Igreja

Duas entrevistas: Dom Fellay, excelente! Tanouarn, lamentável, violando um dos fins do IBP!
Orlando Fedeli

     Acabam de ser publicadas duas entrevistas, uma de Monsenhor Fellay, outra do Abbé de Tanouarn. Ambas tratam do Concílio Vaticano II e das relações dos grupos anti Vaticano II com Roma e com o Papa. 
     Numa delas, o Abbé de Tanouarn, conhecido por suas tomadas de posição contraditórias e pouco seguras, decepciona por sua mudança de postura face aos erros do Vaticano II, sobre ecumenismo e liberdade de religião, constituindo-se numa espantosa posição contrária a um dos fins institucionais do Instituto do Bom Pastor, ao qual ele pertence.
     Aliás, o Abbé de tanouarn sempre foi conhecido por suas contradições Yves Chiron disse dele:

Os leitores atentos das publicações dirigidas pelo abbé de Tanouarn terão notado suas variações de posicionamento de um número para o outro, de um ano para o outro, sobre questões como a gnose ou as negociações da FSSPX com a Santa Sé” (Yves CHIRON, Les libertés de l'abbé de Tanoüarn , Aletheia n°40 - 24 mars 2003).

     Enquanto isso, Dom Fellay, mantendo a posição correta e firme contra os principais erros do Vaticano II, mostra como a famosa releitura do Vaticano II à luz da Tradição é ambígua e insuficiente apesar de ter sido usada pelo próprio Dom Lefebvre.
     Traduziremos e comentaremos alguns tópicos mais importantes e contrastantes dessas entrevistas. E nos sentimos à vontade para dizer o que pensamos delas, porque não defendemos o IBP, e nem atacamos posições da FSSPX por razões pessoais, mas visando tão só a defesa da Fé. Combateremos erros contra a Fé quer em nossos amigos, quer em nossos adversários. Elogiaremos o que há de bom, mesmo naqueles que não nos estimam. E criticaremos erros mesmo daqueles dos quais seríamos próximos, pois a verdade está acima de tudo. 
     Foi d´abord, et non pas la politique! A Fé acima e antes de tudo, e não a política.

     Vejamos então, inicialmente, as afirmações excelentes, firmes e respeitosas para com o Papa, de Monsenhor Fellay, feitas ao Jornal Nice-Matin nice-matin.com - http://qien.free.fr/2006/200612/20061211_fellay.htm

Nice-Matin: - O Papa diz que o Concílio deve ser lido à luz da Tradição. Vosso fundador, Mons. Lefebvre, também dizia isso. Por que um dos Bispos de sua Fraternidade, Mons Tissier de Mallerais, afirma que isso é impossível ?
Mons Fellay: « Não há contradição. Essa expressão “à luz da tradição”, se bem que seja necessária, em si, para compreender o Concílio, verificou-se ser insuficiente. Ela é por demais ambígua, não queremos mais utilizá-la. Certos textos do Concílio são irreconciliáveis com a Tradição. Nós pedimos para discuti-los desde ao no 2.000”.

     A Montfort concorda com esse posicionamento de Monsenhor Fellay.
     Como já tivemos ocasião de dizer, se o Vaticano II precisa da luz da tradição para ser lido corretamente, isso é a confissão de que ele é obscuro.     
     Então, em vez de interpretá-lo “à luz da Tradição”, que se vá diretamente á tradição, deixando esse Concílio Pastoral de lado, sem interpretações que já causaram tanta confusão.
     O que é claro não necessita de interpretação.
     Se o Vaticano II é obscuro, a ponto de permitir leituras contraditórias, o Vaticano II não é infalível, e não se é obrigado a aceitá-lo como dogmático. 
     Dom Fellay está absolutamente certo ao recusar como insuficiente e ambígua a fórmula de que se tem que entender o Concílio “à luz da Tradição”.
Ademais, há que se perguntar como um texto, mais do que ambíguo, polissêmico, como o do Vaticano II, pode ensinar algo. Ensino polissêmico não existe, e  não pode ter a força de Magistério infalível. Ensino e polissemia se contradizem.
Quando um Papa definir o único sentido verdadeiro da doutrina dos problemas tratados no Vaticano II, necessariamente ele terá condenado os demais sentidos que defluem dos textos polissêmicos do citado Concílio, e terá que condenar os textos polissêmicos que permitem leituras não ortodoxas.
E é claro que isso deve ser feito com prudência para evitar escândalos e perda de muitas almas.
Prossigamos nas citações da entrevista do Superior da FSSPX.
Perguntou, então, o entrevistador de Dom Fellay:

