Igreja

Duas histórias: os espirituais franciscanos e o Papa Celestino V (São Pedro Celestino), e o quietismo e o Beato Inocêncio XI, Papa
Orlando Fedeli


A recente aprovação dos Estatutos do Neo Catecumenato tem sido interpretada por muitos como sendo uma aprovação das doutrinas heterodoxas ensinadas por Kiko e Carmem aos catequistas desse movimento, em suas Apostilas excessivamente "discretas".

Ora, a simples aprovação desses Estatutos do Neo Catecumenato não é, de modo algum, um atestado de ortodoxia de seus líderes e de suas doutrinas. Não é porque o neo Catecumenato teve seus estatutos aprovados pela Santa Sé que fica aprovada a doutrina de Kiko sobre as "migalhas" da Sagrada Hóstia, e nem que desde agora fica permitida a prática, confessada por membros desse movimento, de dançarem sobre as partículas que sobram ou caem das hóstias consagradas. Nem que a confissão comunitária deve ser elogiada em detrimento da confissão auricular.

A pretensão de que a mera aprovação dos estatutos do Neo Catecumenato seja uma aprovação doutrinária carece de qualquer base jurídica e revela uma enorme ignorância da doutrina da Infalibilidade papal e da História da Igreja.

Para esclarecer essa questão, contaremos, hoje, dois episódios importantíssimos da História da Igreja, envolvendo dois Papas santos -- São Pedro Celestino, o Papa Celestino V, e o Beato Inocêncio XI.

São Pedro Celestino (século XIII) protegeu os hereges Espirituais franciscanos, cujos erros já haviam sido condenados por Papas anteriores, chegando a fundar para eles uma ordem religiosa. Essa proteção de um Papa santo a um grupo herético não significou -- é óbvio -- a aprovação dos erros milenaristas e joaquimitas desse grupo herético.

O Beato Inocêncio (século XVII) durante certo tempo, enganado pela fama de piedade de algumas pessoas, protegeu os quietistas seguidores de Miguel de Molinos, vindo, graças a Deus, a condená-los mais tarde.

Estes dois casos históricos, acontecidos com dois Papas santos, demonstram que mesmo Papas santos, podem cometer erros de apreciação sobre pessoas e movimentos, sem que isso afete o dogma da infalibilidade ou a santidade pessoal desse Papas.

 

Primeira história:
Os Movimentos Heréticos Franciscanos

São Francisco foi um dos maiores santos jamais surgidos na história da Santa Igreja. Tão grande ele foi que seu exemplo converteu multidões. Poucos santos tiveram graças tão excelsas quanto o "poverello de Assis". Sua vida santíssima é bem conhecida, e ela será sempre um sol iluminando o céu da Santa igreja Católica Apostólica Romana.

Entretanto, se São Francisco é sem igual, e se a ordem que ele fundou foi abundantíssimo celeiro de Santos para Igreja de Deus, não deixa de ser verdade histórica que a Ordem Franciscana, talvez mais do que qualquer outra, sofreu, desde o princípio, e ainda em vida de São Francisco, crises doutrinárias gravíssimas, dela nascendo movimentos heréticos extremamente malignos, como a heresia dos Espirituais, a dos Dolcinianos ou Pseudo-apóstolos, seguidores de Segarelli e de Fra Dolcino, e ainda a dos Begardos que tinham como líder doutrinário o herege Frei Pedro João Olivi.

Sendo São Francisco tão grande santo, e sendo a Ordem dos Frades Menores, que ele fundou, seguidora de seu exemplo sublime, era natural e lógico que o demônio procurasse destruí-la mais do que qualquer outra, suscitando dentro dela movimentos divisionistas e heréticos. O demônio como grande falsificador, só busca falsificar moeda de grande valor. Só louco falsifica peso boliviano. Falsificador esperto falsifica dólar.

A heresia dos Espirituais, que contaminou os melhores elementos da Ordem franciscana logo em seu início, foi causada pelos abusos do Superior Geral que o próprio São Francisco, na hora de sua morte, em 3 de outubro de 1226, indicou como Vigário ou Ministro Geral, para sucedê-lo no governo da Ordem dos Frades Menores: Frei Elias de Cortona.

