Igreja

No caminho de Emaús
Orlando Fedeli


Eram já passados três dias desde que Cristo fora morto pelos judeus. Dois discípulos do Crucificado iam tristes pelo caminho que leva de Jerusalém até a aldeia de Emaús. O evangelista São Lucas narra que eles haviam saído de Jerusalém de dia e que a aldeia de Emaús distava sessenta estádios da cidade de Daví. Iam amargurados pela morte do Mestre, tão poderoso em obras que eles o julgaram o Salvador de Israel. Mas Ele morrera de morte ignominiosa. Não compreendiam sua morte mas não podiam negar seus milagres. Sabiam até que algumas mulheres, naquele mesmo primeiro dia da semana, tinham ido ao sepulcro e o haviam encontrado vazio. Sabiam também que uma delas dissera ter visto o Senhor vivo e que alguns apóstolos asseveravam o mesmo. Mas... eles estavam abalados, e sua perturbação lhes tirara a paz. Por isso saíam eles de Jerusalém. Sair de Jerusalém, a cidade da paz, significa extamente isto: abandonar o local onde reside a paz.

Iam eles para Emaús, palavra que significa desejo de conselho. E bem faziam eles , pois quem perdeu a paz, deve buscar conselho.

Com efeito, o Evangelho não diz que eles iam desesperados e sem fé. Conta apenas que eles caminhavam tristes e de dia. Se tivessem perdido a fé , marchariam nas trevas. Se tivessem desesperado, não buscariam conselho. Iam de dia , isto é, na luz de Deus, a caminho da cidade do conselho.

Para atingir Emaús deveriam caminhar sessenta estádios. Por que frisa o evangelista este pormenor? Porque, tendo Deus tudo feito "em medida, número e peso" (Sab XI, 22), os Evangelhos nos dão muitos informes numéricos para que entendamos , através dos símbolos dos números, alguma verdade. No caso, o número seis é o primeiro número perfeito nas partes, visto que seus componentes somados ou multiplicados entre si dão sempre seis : 1+2+3 = 6; 1 x 2 x 3 = 6. E Deus , ao criar o mundo em seis dias, afirmou que cada parte criada era boa. Por outro lado, 10 é o numero dos mandamentos de Deus. Se o Evangelho de São Lucas faz questão de mencionar que Emaús distava 60 estádios de Jerusalém é , talvez, para nos dizer que os discípulos que haviam perdido a paz buscavam conselho fazendo tudo o que a lei de Deus impunha com perfeição em todas as coisas que faziam.

Comentando esse episódio, São Tomás nota que os dois discípulos iam juntos, falando um com o outro, e conversando sobre a Paixão de Cristo.

Iam juntos porque diz a Escritura : "Maldito seja aquele que está só" . Não sem motivo: quando estamos sós é mais fácil advir a tentação, especialmente se estamos perturbados, como era o caso dos dois discípulos. Iam pois juntos, para protegerem-se mutuamente da tentação. Além disso iam conversando, para se darem ajuda um ao outro, pois quem está claudicando deve buscar apoio para não cair. Falavam sobre a Paixão, buscando compreender o que ela significava e como se harmonizava com tudo o que o Divino mestre ensinara e com os milagres que praticara. Iam pelo caminho, em busca de conselho, ajudando-se caridosamente, meditando e conversando piedosamente para vencer a perturbação em que se achavam.

Iam juntos pelo caminho aqueles dois discípulos de Cristo, falando de Cristo e esperando nEle. Estavam unidos em seu nome . Por isso, "aproximou-se deles o próprio Jesus e ia com eles"(S.Luc. XXIV, 15) Porque Ele havia prometido : "Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu Nome , Eu estarei no meio deles"(S.Mat., XVIII, 20).

Cristo estava com eles, era dia e eles não o reconheceram , porque "os seus olhos estavam como que fechados"(S.Luc.XXIV,16). Era dia claro, eles olhavam a "Luz que ilumina todo homem que vem a este mundo"( S.Jo. I, 9), mas não viam . Não viam o Mestre ressuscitado que eles buscavam. Explica o evangelista que seus olhos estavam "como que " fechados. Não diz que estavam fechados. Não diz que estavam propositadamente cerrados, como aconteceu com os fariseus que foram " cegos ao meio dia", ( Is. LIX,10 ) .