Nice-Matin:
-“Que julga o senhor “irreconciliável” com a Tradição? 
Dom Fellay :« Três pontos : o princípio do ecumenismo, a liberdade de religião, e a colegialidade”.
Nice-Matin – « O princípio do ecumenismo ? »
Dom Fellay :À força de se ter uma visão de tal modo positiva das outras religiões, não se diz mais que elas não tem os meios de salvação. Roma sempre disse: “Fora da Igreja não há salvação”. Exceto isso, somente os indivíduos de boa fé que não conhecem a Igreja, se seguem a sua consciência, podem ser salvos”.
Nice-Matin:A liberdade religiosa?”
Dom Fellay :”Essa é uma noção muito ambígua. Certamente, não se tem o direito de obrigar quem quer que seja a aderir à religião. O que contestamos é a atribuição de um direito que não existe à natureza humana. O homem tem o dever de buscar a verdade, mas ele não tem um direito a se enganar. Quando se diz que o Estado deve dar a todas as religiões os mesmos direitos, nós não concordamos: o Estado, criatura de Deus, iria então contra Deus”
Nice-Matin : - « A Colegialidade ? »
Dom Fellay :”A Igreja tem uma só cabeça: o Papa, vigário de Cristo. Isso está no Evangelho: o Senhor disse ao Apóstolo Pedro “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Os Bispos, sucessores dos demais Apóstolos, têm uma responsabilidade de direito divino sobre suas dioceses, mas limitados a essas dioceses. A colegialidade dá poder demais aos Bispos e torna a Igreja muito difícil de ser governada. Sobre este tema, a Lumen Gentium é de tal modo ambígua que o Papa Paulo VI teve que explicá-la por meio de uma nota preliminar! Nota esta que ainda não foi aplicada”.
            Evidentemente, Dom Fellay tratou apenas de três pontos mais importantes do Vaticano II, que seria preciso corrigir. Outros pontos correlatos haveria que tratar, mas que são decorrentes desses três pontos fundamentais, como, entre outros, por exemplo, o chamado aggiornamento, a Revelação e as Fontes da Revelação.
            A Montfort, de novo, concorda com o que disse Dom Fellay sobre esses três pontos doutrinários citados, e que precisam ser revistos.
Nice-Matin perguntou então a Dom Fellay se ele vê como solução aos problemas do Vaticano II através da convocação de um novo Concílio.
Nice-Matin : - Para o Vaticano II, que pede o senhor ? Um novo Concílio?
Dom Fellay :- ”Não! É uma questão de prudência e de credibilidade. A Igreja não pode se contradizer. Mas há por demais coisas omitidas, há ambigüidades demais! Do Concílio, espera-se que seja claro. Seria preciso que o Santo Padre, pouco a pouco, pudesse retomar todos esse termos de modo compreensível”.
 Excelente posicionamento de Dom Fellay, revelador de uma visão extremamente pudente do Superior da Fraternidade São Pio X, contrastando com as declarações imprudentes, contraditórias e precipitadas do Padre Tanouarn.
 “A Igreja não pode se contradizer”. Esse é um princípio que o Papa tem que levar em conta na correção dos erros e ambigüidades do Vaticano II, para evitar como já dissemos, escândalos, novas divisões, e perda de muitas almas.
Prosseguimos na citação da entrevista:
Nice-Matin –  João Paulo II e Bento XVI não começaram a fazer isso?
Dom Fellay :”O discurso de Bento XVI, em Dezembro de 2005, é interessante. Mas ele não é suficiente, sobretudo sobre a liberdade religiosa. O Papa quer evitar uma tirania do Estado sobre a Igreja, o que é legítimo, mas conforme princípios moderno, quando o que a Igreja dizia outrora era suficiente”.
Nice-Matin –  Que concorre para a reaproximação [da Fraternidade São Pio X com o Papa] ?
Dom Fellay :”Bento XVI visivelmente quer reformar a liturgia, que muito precisa disso. Ele quer relembrar a idéia de sacrifício, o que recoloca o homem em seu lugar diante de Deus. O Papa tem uma exigência de integridade, de rigor e de disciplina para os homens e para as instituições religiosas. Para aqueles que fizeram votos de obediência, de pobreza e de castidade, a renúncia deve por exemplo ser mais marcante do que é hoje”.
(...)
Nice-Matin –  “Dizem que o senhor está a ponto de pedir por escrito o levantamento da excomunhão contra a Fraternidade São Pio X?”
Dom Fellay :”Isso é inexato. Desde o ano 2.000 nós já pedimos isso várias vezes, inclusive por escrito. O Cardeal Castrillón, encarregado do assunto, reconheceu publicamente que nós não éramos cismáticos”.
Nice-Matin – “Desde sua audiência com Bento XVI, em 29 de Agosto de 2.005, que aconteceu?”
Dom Fellay :”Na primavera, os termos de um acordo foram discutidos em várias ocasiões pelos Cardeais e pelos responsáveis da Cúria. A Fraternidade não voltou a Roma de modo oficial, mas os contatos prosseguem, nós trocamos correspondências”. [O destaque é da Montfort].
Muito importante esta informação lançada agora por Dom Fellay : os contatos com Roma sempre prosseguiram, mas de modo discreto, para evitar problemas inúteis.
Ótimo!
Não havia erro em supor que, por trás dos bastidores, Bento XVI e Dom Fellay estavam muito mais próximos do que o noticiado pela mídia.
A pergunta que fica é então até que ponto estavam eles próximos? Ou estariam já coincidentes pelo menos em alguns pontos, e só não se revela essa coincidência, ou acordo, por precaução? Ou restam ainda quais aparas a limar?
O que vai dizer agora Dom Fellay é ainda mais elucidativo...
Nice-Matin – “Para quando o acordo com Roma? » 
Dom Fellay :”É impossível dizer quando. Garantiram-nos que o texto ”liberalizando” a Missa tridentina seria publicado em Outubro de 2005. Isso ainda não foi feito. O Papa quer ir depressa. Nós lhe dizemos: devagar. É uma bomba atômica, que não se deve explodir!
“Antes da aterrisagem, nós nos esforçamos em preparar a pista de pouso. Propusemos um roteiro de viagem. Não se colocam condições a Roma, mas é preciso ganhar de novo a confiança que foi quebrada”. A “liberação” da Missa e o levantamento da excomunhão constituem um sinal que abriria uma fase de discussão doutrinária. Esforços de Roma para sair de sua situação de paralisia atual seriam um sinal. Tenho certeza do “final feliz”. Mas quando? Nós rezamos. Para nós a Igreja é sobrenatural. O essencial está na ordem da graça ». [O destaque é da Montfort].
            Então, é Dom Fellay que pede ao Papa Bento XVI para ir mais devagar?
O Papa Bento XVI quer ir mais depressa que Dom Fellay?
Que significa isso?
Bento XVI é mais exigente de uma reforma já, já, do que o próprio chefe dos “integristas”?
             Se ninguém pode ser mais realista do que o Rei, é bem surpreendente constatar que, segundo o bem insuspeito Dom Fellay, Bento XVI é mais apressado na reação contra a Missa Nova que o próprio Superiorda FSSPX!
Que ótimo!!!
Viva !!! Viva o Papa!!!
E quanta razão tem Dom Fellay em dizer que, se houver pressa excessiva, se faz explodir uma “bomba atômica”!...
E que bom saber que Dom Fellay prudentemente propôs preparar a pista de pouso antes de aterrisar de qualquer modo!
E que bem faz o saber que Dom Fellay apresentou ao Papa até um “roteiro de viagem” !!!
Esse roteiro passa por duas etapas iniciais: a liberação da Missa de sempre, e o levantamento das excomunhões de Dom Lefebvre,d e Dom Mayer e dos Bispos sagrados por eles. E é o que se anuncia que o Papa está para fazer. Não se sabe o quando. Mas o quando já reluz na fímbria do horizonte da Igreja.
A Montfort se alegra imensamente com essa entrevista de Dom Fellay, pois que buscamos, acima de tudo, é o triunfo da Fé.
 