Este Frei Elias tomou a direção da Ordem, desviando-se logo da Regra, que estabelecia uma pobreza rigorosa para os frades do Santo de Assis. Frei Elias admitiu andar de carruagem puxada por cavalos bem ajaezados, quando São Francisco estipulara que os frades deveriam andar sempre a pé. Elias aceitou grandes donativos e fez com que a Ordem perdesse a pobreza inicial que a caracterizava. Ademais, fez política agradando os grandes de seu tempo, e perseguiu os frades que queriam manter-se fiéis ao ideal da pobreza dado e pregado por São Francisco. Os frades mais virtuosos, os que melhor imitavam o fundador, eram os mais perseguidos.

Os abusos de Frei Elias foram tais que ele acabou por ser deposto do cargo de geral da Ordem, logo depois de um ano de governo.

Santo Antônio de Pádua participou dessa luta, combatendo Frei Elias de Cortona.

Em 1227, o Capítulo Geral da Ordem reunido em Assis, na presença do Papa Gregório IX, elegeu como Ministro Geral Frei João Parenti, O.F.M., no lugar de Frei Elias.

Este não se deu por vencido, e intrigou, procurando recuperar a direção da Ordem. Ele conseguiu o seu intento no capítulo Geral de 1232, quando foi eleito Ministro Geral. Durante sete anos, contra o que determinava a Regra, Frei Elias não convocou novo Capítulo Geral, mantendo-se como ministro geral de modo ilícito e ditatorial. Nesse tempo, ele dispersou os que se opunham, e que o acusavam de violar a pobreza pela aceitação de donativos, e por permitir construções de igrejas e conventos caros.

Diz a Crônica Franciscana : "No ano do Senhor de 1237, Frei Elias destinou a cada uma das províncias, visitadores convenientes ao seu propósito, e pela irregularidade de tais visitas os frades tornaram-se ainda mais exasperados contra ele" (ChronicaFrater Jordanis a Jano, p. 18, apud Nachman Falbel, A Luta dos Espirituais Franciscanos e sua Contribuição para a Reformulação da Teoria Tradicional acerca do Poder Papal, Tesena Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Boletim no 3,São paulo, 1978, p.82).

No Capítulo Geral de 1239, Frei Elias perdeu de novo o cargo de Ministro Geral. Nesse capítulo, de novo presidido pelo Papa Gregório IX, foram tomadas medidas que garantissem a Ordem contra novos abusos: ficou determinado que haveria um Capítulo Geral a cada três anos, e que os Provinciais seriam eleitos pelos frades, e não nomeados pelo Ministro geral.

Frei Elias aderiu ao Imperador Frederico II, conhecido inimigo da Igreja. Seus adversários na Ordem o acusaram até de praticar a Alquimia. Ele morreu em 1253, fora da Ordem, mas reconciliado com Igreja que o excomungara.

A luta entre os partidários de Fei Elias e os seus inimigos vai ser a fonte de uma divisão, que terminará com a formação da seita dos Espirituais, que por reação contra o laxismo dos partidários de Frei Elias, acabou por cair em heresia, com o grupo dos Espirituais que desejavam levar o franciscanismo a um rigor excessivo.

Os principais chefes dos Espirituais foram: Frei Corrado de Offida, Frei João de Parma, Hugo de Digne, Fra Gerardo di Borgo San Donino, Michele di Cesena, Ubertino di Casale, Salimbene, Tomas di Celano.

Os prinicipais erros defendidos pelos Espirituais foram:

1. Sendo São Francisco o maior santo da História, tendo sido ele marcado com os estigmas de Cristo, a regra que ele deixou não poderia ser mudada nem pelo Papa, pois a regra de São Francisco era a lei do Evangelho, e o Papa não tem poder para mudar o Evangelho.

2. A regra da pobreza devia ser absoluta e radicalmente obedecida, e no mesmo grau em que São Francisco a praticara. Por isso, a Ordem franciscana não poderia ter igrejas de pedra, nem conventos. Os frades não poderiam ter livros de missa, de oração ou de estudo. Só poderiam ter um hábito de saco. Este hábito deveria ser usado até cair de podre. O hábito não poderia chegar até os pés, pois que isso seria supérfluo e um luxo desnecessário.

3. Com Frei Hugo de Digne, Frei João de Parma e Frei Gerardo di Borgo San Donino, os erros de Jaoquim de Fiore (1155-1202)-- que já haviam sido condenado no IV Concílio de Latrão -- entraram na ordem franciscana.

4. São Francisco e São Domingos eram as duas testemunhas de que fala o Apocalipse.

5. O Anticristo viria em 1248, -- marcaram-se, depois, outras datas para a Bagarre franciscana -- e ele seria o Imperador Frederico II., ou um Papa antifranciscano (Por exemplo, João XXII).

