crise, e trazia na mão um livrinho. Quando ele deu-me para examiná-lo, entreabri umas páginas e logo vi que se tratava de um desses livros comuns em livrarias católicas, com orações açucaradas para o gosto de pessoas que passam por uma “temporada de devoção”.
     Peguei o livreco e disse ao rapaz que não lho devolveria, pois ele lhe faria mal. Joguei o livro num canto. E lá ficou ele, esquecido por mim, que nem o nome de seu autor havia lido.
     Ora, algumas semanas antes, respondera eu uma carta de uma consulente que pedia opinião sobre a intelecção na oração. Respondi que isso cheirava a modernismo que foi uma heresia eminentemente anti intelectual.
     Isso me valeu o recebimento de uma carta ameaçadora de uma consulente chamada Dona Margarita, mexicana, que se apresentava como dirigente do movimento Oficinas de Oração e Vida, cujo fundador era Frei Inácio Larrañaga, do qual eu nunca ouvira falar. Dona Margarita protestava contra minha acusação de modernismo ao autor dos ditos conselhos e orações, e me informava que esse movimento era apoiado e aprovado pelo Vaticano. Mais: ela ameaçava me denunciar à Santa Sé por minhas acusações ao livro do, para mim ignorado, Padre Larrañaga.
     Respondi a ela dizendo-lhe que teria gosto em rever minha posição, caso, lendo os livros desse padre, constatasse que eu errara. Acrescentava que estranhava que ela, em vez de me refutar, já me ameaçasse com denúncias ao Vaticano, onde ela dizia ter amizades e influências, pois nunca pensei que as autoridades maiores da Igreja se movessem por amizades, mas apenas por zelo pela Fé e pela obediência aos mandamentos.
     Na manhã seguinte, logo ao despertar, vi o livrinho que esquecera num canto, jogado ao chão. Recolhi-o e o abri a esmo. Cai na página 124, onde encontrei o seguinte:

A oração é relação com Deus. Relação é movimento das energias mentais, um movimento de adesão a Deus. Por isso é normal que se produza emoção ou entusiasmo na alma. Mas, cuidado! É imprescindível que esse estado emotivo seja controlado pelo sossego e pela serenidade”.
 
     Fiquei estupefato.
     Que a oração é uma relação com Deus é certíssimo. Que relação seja “um movimento das energias mentais” é uma bobagem que cheira a esoterismo de seitas teosóficas, ou a misticismo oriental de baixo quilate, em moda no Ocidente decadente.
     Fui ver na capa do livrinho quem era o autor de tal disparate místico. E aí se deu o encontro: o autor era o Padre Inácio Larrañaga. O mesmo que Dona Margarita me informara ter obtido as aprovações das autoridades vaticanas.
     Era de cair de costas!
     Li o livrinho todo, chamado exatamente "Encontro". Não tanto para atender Dona Margarita – embora, claro, quisesse bem atendê-la – mas muito mais por querer saber se, de fato, tal autor mantinha essa orientação absurda. Onde já se viu definir relação como “movimento das energias mentais” !
     Era uma nova metafísica que nascia daquele manual de orações.
     O livrinho tinha duas partes. A primeira era constituída por orações e canções de Padre Larrañaga. Era mesmo um livreco para emocionar pessoas perturbadas, em fase de devoção temporária...
     A segunda parte começava à página 119, e dava a exposição de alguns “Exercícios Prévios”para orar”.
     Claro que a segunda parte — a teórica — era mais importante do que as orações adocicadas compostas por Frei Larrañaga. Ele até que escreve bem... Portanto, se ele erra tão clamorosamente ao definir o que é relação, não é por não saber se exprimir.
     Vamos então à análise dessa segunda parte do Encontro. Que foi mais um choque — uma trombada — do que um encontro.  
Padre Larrañaga: para bem orar, relaxar
 
     Estranho conselho encontrei já na primeira página dessa segunda parte do Encontro de Padre Larrañaga: ele afirma que se a pessoa não fizer um relaxamento prévio antes da oração, vai perder tempo.
 