***
E porque buscamos antes e acima de tudo o triunfo da Fé, temos que lamentar a infeliz entrevista dada ontem pelo Abbé de Tanouarn, membro do Instituto do Bom Pastor, entrevista na qual ele apresentou uma verdadeira oposição a um dos fundamentais fins do IBP que é a de criticar o Vaticano II, e não de justificá-lo ou de defendê-lo.
Padre Laguérie deveria tomar sérias providências contra esse Padre, obrigando-o a repudiar o que disse, e proibi-lo de fazer apresentações de acrobacias teológicas, com posicionamentos tão contraditórios, que minam a confiança no IBPN, pois em um desses saltos acrobáticos, ele pode por tudo a perder.
A entrevista do Abbé de Tanouarn apareceu ontem e assim se intitula:
Abbé Guillaume de Tanoüarn : "Reuni-me a Roma por causa de Bento XVI 
 
Nessa entrevista, o Abbé de Tanouarn  se desdiz quanto ao Vaticano II.
Contrariamente ao que disse sábia e prudentemente dom Fellay contra a interpretação do Vaticano “à luz da tradição”, o Padre de Tanouarn aceita essa fórmula sem pestanejar:
Entrevistador: ”A Missa de São Pio V é o verdadeiro cavalo de batalha dos tradicionalistas, ou é um cavalo de Tróia contra o Concílio?
 