6. Haveria um grande castigo - a TFP dirá a "Bagarre"-- no qual a maior parte dos homens seria eliminada. Mesmo boa parte dos frades franciscanos seria eliminada, sobrevivendo apenas um pequeno resto, que formaria o reino do Espírito Santo.

7. Este reino espiritual seria o dos monges, que substituiria a ordem dos sacerdotes. Viria um grande Papa -- o "Pastor angélicus", que vários Papas pretenderam ser -- e um grande Imperador que instaurariam o reino do Espírito Santo.

8. Assim como a Igreja substituíra a Sinagoga, haveria uma Nova igreja espiritual, igualitária (sem hierarquia) e pobre, sem nenhuma propriedade, parecida com a que é preconizada pelo ex-frei Boff e Frei Betto, que substituiria a Igreja rica, fundada por Cristo.

9. A lei de Deus seria abolida, sendo instaurada a lei do Amor.

10. O Evangelho Eterno, de que falava o Abade Giochino di Fiore, seria o conjunto das obras do abade que se afirmara profeta.

Essas idéias foram expostas na obra de Fra Gerardo di Borgo, Introductorius ad Evangelium Aeternum, publicado em Paris, em 1251, e que foi condenada pelo Papa Alexandre IV, em 1255.

A condenação de Gerardo di Borgo acarretou o desprestígio do Ministro Geral franciscano Frei João de Parma.

O que tornava os erros dos Espirituais mais perigosos era o fato de que os frades mais famosos pela virtude, pertenciam a essa facção, enquanto seus opositores, geralmente eram mais relaxados. Exceção de valor único foi São Boaventura, que foi eleito Ministro Geral da Ordem, em 1257, e que tomou posição clara contra os erros dos Espirituais, sem ceder em nada aos relaxados. Ele determinou até a prisão de João de Parma, o que lhe valeu a ira dos Espirituais, como Angelo Clareno, que acusou São Boaventura de organizar a quarta perseguição geral contra os "verdadeiros seguidores de São Francisco".

A situação dos Espirituais teve grande vantagem política com a eleição ao Papado de São Pedro Celestino -- o Papa Celestino V.

Seu nome era Pedro de Morrone, Ele havia fundado uma ordem de eremitas -- os Celestinos -- e levava, ele mesmo, uma vida de anacoreta em uma montanha, tendo fama de santidade.

Quando em Roma, os Cardeais não entravam em acordo para a eleição de um Papa, devido as lutas entre Guelfos e Gibelinos, na Itália, se propôs eleger esse santo eremita como Papa. Ele foi eleito, mas resistiu muito antes de aceitar. Entrou em Roma montado num burrico, e tomou o nome de Celestino V. Era um homem de vida muito santa, mas que não sabia governar, nem entendia de política. Os Gibelinos o dominaram, e o levaram a tomar medidas que prejudicavam a Igreja. Ele, ao perceber os erros, se arrependia. Afinal, constatando que não sabia governar, ele ameaçou renunciar ao trono pontifício, coisa que os gibelinos não queriam de modo algum, pois exploravam a falta de capacidade de governo desse santo Pontífice.

Foi aí que os Espirituais Angelo Clereno e Pedro de Macerata se aproximaram do Papa São Celestino V.

São Pedro Celestino conhecia, há tempos, os Espirituais franciscanos, e os recebeu com benevolência. Ouviu as suas queixas e os atendeu além de toda a medida: desligou-os de toda obediência com relação à Ordem Franciscana, e autorizou-os a viver nos eremitérios que um Abade da Ordem dos Celestinos devia colocar à disposição deles, para ali observar a Regra e o Testamento de São Francisco. Para não magoar os franciscanos com essas concessões, São Pedro Celestino não permitiu que eles se denominassem Minoritas ou franciscanos, mas deu a esse novos Eremitas que recebera, o nome de Pobres Eremitas, e os colocou sob a proteção do Cardeal Napoleão Orsini.(Cfr. Gratien, Historia de la Fundación y evolución de la orden de frailes menores en el siglo XIII, Buenos Aires: Desclée, 1947. pag 378).

Era um Papa santo -- São Pedro Celestino-- que apoiava os discípulos (desviados) de um outro grande santo -- São Francisco de Assis-- discípulos que eram acusados de heresia.