Se nesse momento, não lançares mão de algum exercício de relaxamento, não só vais perder tempo o tempo, mas o momento vai ser pesado e contraproducente” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 119).
 
     Como Jesus não deu esse conselho no Evangelho? Certamente, Cristo não teve ocasião de ler o livro de Padre Larrañaga, pois que não nos mandou fazer um relaxamento. Pelo contrário, mandou-nos carregar a cruz. Que é o contrário do relaxamento. E lá vai Padre Larrañaga dirigindo seus leitores para o relaxamento místico:
 
Sempre que te puseres a rezar, toma uma posição corporal correta – cabeça e tronco erguidos. Garante uma boa respiração. Relaxa tensões e nervos, solta lembranças e imagens, faze vazio e silêncio” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 119-120).

     Curioso é que na parábola do fariseu e do publicano que foram ao templo rezar, Cristo louvou a posição do publicano e criticou a do fariseu. Ora está dito no Evangelho que o fariseu rezava de pé, enquanto o publicano — louvado por Cristo — não estava nada relaxado: 

não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo 'meu Deus tem piedade de mim pecador'" (São Lucas, XVIII, 13). 

     E o publicano saiu perdoado sem ter feito “relax”...
     Padre Larrañaga recomenda dois tipos de relaxamento: o corporal e o mental.
     Para o relaxamento corporal diz ele que se deve “soltar os braços e as pernas (como que estirando, apertando e soltando músculos) sentindo como se liberam as energias” (Op. cit., p. 120).
     Isso é o que se chama espreguiçar-se. E o preguiçoso solta tanto as suas poucas energias que não tem vontade de fazer mais nada.
     Melhor é o método antigo: para rezar, coloque-se joelhos, no duro chão, abaixe a cabeça e faça o sinal da Cruz. Sem nenhum relaxamento, mas sinceramente arrependido e humilhado.
     Padre Larrañaga recomenda que se soltem braços e pernas – como se fôssemos bonecos desmontáveis — e também que soltemos os ombros, os músculos faciais, e isso “durante uns dez minutos”.
     Dez minutos fazendo esses exercícios tolos.
     Era melhor ter começado a rezar um terço.
     O relaxamento mental aconselhado por Padre Larrañaga, aprovado vá lá se saber por qual Monsenhor, no Vaticano, é muito parecido com a Yoga e a meditação budista. Que nada têm de católico...

Relaxamento mental. Muito tranqüilo e concentrado, começa a repetir a palavra “paz” em voz suave — (possivelmente na fase expiratória da respiração) -- sentindo como a sensação calmante da paz vai inundando primeiro o cérebro (sentir durante alguns minutos como se solta o cérebro); e depois percorre ordenadamente todo o organismo, enquanto vais pronunciando a palavra “paz” e vais inundando tudo de uma sensação deliciosa e profunda de paz” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 119-120).
 
     Isso é Yoga. Isso é magia e é mentira.
     A palavra “paz” é apenas um som que não tem poder de causar os efeitos que Padre Larrañaga lhe atribui bem falsamente. A simples palavra “paz” não age ex opere operato, como se fosse um sacramento. Repeti-la, simplesmente, não causa o que ela significa.
     Esse Padre atribui à palavra um efeito mágico. Isso é falso. Isso engana os fiéis católicos ignorantes que, como disse, passam por uma “fase devocional” puramente emotiva. Por isso é que Padre Larrañaga fala tanto em sentir e em sensação.
     Se bastasse pronunciar – “suavemente” -- a palavra “paz” para tê-la, o mundo facilmente não teria mais guerras. Isso é pura ilusão. Essa não é paz de Cristo, mas a de Buda. Como autoridades vaticanas aprovaram esse método budista de orar para católicos? Que Monsenhor de plantão deu aval para esse misticismo mágico?
     O fato desse método ser budista fica evidenciado pelas palavras de Padre Larrañaga escritas em seguida:

“Depois, faze esse mesmo exercício e da mesma maneira com a palavra “nada”, sentindo a palavra do vazio-nada, começando pelo cérebro e seguindo por todo o organismo até ter uma sensação geral de descanso e silêncio.”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 120-121).

