Igreja

11 de setembro, Covid-19 e as esperanças de Dom Walmor
Alberto Zucchi

É de conhecimento geral que, no dia 11 de setembro de 2.001, um ataque terrorista feito pela organização Al Qaeda levou à destruição dois grandes edifícios no centro de Nova York devido ao impacto causado por aviões que se chocaram contra os prédios.

Como resultado destes ataques ocorreu a morte de quase três mil pessoas. Dentre aqueles que morreram estavam 343 bombeiros. Com o passar do tempo, em decorrência de complicações de saúde originadas no trabalho de salvamento, estima-se que mais 200 bombeiros tenham falecido

(https://noticias.r7.com/internacional/morre-o-200-bombeiro-do-11-de-setembro-vitima-da-doenca-do-wtc-18072019).

São, portanto, no total mais de 500 bombeiros vítimas desse atentado, ou seja, pouco mais de um sexto do número total de vítimas. É um alto percentual para quem poderia ter ficado longe do “problema”.

Apesar deste alto índice, jamais ouvi uma única palavra ou li uma única linha afirmando que os bombeiros teriam sido imprudentes. Pelo contrário, eles despertam uma grande admiração. Enquanto todos se afastavam do perigo fugindo do prédio, os bombeiros corriam para o perigo. E muitos deles pereceram no perigo.

Esta é uma profissão que exige o heroísmo. Ninguém é bombeiro para fazer o que todo mundo faz. O bombeiro age de uma forma muito especial: coloca a vida dos outros acima da sua e no momento de perigo se põe em uma situação que para muitos seria imprudente. O bombeiro tem um treinamento especial, mas isto não o torna imortal. Na vida comum, um bombeiro parece um homem como outro qualquer. É no perigo que ele se sobressai.

Agora estamos vivendo a pandemia do covid-19. É natural que a grande maioria fuja da doença, com ou sem isolamento social. Entretanto, há um pequeno grupo que corre para a doença. São os médicos. Já se fala que entre os médicos existem muitos infectados. Faz parte da profissão deles. Aqui também se vê um heroísmo, não tão claro como no caso dos bombeiros, mas certamente um heroísmo. Não há grandes dados sobre o número de médicos infectados, mas ninguém irá se surpreender se este número for proporcionalmente grande em relação aos doentes.

A respeito disso, acaba de aparecer um pronunciamento de Dom Walmor. Ele está paramentado e parece tratar-se do sermão de uma Missa. O informe está no site da CNBB (https://www.cnbb.org.br/presidente-da-cnbb-reforca-apelo-para-que-as-pessoas-nao-saiam-de-casa/). Dom Walmor faz um contraponto ao pronunciamento do Presidente sobre a quarentena. E dá três conselhos:

1º – Ficar em casa;

2º – Trabalhar para construir uma sociedade mais justa e fraterna [acho que é para depois que sairmos de casa!];

3º – Manter os trabalhos essenciais com os cuidados que o momento exige.

Sobre a ação do clero que deve salvar as almas? Nada. Nem uma palavra... Sobre se o apoio espiritual e principalmente ministrar os sacramentos seria uma atividade essencial, tomando-se os cuidados que o momento exige, também nada.

Na sequência Dom Walmor apresenta seus pedidos e suas esperanças:

1º – Para o executivo, que apresente um projeto de contingência e amparo para os mais pobres;

2º – Para o legislativo, que tenha uma postura de exemplos e intuições que possa modificar o caminho do mundo e da sociedade brasileira;

3º – A suprema corte, que tenha força para garantir a justiça e a defesa da ordem constitucional;

4º – Para todos os segmentos da sociedade, que tenham competência e colaboração humanitária e solidária, abrindo mão de suas benesses.

E o clero? No clero, parece que Dom Walmor não tem qualquer esperança. Para Dom Walmor, o clero não tem nada a fazer neste momento. O clero não deve correr riscos. Parece até que, mais do que o pulmão, o Covid-19 ataca as almas e faz com que elas desapareçam. Ou, quem sabe, o Covid-19 seja o sacramento da salvação universal. De toda forma Dom Walmor põem suas esperanças nos poderes da República. Não será a Igreja que cuidará das pessoas. É como se o clero não existisse.

Dom Walmor não pede ao clero o heroísmo que sempre foi a sua marca em todas as calamidades. Na Peste Negra e na Gripe Espanhola os clérigos estavam na linha de frente e muitos deles morreram.

Quem decidiu ser padre sabe que muitas vezes chega o momento em que o heroísmo é necessário, sobretudo quando se trata da salvação das almas.

De fato, há alguns padres fazendo o heroísmo que Deus lhe pediu. Eles agem de forma muito discreta e não recebem o foco da imprensa.

Dom Walmor não pede que se procurem os sacramentos, e não pede ao clero que vá ao encontro dos doentes, para que possam ser consolados no momento da morte e, sobretudo, para se prepararem para este momento, pois logo mais irão se encontrar com Deus para um julgamento definitivo. Porque a vida, com ou sem o Covid, nós a perderemos, é só uma questão de tempo. Já o destino da alma é para toda a eternidade. Mas essa é uma consideração que não entra no pronunciamento de Dom Walmor. É como se a vida eterna não existisse e a única função da Igreja seria pedir uma sociedade mais justa.

Que o mundo e a imprensa não deem importância para a alma é natural, mas que o Presidente da CNBB se esqueça disto é, para dizer o mínimo, surpreendente.

Mas, para que servirá o clero se não for para atender às necessidades dos fiéis, sobretudo nesta hora? De que vale um bombeiro, se ele foge do prédio em chamas? De que vale um médico, se ele se recusa a ir até o doente necessitado? De que vale o clero, se ele não exerce as funções que Deus lhe confiou? A resposta é dada por Nosso Senhor: “vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que há de se restituir o sabor? Para nada mais serve, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens” (Mateus 5.13) ...

Rezemos, portanto, pela nossa saúde. Rezemos pelo bem do Brasil, mas, sobretudo rezemos para que o sal volte a salgar...

 

    Para citar este texto:
"11 de setembro, Covid-19 e as esperanças de Dom Walmor"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/domwalmorcovid19/
Online, 31/05/2020 às 16:45:02h