Pode-se imaginar o triunfo que foi, para os Espirituais, essa aprovação do papa santo.

Entretanto, essa aprovação "estatutária" dos Espirituais não era a aprovação de seus erros e de suas heresias.

O triunfo dos hereges Espirituais foi curto: São Pedro Celestino, verificando que era incapaz de governar, renunciou ao papado.

A 24 de dezembro de 1284, foi eleito Papa, em lugar de São Pedro Celestino, o Cardeal Benedito Gaetani, que tomou o nome de Bonifácio VIII, que era extremamente antigibelino, e contrário aos Espirituais franciscanos.

"Bonifácio VIII logo que cingiu a tiara, anulou todas as concessões de seu predecessor". (Llorca, Garcia Villoslada, Montalban, Historia de la Iglesia Catolica, Madrid: Bac, 1963, vol II, p.562) e os Espirituais caíram de novo em desgraça.

A 8 de abril de 1295, colocou os Espirituais que se haviam refugiado entre os Celestinos,de novo sob a jurisdição do Ministro Geral Franciscano. Depois, pela Bula Ad Augmentum ( Nov. 1295), deu poder ao Ministro Geral de tratar da questão, chegando a proibir aos Espirituais a apelação a Roma porque a questão deles já fora julgada (Cfr. Graciano, Historia de la Fundación y evolución de la orden de frailes menores en el siglo XIII, Buenos Aires: Desclée, 1947. pp. 378-379.).

A luta contra os hereges Espirituais franciscanos não ia terminar ai. Ela se estenderia ainda por muito tempo. A grande condenação contra eles viria a ser pronunciada pelo Papa João XXII, que condenou os erros e heresias dos espirituais em 1318. ( Cfr.os principais erros dos espirituais franciscanos condenados por João XXII in Denzinger 484-490).

Vê-se por essa história que a aprovação da prática de uma regra de um santo por um Papa santo, não significa a aprovação das heresias daqueles que se acobertam numa regra ou num santo.

Quão mais fraca é a aprovação dos Estatutos do Neo Catecumenato!

Essa aprovação, embora feita por Roma -- E QUE POR ISSO DEVE SER RESPEITADA -- NÃO É, DE MODO ALGUM, UM ATESTADO DE ORTODOXIA PARA O NEO CATECUMENATO.

O QUE KIKO E CARMEM ENSINARAM DE HERESIA E DE ERRO CONTINUA A SER HERESIA E ERRO.

 

Segunda História:
O Quietismo e o Beato Inocêncio XI, Papa.

Uma segunda história nos fará compreender, mais uma vez, que mesmo um Papa santo pode se equivocar em suas decisões políticas e administrativas, ainda que elas tenham repercussões no campo doutrinário. Para isto, tomaremos o caso do Quietismo, no século XVII.

O Quietismo é a doutrina que afirma que a mais alta perfeição do homem consiste em aniquilar o seu próprio eu para que o eu de cada um seja absorvido na Divindade, mesmo durante esta vida.

Como vêem os nossos leitores, nem o Padre Zundel, nem o hinduísmo, nem Mestre Eckhart, nem os gnósticos de todos os matizes disse coisa diferente. A Gnose é repetitiva.

Os grandes líderes dessa heresia foram o padre Miguel de Molinos, o oratoriano Pier Matteo Petrucci, o Padre La Combe, e Madame Guyon. Fénelon teve parte nesse movimento herético, mas seu quietismo não chegou ao radicalismo de Molinos. Mas mesmo esse Quietismo mais moderado foi condenado pelo Papa Inocêncio XII, no Breve Cum alias, em 1699. ( Cfr Denzinger, 1327-1349).

As raízes dessa heresia místicas provêm da difusão subterrânea dos erros da mística reformista, além, é claro da propaganda oculta da Gnose. Muitos dos erros quietistas tem clara relação com as heresias de mestre Eckhart e os Irmãos do livre Espírito, assim como com a mística protestante.

Na Espanha, onde o protestantismo teve maior dificuldade de penetração pela resistência católica movida pelos grandes santos da Contra Reforma, como Santo Inácio e Santa Tereza de Ávila, o espírito protestante se travestiu com roupas de piedade e o manto do misticismo. Com efeito, o Quietismo foi uma heresia relacionada com a vida de oração, tendo ele propagado idéias igualitárias, naturalistas e antinomistas, que o ligam diretamente à Gnose.

