Igreja

Sedevacantismo ou Eclesiovacantismo?
Carlos Caetano

 
Ultimamente, tenho acompanhado muitas discussões em blogs modernistas e tradicionalistas sobre o sedevacantismo, corrente de opinião delirantemente ultra-tradicionalista que afirma que a Igreja está acéfala porque os últimos cinco papas, incluindo o atual, caíram em heresia e perderam ipso facto o comando da Barca de Pedro (limito-me aqui a tratar do sedevacantismo mitigado – que apenas nega a existência de verdadeiro papa, ou melhor, afirma a existência de um antipapa no Vaticano – e não dos grupos mais radicais e extravagantes que já se apressaram em eleger outros “papas” pelo mundo).
 
Essa posição, de tão absurda e ousada, causa assombro e perplexidade, sobretudo porque proposta por indivíduos que tentam se passar por fiéis católicos e defensores da verdade. E, ademais, os poucos que no Brasil defendem esse extremismo são pessoas que se pretendem donas de indiscutíveis conhecimentos históricos e teológicos, normalmente adquiridos na internet. Com a erudição de quem “navegou" muito, apóiam-se em argumentos que, à primeira vista, podem enganar algum incauto.
 
Eles procuram justificar essa doutrina com três afirmações graves: 1º) é possível que um papa caia em heresia; 2º) é lícito resistir a um papa que ensine o erro; 3º) os últimos papas foram liberais e modernistas, por conta dos erros doutrinários do Concílio Vaticano II.
 
Daí excogitarem o silogismo seguinte: quem cai em heresia não é mais membro da Igreja; ora, os papas do pós-concílio caíram em heresia; logo, eles deixaram de ser membros da Igreja e, então, deixaram de ser papas.
 
A refutação é simples. Um padre que cai em heresia continua em seu cargo de pároco (por exemplo) enquanto o bispo não demiti-lo como herege. O mesmo acontece com o bispo que cai na heresia. Até que o papa o demita de seu cargo episcopal, ele continua gozando da plena autoridade de bispo em sua diocese. Ora, o papa é vigário de Cristo e não da Igreja. Logo, a Igreja não pode jamais depor um papa.
 
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Quanto às três afirmações que alicerçam a tese sedevacantista, caberia ainda alguns esclarecimentos.
  1. Que um papa possa se tornar herege é apenas uma hipótese teológica, defendida por uns, negada por outros. Logo, inadmissível fundar doutrina tão extravagante e de tão graves conseqüências com base em uma hipótese, questão aberta à discussão.
    Além disso, teria que ser uma heresia formal e não apenas material. Mas quem teria autoridade para declarar que tal ou qual heresia, no Papa, é formal? Ninguém, pois não há potestade na Terra que ouse intimar o papa a que renuncie, sob pena de excomunhão, ao seu ensinamento supostamente heterodoxo.
    Mesmo um simples católico, para ser declarado formalmente herege, precisa manifestar pertinácia no erro. Se um teólogo católico escreve um livro no qual defende heresias, ele é intimado por um superior (bispo ou papa) a renunciar àquelas idéias, publicamente, para não ser excomungado. Se ele se retrata, não se fala mais no assunto. Se se mantém irredutível, será excomungado. Ou pelo menos deveria sê-lo.
    Porém, tratando-se do papa, quem se atreveria a lhe exigir, de forma autoritativa, uma retratação pública? Um bispo? Um concílio? O colégio de cardeais que o elege? Não, porque o papa é superior ao bispo, ao concílio e aos cardeais.
    |Afirmar que um concílio possa julgar, condenar e demitir um papa é heresia conciliarista já condenada pela Igreja. Os cardeais são menos que o Concílio. Logo, os cardeais não podem depor um papa. 
    Se nem a Igreja, nem o concílio, nem os cardeais, nem os bispos podem depor um papa, conclui-se que tampouco poderão fazê-lo os teólogos da internet.
    Assim, o máximo que se admitiria aqui, por parte de bispos ou cardeais, seria a correção fraterna.
    Eureka! Dirá um sedevacantista exaltado. Os papas pós-conciliares já foram advertidos (p. ex., por D. Lefèbvre) sobre os erros do Vaticano II, que eles seguem, e isso não resolveu coisa alguma.
    Paciência! São Paulo advertiu publicamente a São Pedro porque este, só com o seu exemplo, obrigava os recém-conversos a judaizarem, o que contrariava as determinações doutrinárias do Concílio de Jerusalém e comprometia a pregação explícita do Apóstolo das Gentes (Gal., II, 11-14). As atitudes de São Pedro perante os judeus convertidos eram como que um magistério ordinário, muito sutil, do primeiro Papa, de que logo abusaram os judaizantes para desmerecer a pregação paulina. Neste caso, São Pedro anuiu humildemente a São Paulo e lhe deu razão.
    Eureka de novo! Repetirá o incansável sedevacantista. Está vendo? São Pedro era papa de verdade e por isso reconheceu o erro e voltou à sã doutrina, ou a sãos exemplos.
    Pergunto eu: e quem garante que o papa reinante não poderá um dia fazer o mesmo?
    Por outro lado, e se São Pedro ignorasse por algum tempo a admoestação de São Paulo e continuasse a se furtar às refeições gentílicas para não melindrar os judeus? Será que São Paulo viraria sedevacantista?
    Não acredito. Tratando-se de um verdadeiro apóstolo, consumado na fé e na caridade, continuaria sua carreira gloriosa, convertendo os pagãos e rezando por Pedro, seu superior, e pela Igreja, para que terminasse logo aquele escândalo.
    Exatamente como fazemos nós, que, sem ruptura com o Vigário de Cristo, também rejeitamos os erros conciliares. Reconhecendo sempre a autoridade do papa, seja ele qual for, confiamos e rezamos para que essa crise passe logo, como passaram todas.
     