Cristo perguntou então aos dois discípulos que conversas tinham pelo caminho e por que estavam tristes. Ao que um deles, de nome Cléofas, respondeu surpreso : "Só tu és forasteiro em Jerusalém, e não sabes o que alí tem se passado estes dias ? "(S.Luc. XXIV,18).

De fato, só Cristo foi tido como estrangeiro em Jerusalém. "Ele veio para o que era seu e os seus não o receberam" (S.Jo., I,11) . E Ele foi morto fora da cidade , como o animal expiatório era morto fora do acampamento (cfr. ) . E os dois disseram então que vinham conversando "sobre Jesus, Nazareno, que foi um varão profeta, poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo"(S.Luc. XXIV.19). E (contrariamente ao que ensinou depois , na noite do século XX, o Vaticano II), eles continuaram acusando os magistrados do povo judeu de terem entregue a Jesus , para ser condenado à morte : "E o crucificaram" (S.Luc.XXIV,20).

A seguir , expuseram eles a Jesus - a quem não haviam ainda reconhecido - sua decepção : ' "Nós esperávamos que ele fosse o que havia de resgatar Israel..." e é já o terceiro dia ... "

Lembram então que , na verdade, algumas mulheres afirmaram ter visto um anjo que lhes dissera que o Senhor estava vivo , o que os espantara... E mesmo que alguns dos Apóstolos tinham ido ao sepulcro, encontrando-o vazio... Mas...

Ao ouvir estas palavras, Jesus exclamou , repreendendo-os como "estultos e tardos de coração". Estultos, por não compreender o que haviam dito os Profetas e se realizara em Cristo. Eles haviam lido, relido e meditado as Escrituras . Haviam presenciado o que as profecias anunciaram. Haviam escutado falar a Sabedoria. Tinham se maravilhado com as suas maravilhas e com os seus milagres. Tinham visto o Verbo feito carne , cheio de graça e de verdade , ressuscitando os mortos, fazendo os cegos verem e os mudos falarem, calando os fariseus e fazendo cessar os ventos, e custavam a compreender. Estultos, por não entender. Tardos de coração, por custar a aceitar. De que adiantara ler as Escrituras , se não as entendiam, nem quando viam sua realização ? De que adianta , hoje, a outros estultos e soberbos lerem e citarem a Escritura interpretando-a a seu alvedrio, sem querer ouvir aquele que recebeu de Cristo as chaves do reino dos céus ? O que vale ler a Bíblia, se se recusa ouvir Pedro, pela boca de quem fala o próprio Cristo ?

Então o forasteiro lhes explicou como em Cristo se realizara tudo o que Moisés e os profetas haviam anunciado. E às suas palavras o coração deles se abrasava de amor e de entusiasmo. Mas ainda mantiveram os olhos "como que fechados".

Haviam já chegado perto de Emaús e o forasteiro, que batera à porta de seus corações, fez que prosseguia seu caminho. Eles então o convidaram a cear com eles: "Mane nobiscum". Fica conosco. E Ele entrou e ceou com eles . Porque, mais tarde , Ele dirá aos fiéis, em sua Revelação : "Eis que estou à porta de teu coração e bato. Se alguém ouvir a minha voz, e me abrir a porta, entrarei nele e cearei com ele e ele comigo. " ( Apoc.III,20).

Eles foram gratos para com aquele que lhes inflamara o coração; exerceram a caridade para com um forasteiro e sua caridade foi premiada.

Quando o forasteiro benzeu o pão e deu a eles, seus olhos se abriram e reconheceram a Cristo. E Jesus desapareceu. Quando tinham os olhos como que fechados , eles não o viram. Quando abriram os olhos , não o viram mais.

Cheios de alegria e plenos de paz, os discípulos de Emaús voltaram às pressas a Jerusalém, onde encontraram os Apóstolos jubilosos dizendo que o Senhor estava vivo. Narraram então o que lhes sucedera, "e como o tinham reconhecido ao partir do pão " (S. Luc. XXIV,35).

Pois o melhor modo de reconhecer Jesus é ouvir sua Palavra e assistir o "partir do pão", isto é, a Missa. A sagrada Missa de sempre.


    Para citar este texto:
"No caminho de Emaús"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/emaus/
Online, 23/04/2017 às 09:04:10h