Os primeiros sinais dessa heresia apareceram entre os Alumbrados espanhóis, já no século XVI.

"Os Iluminados ou Alumbrados aparecem desde o século XVI em pontos diversos da Península [ ibérica]; eram geralmente mestres obscuros que faziam escola. Através das distâncias dos tempos e dos lugares,algumas idéias comuns se encontram, como se, por vias subterrâneas, se comunicasse uma tradição de erro. Nenhum, ou muito poucos escritos conservados"(A.D'Alès, Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique, Beauchesne, Paris, 1928, vol. IV, verbete Quiétisme).

Ainda no século XVI espalhavam-se pela Espanha doutrinas místicas que orgulhosamente afirmavam uma superioridade dos que praticavam a oração mental, que os dispensava das obrigações comuns dos fiéis:

"Espíritos abusados e perversos consideravam que a oração mental era de preceito; que os eleitos de Deus não deveriam trabalhar corporalmente, nem venerar as imagens, nem fazer os jejuns prescritos, nem assistir missa, nem honrar os santos; eles tinham incessantemente a visão de Deus, e, para eles não haveria mais pecados de luxúria" (A. D'Alès, Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique).

O antinomismo, a soberba e o espírito de independência revelada nessas idéias apontam claramente para a existência de uma seita gnóstica, atuando ocultamente na Espanha, nesse tempo. Os que defendiam essas idéias se julgavam superiores às pessoas comuns, dispensando-se das obrigações morais e das práticas de devoção exteriores e comuns. Com isto, separavam-se do povo comum, da vida católica nas paróquias, formando núcleos separados e sectários.

Os primeiros autores importantes responsáveis pela difusão de idéias típicas do Quietismo, na Espanha, foram os Padres Juan Falconi e Miguel de Molinos. Este último foi o grande propagador do Quietismo, na Europa.

O Padre Juan Falconi, da Ordem dos Mercedários, teve vida piedosa e exemplar, tendo escrito obras importantes sobre devoção e vida mística. Ele faleceu em 1638, deixando fama de vida espiritual superior. Em suas obras ascéticas e piedosas, Falconi insiste na necessidade e na facilidade da oração mental para todos, indistintamente. Falconi considera que o importante não é refletir, mas simplesmente amar. Para ele, se a pessoa se entrega à vontade de Deus, alcança as maiores virtudes e ora continuamente.

O erro, aí, consistia em julgar que é possível amar sem refletir, como se o amor fosse separado e independente da compreensão, quando só é possível amar o que conhecemos. Essa insistência no amor, sem a reflexão, -- tão comum hoje, -- tende a levar para um amor puramente sensível, quando não sensual, expondo a alma aos maiores perigos.

Além disso, a negação do valor da inteligência é contra ao que ensina a Igreja, e é posição tipicamente gnosticizante.

Ao que se diz, Falconi parece não ter estado comprometido com nenhum grupo sectário. Porém, as fórmulas que empregava, e a imprecisão de sua doutrina abrirão as portas para erros muito graves. Outros houve que usaram suas obras, dando-lhes um sentido claramente herético. Foi especialmente abusada a "Carta a uma Religiosa" escrita por Falconi em 1629, que foi muito explorada pelo Padre Miguel de Molinos. Foi só após a condenação de Molinos, que as obras de Falconi foram colocadas no Index dos livros proibidos, em 1688

Como já dissemos, o grande divulgador do Quietismo foi o Padre Miguel de Molinos, que nasceu em 1628, perto de Zaragoza. Estudou com os Jesuítas e ordenou-se sacerdote. Viveu na Espanha até 1664, quando partiu para Roma, onde foi defender uma causa de canonização até 1684. Molinos ficará em Roma, local em que granjeará sua fama de mestre de espititualidade ao publicar sua obra "Dux Spiritualis" (Guia Espiritual) (1675).

Nesse livro Molinos destaca, desde o início, algumas idéias:

Há dois caminhos para ir até Deus: o de meditação e o da contemplação. A meditação deve conduzir à contemplação, caso contrário, terá falhado.

A meditação semeia e procura. A contemplação colhe e encontra.

Há duas espécies de contemplação a infusa e a adquirida. A infusa é dada por Deus e não pode ser ensinada.

O fim do "Guia Espiritual" é o de dobrar as almas a não resistir à graça de Deus.