     Isso é budismo mesmo!
     E pretendendo atingir o vazio-nada, isto é o Nirvana budista. Com isso só se pode cair no abismo do pai da mentira. Pois o Vazio-Nada, metafisicamente, é o Não-Ser, aquilo que o demônio quer alcançar e quer que se pretenda atingir na Gnose, isto é a negação do Ser, a negação de Deus.
     Padre Larrañaga faz questão de frisar que, quando se faz preparação para rezar, não se deve pensar:

Concentração:c om tranqüilidade,percebe (Simplesmente sentir e continuar sem pensar nada) o movimento pulmonar, muito concentrado. Uns cinco minutos).
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p.121. O destaque é nosso).

     A pessoa que faz isso olha mais para o relógio do que para Deus,e sobretudo, deve abolir seu pensamento, sua racionalidade, para ficar reduzido a robô, ou à animalidade.
     E lá vai Padre Larrañaga, ensinando os devotos católicos como devem aceitar os métodos budistas de oração, sentindo os batimentos cardíacos, e controlando a respiração tal como está nas receitas de Yoga:

“A respiração mais relaxante é a abdominal; enche-se os pulmões ao mesmo tempo em que se enche (inchando) o abdome; esvaziam-se os pulmões e ao mesmo tempo se esvazia (desinchando) o abdome. Tudo simultaneamente. Não forçar nada: no princípio, umas dez respirações. Com o tempo podem ir aumentando”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 121-122).
     A seguir, Padre Larrañaga dá Orientações Práticas.
     E começa dizendo logo uma semi verdade ... que é uma mentira inteira:

“A fé não é sentir, mas saber”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 123).

     Embora ele lembre, graças a Deus, que “a fé não é sentir”, ele logo estraga o certo que disse, completando com outro erro: que a fé é “saber”.

     A Fé não é saber. A Fé é crer no que Deus revelou e que a Igreja Católica ensina. E embora Padre Larrañaga tivesse acertado ao lembrar que a Fé não é sentir, ele passa todo o tempo acentuando o sentir, e mandando até que se sinta a sensação.
     Padre Larrañaga insiste até que “na oração, não há lógica humana”  (Encontro, p, 123).
     Há lógica, sim, Padre. Na oração católica há lógica, sim, Padre.
     Veja o Pai Nosso e a Ave Maria.
     Onde não entra a lógica, é na oração budista que é uma forma de Gnose. Não há lógica em pronunciar — suavemente – a palavra “paz” ou a expressão vazio-nada e esperar que isso traga a verdadeira paz, a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E a Gnose sempre odiou a lógica e o pensamento humanos.
     E veja-se que Orientação Prática absurda recomenda esse padre de obra aprovada, infelizmente, por algum Monsenhor, no Vaticano:

“Não pretendas mudar de vida, basta melhorar. Não procures ser humilde, basta fazer atos de humildade. Não pretendas ser virtuoso, basta fazer atos de virtude. Ser virtuoso significa agir como Jesus”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 125).

     Ora, o Evangelho diz o contrário do que recomenda Padre Larrañaga:
"Fazei, pois, dignos frutos de penitência” (São Mateus. III,8).

E o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse: 

“Se não fizerdes penitência, perecereis todos” (Luc XIII, 3) 

     E os Profetas repetiam; 

“Convertei-vos a Mim, diz o senhor dos exércitos, e Eu me voltarei para vós” (Zac. I, 3).

“Por isso o Senhor diz isto: “Se te converteres, Eu te converterei e estarás diante de minha face” (Jer. XV, 19).