Abbé de Tanouarn: “Que os Bispos da França nos expliquem o que é o Vaticano II. Que se pare em contentar-se com invocações e que se aborde o conteúdo do Concílio. É o sentido do número 7 de mossa Revista “ Objeções”
 
Entrevistador: “O senhor pensa como o Bispo Monsenhor Tissier de Mallerais que não se pode ler o Concílio à luz da tradição?
 
Abbé de Tanouarn: «Ele derrapou ».
 
            Na realidade quem derrapou e até capotou foi o abbé de Tanoüarn
 Entrevistador: “Mas o senhor mesmo, o senhor pensa ainda, como o senhor escreveu em “ Vaticano II e o Evangelho”, que o Concílio é o “Ebola”? Que é um “espaço no qual se concentraram todos os erros teológicos característicos de nosso tempo? O senhor faz ainda “profissão de ser anticonciliar”? Pensa o senhor ainda que a “revolução conciliar é uma verdadeira meia volta da igreja, uma inversão de sua mensagem?”
 
Abbé de Tanouarn: «Hoje, eu diria as coisas de outro modo. O Vaticano II ousou colocar as questões que era preciso colocar enquanto católico face à modernidade: liberdade religiosa, ecumenismo, questão judaica... O Vaticano II abre pistas a explorar, por vezes a limpar de minas explosivas. Havia um trabalho teológico a fazer, mas o trabalho teológico do século XXI não é o do século XX. Em seus cumprimentos de Natal à Cúria, em 22 de Dezembro de 2.005, Bento XVI descarta a “hermenêutica da discontinuidade e da ruptura”, “que freqüentemente pode contar com a simpatia de uma parte da teologia moderna, e que arrisca fazer uma ruptura entre a Igreja pré conciliar e a Igreja pós conciliar”. Ele considera que não houve ainda uma interpretação autêntica do Concílio. Ele propõe uma “hermenêutica da reforma”, da renovação na continuidade da Igreja,a qual cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo sempre a mesma: o Povo de Deus em marcha”. A Igreja teve a oportunidade de ter um Papa teólogo. Ele reavaliou já fórmulas na Dominus Jesus. Por exemplo:a Igreja de Deus= a Igreja Católica”.
 
Como pode um homem se desdizer com tanta facilidade quanto de trocar de batina?
Quando Pare Tanouarn não tinha a licença para atacar o Vaticano II, ele se dizia anticonciliar. Agora, que ele tem a missão estatutária de criticar o Vaticano II ele “diria as coisas de outro modo”?
Que significa essa mudança de modo?
Um homem capaz de variar dessa maneira é um relativista, ou um oportunista? E há quem naturalmente mais direto pergunta se isso não é uma traição... Em todo caso, o variável Padre Tanoüarn não é merecedor da mínima confiança.
Ele acaba de aderir ao Instituto do Bom Pastor que recebeu como uma de suas finalidades criticar o Vaticano, e imediatamente passa a ter uma linguagem derrapante sobre o que tem a missão de criticar?
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Se o Instituto do Bom Pastor quer seriamente cumprir as finalidades para as quais foi criado, Padre Laguérie deveria, -- parece-nos--ou fazer esse padre renegar ao que acaba de declarar, que ele cumpra as finalidades do IBP ou então que ele saia desse Instituto. Esse modo polissemicamente variado não é o do Bom Pastor.
 
E mais adiante, Padre Tanouarn completa suas declarações escandalosas dizendo:
“(...) Finalmente, estamos tão distantes uns dos outros? Na mesa redonda que organizamos em Novembro último, na Mutualité, o Padre Laguérie pode dialogar com o hebdomadário LA VIE. Coisa impensável até a não muito tempo. As oposições estão ligadas a muitas ignorâncias recíprocas. Uma ignorância do rito tradicional, principalmente”.
Se aderindo ao Instituto do Bom Pastor, Padre Tanouarn se sente agora menos distante dos modernistas, então ele está bem mal posicionado.
Essa entrevista demonstrou que, de fato, há ignorâncias que levam a enganos. Agora, a reviravolta do padre Tanoüarn permitiu ver quem ele de fato é: um homem cujos princípios variam.
Até à contradição
 
“Tanoüarn é móbile,
qual piuma al vento,
muta d´accento
e di pensiero”.
 
O Instituto do Bom Pastor faria muito bem, pedindo a esse Padre que procurasse outros rumos de acordo com seus caprichos, para manter o IBP bem fiel às finalidades que o Papa lhe deu em sua ereção canônica.
Fazer o oposto delas, sendo do IBP, é trair a missão recebida.

São Paulo, 20 de Dezembro de 2006. 
Orlando Fedeli
 

    Para citar este texto:
"Duas entrevistas: Dom Fellay, excelente! Tanouarn, lamentável, violando um dos fins do IBP!"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/duas_entrevistas/
Online, 30/03/2017 às 07:46:01h