Esta apresentação das idéias de Molinos, com base no Dictionnaire que citamos, nos parece insuficiente. Um quadro melhor se teria, se resumissem os erros de Molinos tais quais foram condenados por Inocêncio XI, e que aparecem em Denzinger 1321- 1388,

Das sessenta e sete proposições condenadas pelo Papa Inocêncio XI, destacaremos algumas apenas, para que se tenha uma idéia mais coerente das heresias de Molinos e do Quietismo (No futuro, pretendemos fazer um relato mais circunstanciado da heresia Quietista, por causa de suas repercussões atuais, entre os católicos).

Eis aqui alguns dos principais erros de Molinos, condenados por Inocêncio XI:

"É preciso que o homem aniquile suas potências e este é o caminho interior" (Denzinger, 1221) (...) "no caminho interior, toda reflexão é nociva" ( Denz. 1229).

[Curiosa formulação que lembra o que o pietista Novalis pregou, ao fundar o Romantismo: o caminho verdadeiro é o caminho interior; assim como o Romantismo também colocava o sentimento acima da reflexão. Pois o Romantismo odiava a razão].

Molinos insistitrá em sua condenação da razão, da conceituação, do discurso, o que o levará a desprezar a Filosofia e mesmo a Teologia:

"Aquele que, na oração, usa de imagens, figuras, espécies e conceitos próprios, não adora a Deus em espírito e verdade" (Denz. 1238).

"Quem ama a Deus ao modo como a razão argumenta e o entendimento compreende, não ama o verdadeiro Deus" (Denz. 1239).

"Afirmar que uma pessoa deve ajudar-se a si mesma, na oração, por meio de discurso e pensamento, quando Deus não fala à alma, é ignorância. Deus nunca fala; sua locução é operação, e sempre atua na alma, quando esta não o impede com seus discursos, pensamentos e operações" (Denz. 1240).

Noutra passagem, Molinos afirma que "Os defeitos nascem da reflexão" (Denz. 1278).

Como se vê, o Quietismo, como a Gnose, condenava a inteligência.

Conseqüentemente, após a condenação da Razão, -- que Lutero chamara de a prostituta louca -- vinha a condenação das obras, exatamente como Lutero.

"Querer agir ativamente é ofender a Deus (...)" (Denz. 1222) [O que lembra, repetimos, a condenação das boas obras por parte de Lutero].

"Não fazendo nada, a alma se aniquila e retorna a seu princípio e à sua origem, que é a essência de Deus, na qual ela permanece transformada e divinizada, e então Deus permanece em si mesmo, porque então já não são duas coisas unidas, mas uma só, e deste modo vive e reina Deus em nós, e a alma se aniquila a si mesma no ser operativo" (Denzinger, 1225). [Esta doutrina lembra o pensamento de Mestre Ecckhart, e as doutrinas de Zundel da transusbstanciação do eu em Deus, da unificação do sujeito com o objeto, pois que para Zundel "Eu é o outro"].

Molinos condenava os votos religiosos (Denz. 1223); afirmava que "a natureza é inimiga da graça" ( Denz. 1224).

O antinomismo de Molinos era claro. Ele afirmava que não se deveriam temer as tentações, "nem por-lhes outra resistência que a negativa" (...) "e se a natureza se comove, há que deixá-la comover-se, porque é natureza" (Denz. 1237).[O que insinua que a natureza é má e de si só pode pecar].

O antinomismo de Molinos era claro: "Deus permite e quer que (...) para algumas almas perfeitas, (...) o demônio faça violência a seus corpos e as obrigue a cometer atos carnais, mesmo em estado de vigília e sem ofuscação da mente, movendo fisicamente suas mãos e outros membros, contra a sua vontade. E o mesmo se diz de outros atos, de si, pecaminosos, em cujo caso não são pecados, porque não há consentimento neles". (Denz. 1261). [E em Denz. 1267, se lê até coisa mais escandalosa].

Além desses absurdos morais, Molinos defendia a tese de que, certas almas que alcançaram a perfeição, se tornariam impecáveis: "Pela contemplação adquirida, chega-se ao estado em que não se cometem mais pecados nem mortais nem veniais" (Denz. 1277) [Eu mesmo conheci um pseudoprofeta que dizia ter alcançado o estado de inocência primeva, e ter se tornado impecável, inerrante, imortal... Para se ver que esses erros se perpetuam através da História...].