Mas, contrariamente aos Evangelhos e aos Profetas que nos mandam que nos convertamos, Padre Larrañaga é mais “suave”, isto é, é mais relaxado pois nos dá a orientação de que não pretendamos “mudar de vida”, mas só ... "melhorar".
 
     No Item III, Padre Larrañaga elenca as Modalidades de oração. E me apresso a ressaltar que ele faz até um resumo do método de meditação inaciana (cfr p. 161 a 163).
     Entretanto, ele ensina também outras modalidades nada inacianas, mas pagãs de rezar, como, por exemplo, o que ele chama de Exercício auditivo (p. 130-131) e que são exercícios de prática mântrica.
     Padre Larrañaga recomenda que se escolha uma “expressão forte” como por exemplo, “Meu Deus e meu Tudo” ou “Jesus”, “Senhor”,”Pai”.

“Comece a pronunciá-la sossegada e concentradamente, com voz suave, a cad dez ou quinze segundos.
“Repetindo-a, procure assumir vivencialmente o conteúdo da palavra pronunciada. Tome consciência de que tal conteúdo é o próprio Senhor.
“Comece a perceber como a “presença” ou “Substânciaencerrada nessa expressão vai lenta e suavemente impregnado suas energias mentais(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 125. Os destaques são meus).

     Nesses parágrafos escritos por Padre Larrañaga se evidencia o conceito mágico, gnóstico-budista que esse Padre tem da oração. Uma palavra ou expressão qualquer que ela seja, não contém jamais a “Substância do que ela significa. Isso é magia. Isso é paganismo. Isso não é católico.
     Esse livro de Padre Larrañaga ensina budismo e um método de oração mágico-gnóstica para os seus pobres leitores. E se esses leitores são milhões, então milhões são os enganados.
     Outra modalidade mágica de oração recomendada por Padre Larrañaga é a que ele chama de Exercício visual (Encontro, p.132).
Nessa modalidade, Padre Larrañaga pretende que seja possível captar intuitivamente as impressões causadas por uma gravura ou imagem.

Arranje uma estampa expressiva de Jesus, de Maria, ou com outro tem. Uma estampa que exprima expressões fortes, como paz, mansidão. Fortaleza(...)
“Segure a estampa nas mãos e, depois de conseguir sossego e ter invocado o Espírito Santo, fique quieto, só olhando a estampa, em sua globalidade, em seus detalhes.
“Em segundo lugar, procure captar como que intuitivamente, com concentração e serenidade, as impressões que essa imagem evoca em você. Que lhe diz essa figura.
“Em terceiro lugar, com a maior tranqüilidade, translade-se para essa imagem, coloque-se dentro dela. E, reverente e quieto, faça ”suas” as impressões que a figura despertar em você. Identificando-se assim mentalmente com a figura, permaneça um bom tempo, com a alma toda impregnada pelos sentimentos de Jesus expressos na estampa. Assim, a sua alma reveste-se da figura de Jesus e participa de sua disposição interior” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 132. O destaque é nosso).
 
     Esse método do Padre Larrañaga é puramente imaginativo. Colocar-se dentro da imagem, identificar-se com a figura impressa pode levar facilmente à loucura. Foi empregando método semelhante que Joaquim, fitando uma estampa de Napoleão e colocando a mão ao peito, acabou no hospício, julgando-se o Imperador dos franceses.
     A segui , Padre Larrañaga sugere fazer o que ele chama de Oração de abandono (op. cit. p. 133). Nela, a pessoa deve deixar de pensar...

Como disposição incondicional, você deve reduzir ao silêncio a mente que tende a rebelar-se O abandono é uma homenagem de silêncio na Fé”. (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 133). 

     Como se a fé, em vez de ser “obséquio razoável”, fosse uma renúncia ao pensar.
     Daí, a pessoa deveria renunciar a muita coisa:

Recuse depositando, pois, em silêncio e paz, com uma fórmula, tudo aquilo que o desgosta: seus progenitores (sic!), aspectos de sua figura física, as enfermidades, a velhice, as impotências e limitações, os traços negativos de sua personalidade, pessoas próximas que o desagradam, histórias doentias, memórias dolorosas, fracassos, equívocos” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, pp. 133-134. O destaque é nosso).