  2. Que um papa possa ensinar o erro, admite-se, mas não de maneira dogmática, isto é, como Supremo Doutor que, ensinando a toda a Igreja, com o poder das chaves, define algo de fé ou moral e excomunga quem ouse defender a tese contrária.
    Algum dia João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II ou Bento XVI fizeram isso? Não. Jamais um papa, revestido das condições que lhe conferem o carisma da infalibilidade, definiu dogmaticamente que liberalismo, ecumenismo, liberdade religiosa, separação Igreja/estado etc., são doutrinas católicas que devem ser cridas por todos os fiéis.
    E nem seria possível que um papa fizesse isso, porque, do contrário, teria falhado a promessa de assistência feita por Nosso Senhor a São Pedro e aos seus sucessores.
    Muitos papas na história deram mau exemplo e disseram – não dogmaticamente – coisas erradas. Isso é um fato indiscutível, mas que não leva à conclusão sedevacantista, pois nem o mau exemplo nem o ensino explicitamente errado induzem automaticamente à perda de autoridade, direitos ou privilégios. Um pai que ensina algo errado ao filho ou que lhe ordena que cometa um pecado não perde a autoridade paterna, embora o filho tenha o direito, e até o dever, de recusar aquele ensino e resistir àquela ordem.
    Resumindo, neste ponto o sedevacantismo é ocioso, porque se pode resistir – ainda que com dor, mas sem ruptura com a autoridade suprema – a um magistério ordinário que se aparta da verdade já estabelecida pela Tradição ou pelo magistério anterior.
     
  3. O liberalismo e o modernismo, de fato, triunfaram no Vaticano II, levando a Igreja à maior crise de sua história. Nisso estão de acordo todos os tradicionalistas, sedevacantistas ou não. E seria doce ilusão negar que os papas, desde então, beberam dessas doutrinas perniciosas e se contaminaram com elas.
    Insisto, porém,  que nenhum papa definiu infalivelmente que as doutrinas liberais e modernistas são verdades católicas.
    Fonte e nutriz da crise, portanto, é o Concílio Vaticano II. Com isso concordam os sedevacantistas. A prova é que João Paulo I, que teve um pontificado tão curto que, mesmo que quisesse, nem teve tempo de ensinar heresia, também integra a lista dos não-papas. A razão é que foi eleito e governou na vigência do malfadado concílio.
    Com a manutenção do Vaticano II, então, a crise não acaba. Mas os sedevacantistas, se são honestos, desejam que a crise termine e que a Igreja volte a ser o que sempre foi – mãe e mestra da verdade. A solução, portanto, é corrigir, revogar ou anular esse concílio.
    Mas aqui é que a coisa se complica – na lógica sedevacantista.
    Pois se Bento XVI é um falso papa, que autoridade e que legitimidade tem ele para corrigir ou anular um concílio? Um futuro papa também padecerá do mesmo defeito, pois terá sido eleito na vigência do Concílio Vaticano II. Portanto, também não será papa de verdade.
    E se um outro concílio anular o Vaticano II? Tem que ser um concílio ecumênico, com maior grau de autoridade – ensinar dogmática e não pastoralmente-- daquele que será suprimido. Mas um concílio ecumênico é convocado pelo papa e presidido pelo próprio ou por seus legados, e aí voltamos ao mesmo ponto, que não tem solução. Se ele não é papa de verdade, com que direito vai convocar e presidir validamente um concílio?
    Dessa forma, na lógica sedevecantista, a Igreja nunca mais terá um papa de verdade. Mas o papa é o fundamento sobre o qual Cristo edificou a sua Igreja. E sem fundamento, todo edifício desaba e vira entulho.
Se os sedevacantistas tirarem as últimas conseqüências lógicas de sua doutrina terão que reconhecer que estão num atoleiro sem saída ou que a Igreja... pereceu!
Nesse caso, é melhor que se intitulem eclesiovacantistas.
 
Brasília, 04 de março de 2009.
Carlos Caetano, leitor da Montfort

    Para citar este texto:
"Sedevacantismo ou Eclesiovacantismo?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/eclesiovacantismo/
Online, 28/05/2017 às 01:44:31h