Molinos condenava a ascese e a preocupação de crescer em virtude, atacando a devoção aos santos e até mesmo -- como não podia deixar de numa doutrina de um herege, -- a devoção a Nossa Senhora: "Não convém às almas deste caminho interior que façam ações, ainda que virtuosas, por própria eleição e atividade, pois em outro caso, não estariam mortas. Nem devem tampouco fazer atos de amor à bem-aventurada Virgem, aos santos, ou à humanidade de Cristo, pois como este são objetos sensíveis, também o é o amor para com eles" (Denz. 1255).

"Nenhuma criatura, nem a bem-aventurada Virgem, nem os santos, hão de ter assento em nosso coração, porque Deus quer ocupá-lo e possuí-lo todo" (Denz. 1256).

Apesar desses absurdos doutrinários, a obra de Molinos foi recebida com benevolência, porque o autor gozava de excelente reputação de pureza e de alta espiritualidade. Esta obra de Molinos contou com o Imprimatur do próprio Mestre do Palácio Apóstolico, isto é, do teólogo oficial do Papa Clemente X (1675) Teve ainda o julgamento favorável de seis teólogos. Com tais apoios, a obra de Molinos se difundiu por toda a Europa, tendo muitas edições, em várias línguas e países distintos.

Em 1676, um ano após a publicação do Dux Spiritualis de Molinos, o Cardeal Odescalchi foi eleito Papa, com o nome de Inocêncio XI.

A obra de Molinos logo sofreu críticas dos jesuítas, especialmente do Padre Segneri e do Padre Bell'uomo, e pelo teatino, PadreAlexandre Reggio, que relacionou os erros de Molinos aos dos Begardos.

Por outro lado, Molinos foi apoiado pelo oratoriano Padre Pier Matteo Petrucci, homem de grande fama, futuro Bispo (1681) e Cardeal (1686), por nomeação do Beato Inocêncio XI. Petrucci escreveu um tratado sobre a "Contemplação Adquirida", obra em que defende explicitamente o Guia Espiritual de Molinos.

Na França, Molinos marcou fortemente as obras místicas do Padre La Combe, que, por sua vez influenciou o pensamento e a mística heterodoxa de Madame Guyon.

La Combe aceitou a doutrina antinomista de Molinos a respeito das violências diabólicas sobre as almas eleitas por Deus, e que levavam até mesmo essas almas eleitas a violar a lei de Deus, mas sem ter culpa.

No processo de La Combe ficou comprovado que ele cometeu pecados de luxúria com pessoas que dirigia e mesmo com Madame Guyon.

"E não faltam textos de Madame Guyon para estabelecer que ela também professava o dogma da passividade moral e da virtude purificante do pecado cometido por um consentimento à irresistível vontade de Deus" (A.D'Alès, Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique).

Não é difícil perceber a relação dessa doutrina antinomista do Quietismo com a doutrina gnóstico-cabalista da santidade do pecado, e com o princípio moral luterano: "Crê firmemente, e peca muitas vezes", o da justificação pela fé através do pecado.

Esta famosa e esotérica mística, Madame Guyon, foi praticamente a orientadora do famoso Bispo de Cambrai, Fenélon, tutor do Príncipe herdeiro da Coroa de França.

Tudo isso demonstra a enorme influência e expansão que as doutrinas imorais e heréticas do Quietismo tiveram na Europa, e que prestígio alcançaram.

Na polêmica surgida entre os teólogos, na Itália, após a publicação do livro de Molinos, Petrucci acabou vencendo, pois os três adversários de Molinos, que citamos mais acima, tiveram as suas obras postas no Index.

Molinos triunfou.

Temporariamente.

Apesar dessa colocação de suas obras no Index, os adversários de Molinos continuaram a se opor à "nova doutrina da contemplação", contando com o apoio de vários outros jesuítas, e de teólogos de várias ordens religiosas. Os vigários de Roma também se manifestaram contra a doutrina de Molinos. O próprio confessor do Papa, Padre Maracci denunciou, por escrito, os erros da nova contemplação.

A proteção do Papa, o Beato Inocêncio XI, que hesitava em condenar um homem tido como excelente pelo Cardeal Petrucci, foi o fator que mais fez protelar a condenação de Molinos.

Quando vários Cardeais se manifestaram contra Molinos, e, em seguida, foram apoiados por muitos Bispos da Itália, o Beato Inocêncio XI decidiu agir: Molinos acabou por ser condenado à prisão no Santo Ofício em 1685.