     Mas essa é uma oração seitcho-no-ye !
     É uma oração do “pensamento positivo”.
     Imagine: renunciar aos pais porque eles nos desagradam!
     Será que isso está de acordo com o quarto mandamento da lei de Deus?
     Renunciar à velhice, às limitações, às próprias misérias... Isso é fomentar o orgulho. É recusar a cruz que Nosso Senhor nos dá.
Daí, Padre Larrañaga passa para o Exercício de acolhida (p. 134)
     E logo de início ele recomenda uma atitude que cheira a esquizofrenia:

“Como no exercício anterior o “eu” sai e se fixa no “Tu”, neste exercício de acolhida eu permaneço quieto e receptivo, o “Tu” vem até mim e eu o acolho feliz com a sua chegada. É bom fazer esse exercício com Jesus ressuscitado”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 134. O destaque é nosso).

     O que Padre Larrañaga propõe é que a pessoa se identifique com Deus. Como Joaquim se identificou com Napoleão. E prossegue o padre responsável pelo Encontro:

“Usamos o verbo “sentir”. Sentir não no sentido de emocionar-se, mas no de perceber.(...) “Deixe que o espírito de Jesus entre e inunde todo o seu ser. Sinta a presença de ressuscitada de Jesus chegando até os últimos recantos de sua alma”.
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 134-135).

E depois de falar do sentir a presença de Jesus ressuscitado, Padre Larrañaga adverte que “é preciso tomar consciência de que essas sensações geralmente são sentidas na boca do estômago como espadas que perfuram” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 135).

Na Oração de elevação (p.137), de novo se destaca a anulação do intelecto, e idéia de que o eu deve se identificar com o “TU” divino:

Neste exercício, pronuncia-se mentalmente ou em voz suave alguma expressão (que vou indicar depois).
“Apoiando-se na frase, o eu dirige-se ao TU. Assumindo e vivenciando o significado da frase, ela vai tomando conta de sua atenção, transporta-a e a deposita em um TU, portanto um movimento de saída. Assim todo o eu fica em todo TU. Nós agora estamos em adoração. Não deve haver nenhuma atividade analítica” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 137).

     Parece então que o exercício proposto começa com algo intelectivo, pois se diz que se deva assumir e vivenciar o significado da frase, mas, no final, se afirma que não deve haver nenhuma atividade analítica, isto é lógico-racional. O que é reforçado pouco depois, quando Padre Larrañaga escreve:

Por exemplo, se você disser: “Tu és a Eternidade Imutável” não precisa preocupar-se em entender ou analisar como e por que Deus é eterno. Basta olhá-lo e admirá-lo estaticamente como eterno” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 137).

     Que a tal oração tenha algo de mágico se depreende do que diz Padre Larrañaga em seguida em que o vivenciar é entendido não como compreender, mas como assumir algo substancial e muito misteriosamente a essência do Tu divino:

“Comece a pronunciar as frases em voz suave. Trata-se de viver o que a frase diz, até sua alma ficar impregnada com a substância da frase(...) que é o próprio Deus”.
“Nesse exercício, você tem que se deixar arrebatar pelo TU. O “eu” praticamente desaparece enquanto o TU domina toda o campo” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 138. O destaque é meu).

     Tal método mais parece um exercício de meditação panteísta de um ashram bramânico, do que um modo de rezar católico.
     Com tais idéias pseudo místicas de sabor panteísta não há então como ficar surpreso que Padre Larrañaga fale em Oração cósmica (p. 154 a 156). Padre Larrañaga recomenda que se faça essa oração diante de uma bela paisagem, e que se comece recitando o salmo 103 que louva Deus como autor de todas as coisas do mundo. “Para cada criatura contemplada e admirada dizer: “Deus meu, que grande és”!. O que é correto pensar e dizer.
     