O processo contra Molinos durou ainda dois anos. Afinal, as evidências de suas doutrinas antinomistas e os escândalos denunciados, fizeram com que as doutrinas de Molinos fossem condenadas pelo mesmo Papa que, por equívoco, o protegera. Com a Bula "Caelestis Pastor", o Bem aventurado Inocêncio XI condenou solenemente ad doutrinas do homem que, durante longo tempo, havia abusado de sua confiança e havia enganado um Papa santo. A Bula condenava 63 proposições retiradas das obras e das cartas de Molinos, e que ele reconheceu como proposições suas e que confessou serem a expressão exata de seu pensamento. Segundo Molinos a perfeição da vida interior consistiria na perfeita passividade. Esta produziria a verdadeira paz interior, a união com Deus e a divinização.

"A atividade própria, os desejos próprios, os pensamentos próprios seriam os grandes inimigos da alma.(...) Resistir às tentações, ganhar indulgências, praticar penitências, repetir orações vocais seria coisa inútil, nesse estágio.Um alma morta [a si mesma] não pensa em si, Ela está fixada em Deus. O sono não interrompe a sua contemplação, assim como os próprios atos na aparência pecaminosos não quebram a sua fidelidade ao amor [de Deus]. Essa alma eleita não conhece mais duas leis contrárias. Ela conhece uma só lei: a de Deus, que é seu centro, sua luz e sua paz. Capaz de conhecer o pecado, de fato ela não peca, ainda que ao olhar terreno e grosseiro dos homens, possa parecer que ela viola os preceitos do decálogo e da Igreja. Por um desígnio insondável, Deus, para desapropriar de si mesma uma alma eleita, a induz, por violência diabólica, a cair nos pecados que lhe causam mais horror" (A.D'Alès, Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique).

Molinos não apenas ensinava isso a seus discípulos e dirigidos: ele praticava tais atos e fazia com que seus dirigidos os praticassem.

"Durante mais de vinte anos, ele viveu na luxúria, sem se confessar; quando ele escreveu o seu Guia Espiritual, ele já vivia nessa ignomínia, assim como ele o admitiu, em seu processo" ( A.D'Alès, Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique).

O processo de Molinos e a condenação do Guia Espiritual acarretaram um outro processo; o do Cardeal Petrucci.

Diz, sobre isso, o Dicionário, cujo vebete Quietismo estamos resumindo:

"Finalmente, e apesar das grandes hesitações de Inocêncio XI -- um Papa santo, mas que se enganou na questão do Quietismo! -- o processo de Molinos acarretou o de Petrucci (1687-1688)".

"A Comissão Cardinalícia encarregada da causa, obteve que Inocêncio XI impusesse a Petrucci a retratação secreta de 54 proposições extraídas de seus livros e que todas as obras do Prelado fossem postas no Index (1688).

Vemos também neste segundo episódio histórico, como a aprovação particular de um Papa -- e mesmo de um Papa santo -- a um movimento, não significa, de si, que esse movimento tenha doutrina correta.

Um Papa, mesmo que seja pessoalmente santo, pode se enganar, em seu julgamento pessoal, particular e concreto, a respeito de um movimento, ou de uma pessoa. A Infalibilidade pontifícia em nada fica afetada nesses casos, pois o Papa é infalível quando se pronuncia ex cathedra, isto é, quando trata de fé ou de moral, com a autoridade de Vigário de Cristo, ensinando toda a Igreja, com vontade de definir uma questão, aprovando uma tese como certa e condenando a oposta como errada. Em um posicionamento estritamente pessoal, o Papa atua como pessoa particular, e, embora sua opinião mereça todo o respeito, então, nesses casos, ele não é infalível.

A aprovação dos estatutos do Neo Catecumenato, por um período experimental de cinco anos, embora se deva respeitar decisão da autoridade papal, não é uma definição ex cathedra, que aprove como ortodoxas e certas as idéias de Kiko e de Carmem. Tais idéias e teses, sendo violadoras da doutrina católica, mais cedo ou mais tarde, infalivelmente, serão condenadas um dia. Como foram condenadas as idéias dos Espirituais Franciscanos e dos Quietistas.

Até lá, das idéias de Kiko e Carmem, "libera nos Domine!".

S. Paulo, 2 de Julho de 2.002.

Orlando Fedeli


    Para citar este texto:
"Duas histórias: os espirituais franciscanos e o Papa Celestino V (São Pedro Celestino), e o quietismo e o Beato Inocêncio XI, Papa"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/duashistorias/
Online, 23/07/2017 às 21:50:45h