     Mas, logo depois de escrever essa verdade, Padre Larrañaga já escorrega apara o abismo panteísta dizendo:

Escutar, absorver e submergir-se na harmonia da criação inteira” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 155).

     E lá vai Padre Larrañaga fazendo o incauto leitor mergulhar no dialético abismo do Tudo-Nada-Vazio:
 
Provocar em mim, uma sensação de fraternidade universal; sentir, em Deus, a cada criatura como irmã; sentir que, em Deus sou uma unidade com tudo o que vêem meus olhos; submergir-me vitalmente na grande família da criação, sentir-me participando gozosamente na palpitação de todas as criaturas, sentindo a ventura de viver que, sem consciência disto, experimentam todas elas, como nadando eu no mar da vida universal e vibrando com a ternura do mundo” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 155. Os destaques são nossos).

     Será preciso dizer como esse parágrafo é romântico em seu sentimentalismo, em sua tentativa de mergulho na paisagem — na natureza – que será, no fundo e no final, uma tentativa de mergulhar na divindade? Como na Gnose romântica, Padre Larrañaga procura identificar o EU, Deus e o Mundo:
 
                                             EU =Tu (Deus) = MUNDO.
     
     E essa é a fórmula da Gnose romântica que leva diretamente ao Modernismo.
     A essa Gnose sentimental naturalista não poderia faltar a preocupação ecológica em moda. Daí padre Larrañaga escrever:

Pedir-lhes – (as criaturas existentes na paisagem contemplada) – perdão pelo avassalamento (sic!!!) a que são submetidas por parte do homem, por tantos atropelos e crueldades que cometem contra elas. Sentir a expressar gratidão por tantos benefícios que as criaturas aportam para a felicidade do homem”. (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 155. Os destaques são meus).
 
     Padre Larrañaga, na ânsia de seguir a moda do pedir perdão do que não se fez, diz que se deve pedir perdão pelo avassalamento a que o homem reduziu as criaturas submetendo-as a seu poder.
     Ora, quem mandou o homem submeter as criaturas a seu domínio foi o próprio Deus ao mandar a Adão: 

“Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. E Deus disse: Eis que Eu vos dou todas as ervas, que dão semente do seu Gênero para que vos sirvam de alimento, e a todos os animais da terra, e a todas as aves do céu, e a tudo o que se move sobre a terra, e em que há alma vivente, para que tenham que comer. E assim se fez” (Gen. I 30).

     E assim se fez porque Padre Larrañaga não estava lá para convencer Adão a entrar para as Oficinas de Oração e Vida. Porque, se Adão entrasse para tais oficinas, teria morrido de fome.
     Foi Deus quem mandou o homem dominar, sujeitar todas as criaturas para usá-las e até comê-las, sem agradecer o boi pelo bife que lhe vai fornecer, e sem lhe pedir perdão por escorchar seu couro para fazer seus sapatos.
     A oração cósmico-ecológica de Padre Larrañaga é um absurdo. E ele não a cumpre, pois certamente ele come boa picanha e usa sapatos de couro. Sem nem agradecer o boi que lhe forneceu bife e couro. E sem pedir perdão ao boi.
     Denuncie-me às autoridades vaticanas, cara Dona Margarita, por comer bifes e cebolas. Sem agradecer nem ao boi e nem às cebolas.
     Ridículo...
     E Padre Inácio Larrañaga vai adiante em sua oração cósmica sugerindo que se dialogue com uma flor, com uma árvore, ou mesmo com uma pedra!
     Pensam que estou inventando essa loucura. Não inventei nada. Está tudo lá no tal Encontro.
     Os caros leitores do site Montfort poderão encontrar esses disparates na página 156 do livro de Padre Larrañaga, onde se lêem estas preciosidades:
 
“Estabelecer um íntimo diálogo com uma criatura concreta: uma flor, uma árvore, uma pedra, a água de um riacho. Fazer-lhe perguntas sobre sua origem, sua história, sua saúde, escutando-lhe atentamente. Em uma íntima comunidade, contar-lhe a própria história. Admirar e dar-lhe graças por sal galhardia, perfume, contribuição para a harmonia do mundo. Entrar em clima fraterno com essa criatura”
(Padre Inácio Larrañaga, Encontro, Loyola, São Paulo, 1985, p. 156).
 
     Agora fica bem claro porque Padre Larrañaga não quer que se pense.
     Só a abolição do intelecto, a recusa ao bom senso, pode fazer uma pessoa praticar esse tipo de oração cósmica ecológica.
     É uma oração de hospício.
     Imagine-se uma pessoa dialogando com uma flor ou com uma pedra.
 
“Como vai Dona Flor?
“Como tem passado Dona Pedra?
“Ah! tiveram dissabores?
“Mas que pena!
“Uma vaca quis mastigá-la, Dona Flor? Mas que horror!
“Seria bom que ensinassem essa vaca a dialogar com as flores, em vez de tratá-las como vassalas e sujeitá-las, mastigando-as e ruminando-as. Isso é um crime ecológico que precisa ser denunciado às autoridades defensoras dos direitos dos animais.
“Que falta fazem as Oficinas de Oração e Vida para as criaturas do mundo!
“Todos deviam fazer oração cósmica! Principalmente os homens, claro!
“Porque os homens são os piores inimigos da natureza. Eles imaginam que Deus lhes deu o poder de avassalar e sujeitar as criaturas criadas por Ele. Padre Larrañaga ensina o contrário do que diz a Bíblia desse Deus cruel e dominador.
“Padre Larrañaga ensina que eu sou TU. Portanto que eu sou Deus. Que você também, dona Flor, você também é Deus. Tudo é Deus no abismo do nada-vazio.
Ninguém pode comer ninguém. Abaixo a comida!
Viva o Nada-Vazio!”.
 
     E desconfio que esse misterioso Nada-Vazio seja o estômago de quem leva a sério as orações e métodos de oração de Padre Larrañaga.
     Ou a cabeça de quem, tendo soltado o cérebro e tendo deixado de pensar, acreditou nos métodos míticos de Padre Larrañaga.
 


     Claro que alguns considerarão exagerada minha acusação de Gnose ou Panteísmo à mística preconizada por Padre Larrañaga nesse pequeno e bem desastrado livro.
     Para esses – e para que me denunciem às autoridades influentes e amigas de Dona Margarita – cito uma frase bem reveladora da Gnose de Padre Larrañaga.
Ela está na oração intitulada Presença escondida (p. 27). Nessa oração, Padre Larrañaga falando de Deus diz:
 
És o Mais Além e o Mais Aquém de tudo. Estás substancialmente presente em todo o meu ser” (Padre Inácio Larrañaga, Encontro, oração Presença escondida, editora Loyola, São Paulo, 1985, p. 156).
 
     Se Deus estivesse substancialmente presente em todo o meu ser, eu seria Deus.
     Deus está substancialmente presente no sacramento da Eucaristia.
     Não no homem. Nunca no homem.
     É com livrinhos envenenados, como o livro Encontro, que muitos são levados a um misticismo delirante.
     Mas alguns, mais capazes, são levados aos mistérios esotéricos e à Gnose.  
     Seria muito bom denunciar o livro Encontro de Padre Inácio Larrañaga às autoridades máximas da Igreja.
 
São Paulo, 6 de Março de 2.006
Orlando Fedeli.

PS. Lerei, logo mais, outros livros de Padre Larrañaga, dos quais farei análise, para atender, em primeiro lugar a Dona Margarita, e, depois também, para informar e prevenir nossos leitores. OF
 

    Para citar este texto:
"Comentário do livro "Encontro" de Pe. Inácio Larrañaga, fundador da "Oficina de Oração e Vida""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/encontro/
Online, 25/03/2017 às 08:44:38h